🚨 Publiquei dois capítulos seguidos! Se você caiu direto neste, volte um pra não perder nada.

    KORVAK-2

    Criaturas emergem das paredes de fogo. Seres translúcidos que se alimentam da própria barreira, criando os túneis por onde transitamos. São longas, serpentes sinuosas, porém fluidas como águas-vivas, mastigando o fogo cristalino e deixando rastros seguros por segundos apenas. Uma delas se projeta através de nossa rota, pulando de uma parede de chamas para outra.

    — Desvio de emergência! — grito, puxando os controles violentamente para a esquerda. 

    A broca patina lateralmente, raspando na parede orgânica por centímetros. A criatura passa onde estávamos instantes antes, seu corpo fosforescente desaparecendo em outra seção da barreira.

    Duas bifurcações se abrem à frente. Mas a da direita é bloqueada por uma criatura ainda mastigando sua passagem. Viro à esquerda, depois à direita novamente em uma sequência de curvas impossíveis. Nyx me guia através da ligação neural, seus dados misturados com soluços de dor.

    Mais criaturas saltam entre as paredes. Uma atinge nossa traseira, fazendo a broca girar descontroladamente. Corrigimos o curso no último segundo antes de uma colisão. 

    A dor mistura-se com a adrenalina, e as criaturas continuam a pressionar. Meu corpo se move no ritmo frenético da máquina, porém é a mente que grita por ajuda. A ligação neural, meu único ponto de contato com o menino, se torna a última tábua de salvação. Com um golpe de desespero, a palavra sai antes que eu consiga controlar:

    — Nyx! Preciso de você.

    Nyx permanece imóvel, encolhida no assento, as lágrimas se congelando em seu rosto. Após um longo silêncio, ele sussurra de volta, cada palavra parecendo um esforço:

    — Não consigo. — outra pausa se arrasta, sufocante — Sinto ela ainda. Consciente. Presa para sempre.

    Gradualmente, muito devagar, sinto Nyx retornando à conexão, embora não completamente. Mas o suficiente. Por Lira. Para não desperdiçar o sacrifício.

    Através da conexão instável, sinto algo sendo transmitido: o sonho de Lira de ver o sol nascendo sobre campos verdes. Nyx absorve essa memória, carregando o fardo da irmã morta.

    Verifico os sensores rapidamente.

    — Bifurcação dupla em cem metros! — informo.

    Através da nossa ligação danificada, Nyx transmite dados entre espasmos de dor emocional: túnel direito desce mais fundo, termina em esfíncter muscular. Túnel esquerdo mantém o nível atual, progresso lento, porém seguro.

    — Direita é mais rápido! — ela sussurra audivelmente saindo da transmissão telepática — Mas eu vou ter que…

    Antes que eu possa reagir, ela caminha para a frente da broca. Mesma posição que Lira ocupou. Mesmo destino cristalizado.

    Meu corpo não responde, no entanto minha mente está gritando. As palavras fogem antes que eu consiga fazer algo para detê-las. Tudo o que posso fazer é observar, impotente, enquanto o destino de Nyx se desenrola diante de mim. A voz me escapa, rouca e desesperada:

    — Não faça isso!

    Eu mal posso processar a situação, mas Nyx, com sua frieza insustentável, continua sem olhar para mim. Sua voz surge, baixa e certeira, atravessando o tumulto da mente que tenta se organizar. Ela não precisa de explicações, e suas palavras cortam:

    — Por isso vou para frente! — ele fala, sem olhar para mim — Alguém tem que se partir para isso funcionar.

    A calma gélida com que ele diz isso me congela por dentro. A impotência toma conta de mim novamente. Sou só um espectador, incapaz de barrar uma escolha que me destrói por dentro. Minhas mãos tremem nos controles, porém não posso parar a broca. Não posso salvar ninguém.

    Nyx se posiciona na frente da broca, seu rosto serenamente resignado.

    — Obrigada por tentar nos salvar… — ele sussurra, e há algo que pode ser gratidão em seus olhos.

    E permanece em posição, aguardando o impacto.

    Desta vez estou preparado. Vejo em detalhes as chamas consumindo o corpo dele. Vejo a carne se transformar em lubrificante cristalino, os ossos virarem fragmentos de vidro, o sangue se tornar substância viscosa que nos permite deslizar através da abertura impossível.

    Nyx não grita. Não há tempo. Contudo, através da ligação neural, sinto cada segundo da sua transformação consciente.

    E então estamos do outro lado, em câmara vasta onde luz própria emana de cristais nas paredes.

    Estou sozinho nos controles.

    Mais criaturas se projetam através dos túneis. Executo uma sequência desesperada de manobras: mergulho vertical, subida abrupta, deslize lateral que faz a estrutura da broca gemer. Uma das criaturas raspa nossa superfície superior, deixando rastros fosforescentes. Outra emerge diretamente à nossa frente.

