No oitavo dia daquele treinamento, pela tarde, a dupla visitou a base da FMA.

    Slezzy carregava uma bainha de cor cinza, que continha sua mais nova espada, fina e afiada; por dentro de sua veste negra.

    Adentrando o lugar, a dupla percorreu por todo o velho campo ao ar livre, que Slezzy treinara durante um mês com o Capitão Roy e os outros membros de seu antigo esquadrão.

    Atravessando algumas árvores, finalmente chegaram em uma área abandonada, com muros de tijolos aos pedaços.

    Não demorou muito para que a Slezzy visualizasse a presença icônica de seus velhos companheiros.

    Kine e Jean lutavam amistosamente entre si, utilizando os próprios punhos.

    O Capitão Roy observava atentamente aquele combate.

    Eles não utilizavam de nenhuma fonte de Arché Superior; apenas seus próprios punhos.

    Antes que Slezzy e Sanches se aproximassem o suficiente para chamar a atenção do Capitão, Jean arremessou Kine ao chão gramado, através de um golpe marcial, nocauteando-a.

    — Droga…! Desgraçado… — resmungou a garota caída, com um tom de raiva.

    — Ei! Olhe a boca, garota! — alertou Sanches, agora próximo de Roy.

    O Capitão se virou, se surpreendendo com a presença daquela dupla; abrindo um grande sorriso:

    — Quem diria! Sanches!

    O agente e o Capitão se abraçaram, enquanto Slezzy se aproximava dos outros.

    — Quanto tempo, velhote — falou Jean! — Já consigo notar mais fios brancos no seu cabelo desde o nosso último encontro!

    Slezzy riu do comentário daquela criança.

    — Esse lugar mudou bastante desde a época que treinávamos aqui! — afirmou Sanches.

    — Tem razão!

    — Espera, por que você nunca nos apresentou esse lugar durante o treinamento? — perguntou Slezzy, fixando seus olhares em Roy.

    — Hum! Digamos que esse lugar é especial. Apenas os mentoreados ou pessoas de nossa confiança têm permissão para se aproximar dessa região do campo.

    Após instantes, eles ouviram barulhos de fios metálicos sendo disparados em uma grande construção ao lado, compostas por paredes de tijolos.

    Aqueles fios eram disparados por armas de gancho, de dois integrantes que contornavam a construção. Shane e Helena.

    — Está vendo aquilo, Slezzy? — indagou Sanches. — Aquilo se chama “arma de gancho”; o melhor equipamento de movimentação já criado para qualquer tipo de combate!

    — Na realidade… apenas os espadachins, que são poucos hoje em dia, ainda utilizam esse tipo de equipamento! — exclamou Jean.

    — Então… adivinhem quem é o nosso mais novo espadachim! — disse Sanches, puxando a veste negra de Slezzy, mostrando para todos aquela bainha cinza, que carregava sua espada.

    — Ei! — retrucou o garoto, envergonhado, puxando suas vestes para si.

    O Capitão, Kine e Jean riram diante daquela situação.

    Logo depois, Shane e Helena desceram da construção, utilizando das suas armas de gancho, se aproximando de todos os outros.

    — Olha só! O mais novo mentoreado do bando! — exclamou Helena, animada e descontraída. — Você mudou bastante, não?

    A garota estava ofegante, ao contrário de Shane, que encarava Slezzy com seus tradicionais olhares concentrados, além de uma face sem expressão.

    — Tenho certeza que sim, Helena! — respondeu Roy, passando a encarar os visitantes logo depois. — Enfim, o que vocês fazem aqui?

    Sanches sorriu e se aproximou de Slezzy, abraçando-o apenas com o braço direito, fixando seus olhares em Shane.

    — Trouxe esse garoto… para que pudesse aprender sobre o manuseio da arma de gancho! Com o mais experiente dessa área!

    — O que? Eu sou a melhor! — impôs Helena, indignada.

    Shane levantou seu rosto, respondendo Sanches em seguida:

    — Por que eu deveria perder meu tempo com esse cara?

