Capítulo 38 - A Odisseia de Circe Lethê Parte 1
Circe não achava Verion digno de saber a verdade. No entanto, daria a ele chance de saber de tudo antes do fim. O semblante da deidade era tranquilo, enfiada naquele corpo que não lhe pertencia.
Sobre a pedra fria e úmida, o garoto tinha o olfato agredido pelo fortíssimo odor de tinta e pelo líquido fétido que vazava da criatura. Tinha sangue na boca, um gosto metálico impossível de ignorar.
Os devaneios estranhos sobre uma forca acabaram tornando-se realidade de certa maneira. Raízes de girassol rodeavam-lhe o pescoço, firmes e apertadas.
— É provável que eu desmaie depois de usar meu poder total, já que a maldita dona desse corpo não me deixa em paz. — A deusa uniu as mãos graciosamente. — Desgastei seu Roha deixando tantos feridos para que curasse… Acredito que seja o suficiente.
Uma neblina obscura e nefasta se manifestou, percorrendo os braços de Circe e fluindo até as palmas das mãos. A neblina ganhava tons de roxo conforme o processo se repetia.
Verion sentia algo estranho vindo daquilo, como se pudesse ouvir sussurros e uma sensação de queda apenas de olhar para o fenômeno. O suave brilho azul emanado pela criatura começou a ser coberto pelo véu de escuridão.
— Mesmo caindo nesse breu, ainda vejo a chama da determinação em seus olhos. As crianças realmente não mudam. — Criou uma nova foice e condensou a neblina púrpura em direção ao rosto dele. — Em nome da existência, impedirei que Aurelius Daath reencarne. Menino dos olhos âmbar, desejo-lhe resiliência no purgatório da inexistência.
— Revelação Apoteótica Completa: Elipse.
Uma infinitude de trevas recaiu sobre a existência de Verion, manchando-o de vazio. Enquanto sentia-se despencar rumo ao nada, uma visão surgiu diante de si. Memórias que não pertenciam apenas à Circe, como uma enchente incontrolável, o carregaram.
19 Milênios Atrás, Era das Primeiras Deidades.
Sob o céu estrelado, uma fenda foi aberta nas alturas. Mãos passaram por esse buraco, e depois uma cabeça. Os olhos cor de rosa foram estreitados contra o novo mundo. Circe fazia o rasgo na realidade de janela, escorada.
O cabelo branco, com mechas rosas, tremulava suavemente sob o vento noturno. Procurou por algum sinal de perigo imediato, mas nada encontrou. O que jazia abaixo da fenda era uma floresta pacata. A queda de folhas alaranjadas evidenciava a estação do outono.
— Uma realidade tão bela precisava mesmo ser tão problemática? — A invasora dimensional mordeu os lábios e saltou em direção às árvores.
Ela caiu de forma desastrosa num arbusto, batendo as costas no chão e deixando a foice escapar. Na visão periférica, notou um coelho de pelugem escura se aproximar. O pequeno mamífero subiu em sua barriga, sujando suas vestes brancas com terra. Entreolharam-se, e Circe o segurou com as duas mãos.
— É uma pergunta estranha, coelho, mas você sabe falar? — Balançou levemente o animal, que não deu respostas. — Humm… Parece que isso não se repetiu nesse universo. Gosto mais de vocês quando podem conversar.
Acariciou e o deixou no chão novamente. Pegou de volta a foice e partiu para explorar a mata profunda. Seus passos lentos e erráticos na floresta faziam corujas ulularem próximas às copas das árvores.
“Estão percebendo que não faço parte desse lugar?”
“Bem… preciso focar em encontrar a anomalia desse universo.”
Durante a longa madrugada, a deusa seguiu à margem de um rio de águas cristalinas. Incapaz de sentir dor ou cansaço, correu irrefreável até o raiar do sol.
Foram dias e mais dias nessa rotina, explorando a região.
Não conseguia encontrar qualquer sinal de civilização naquelas terras, muito menos sinais de presença divina. Sua busca envolvia os deuses do mundo invadido, mas não sentia suas forças. Concluiu que deveriam ser de difícil detecção por ainda serem jovens ou fracos.
