Índice de Capítulo

    Circe e Rotsala se sentaram em cadeiras de madeira ao redor de uma mesa redonda. O interior da cabana era bem quente em comparação com o exterior, por conta da lareira. O fogo terminava de preparar o alimento que o idoso silencioso esperava.

    A deusa esperou que ele falasse alguma coisa, olhasse para ela ou emitisse qualquer opinião. Porém, naquele momento, ele não parecia interessado em nada além da comida. Esfregava as mãos, quieto.

    Na mesa onde o jornalista e a deidade entreolhavam-se, diversos chocolates estavam dispostos em uma caixa amarela. Circe não pegava nenhum deles apesar de vê-lo comer.

    Curiosa, ela perguntou se aquele velhinho era mesmo o avô dele. Rotsala explicou que aquele homem morreu nos anos 1973 da antiga realidade dele. O jornalista excêntrico disse que morreu envenenado em 2024. Chegando no novo mundo, acabou por coincidência descobrindo que aquele homem era seu vô, que morreu antes mesmo de ele ter nascido.

    — Outras pessoas do seu mundo vieram para cá ou foram apenas vocês dois?

    — Até onde eu saiba, apenas nós. — Rotsala olhou para os lados e enfiou diversos chocolates na boca de uma vez.

    “Existe… pasta de dente nesse mundo? Ele vai precisar de muita.”

    Circe acomodou-se e repousou a cabeça na mesa, fechando os olhos enquanto pensava no que fazer ou perguntar naquele momento. Escapar não era uma opção realista, já que ele controlava a realidade na área do lago.

    “Dependendo das respostas dele, isso pode acabar de um jeito fácil. Se o que todos dizem nas vilas for real, não preciso me preocupar com ele causando o fim prematuro desse mundo.”

    Ela levou as mãos até as bochechas, suspirando de frustração.

    “Ele parece um idiota… Alguém tão jovem e poderoso assim se torna realmente tão arrogante? Dizer que é o único e verdadeiro deus durante aquela luta é uma autoestima que nem eu teria.”

    “Se essa transferência de realidade acontecer com mais pessoas será problemático. Talvez outras aberrações poderosas como ele surjam por aqui em algum tempo.”

    “Aahh… minha missão ficou mais difícil do que eu esperava!”

    — Ei… Rotsala, poderia me dizer o que você pretende fazer por aqui? — Levantou o olhar desconfortável, fitando-o.

    — Vai parecer um pouco suspeito depois de te assustar e brincar com você daquela forma que fiz… Aliás, desculpa, só estava irritado com as invasões que ocorreram por aqui. De verdade, quero expandir a área dessas vilas e ajudar as pessoas daqui… Sempre quis poder ajudar os outros a terem uma vida decente, e finalmente tenho força pra concretizar isso! — A expressão relaxada mudou por completo. — Na minha antiga realidade precisava cobrir diversas tragédias e desgraças enquanto na função de repórter…

    Abaixando a cabeça, ele prosseguiu: — Conheci inúmeras das piores facetas do mundo, todo tipo de crueldade irracional que dominava cada canto dos noticiários e jornais… Apesar de me manter firme na frente das câmeras, saber de tantas coisas horríveis retirava minha paz em casa. Durante esse tempo, cheguei a pensar em abandonar essa profissão e ir fazer qualquer outra coisa para me afastar da crueza da realidade. Porém, foi aí que entendi que só fugir e tapar meus olhos sobre isso seria uma covardia. Não existia como prevenir a infinidade de problemas com simples reportagens sobre as tragédias, mas mesmo assim me sentia melhor podendo ajudar os parentes das vítimas, aqueles que restavam no fim dos casos…

    O barulho da pequena panela sendo movida pelo avô quebrou a tensão repentina, dando-lhes um tempo de respiro. O cheiro da comida viajou pelo ar quente e gélido.

    Antes que Circe pudesse dizer qualquer coisa, ele continuou as ideias que borbulhavam em sua mente:

    — Fechar meus olhos e não interferir em nada me faria sofrer mais do que de fato ver tudo de ruim que existia. — Arranhava a mesa com as unhas. — Poucas vezes minhas investigações ao lado da polícia conseguiram encontrar pessoas sequestradas… Crianças que familiares acreditavam que nunca mais seriam encontradas! Mesmo que fossem poucas vezes, sempre mantinha a esperança de poder encontrar outras e vencer essa injustiça da vida.

