Índice de Capítulo

    A Semideusa do Amor, Tsukumo Haruta, acompanhava Lya Seshat nas imediações de Harlon, rumando às cavernas nas proximidades. Precisavam encontrar um cenário perfeito.

    Tsukumo era uma mulher esguia, de estatura mediana, com longos e escuros cabelos roxos. Ocultava seus olhos púrpura atrás de óculos de sol. Um sorriso forte se mantinha nos lábios cobertos de batom carmesim.

    A escritora respirava com leveza, apesar da situação em que se encontrava. Os pensamentos naquele momento turbilhonavam em torno de um único nome: Siralia Okeron, uma das figuras mais proeminentes da organização a qual servia.

    “Queria ter mais algum tempo… Condenei-me à morte no dia em que jurei poder ser livre.”

    “É melhor que eu morra de uma vez e dê lugar a essa nova existência de fato…”

    — Lya — Haruta chamou com voz doce, ainda brincando com o ioiô.

    — O-o que foi?

    — Só quero agradecer de novo por seu sacrifício. É corajosa, de verdade. — Passou a mão nos cabelos laranjas da escritora. — Somente seu corpo, e esse algo tão cruento que reside em seu livro, gerariam um receptáculo perfeito.

    — É… Mas admito que antes de te propor o plano, não esperava que meu livro ganhasse tal função no fim da minha vida. — Abaixou a cabeça, evitando olhá-la.

    — Acelera o passo.

    Subiram em uma montanha chamativa na região, adentrando em seu sistema cavernoso. Uma série intrincada e confusa de cavernas interligava-se nas profundezas. Caminharam ouvindo o gotejar de uma gélida água ecoando por todo canto.

    Era Haruta quem iluminava o caminho, gerando chamas poderosas na palma das mãos. Combatiam o breu com facilidade, deixando o medo do escuro de lado. O que afligia verdadeiramente a ansiedade da autora eram as passagens estreitas.

    Passavam vez a vez por espaços tão apertados que ela podia jurar que ficaria presa. Em alguns buracos precisava andar de lado, espremida e sem ar, claustrofóbica.

    Ao fim de agoniantes minutos, encontraram o que precisavam. Uma caverna, quase um salão subterrâneo, se estendia por dezenas de metros, tomada por cogumelos bioluminescentes. A luminosidade verde cobria igualmente o perímetro.

    “Esse lugar é tão plano e perfeito que nem parece natural…”

    — É isso? — Lya abraçou o livro.

    — Sim, querida autora.

    Reverberava o eco de suas vozes por cada mísero canto. A umidade do ar era enorme, um local perfeito para uma infestação de cogumelos. Ar rarefeito tornava difícil o simples ato de respirar.

    A semideusa caminhou até o meio da caverna, estendendo a mão para Lya, que logo a seguiu e apanhou em sua mão. Seguravam firme, prestes a iniciar um processo problemático.

    — Vai ser rápido? — indagou, sentindo um frio na barriga.

    — Depende de você… Convença seu próprio coração. — Haruta fechou os olhos e respirou fundo. — Zhemo.

    O mero pronunciar do nome do falecido Deus do Tormento afundou-as em um mau agouro. Sentimentos distorcidos, deprimidos e invasivos tentavam rasgar e despedaçar suas mentes. Ambas resistiram aos impulsos de abraçar aquela sensação.

    Lya calou-se por completo. Sentia algo estranho, sua boca parecia ter travado. Na realidade era como se nunca tivesse existido uma boca para que falasse. Pouco a pouco a ideia de que nunca sequer falou tornou-se concreta em sua mente. Os olhos foram selados, mergulhando nas trevas a sua desorientada percepção da realidade.

    — Zhemo está morto, contudo, sua vontade resiste além da morte. Clamo a ti por uma maldição a essa jovem, perdida em sua própria insignificância. Um contrato mediado por tu, entre ela e a existência. Traga para Lya a chance de finalizar tudo!


    Um forte clarão atingiu seus olhos, causando uma dor de cabeça imediata. As retinas pareciam queimar ao mesmo tempo em que seu corpo acreditava estar submerso. Sentia estar afundada em água quente, porém não tocava em algo que poderia entender como molhado.

