Capítulo 51 - Não é Sua Culpa
O sol iluminava os céus azuis e a parte devastada da montanha. Verion ressurgira diante da deusa Circe, como se nada tivesse acontecido. A luz solar evidenciava os olhos âmbar do garoto, que nem havia voltado a raciocinar após reviver.
— Aurelius, mas que deuszinho infernal! — Com a foice novamente erguida, ela avançou contra o garoto, mas… a arma caiu de sua mão e se esparramou como tinta.
— Uh? — Ele deu um passo para trás, observando o que estava acontecendo.
— Lyria… — Circe agarrou o próprio pescoço furiosamente. — Eu sabia que você iria fazer isso, sua desgraçada!
Após o grande gasto de Roha com o maior ataque que poderia dar, seu controle sobre o corpo havia se tornado instável. Lyria atrapalhava e sabotava as capacidades máximas de Circe como podia o tempo todo, buscando reaver a posse do corpo.
A deusa foi ao chão, completamente sem forças enquanto Lyria a substituía.
Circe pensou: “Aquele médico… Mark tem um estranho potencial, até mesmo enviei invocações mais fracas para mantê-lo vivo, mas parece que não vou poder investigar isso agora.”
A intensa e assustadora energia se dissipou dos arredores, trazendo de volta a leveza do ar. Verion respirava ofegante após seu retorno, ainda desnorteado. Continuou parado no mesmo lugar, apenas vendo o corpo de tinta se debater diante de si.
Aos poucos, o semblante era alterado, deixando para trás o amargor e a fúria. O que surgiu naquela face, em seguida, foi medo, puro medo.
“Não é mais a Circe… É a garota da janela…”
A expressão de Lyria, seu olhar, estava manchado por um pavor visceral. As lágrimas pretas de tinta escorriam na pele branca como papel. Forçava as unhas contra o rosto, tentando escapar da sensação que a atingia ao ver o que estava atrás de Verion.
— Não! Não! — ela gritou até o ar em seus falsos pulmões acabar, logo rastejando para trás com todas as forças.
Verion girou, tenso, para encarar a fonte daquele terror que ela sentia. Seus olhos se arregalaram conforme a verdade se revelava. Um único golpe da deusa, um ataque sério e singular, havia desfeito a própria realidade ao oés-noroeste. O horizonte inteiro, antes repleto de natureza e vida, agora era um nada abissal.
Não houve distinção. O que era orgânico, pulsante de vida, e o que era inorgânico, inerte e sólido, foi deletado, varrido da existência com uma frieza aterrorizante. O silêncio que se seguiu era angustiante. Tudo que ele ouvia eram os ventos e choro ao lado.
— Isso é na direção de Aludra… — Sua voz era um sussurro rouco, quase imperceptível, suprimida.
O azul puro do céu acima e o vazio obscuro que se estendia abaixo, separados perfeitamente na linha do horizonte. Não havia montanhas, nem florestas, nem rios. Apenas trevas e céu. Sua cidade natal, Aludra, o berço de suas memórias, de sua família, de sua infância, não existia mais.
Centenas de memórias sobre aquela terra, sobre as pessoas que conheceu, passaram por sua cabeça em questão de segundos. Sentiu o peito arder com um sentimento horrível que parecia tentar o desmaiar, tamanha a intensidade.
“Circe…”
“Você e Aurelius merecem morrer…”
Ele levou as mãos ao rosto e o apertou, respirando fundo. Tentava racionalizar sobre a situação, mas nada além de um caos completo preenchia seus pensamentos. Completamente perdido na imagem do vazio adiante, teve a atenção tomada por um barulho.
Lyria ergueu-se do chão, ofegante, e começou a cambalear com passos pesados. Suas pernas trêmulas mal conseguiam mantê-la de pé. A expressão que carregava no rosto gritava que ela apenas queria sumir, desaparecer daquele lugar.
“Você…”
Enquanto a sensação agonizante dominava seu corpo, pôs-se a caminhar erraticamente na direção dela. Os passos não encontravam sentido ou padrão, parecia estar para tropeçar a qualquer instante, mas continuava avançando.
A garota de tinta virou-se na direção de Verion, encarando-o. Uma troca de olhares, tão breve, trouxe palavras da boca dele que Lyria não imaginava que iria ouvir.
— Você tá bem? — A voz, apesar de carregar um grande desespero, parecia compreensiva, como de alguém que de fato queria ajudá-la.