    — Reversão completa! — puxo todos os controles para trás. 

    A broca patina, para, depois dispara na direção oposta. Escolho outro túnel, este aparentemente seguro. Porém, ele termina em um beco sem saída, onde uma criatura gigantesca ainda está mastigando sua passagem.

    — Manobra de emergência!

    Viro a broca em 180 graus no espaço apertado, raspando nas paredes. A criatura gira sua cabeça translúcida em nossa direção, mas já estamos fugindo pelo túnel que acabamos de deixar. Agora ela nos persegue, sua boca fosforescente se aproximando rapidamente.

    Encontro um túnel lateral e mergulho nele no último segundo. A criatura passa, passando tão perto que quase nos arremessa contra a barreira.

    No silêncio mortal que se segue, olho para o compartimento traseiro. Os quatro passageiros me fitam com olhos esbugalhados: Demiurga balança a cabeça negativamente, Oráculo fecha os olhos em desespero, Korvak soca o assento impotentemente, Sombra simplesmente me observa. Seus capacetes impedem qualquer som, contudo suas expressões gritam terror puro.

    Exceto por um.

    Mnemoclasta está diferente. Seus olhos translúcidos me observam, e há neles compreensão absoluta de onde estamos e do que acabou de acontecer. Mais que isso: há alívio.

    — Duas mortes. — ela sussurra telepaticamente — E ainda não terminamos.

    À frente, nova barreira. Menor, no entanto igualmente letal. A rota se afunila, não há outras opções. Não podemos recuar. As criaturas bloquearam nossa retirada. É atravessar ou morrer aqui. A matemática não mudou: precisamos de mais uma vida para atravessar.

    A impossibilidade da situação se instala, e uma raiva fria começa a consumir o pouco de controle que resta em mim. Eu não posso, não vou deixar que isso aconteça. A palavra sai da minha garganta, um protesto que ecoa na câmara do veículo: 

    — Não! Não mais.

    Mas Mnemoclasta se desafia dos cintos de segurança.

    Os quatro companheiros no fundo da broca a fitam com olhares impotentes. Demiurga tenta gesticular para ela parar, no entanto Mnemoclasta não vê, ou escolhe não ver.

    Ela me encara, os olhos firmes e resolutos, antes de dizer, sem hesitar:

    — Eu vou. Você é o piloto. É sua responsabilidade nos levar para casa. 

    Mnemoclasta caminha calmamente para a frente, porém para no meio do caminho.

    — Você sabe por que eu aceito? — ela pergunta, sua voz estranhamente serena — Porque estou cansada. Cansada de viver eternamente no presente. De não poder formar vínculos, de não guardar memórias. Viver um novo dia sem registro é como morrer todos os dias. Pelo menos assim, minha morte terá significado. Será lembrada. Por vocês.

    Levanto-me do assento, tentando detê-la.

    — Não! Tem que haver outro jeito! — grito mais uma vez.

    Com um gesto rápido, Mnemoclasta balança a cabeça, me empurrando de volta à poltrona de navegação, sua voz firme quando diz suas últimas palavras:

    — Você tentou salvar as outras duas. Tentou me salvar. Mas algumas escolhas não são suas para fazer.

    — Não se lembre de mim! — ela diz, sua voz suave, no entanto firme — Porque minha morte precisa ser minha, sem que isso reste em você.

    E então, com a mesma certeza tranquila com que se apresentou no primeiro dia, ela assume a posição e se entrega às chamas.

    Desta vez não consigo olhar. Fecho os olhos e concentro nos controles, porém não posso fechar os ouvidos ao som da carne se cristalizando, dos ossos virando vidro, da consciência sendo preservada em tormento eterno.

    Quando abro os olhos, estamos livres.

    E completamente sozinhos.

    Verifico os sistemas: ainda temos energia suficiente. Os quatro sobreviventes no compartimento traseiro me olham com horror. Seguimos subindo através dos túneis, as criaturas fosforescentes se afastando conforme nos aproximamos da superfície.

    A broca sobe através da terra. E quando finalmente rompemos a superfície e vejo luz real, ar livre, céu aberto, sei que nunca mais serei o mesmo homem que desceu.

    Então, na linha do horizonte, vejo algo que faz meu sangue gelar.

    Outra barreira. Maior. Mais densa. Pulsando com vida própria.

    E desta vez, somos apenas cinco.

    No console à minha frente, uma luz amarela pisca: combustível baixo. Energia suficiente para chegar até a barreira, no entanto, não para atravessá-la e continuar.

    Demiurga, Oráculo, Korvak e Sombra me olham através do vidro separador. Todos sabem o que a matemática cruel exige.

    Alguém vai morrer. Novamente.

    E desta vez, posso ser eu.

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