Índice de Capítulo

    Todas aquelas memórias, toda a vida de Circe — e de outras pessoas — desde o segundo em que ela chegou naquele mundo, entraram na mente de Verion no momento em que a escuridão vinha em sua direção. Era muito para processar, apenas ouviu uma breve frase antes de tudo se apagar.

    — Nosso divórcio finalmente chegou, Aurelius!

    Verion foi banido da existência.


    Um vazio branco, inerte e decadente. Não existia nada além de um branco infinito que se estendia em todas as direções. O ar não era gélido ou quente, era uma sensação completamente diferente, porém contraditoriamente familiar.

    O som de ondas, como as do mar, ecoava e passeava pelo nada. No indefinido ponto central daquele infinito, uma figura de cabelos castanhos flutuava rumo ao desconhecido. Sangue descia dos olhos fechados, escorrendo pelo rosto e despencando na imensidão.

    “Yunneh…”

    “Você tá aqui?”

    As mãos moveram-se lentamente até o rosto, esfregando o sangue, tentando removê-lo da pele como meras lágrimas de sono.

    — Eu morri? — questionou-se ao abrir os olhos naquele estranho ambiente.

    Observou o sangue fresco nos dedos e suspirou, sentindo uma intensa vontade de chorar. Tentou não se levar pela situação, contendo um suspiro. A respiração se acalmou e o olhar de Verion viajou pelos arredores.

    “Que lugar é esse?”

    Ao decorrer dos minutos, mais e mais memórias de Circe e de outras pessoas do passado entraram em sua cabeça. De alguma forma, a Deusa da Inexistência havia jogado em sua mente uma imensidão de informações no momento do grande ataque.

    Ignorando o absurdo da situação em que se encontrava, pôs-se a pensar sobre os ocorridos. Havia naquele conjunto de informações do passado diversos pontos importantes.

    Verion, através das memórias, agora conhecia exatamente quem era Aurelius Daath, aquele que se alojava em seu corpo e no de sua irmã. A conversa entre Lya e Circe na fogueira, dias antes do ataque na vila de Harlon, deixava claro um fato:

    “Aquilo que chamávamos de Deus Misterioso tinha, até onde pudemos descobrir, capacidades de afetar memórias ou a percepção da realidade das pessoas ao redor. Ahh… Se após o término da Guerra das Deidades todos esqueceram da existência de Aurelius, menos seus seguidores e Quilionodora… É mais óbvio ainda dizer que o Deus da Fantasia é quem estamos buscando.”

    “Aurelius Daath é o Deus Misterioso… As habilidades mágicas se encaixam o suficiente.”

    A figura do deus misterioso, que agora sabia atender pelo nome de Aurelius, ficava cada momento mais aterrorizante. Sabendo de seus feitos no passado, não era surpreendente que tivesse alterado as memórias do pai e de todos que o viram com o cabelo normal mesmo amaldiçoado. Tendo feito até mesmo um grande número de deuses esquecê-lo por milênios, os atos que cometeu na atualidade não pareciam mais tão distantes.

    As questões centrais giravam na razão dele não fazer isso mais vezes. Precisava haver uma razão para que Aurelius não abusasse do poder de alterar memórias incontáveis outras vezes; era isso que Verion queria entender. Com uma força tão traiçoeira, seria fácil moldar um caminho perfeito para o plano dele se concretizar.

    Verion sabia que iriam buscá-lo em algum momento para matá-lo, porém por qual razão o Deus da Fantasia se recusaria ou não buscava moldar um caminho perfeito até o momento final? Deixá-lo morrer antes aparentava ser um erro rude. Pavimentar uma trajetória completamente segura parecia a resposta correta naquele momento.

    “Se o plano era me deixar vivo… isso parece ter falhado. Eu morri, não é?”

    Pouco depois, ele lembrou com exatidão as palavras proferidas por Quilionodora no dia em que tentaram realizar um pacto com ele: Nunca terão minhas bênçãos com essa praga dentro de vocês, cobaias infelizes!