    O Capitão interviu:

    — Ei, Shane! — Roy caminhou até ficar frente a frente com aquele espadachim, sussurrando em seguida. — Não se esqueça de que estamos todos do mesmo lado! Você só precisa guiá-lo e ensinar o básico!

    Shane observou o Capitão por alguns segundos, até sacudir a cabeça sutilmente, concordando com o comando de Roy.

    — Me acompanhe! — exclamou Shane, firmemente, caminhando em direção aos fundos daquela construção.

    Slezzy o seguiu, acompanhado de Sanches e Helena.

    Roy ainda os observou, voltando a se concentrar no treino físico entre Kine e Jean, logo depois.

    No caminho, os demônios de Sanches e Slezzy conversavam entre si, mas não era nada relevante; fazendo com que a dupla ignorasse todos os comentários.

    Chegando nos fundos da construção, havia uma grande mesa de madeira, com espadas, armas de gancho, fios metálicos e granadas de fumaça; espalhados ali.

    Slezzy estranhou a quantidade exagerada de equipamentos.

    — Isso está uma verdadeira bagunça! — falou Helena, passando a mão sobre a mesa.

    — Vamos ao que interessa! — disse Shane, contornando a mesa e se virando para Slezzy. — O número de espadachins reduz a cada ano, por causa da extrema complexidade da classe. A movimentação de um espadachim nos dias de hoje se tornou um fundamento primordial, perante as armas que podem facilmente os atingir, antes mesmo que cheguem perto do alvo desejado,

    Em seguida, Sanches argumentou:

    — Mas agora que Slezzy é um mentoreado de duas classes, por causa da raridade de seus demônios, ele pode mesclar suas magias em combates à longa distância… com a nova habilidade de espadachim em lutas de corpo a corpo.

    — O que? Um mentoreado com duas classes? Isso é possível? — perguntou a garota, surpresa. — É… a cada dia que se passa, os mistérios desse mundo sombrio ficam cada vez mais interessantes!

    Shane retirou a espada de sua bainha, colocando-a sobre a mesa. A espada era semelhante à que Sanches havia dado a Slezzy. Porém, o aço que compunha toda a lâmina era um pouco mais grosso e menos brilhante. A parte do cabo era simples.

    O garoto utilizou da sua espada para retirar todas as granadas de fumaça e outros equipamentos que estavam em cima da mesa, arrastando-os.

    — Partindo dessa informação, você não vai precisar de se movimentar como um espadachim por completo… — Shane guardou aquela espada em sua bainha. Em seguida, pegou a única arma de gancho que havia deixado em cima da mesa. Ela estava conectada a um tipo de cinto azulado com um coldre, através de um cabo. — Esta é a tão famosa… arma de gancho, da FMA.

    A aparência da arma era complexa. Tinha uma coloração escurecida com alguns detalhes brancos, que combinavam com as roupas do garoto. Havia um grande gancho, robusto e com três lâminas de aço em sua ponta, encaixado por dentro do cano daquela arma. Na sua parte superior, encontrava-se um mecanismo de metal, que ligava o gancho até a arma, através de um grosso fio.

    — Alguns militares começaram a utilizá-la recentemente, realizando testes, para auxiliar sua movimentação durante o combate nas ruas, mas não têm tido muito êxito.

    Shane entregou a arma de gancho para Slezzy que, por sua vez, a contemplou em cada detalhe.

    — Considere como um presente! — falou Shane, calmamente. — Agora, vamos ver você tomar uns bons tombos!

    Helena riu do comentário de seu amigo.

    — Não assuste ele! — alertou ela.

    — É tão difícil assim? — retrucou Slezzy, ainda observando os detalhes da tal arma.

    Shane retirou do coldre de sua cintura, sua própria arma de gancho. Em seguida, a apontou num ponto distante, entre uma das grandes colunas que estruturavam a construção ao lado, a uns dez metros de altura daquele gramado.

    Shane apertou o gatilho da arma, disparando o gancho. E, após o lançamento, o mecanismo de aço se fixou naqueles tijolos.