    Lentamente recobrou consciência de si, abrindo os olhos para um absurdo.

    — O quê?!

    Seu grito ecoou como se estivesse em uma gigantesca ravina, entretanto, o espaço que compreendia diante de si era minúsculo. Estremeceu e se debateu ao perceber que suas pernas estavam amarradas por raízes negras que afundavam na carne de seus pés. Não havia dor.

    De cabeça para baixo, na alturas daquela realidade paralela, focou-se no que jazia abaixo. Um lago de sangue, margeado por girassóis mortos, pulsava com um enorme coração apodrecido e enrolado em videiras.

    O movimento das águas era hipnotizante, o som de seus ecos impossíveis a chamavam para se afogar. Forçou os dedos das mãos contra as têmporas, buscando concentração para escapar das intenções daquilo.

    Avistou, então, uma figura disforme surgir das águas, o vulto do falecido Deus do Tormento. O mau agouro que o acompanhava era um medo do sofrimento eterno que se impregnava em tudo. Lya teve diversas visões distorcidas de possíveis futuros dolorosos, alguns mais plausíveis que outros.

    “Mesmo morto a presença dele continua intensa assim?”

    Os sussurros inconscientes daquele fantasma acordaram o coração.

    — Lya Seshat, ouve minha voz? — perguntou o coração nas águas, pulsando no ritmo das palavras.

    Não havia boca ou um som real a ser ouvido externamente. A voz surgia de dentro da própria cabeça da autora. Absorveu aquilo e arrepiou-se de forma terrível.

    — O-o que… o que é você?

    — Humm… Um reflexo distorcido, talvez, mas um reflexo fiel. Todos os seres vivos possuem Reflexos, somos aquilo que mantém vocês vivos após o nascimento. Sou um mero conceito, ciente de minha própria existência, que reflete suas escolhas. O que enxerga aqui, dentro de minha dimensão, foi o que você moldou e sofreu durante os últimos anos.

    — N-nem as coisas mais perturbadoras que escrevi… soavam tão absurdas quanto esse lugar.

    — Nem sempre somos belos, e no seu caso, seria impossível que eu fosse. Sua vida inteira foi manchada por desgraça, descontentamento e inveja. Lya Seshat é uma pessoa suja.

    A escritora sentiu um ardor nos olhos, uma vontade de chorar que derramou uma única lágrima contra o lago sangrento.

    — É verdade, é tudo verdade… Mas quero fazer algo diferente — disse com a voz embargada, lutando contra a dureza daqueles fatos.

    O sangue começou a sair do lago e flutuar vagarosamente, como gotículas de uma chuva que caía para cima. O coração abriu um olho em si, encarando sua contraparte humana com frieza.

    — Seres vivos nos geram ao nascer, como uma corrente, uma ligação entre vocês e os pilares da existência. Sei que veio aqui tentar me convencer a quebrar minha conexão com ti, e refazê-la com outra criatura. No entanto, não serei convencido com palavras fracas. Meu papel enquanto força universal é dar continuidade a sua alma e permitir que viva.

    Lya percebeu que seria complexo, mas não se deixou abalar pelas circunstâncias. Acalmou sua mente e coração, a resposta que lhe deu pareceu válida naquele cenário. Sentimentalismo puro não convenceria a entidade de aceitar a maldição.

    Sempre que alguém queria realizar uma Maldição Pactual através do Tormento, precisava convencer a si mesmo, em todos os níveis, a aceitar aquele tratado com outra pessoa ou deidade. As maldições comuns podiam ser jogadas à vontade contra os outros, entretanto, as maldições mais poderosas existentes necessitavam do consentimento do amaldiçoado e do Reflexo dele, que ganhariam algo em troca.

    “Esse monstro precisa me ouvir para a maldição funcionar!”

    — Espelho da minha alma, preciso morrer o mais rápido possível! Siralia Okeron logo vai despertar e vai me caçar para poder resguardar o meu poder e utilizá-lo… Não posso deixar que continuem me usando de arma para ferir mais vidas inocentes! Não aguento mais que isso aconteça!

