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    Enquanto sonhava, tudo que via era dourado. Um dourado infinito que lhe trazia calmaria e profunda serenidade, como se estivesse flutuando. Porém, logo despertou desse estado.

    Harlon, 26/04/029, às 07:36.

    O canto dos pássaros vinha pela janela, alcançando-o. Verion dormia em um grande sofá vermelho. O reflexo suave da luz do sol atingiu seus olhos e o acordou. O brilho da grande estrela no céu refletia em um relógio pendurado na parede.

    Ele levantou, ofegante, apoiando-se na borda do sofá e observando o ambiente. Avistou diante de si, após acalmar seus pensamentos confusos, uma mesa repleta de alimentos variados. Em uma das cadeiras que rodeavam a mesa, a filha do prefeito pensava, distraída, olhando a parede.

    — Ei…

    — Hum? Caramba… — Ela levantou da cadeira e foi em direção às escadas. — Vou chamar meu pai, espera aí!

    Verion pressionou os braços; a dor persistia, porém não com a intensidade de antes. Seu olhar se fixou nos pães, frutas e jarros de suco dispostos sobre a mesa, e, por isso, decidiu se aproximar. Tomou lugar em uma cadeira e se esticou para agarrar algo.

    Quando segurou uma fruta, sentiu a sensação de formigamento retornar. Os efeitos colaterais do uso excessivo de seu poder, apesar de estarem mais leves pela manhã, não haviam se dispersado.

    “Que fome!”

    “Quando foi que eu vim parar aqui?”

    — V-voltamos… — A garota se jogou no chão e ficou por lá mesmo, ofegante.

    — Nuni, não precisava correr tanto só para isso. — Charles estava com seu tabaco aceso.

    Verion já havia comido dois pães inteiros no tempo em que Nuni foi e voltou. Parou ao notar que o prefeito estava com a cabeça enfaixada.

    — O que aconteceu?

    — Tentei consertar o telhado e não deu nada certo. Pode curar isso para mim? — Removeu a faixa branca e apontou a ferida.

    O garoto enfiou um monte de uvas na boca e foi até Charles, colocando a mão na testa dele. — Vegarten.

    Anomalias no processo curativo foram notadas, contudo o trabalho foi concluído como sempre.

    “Meu Roha tá todo bagunçado… vai demorar uma semana até se normalizar. Isso se eu não der um jeitinho.”

    — Onde foi parar o mascarado? — Pegou uma maçã.

    — Pedi ajuda para resolver o problema no terceiro andar… Ele disse que era minha culpa ter um telhado broxa e só foi embora logo depois.

    Verion começou a bater a maçã na cabeça. — Esse… aaaaaaaahhhhhhhhhh!!!

    — Calma aí também, garoto… — Passou a mão na testa.

    Ele apenas abaixou a cabeça e voltou a comer, frustrado.


    Mark avançava cambaleante pela saída de Harlon, um cadáver pesando sobre seus ombros. Ao seu redor, outros também levavam corpos sem vida, dilacerados. Seus olhos exaustos tremiam sem parar, como se estivessem na expectativa de um novo ataque.

    “Não posso deixar cair… não posso deixar cair. A família não gostaria de ver isso.”

    “Que sono… Não… não… foco, foco!”

    Seus pés doloridos, e um esforço determinado, levaram-no ao local designado. Ao término do percurso, encontrava-se próximo ao leito de um rio. Cuidadosamente colocou o cadáver no gramado, sobre belas flores.

    Outros corpos foram deixados por lá. Mark apenas ouviu o som suave da grama sendo amassada, recusando-se a olhar para alguém além do falecido diante de si. Os sinais da intervenção cirúrgica operada por ele eram visíveis nos braços e pernas.

    “Não adiantou de nada…”

    “Por que os humanos são tão frágeis assim? Nem nosso deus foi o suficiente para fazê-lo aguentar…”

    Uma tontura chegou, inevitável. Não dormia há mais de trinta horas e parecia que sua cabeça iria explodir de tanta enxaqueca. Botou as mãos levemente nas laterais do rosto, respirando fundo.

    O som da água corrente daquele rio se misturou ao dos ventos, criando um ruído que parecia o arranhar por dentro. Esse arranhar se tornou um aglomerado de sussurros e vozes sufocadas. O médico tapou os ouvidos. Tentava escapar das alucinações.

    — Por que você não conseguiu me salvar? — murmurou o morto ao seus pés, parecendo olhá-lo diretamente na alma.

    Mark cerrou os punhos com tanta força que as unhas fizeram sangrar a palma, enquanto seu olhar mantinha-se vidrado no rosto pálido do falecido, desejando que seu sangue pudesse trazê-lo de volta.

    — Eu tentei… Desculpa, desculpa… — As lágrimas escorriam, misturando-se ao suor que cobria suas roupas após horas incansáveis de esforço.

    — Minha filha morreu… ela morreu sem um dos braços. Onde estava você? — Os olhos sem brilho, ressecados, piscaram.

    — NÃO É CULPA MINHA! ISSO ESTAVA FORA DO MEU CONTROLE!

    O coração pulsava no ritmo de seu desespero interminável, fazendo-o sentir cada fibra do corpo queimar em culpa. O vento distorcido sussurrava a tragédia ao lado, como se alguém estivesse prestes a tocá-lo, cobrá-lo por sua falha.

    Uma mão tocou no ombro dele.

    — Mark?! O que foi? — perguntou um homem magro de cabelo curto.

    O fluxo distorcido de sons se desmanchou e a realidade veio à tona. O médico retirou agressivamente a mão daquele homem de si e caminhou até a margem do rio para lavar o rosto. Ajoelhou-se e pegou a água fresca, esfregando contra a face.

    Quando se levantou novamente, observou cada um que o encarava. Suor, respiração descompassada, tremedeira; ninguém se aproximou dele.

    Naquele momento, Mark teve um estalo, um pensamento surgido de seus delírios:

    “Minha filha… ela ainda está viva?”

    Aquele morto, de quem nem recordava o nome, trouxe a preocupação que ele havia deixado de lado durante aquele tempo.

    Caminhou até o corpo e disse: — Sua filha morreu sem um dos braços… mas e a minha? Por que eu deveria me importar mais com vocês do que comigo e com a minha família? Minha esposa morreu e minha filha desapareceu! E eu nem tive tempo de pensar sobre isso porque estava perambulando por aí, vivendo esse inferno por todos!

    Frustração, medo, raiva, apreensão e paranoia trouxeram-lhe força. Os sentimentos extremos que rasgavam sua consciência instável fortaleceram o Roha.

    — EU SEI QUE FALHEI COM ESSA VILA! NEM MESMO MAGIA DE CURA TENHO! MAS EU CANSEI DE SOFRER PELA DOR DOS OUTROS! ACIMA DE SER O MÉDICO DESSA VILA, EU SOU UM PAI, E QUERO SABER SE MINHA FILHA ESTÁ VIVA!

    Com seu aumento repentino de força, correu o mais rápido possível na direção de Harlon.

    “Aquela monstruosidade na caverna deve ser impossível de derrotar, mas se eu conseguir tirar a Madallen de lá não me importa o que virá depois!”

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