    — Na verdade, é só um jogo de cintura… e de força! — respondeu o menino inexpressivo, apertando novamente o gatilho da arma.

    Shane foi puxado pelo dispositivo logo depois.

    Slezzy ficou impressionado com a rápida velocidade se sua translocação.

    O menino espadachim estava sobre o ar, enquanto era puxado pelo gancho de aço.

    Slezzy visualizou que Shane utilizou de seus pés para subir sobre a cobertura da construção, nos últimos momentos de sua transição; do chão até o mesmo lugar.

    Quando Shane chegou ao topo, o gancho se rompeu da parede, retornando em grande velocidade para o cano da mesma arma.

    — Sua vez, Slezzy! — disse Helena, empolgada.

    — O que? Mas…

    Helena se aproximou de Slezzy e pegou o braço do jovem que segurava aquela arma de gancho, auxiliando-o a mirar corretamente; para que executasse seu salto sobre a construção.

    — Você só vai aprender… se praticar! — falou a garota, friamente, apertando o gatilho da arma e se retirando rapidamente de perto de Slezzy.

    Após o lançamento do gancho, Slezzy sentiu um enorme impacto causado entre o projétil de aço e uma das paredes da construção.

    Slezzy fechou os seus olhos, tentando criar coragem para apertar novamente o gatilho, que desta vez, se ativado novamente, o deslocaria para o alto daquele pequeno prédio.

    De repente, impacientemente, Haram assumiu sua forma física por completo, apertando o gatilho contra a vontade do garoto, assustando Helena em seguida, que caiu para trás; soltando um grito de desespero, perante o demônio.

    Slezzy, ainda de olhos fechados, foi puxado pela força da arma, sendo lançado na direção da onde o gancho estava preso.

    — SLEZZY! — gritou Sanches, tentando impedir seu avanço. Mas já era tarde demais. Logo, o Agente encarou Haram. — SEU DEMÔNIO… DESGRAÇADO!

    Slezzy tentou se equilibrar em meio ao ar, desesperadamente, enquanto tentava calcular em questão de segundos, como ele cairia na cobertura.

    Shane observava o corpo do jovem, descontrolado, se aproximando do topo.

    Helena se levantou e disparou sua arma de gancho em outra parede lateral; tentando alcançar o jovem. Mas naquele ponto, isso seria completamente inútil.

    Slezzy conseguiu alcançar o topo da cobertura, mesmo que descontroladamente, caindo em um chão de concreto que a formava, relembrando aquele mesmo piso da fábrica antiga.

    Sua queda sobre o piso ríspido ainda durou alguns segundos.

    Ele rolou com o seu corpo até parar diante de um vão, entre a cobertura e o primeiro andar da construção, a dez metros abaixo.

    Slezzy, tomado pela adrenalina de seu corpo, ignorou todas as dores causadas pelos novos machucados, causados pela raladura sobre o chão de concreto.

    — Garoto! — era a voz de Sanches.

    Aquele Agente havia subido até a cobertura da construção, através das escadas; Rayrack e os Irmãos Sam haviam o acompanhado.

    Helena também alcançou a cobertura, com auxílio de sua arma de gancho.

    Ela recolheu o gancho em sua arma, e a guardou no coldre de sua bainha. Em seguida, caminhou na direção de Slezzy.

    O garoto se levantava lentamente, enquanto Shane e os outros o observavam.

    Apenas o barulho dos fortes ventos se destacou a partir daquele momento.

    Depois de alguns segundos, Slezzy ficou de pé.

    Seu corpo não estava completamente reto. Certas partes de suas roupas estavam rasgadas, mostrando até mesmo alguns ferimentos.

    O jovem levantou seu rosto, ajeitou seu cabelo, limpou um pouco do sangue que escorria de sua testa e encarou todos em torno de si.

    — Isso é… MUITO DIVERTIDO! — exclamou com um tom encantado, dando algumas risadas logo depois, em meio aos primeiros gemidos de dor.

    Helena e Sanches se aliviaram de toda aquela tensão, rindo de nervoso.

    Shane apenas encarou o garoto, seriamente, refletindo.

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