    — É uma autopiedade nojenta ver seu vitimismo nesse momento. Acredita que simplesmente morrer pagará por seus crimes hediondos? Sente mesmo que seu sofrimento pessoal importa tanto mediante tudo isso? — O grande olho no coração piscou. — Caso seu medo fosse realmente que inocentes morressem, já teria acabado com sua vida mais cedo. O poder de afetar a realidade com seus livros é assustador, e não deve fugir dos crimes cometidos com ele.

    — Argh… Meus crimes passados não justificam que eu cometa outros. Se eu continuar existindo, usarão minhas forças como arma outra vez. Do que adiantaria viver buscando uma redenção impossível e acabar causando mais destruição por minha impotência? Bel e Siralia me farão matar dezenas de milhares de novo. Você sou eu e sabe disso muito bem — contra-argumentou prontamente.

    — Hahaha… Diga para mim, o que essa nova existência significaria aos seus olhos nesse contexto? — Aceitou parte do argumento, mas queria algo a mais.

    Suspirando, Lya decidiu ser sincera com aquilo. Parte do sangue clareou e tornou-se água cristalina quando suas intenções mais honestas surgiram como horizonte possível naquela discussão.

    — Estou condenada a morrer por ter acreditado na possibilidade de ser livre. Siralia Okeron, essa semideusa, consegue ler as memórias de todos na terra a cada dez minutos. Assim que ela acordar de sua hibernação, saberá que conspirei contra a organização outra vez.

    “Depois do dia em que me torturaram, essa ideia de ser livre se foi, mas… Quando tive novamente a chance de poder caminhar com meus próprios pés, fora da influência dela, senti que… poderia dar um jeito de novo.”

    “Essas memórias não podem ser apagadas… e ela saberá novamente que traí nossa organização.”

    Lya continuou: — Estou fadada à morte, mas quero muito, muito que uma extensão de mim exista nessa terra após minha partida. Algo além dos meus livros precisa remanescer aqui. A protagonista do meu livro mais famoso, a Lyria, merecia ter uma vida real… É isso que eu quero, do fundo do meu pobre e podre coração — confessou, caindo em lágrimas.

    — Sabe o que virá depois, não é?

    Os girassóis começaram a reviver nas bordas do lago, trazendo seu amarelo vivaz para aquele espaço bizarro. A escritora chorava e ria de felicidade ao mesmo tempo, contemplando a cena.

    — Perfeitamente! Haruta vai trazer uma deusa antiga de volta a vida com meu corpo e com essa existência artificial que você sustentará. — Limpou as lágrimas com as costas da mão. — Mas está tudo bem… ela me jurou que a deusa só teria dois alvos!

    — Certo… suas palavras condizem com o que crê.

    Todo o sangue virou água de uma só vez, revelando a vastidão oculta que permitia os ecos. Um mar de girassóis, numa subida vertical, cercava aquele lago, uma imensidão de encher os olhos e acalmar a alma.

    O Reflexo disse: — Não busco a justiça ou a moralidade, apenas a verdade.

    — Sei que é imoral deixar que… essa deusa venha ao mundo para matar mais pessoas, porém quero que minha personagem tome meu lugar e aproveite a beleza da realidade que eu não pude apreciar nos últimos anos. Espero que ela seja feliz, feliz mesmo!

    As raízes soltaram suas pernas e ela despencou rumo ao lago. Viu a beleza perfeita do jardim que jazia no reflexo e caiu de encontro à própria imagem que residia nas águas. Estava concluído o tratado.

    Lya morreria e a criatura ganharia outra coisa para se ligar e sustentar.


    Ao acordar, percebeu todos os seus cabelos ficando brancos. Uma fraqueza enorme a levou para o chão, sufocada por uma energia opressiva e destruidora.

    — Uh, funcionou! — gritou Haruta ao se agachar para olhar melhor.

    — Conclua isso, por favor… — Tremulava em agonia.