    “Então ele estava se referindo a Aurelius o tempo todo… Está em mim e em Yunneh.”

    Verion colocou levemente a mão na lateral da cabeça, pensativo. A mente ágil de Verion logo conectou alguns pontos, rememorando-se das memórias de Circe conversando com Lya Seshat ao lado da fogueira.


    — Seshat, eu aceito te ajudar com essa traição contra Aurelius! Tenho muitos assuntos para resolver com essa doença que se recusa a sumir desse mundo! Vou matá-lo, não importando o que precise ser feito para isso! — declarou a deusa. — Me diga: qual é o plano dele?

    — De algum modo que não consegui descobrir, o Deus da Fantasia se alojou nos corpos de duas pessoas: Verion Velgo e Yunneh Velgo. Aurelius precisa que esses dois fiquem fortes até um certo ponto e, nesse momento, ele tomará posse do corpo de um deles para reencarnar completamente nesse mundo. E a forma de fazê-los ficarem mais fortes rapidamente é infligir sofrimento a eles… Aurelius quer que a organização realmente os traumatize de formas horríveis para fazer o Roha se fortalecer. Planejam fazer de suas vidas um inferno… por isso até mesmo mataram o pai deles.

    — Argh… isso é definitivamente algo que ele faria.

    — Se Aurelius voltar, esse mundo com toda certeza vai encontrar seu fim. Ele está muito mais forte do que você se lembra, ele é uma ameaça existencial. Não podemos deixar que ele retorne. Caso isso ocorra, o apocalipse é uma certeza. Quero que você impeça isso…


    “Nos fazer sofrer para nos fortalecer… Meu pai só significou isso para Aurelius? Algo para nos entristecer?”

    “Se estão nos dando chances de tentar coisas e nos deixando pensar que podemos sair vivos disso… talvez seja apenas uma forma de nos dar esperanças… Nos deixar acreditar que podemos vencer apenas para destruir tudo na nossa frente.”

    “O objetivo é nos fazer sofrer para ficarmos mais fortes, então isso parece fazer muito sentido… Deve ser a resposta por trás dele não abusar desse poder de mexer com a realidade, ele só não quer agora.”

    “Está nos deixando evoluir de propósito.”

    Inquieto com o vazio daquele lugar, pensou se ficaria preso lá para sempre. Entretanto, bolhas de sabão emergiram adiante.

    — Não pensei que você morreria tão cedo na sua viagem… — A voz séria veio de trás e, com ela, um aperto no ombro de Verion.

    As bolhas se expandiram e estouraram, molhando o ambiente e revelando algo como uma segunda camada naquela realidade. O ar pareceu ser descamado como a pele de uma serpente, dando vista de um espaço plano dourado onde se encontravam três ampulhetas brancas colossais.

    Uma ampulheta permanecia vazia e as outras duas tinham areia em constante queda. Tudo parecia derreter entre bolhas de sabão que cresciam e levitavam objetos irreconhecíveis.

    Verion sentiu-se abraçado por uma calmaria e serenidade com aquele toque no ombro. Ventos suaves passavam pelo lugar, confortando com uma sensação parasitária de bem-estar e tranquilidade imposta à força.

    Notou uma sonolência pesada recair sobre si, como se manter os olhos abertos fosse a coisa mais difícil que já precisou fazer.

    Tomado por um pressentimento, agarrou a mão que estava em seu ombro e a afastou. Correu um pouco para o lado, ofegante, e observou a figura que tanto viu nas memórias de Circe. Os longos cabelos dourados e expressão cansada, era ele.

    — Olá, Verion Velgo… — Aurelius Daath sorria calmamente a poucos metros dele.

    O Deus da Fantasia continuou inerte, apenas observando o garoto e aguardando alguma reação. Vestido com roupas brancas que lembravam roupas de uma alta realeza, com um casaco ornamentado com penas negras, ele encarava com os olhos esmeralda.

    Seus lábios tremulavam, tentando conter um sorriso ao ver Verion sem reação com sua repentina aparição. Aquilo estava sendo divertido para ele, sabendo estar no controle total da situação.