— Por que você se preocupa com os outros… até em um momento como esses? Como consegue olhar para meu rosto agora e ainda se preocupar? É culpa minha… tudo que aconteceu, todo mundo que morreu, é tudo culpa minha… — De repente, ela fechou os olhos e arranhou o próprio rosto, afundando os dedos na tinta.
O sangue negro, como da cor das palavras que a compunham naquele livro, escorreram e pingaram no chão. Verion continuou se aproximando e, quando a alcançou, a segurou pelos braços com o pouco de calma e racionalidade que ainda tinha naquele momento.
— Vegarten. — A energia dourada surgiu, mais intensa que outrora, curando aquelas feridas e todas as dores que ela sentia. — Não se machuca assim…
Ela abaixou a cabeça lentamente, não tinha força para olhá-lo nos olhos, sentia-se uma monstruosidade, uma aberração. Piscou, completamente paralisada naquele momento por uma sensação confusa e deprimente.
— Por favor, me solta… Eu não posso estar perto de ninguém, eu não posso continuar aqui.
“Eu reconheço o livro que Lya estava segurando naquelas memórias de Circe… Sei o que ela viveu.”
Verion sentia um nó na garganta e um gigante aperto no peito, uma dor real causada por sua ansiedade que parecia infinita naquele breve instante. Lágrimas escorriam pelo rosto desenfreadamente, a expressão torcida em tristeza, fazendo força para manter os olhos fechados. E, mesmo dessa forma, ele sorriu para ela da forma mais doce que já se viu.
— Meu pai me ensinou a ser esse tipo de pessoa… A razão de ainda me preocupar com você num momento desses… é porque sinto que você está tão mal quanto eu. — Verion apertou um pouco mais os braços dela. — Esse ataque, esse abismo negro, com certeza dizimou minha cidade natal e todas as pessoas que eu conheci, mas eu…
Lyria o interrompeu, gritando desesperadamente até perder o fôlego: — Sim, sim! Aconteceu uma tragédia como essas e é completamente minha culpa! Se eu tivesse conseguido manter o controle do corpo de verdade, nada disso teria acontecido… Eu não consigo entender, eu não consigo compreender como você ainda consegue me olhar nos olhos! Isso não faz sentido, você é… Aahh… Por favor, me solta, me solta, me larga agora! Sou uma assassina também, se meu corpo fez isso, eu sou só uma assassina que merece morrer!
Ela se curvou para frente, quase sufocada com a própria vontade de chorar, sentia-se engasgada e sem qualquer ar. As lágrimas de tinta pintavam o chão, ela se debatia, mas mesmo assim Verion permanecia sorrindo, talvez também para mascarar a própria agonia, porém principalmente para acolher.
— A única culpada é a Circe, foi ela quem causou tudo isso e eu sei perfeitamente que você não é ela. Seu olhar é bom, seu coração é bom, diferente do dela — dizia com uma voz pesada e carregada, ansiando por ao menos conseguir que ela entendesse não ter culpa.
— Me solta agora… — A voz elevou-se com um tom de raiva, mesmo que pequeno.
— Qual é o seu nome?
Tão repentinamente quanto a queda veloz de um raio, Verion foi atingido no rosto por um soco que o derrubou quase sem resistência. Sangue passou a escorrer por seu nariz, pingando em suas vestes brancas.
Tê-lo machucado lhe trouxe mais angústia, sentiu que não deveria ter feito aquilo, mas se afastou de imediato, dando as costas ao garoto. Seus cabelos mais escuros que o céu noturno tremulavam suavemente com os ventos, e era essa a última imagem que o Velgo teria dela por certo tempo.
— Eu… Eu consegui enviar seu amigo, aquele homem que estava te guiando, à vila antes que Circe o matasse. Vá encontrá-lo, ele deve estar preocupado com você. — Lyria suspirou, ainda chorando. — Preciso encontrar um lugar, alguma coisa que impeça a Circe de tomar o controle outra vez. Se eu falhar, vou ser uma assassina ainda pior.
Ela continuou: — Pensei em morrer para acabar com isso, mas eu tenho medo… Tenho medo de morrer sem ter vivido o que tanto invejo em você, Verion. As pessoas te adoram, te respeitam apenas pelo nome, te veem como alguém digno e bom. Eu sinto que nunca poderei ter isso, muito menos agora que meu rosto será lembrado por pessoas dessa região como a face de uma assassina cruel. Preferia nunca ter nascido, mas já que estou aqui contra minha vontade, quero descobrir as coisas desse mundo, até porque tudo que vivi antes foi o aprisionamento.