    A semideusa retirou alguns cristais negros do bolso da saia, rearranjando ao redor dos membros da jovem. Uma fosca e efêmera neblina se levantou, entrando pelos poros de seu corpo, escurecendo tudo. A luz dos cogumelos parecia não a alcançar direito.

    — Tudo pronto para troca. Alguma última pergunta? — Passou a mão nos cabelos dela de novo.

    — Quando a deusa matar os Velgo e a aberração que vive na alma deles, Lyria poderá ser livre? — A voz enfraquecia a cada palavra, dando espaço paro o som do afogamento que sofria no próprio sangue.

    — Sim.

    Um girassol brotou do olho direito dela, confirmando a morte. Haruta abriu o livro de capa preta sobre o torso da autora e colocou uma mão nas páginas.

    “Elta Velgo me odiaria se soubesse que estou tramando algo desse nível contra seus filhos…”

    “Ahh! Tanto faz, deixamos de ser amigos há tempos, nem sei porquê faço tanta questão! Esse garoto e a irmã dele precisam morrer urgentemente.”

    Utilizou o Elemento Imaginário para concluir o procedimento. A semideusa se afastou, observando à distância o início de uma nova vida. Girassóis passaram a brotar por todo o corpo, manchando a pedra da caverna de sangue.

    O cadáver, oculto pelas inúmeras flores, jazia no chão. Palavras, saídas do livro, pairavam no ar, encontrando-se com o sangue e fazendo brilhar em dourado.

    Cada girassol, pétala por pétala, tornou-se negro, desmanchando em tinta sobre o corpo. Pele, carne e cabelo, tudo ficou preto e branco como as páginas daquela obra. A personagem estava viva, à imagem e semelhança de seu eu ficcional.

    — É, já chega de ficar por aqui…

    Haruta criou uma folha de papel com a imaginação e escreveu uma mensagem antes de partir sumariamente.

    A figura permaneceu inerte na escuridão por alguns minutos antes de ficar de pé. Suas pernas, algo escorria delas… era tinta. Na realidade, seu corpo era tinta, seu sangue era tinta, até seu coração era tinta.

    Encarou as mãos brancas como gesso, o cabelo que era breu, sentindo o peito queimar em agonia. Memórias fluíam na mente, trazendo à tona o inferno vivido no livro. Um cárcere insalubre, um poço de trevas nas profundezas de uma prisão.

    Séculos pareciam ter se passado atrás daquelas grades frias. Perdia-se na contagem dos dias, sentindo a abalada sanidade escorrer entre os dedos. O mofo era o único companheiro constante. Impregnava tudo, a pele, o ar, as roupas, a comida. Inescapável.

    Doenças? Eram apenas um breve detalhe a ser esquecido. Quando cada órgão falhava e a consciência acreditava que poderia descansar, traziam-na de volta e curavam o corpo. A morte era inexistente e o sofrimento planejado para ser eterno.

    Isso foi sua vida até então.

    A garota de tinta cravou as unhas nas vestimentas daquela que deu a própria vida como moeda de troca para trazê-la à realidade. Os olhos trêmulos, como todo o corpo, viajaram pelo ambiente até pararem em um pedaço de papel cravado em pedra.

    — … — Puxou e começou a lê-lo com dificuldade.

    Olá, meu nome é Tsukumo Haruta, sou a Semideusa do Amor. Você deve estar confusa e eu sinceramente não estou me importando em ser delicada com você; serei breve.

    Seu nome é Lyria, você acabou de sair desse livro aí que está por perto. A criadora do livro, sua mãe, digamos assim, deu a própria vida para trazê-la aqui. Boa sorte com sua vida e não tente lutar muito contra o que vai acontecer, é o melhor para todos.

    Levantou e correu aos tropeços até o livro no chão. Pegou em mãos e começou a folhear desesperadamente. Chocou-se por conhecer cada evento disposto ali, nada que não tIvesse vivido na própria pele.

    “Não… não é verdade…”

    A náusea a sufocava, um nó apertando seu peito e garganta. Forçou os dedos contra a capa, retorcendo o livro, ofegante.

    Toda sua vida não passava de uma obra de ficção. Cada trauma era apenas linhas em papel, e sua angústia, mera tinta preta.

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