Após duas semanas cruzando parte de um dos continentes, deitou-se em uma planície para observar o sol. O som do farfalhar da alta grama e do vento viajava pelos campos. Ela batia a mão na terra, rememorando o ritmo de uma velha música.
“Será que foi um erro?”
“Existiam indicadores de deuses aqui… e até uma anomalia. O que há de errado com essa realidade?”
Aconchegou-se no gramado e solo fofo para dormir, apesar de não precisar. Bocejou e fechou os olhos, encolhendo-se. Logo formigas e outros pequenos insetos começaram a percorrer o comprido cabelo branco e rosa.
Em simultâneo, uma figura misteriosa surgiu da floresta densa vizinha à planície. A forma humanoide encarava de algumas centenas de metros, porém, mesmo assim, Circe não era capaz de sentir a presença.
Um mau pressentimento a fez abrir os olhos e ver algo se aproximar como um vulto, rasgando o ar. Esse alguém estendeu o punho fechado contra a invasora. Faltando alguns centímetros para ser atingida, teve uma visão clara.
Um homem esguio, de cabelos verde-jade, trajando um sobretudo branco de gola preta. Em seus punhos, fluía uma energia preta e branca extremamente volátil; parecia derreter, comprimir, descer e subir, tudo ao mesmo tempo.
“Essa coisa dilata o espaço?!”
Circe rolou no chão, desviando do ataque por pouco. Voltou o olhar para cima, e a figura misteriosa não estava mais lá. Barulho de passos vindos de trás antecederam um soco estrondoso que a arremessou diretamente contra a floresta.
O corpo foi de encontro com as árvores, batendo e destruindo dezenas delas. Levantou prontamente e conseguiu interceptar um chute dado pelo homem ao agarrá-lo pela perna. Tentou jogá-lo no chão, porém o desconhecido desapareceu.
No tempo de sentir as mãos fecharem sobre o nada, teve o reflexo necessário. Emergiu atrás dela a versão primitiva e original de suas criaturas. O monstro de sete metros tinha garras afiadas como tridentes e a estrutura corporal recoberta por um manto de carne branca.
O homem surgiu logo atrás e atingiu a criatura que foi usada como mero escudo. Circe viu os pedaços voarem e mancharem o gramado com o sangue espesso. Irritada pelos avanços velozes, devorou a luminosidade e afundou-o na escuridão.
— Quem é você?
— Eu que deveria perguntar… — A figura cruzou os braços, convencido de que não corria riscos. — Essa zona de Juno não deveria ser tocada. A entrada nesse território foi proibida! Acha que tem direito de estar aqui?
— Fala mais baixo. — Ela tapou os ouvidos, incomodada. — Não estou entendendo a ladainha. Sou nova aqui.
— De que lugar você veio?
— A explicação que tenho não faria sentido aos seus conhecimentos. Sou uma deusa e deduzo que você também seja, não é?
Ainda era incapaz de sentir a presença dele, mesmo tendo-o sob vista. Uma eterna sensação de déjà vu, algo como encarar uma foto e esquecê-la a cada milésimo. Olhá-lo não passava a certeza de que estava lá, por mais contraditório que fosse.
Não era humano, de certo.
E, em sua cabeça, aceitou facilmente a ideia de estar diante de uma deidade. Era a única explicação para seu golpe não tê-la retorcido como um pano.
— Hmph, sou Ni, o Deus do Enigma — afirmou orgulhosamente na escuridão. — Ser uma deusa piora minhas preocupações sobre sua passagem por aqui.
— Não pretendo me engajar em conflitos ou levantar minha velha foice contra o pescoço de qualquer um. Pelo menos não agora. — Circe colocou a mão no ombro de Ni. — Quero conversar com os deuses daqui para localizar uma anomalia. Há um ser divino que nasceu corrompido nesse mundo.
Ni conectou rapidamente as informações e deduziu um nome em seus pensamentos: “Vall Rotsala Farall…”.

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