Capítulo 50
— O que estamos fazendo aqui? — perguntou Slezzy. Ele havia acabado de pisar em uma poça de água.
A dupla caminhava no primeiro andar daquela fábrica abandonada.
— Precisamos retirar todos os nossos resquícios de uso de Arché Superior; e limpar todo esse lugar, para evitar contratempos! — explicou Sanches. — Ainda temos bastante tempo até a reunião do Capitão! Afinal, espero que todo esse árduo treinamento tenha valido a pena, garoto.
— Certo! — confirmou Slezzy, com um tom notavelmente preguiçoso, após observar todos os desastres que havia causado naquele lugar.
Havia pedaços de concreto e arames, além de cacos de vidro, esparramados por todo o local.
E para dificultar mais ainda aquela tarefa, os matos recobriam quase tudo.
Passaram-se duas horas.
*
A dupla havia faxinado cada andar daquela grande fábrica, mas principalmente o primeiro. Eles utilizaram materiais de manutenção como auxilio.
Após a conclusão do serviço, Sanches e seu aluno, exaustos, se reuniram em um dos andares mais altos da grande construção.
— Que grande… merda… — reclamou Slezzy, com um tom ofegante, enquanto estralava os dedos e observava todo o redor daquele local, agora completamente limpo e organizado.
Sanches deu uma risada sarcástica. Mas logo depois, o Agente o encarou:
— Me responda, Slezzy…
— O que foi?
— Você simplesmente aceitou aquela parte… do contrato… tão facilmente?
— Você está exagerando. Isso só vai acontecer caso eu morra! — respondeu descontraidamente.
— E você acha que é imortal? Ainda mais colocando sua vida em risco todos os dias!? Além de assinar contratos que corroem o restante da sua vida!? — Sanches se aproximou do jovem. Slezzy nunca o havia visto com uma face tão séria como aquela. — Além disso, esse nem é o principal ponto. Caso você venha a ter um filho… em algum dia… ele teria que assinar esse terrível contrato, inevitavelmente.
Slezzy retrucou:
— Você acha que eu sabia de tudo isso? Eu não entendi sequer metade das palavras confusas que haviam naquele contrato… quando o assinei no topo do Hospital de Western! Aliás, por que você está tão fissurado nisso?
Rayrack e os Irmãos Sam observavam aquela discussão, atentamente.
A dupla estava cara a cara a partir dali.
Sanches recuou, caminhando até as escadas do local.
— ME DIGA, AGENTE SANCHES! — gritou Slezzy.
Logo, o garoto foi surpreendido pelo cessar dos passos de seu parceiro, que virou apenas a metade de seu rosto, respondendo-o:
— Você não conhece a dor… Slezzy. A dor de ter que fazer uma coisa tão ruim… de maneira obrigatória…
Sanches se virou completamente desta vez, direcionando seus olhares ao jovem, que estava a apenas a alguns metros de distância de si.
— Você acha que tudo isso é algo bom? Assinar um contrato demoníaco… pelo simples fato de se igualar ou até superar os poderes… dos outros mentoreados que atormentam diariamente essa cidade…
— E por acaso, temos alguma outra escolha?
— Era exatamente assim que meu pai pensava, garoto — As palavras do Agente provocaram curiosidade e desordem sobre a mente de Slezzy. — No dia em que meu pai assinou o contrato de Rayrack… ele não sabia de todas as consequências. Após aquilo, sua carreira policial decolou…, mas não durou muito. Depois de dois meses… o velho veio a falecer… devido ao seu egoísmo e desejo insano de poder.
Sanches relembrava cada uma daquelas cenas, em sua mente.
“Então… você não assinou esse contrato por livre e espontânea vontade?”
— Após meu pai conhecer todos os contratos de níveis superiores ao Contrato Preambular, seu ego dominou todos os seus outros sentimentos. Mas… sabe o que aconteceu depois de sua morte… em uma daquelas ruas fechadas e dominadas pelas máfias… há exatamente dez anos atrás?
Slezzy completamente chocado, não ousou abrir sua boca.
— É claro. Eu recebi a visita de Rayrack. Ele não me ofereceu aquele maldito contrato como os Irmãos Sam fizeram com você, Slezzy. Diferente da proposta que você recebeu há alguns meses atrás, eu não tive o direito de recusa.
O jovem desviou seu olhar do Agente por um instante, para observar os Irmãos Sam.
Sanches prosseguiu:
— Eu só tinha duas escolhas, garoto. Assinar aquele contrato até o outro dia… ou morrer. Simples assim.
Slezzy, abismado, contorceu-se e comentou:
— Então… talvez, muitos outros mentoreados sequer tiveram escolha…
Sanches, a fim de distrair o garoto do assunto pesado, o respondeu:
— Mas, quem sabe isso tenha sido necessário… para que eu me tornasse o que sou hoje, não é!? — Ele sorriu e finalmente desceu as escadas, em seguida.
Slezzy se ajeitou e logo caminhou até o primeiro degrau.
Observando as costas do seu parceiro, que descia até o primeiro andar da velha fábrica, ele passou a refletir sobre o passado do mesmo.
O jovem o seguiu.

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