    — Você… — balbuciou, espantada.

    — Tudo que quero nesse mundo é poder dar boas notícias… — O deus anômalo ergueu a cabeça e olhou para Circe, fazendo-a se arrepiar com o brilho naquela expressão. — Morri envenenado por me envolver na investigação de um grupo perigoso e acabei parando nesse lugar! Não entendo nada do que está acontecendo aqui, mas preciso trazer para esse mundo as infindáveis boas notícias que nunca pude dar! É isso que pretendo fazer aqui! É para isso que quero usar meus poderes! Antes, tudo que eu podia fazer era contar aos outros sobre o sofrimento humano, mas agora eu posso impedir essas más notícias antes que ocorram!

    “Esse não é alguém que mereça morrer agora…”

    — Diga para mim, por que foi tão honesto comigo? — Endireitou-se na cadeira, levando as mãos para o centro da mesa. — Não me conhece de verdade….

    — Sinto que há algo diferente em você… Talvez seja quem sabe o que está acontecendo nesse mundo verdadeiramente. — Um sorriso gentil surgiu em seus lábios. — Me fale a verdade, de coração.

    Aqueles olhos brilhavam tanto quanto o sol, em pura vivacidade e esperança. Circe segurou as mãos dele suavemente, vendo a própria face no reflexo dos olhos carmesim do homem.

    — Também vim de fora dessa realidade como você, mas de um lugar diferente. Sou responsável por vigiar diversas realidades e assegurar alguns parâmetros gerais. Invadi… Invadi esse mundo unicamente para vê-lo, pois era uma anomalia. Ninguém além de mim deveria conseguir atravessar mundos. — Apertou as mãos dele. — Não posso te contar o motivo, mas precisava saber se você era alguém bom ou perigoso para esse mundo.

    — Isso é tudo muito estranho… Em um dia estou correndo por aí com um pessoal com câmeras e, em outro, estou face a face com uma deusa em uma cabana com meu vô que morreu antes mesmo do meu nascimento. — Ele riu baixinho, desviando o olhar para o fogo na lareira. — Esse tipo de loucura sempre acontece?

    — Nem tanto… — respondeu, inclinando levemente a cabeça.

    — Acho que agora sabe que não sou um perigo para essas pessoas e nem para você. Caso fosse minha vontade, poderia usar meus jornais para te matar, mesmo que seja tão perigosa do jeito que é… — Voltou-se para ela novamente. — Não vou te julgar por essa sua tal missão de vigiar realidades, por mais insano que isso soe para mim. Se consegue enxergar minha bondade, irei confiar na sua.

    — Agradeço…

    — Mas antes, quero saber se veio para cá, a região do lago, por conta dos outros deuses…

    — Ah, precisava mesmo falar disso… O que aconteceu entre eles e você? — Largou as mãos dele. — Todos parecem apavorados, até mesmo se esconderam nas profundezas de uma floresta.

    — Esses babacas tentaram me matar e só revidei! — Estreitou o olhar e cruzou os braços. — Preferia uma convivência pacífica enquanto cuidava dos meus povoados, mas tentaram tantas coisas para me eliminar que decidi me isolar e aterrorizá-los! Bom saber que esses problemáticos estão escondidos em um buraco no meio da floresta.

    — Fez algo estranho quando apareceu aqui…?

    — Não, só queria ficar na minha junto do meu avô, mas eles continuavam causando problemas. Disseram que esse tal Roha dentro de mim era muito diferente do que eles conheciam. Não importava o quanto falasse que não era um demônio, tal como me tratavam, permaneciam ignorando tudo que eu argumentava e tentavam me eliminar. — Pegou outro chocolate. — Não compreendo o que eles sentem sobre a minha energia, mas parecem um bando de histéricos.

    “Não consigo sentir algo tão bizarro com a energia dele agora… Só senti quando fui afetada com os jornais.”

    “Será que especificamente os deuses daqui sentem aquela sensação o tempo inteiro mesmo sem ser a intenção dele?”

    — Acho que entendi o problema aqui. Lembra daquilo que me fez sentir usando seus jornais? Aquela pressão toda que me derrubou no chão e tudo mais.