    Conforme a lenta areia nas ampulhetas descia, a expressão do garoto mudava. A calmaria imposta por Aurelius foi aos poucos diluída por um sentimento de angústia. Seus olhos se estreitaram e os pelos do braço se arrepiaram.

    — Você… — disse com voz baixa, quase inaudível, entalada na garganta.

    — Eu vi… Sei que a problemática Circe lhe passou diversas memórias dela e de outras pessoas para você, como um ato de consideração antes da morte. — Deu um lento passo adiante. — Odeio esse tipo de intromissão nos meus planos, não estava nos meus desejos que você soubesse tanto da minha identidade. Entretanto, acho que deixarei que saiba de tudo, isso torna a situação um pouco mais divertida… Suas preciosas memórias estarão salvas.

    A calmaria foi quebrada como vidro pelo sentimento que queimava no peito de Verion. Seus pés e seu corpo se moveram antes mesmo de que ele pudesse pensar no que estava fazendo. Seu punho fechado, após um salto, atingiu em cheio o rosto de Aurelius.

    O som seco ecoou pelo espaço e a deidade meramente sorriu, sem nem ter se movido do lugar. Sua mão se estendeu em direção a Verion, que saltou para trás por sentir que se fosse tocado algo terrível aconteceria. O olhar de seu grande inimigo parecia carregar ao mesmo tempo o peso de um instinto assassino e a sensação indefesa de um coelhinho. Continuava uma figura estranha e ambígua.

    — Acha mesmo que tem o direito de brincar com as nossas vidas?! Você tirou o nosso pai de nós e nos fez passar anos com a angústia de podermos ser mortos a qualquer momento! — gritava Verion, apontando diretamente para o rosto de Aurelius.

    — Você é todo engraçadinho de perto, que legal… — Aurelius bocejou e deu as costas para ele, caminhando rumo às ampulhetas. — Agora você sabe demais, mas quero me divertir um pouco…

    O Velgo tentou se acalmar por um instante, querendo ter certeza de que conseguiria tirar pelo menos alguma informação importante dele. Suas chances beiravam a nulidade e, exatamente por isso, não era hora de perder o controle pelo ódio.

    — Se divertir?

    — É… Estou preso aqui nesse espaço entediante há milênios e ainda faltam algumas coisas até que eu possa reencarnar. Planejava estragar as suas vidinhas insignificantes sem que soubessem o que estava acontecendo de começo. Algo como deixar com que vocês fizessem bons amigos apenas para matá-los diante de seus olhos e fortalecer o Roha de ambos através desses traumas. Bem… essa ideia ainda não mudou, mas acho que é mais interessante ainda que você tenha plena certeza de que isso vai acontecer. Correrá o risco de se aproximar de mais pessoas, buscando seu fortalecimento, sabendo que isso pode trazer a morte para elas?

    Aurelius continuou: — Meu plano final é o maior ato de benevolência que já existiu ou existirá. Para que ele se concretize, preciso reaver um corpo físico e exterminar toda a vida desse universo… O que quero depois, com isso, é uma grande salvação. Com aquelas memórias, sei que sabe nesse momento que existem coisas para além dessa realidade, tais como Circe, e é isso que me importa aqui. Existe uma infinidade de realidades que eu posso ajudar, e a um baixo custo… Só preciso matar todos daqui e poderei fugir dessa parte da existência.

    “É inútil perguntar o que é esse tal ato de benevolência… Lembro que nas memórias da Circe, sempre que ele tentava contar sobre isso alguma coisa impedia a voz dele.”

    “Que porcaria de situação em que fui metido…”

    — Mesmo que isso seja verdade e você possa mesmo salvar outras realidades de alguma coisa, não é um absurdo para você cometer esse extermínio? Como você pode falar tão casualmente que vai destruir toda a vida como se fosse algo simples como abrir uma torneira? Isso é incompreensível pra mim!

    Aurelius tocou em uma das ampulhetas colossais, fazendo com que a areia em seu interior acelerasse na queda. Isso trouxe uma sensação de queimação ao peito de Verion, que caiu de joelhos no chão daquele espaço imaginário.