Verion levantou do chão e andou rapidamente em direção a ela, tentando a segurar mais uma vez. Sua mão se moveu em direção, tentando alcançar, mas ela desapareceu no instante em que disse suas últimas palavras naquele estranho encontro:
— Meu nome é Lyria.
Tocou o nada, sua mão e dedos meramente cruzaram o ar fresco daquela montanha numa tentativa de segurar alguém que não mais estava lá. A decepção de não ter conseguido fazer nada para impedi-la o puxou para a mesma coisa enigmática que sentiu ao olhar a cratera. Inútil, um imprestável insignificante, era como se sentia.
Foi ao chão, encolhido, segurando-se nos próprios joelhos enquanto chorava. O sorriso que havia dado para Lyria era algo que ele gostaria ver caso alguém tentasse o confortar, por tal motivo, sorriu para ela.
“As deidades continuam causando tragédias na minha vida… Como Circe pôde fazer algo tão imperdoável? Sei, sei que Aurelius é tão ruim quanto, mas… tantas vidas inocentes foram destruídas.”
O coração acelerava sem parar, sem qualquer sinal de que iria se acalmar. Sentia-se tonto, enjoado, perdido. Ao longe, começava a ouvir o estrondoso som de deslizamento de terra, coisas caindo rumo ao abismo.
“Deusa hipócrita…”
Lembrou-se das memórias da deusa, tudo que havia visto através dos olhos dela. Parecia ainda mais irracional para Verion que ela cometesse tais atos, principalmente após saber que ela havia lutado para preservar a população da nação de Rotsala no passado. Soava contraditório alguém com tanto afinco na luta pela vida humana estar fazendo aquilo agora.
“O ódio descomunal dela contra Aurelius é justo, mas não está certo matar qualquer um e achar isso um efeito colateral aceitável…”
“Eu… eu só queria que a Yunneh estivesse aqui comigo.”
Ele permaneceu ao chão por pelo menos mais dez minutos até conseguir algum mínimo de calma para pensar. Os pensamentos estavam caóticos, mas não existia tempo para ficar parado naquele mundo.
Verion levantou da pedra fria e observou o céu azul, um tanto perdido, até decidir retornar à vila.
Mas havia algo de errado.
Algo terrivelmente errado.
Escarlate pintou os céus, todo o azul tornou-se manchado por um vermelho profundo e sangrento. Os olhos arregalaram, antes de um clarão manifestar algo acima do país. Todas as nuvens foram varridas para longe e tudo estremeceu.
— Layla Zayn? — Com olhar semicerrado, observava o objeto que havia visto ser descrito nos livros de história que leu durante o período de seus estudos, a Lança da Calamidade.
Uma lança escarlate colossal flutuava acima da nação de Quilionodora, na termosfera, a duzentos quilômetros de altitude. Uma onda de calor fez Verion instintivamente utilizar o Roha para proteger sua pele.
“Eu não posso ter um minuto de paz nessa desgraça de viagem?!”
Ele começou a correr montanha abaixo pelos lugares mais seguros que encontrava, sentindo algo de diferente. Estava mais ágil, mais forte e o Roha parecia estar mais intenso do que nunca esteve antes.
“Que estranho…”
Limpou as lágrimas que ainda estavam no rosto e avançou a toda velocidade rumo a vila Harlon. A cabeça ainda doía, mas ele pensou rapidamente sobre o ocorrido.
A primeira e única vez em que a Lança da Calamidade fora utilizada havia sido na Guerra de Etinova, o conflito em que Elta Velgo lutou décadas antes. Layla decidiu usar seu ataque mais poderoso após Etinova iniciar um conflito com outro país, Quilionodora. Ela havia proibido guerras no mundo e, por tal violação, ela derrubou a grande lança contra a nação que iniciou o conflito.
“Isso significa que… o ataque da Circe chegou em outros países?”
“Só pode ser essa a razão do aparecimento…”
“Como aquele poder saiu daqui e atingiu outras nações, agora Quilionodora é considerada uma nação agressora!”
Verion observou outra vez o grande objeto, sabendo que se aquilo caísse, seria o fim da vida naquele pedaço do continente. Tudo seria apagado por chamas mais quentes que o sol. Não teve tempo para sequer pensar no fim de Aludra, tinha que correr.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.