    — Claro… e novamente, desculpa por isso. — Gesticulou, abanando a mão.

    — Talvez os outros deuses estejam sentindo isso ou algo muito pior só de estarem próximos de você. — Levou a mão ao queixo. — Como você saiu de outra realidade, é possível que haja algum tipo de estranheza aos deuses daqui. Algo com uma energia corrompida durante sua passagem para esse plano existencial… Isso até explicaria o motivo de eu ter detectado apenas uma única anormalidade por aqui.

    — Tem certeza?

    — Certeza não tenho, mas seu avô veio junto para essa realidade e nenhum deles me falou sobre sentir algo estranho sobre ele, e nem eu detectei ele como uma coisa fora do comum. — Ela finalmente pegou um chocolate. — Parece que apenas você se tornou um deus quando entrou aqui. Minha aposta é que seu Roha realmente foi corrompido quando se tornou uma deidade repentinamente após a morte… Isso deveria ser impossível, então devem haver implicações que nem eu entendo.

    — Eles reclamaram de algo sobre você? Também é de fora daqui, né?

    — No meu caso não, e isso reforça minha aposta. Sempre fui uma deusa, nasci assim. — Ela mordeu o chocolate levemente. — Não tenho essa possível energia corrompida, apesar de ser de fora. Minha única dúvida é a razão de eu não senti-la em você, e nem os moradores daqui aparentemente.

    “Se o povo ao redor fosse afetado, ninguém estaria tão pacífico com ele.”

    — Que droga, hein… Isso parece convincente, pelo menos a melhor resposta até o momento. — Murchou na cadeira, emburrado.

    — Conversei com os outros deuses e todos realmente estão apavorados com sua presença… É horrível quererem matá-lo por algo que está fora do seu controle. — Circe levantou da cadeira.

    — Hum? — Seguiu com o olhar, curioso.

    — Sei onde estão, então posso servir de ponte para tentar apaziguar essa situação.

    Rotsala franziu as sobrancelhas, pensativo.

    — Deixa a garota tentar — falou o avô, a voz rouca e cansada.

    “Garota? Sou muito mais velha que esse homem… Preferia ser chamada pelo nome.”

    — Vô, tem certeza? Não acho que isso seja algo muito fácil de argumentar sobre… Não quero enviar minha nova amiga, Circe, para resolver isso com aqueles emocionados.

    Ela piscou duas vezes muito rápido e, surpresa, perguntou: — A-amiga?

    — É! Até se preocupa comigo! Parece amizade o suficiente pra mim! — Assentiu mais para si mesmo do que para qualquer outro.

    “Ai, ai… Chama os outros de emocionados, mas parece que o apressado é ele.”

    “Mas é positivo que me considere uma amiga. Vou poder vigiá-lo de perto sem temer esses jornais malucos.”

    — Bem… pode deixar sua amiga pelo menos ir tentar? — Cruzou os braços. — Meu dever é manter a estabilidade dessa realidade. Deixar uma briga como essas continuar seria uma falha enorme da minha parte.

    Ele levantou da cadeira e criou um jornal totalmente em branco, abrindo-o diante dela. Olhava por cima da folha de papel com o mesmo olhar esperançoso.

    — Volta aqui viva… Quero escrever essa boa notícia no meu jornal!

    Circe, sem perceber, sorriu de volta para o jornalista de cabelos carmesim. Deu as costas para ele e foi até a porta, abrindo lentamente. O ar gélido de fora adentrou na casa e fez as chamas da lareira oscilarem.

    — Pode ficar tranquilo, leãozinho.

    A porta foi fechada e Circe encarou o azul do céu, respirando profundamente. Andou nas terras nevadas diante da cabana enquanto aproveitava a vista das picos congelados ao redor e do grande lago.

    “Esse lugar é lindo de noite e de dia, não surpreende que ele escolheu esse ponto para tentar iniciar uma civilização própria.”

    Rotsala abriu a porta e acenou antes de gritar: — Volta mesmo! Vou tentar fazer estrogonofe com meus jornais!

    — Não sei o que é isso!

    Ela partiu em direção à catedral ocultada na floresta, deixando a região do lago para trás. Era hora de tentar solucionar a questão sobre a sensação da energia corrompida.

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