    — Seu pai te fez ser um grande coração mole, né? — A deidade voltou-se novamente em direção ao garoto de cabelos castanhos. — O fato é simples para mim: se existem infinitas realidades, destruir uma única realidade para salvar todas as outras é algo aceitável. Ou me dirá que um único indivíduo sendo morto para salvar bilhões de outros te parece algo irracional? Estou lidando com essa mesma questão no momento, mas em uma escala cósmica.

    Verion não conseguia se levantar ou se mover, permanecia de joelhos, sentindo o corpo queimar. Os passos de Aurelius se aproximavam mais e mais, aumentando os sons com a proximidade.

    — Deve existir alguma outra alternativa… Você é só um psicopata! Precisa haver outra forma, sempre existe algum outro meio pra tudo!

    — Hehehe… pode ser que sim, mas não há nada nem ninguém que possa me parar, então essa é a única alternativa. E já que o destino de todos aqui é a morte, então pelo menos quero me divertir enquanto estrago tudo e trago a ruína desse mundo. Não diria que o sofrimento alheio fosse algo do meu apreço até algum tempo atrás, porém… essa curiosidade surgiu em mim após tanto tempo aprisionado nesse espaço, apenas comandando minha organização.

    Aurelius estendeu a mão em direção ao rosto de Verion, enquanto o observava com um olhar estranho. Os olhos verdes pesavam como uma montanha nos ombros dele, uma sensação esmagadora de ansiedade.

    — O que vai acontecer comigo? — indagou em voz baixa, encarando o deus com toda a convicção que ainda tinha.

    — Você será revivido agora através da Definição da Fantasia… creio que tenha visto isso nas memórias da luta que tiveram contra a minha querida Esra Vortiger. Você só terá a oportunidade de ser revivido mais duas vezes, então seja prudente com o tipo de ameaça que você enfrenta. Caso suas chances se acabem e você morra em definitivo, saiba que sua irmã terá um destino ainda pior para que eu reencarne.

    “Então eu ainda tenho chances de ver a Yunneh de novo… Que alívio, não queria morrer e nunca mais encontrar ela outra vez.”

    — Eu vou dar um jeito de te matar, seu merda… eu juro! Não importa o que eu precise fazer, vou dar um jeito de desmontar todo seu plano de milênios e acabar com esse seu sorriso nojento… — Sua mão trêmula se ergueu contra Aurelius, fechando o punho. — Se existe mesmo um problema fora da nossa realidade que precisa tanto assim ser resolvido, eu que resolverei, e sem sacrificar nosso mundo!

    — Sua animosidade é quase adorável mesmo… — Aurelius limpou uma lágrima que escorreu pelo rosto, risonho. — Circe tentará te destruir quantas vezes forem necessárias, então é melhor que preste atenção no que vai fazer, não posso cuidar de uma criança chata como você para sempre. Seu cérebro foi alterado pelo Conhecimento, então pelo menos espero algum bom plano…

    Bolhas de sabão começaram a emergir do solo daquele estranho espaço. Aurelius logo foi encoberto na visão de Verion por milhares de bolhas que refletiam levemente o dourado que brilhava por toda parte.

    — Essas bolhas…

    — Mantenha-se vivo para que eu te mate na hora certa, meu pequeno Velgo. — A mão atravessou as diversas bolhas e tocou a testa dele. — E lembre-se… nada escapa dos meus olhos.

    Todas as bolhas estouraram e o corpo do jovem foi levado, varrido para fora de lá.


    O intenso som dos ventos chegou aos ouvidos dele, junto da imagem de uma feição de puro choque na face da Deusa da Inexistência. Simplesmente o jovem estava lá outra vez, e para Circe era como ver um fantasma diante de si.

    — Esses cabelos brancos… Isso é sério?! — berrou a deusa antes de levantar a foice outra vez, atônita.

    Verion Velgo havia revivido após ser apagado da existência. Naquela caverna devastada, começava sua segunda vida.

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