Índice de Capítulo

    O ambiente avermelhado do segundo andar fez com que Verion demorasse alguns instantes para perceber o sangue no ferimento de Madallen. Quando notou, logo correu até o sofá onde ela repousava, ao lado do pai.

    — Vegarten! — Ele colocou a mão no ombro dela e o brilho dourado da Vitalidade iluminou a sala.

    Os ferimentos no corpo eram mais profundos e piores do que aparentavam superficialmente. Circe havia destruído alguns órgãos de Madallen e diversos ossos. Até mesmo o coração estava lacerado.

    “Eu odeio Quilionodora, mas se ela não fosse seguidora dele, já teria morrido. Essa resistência…”

    Conforme o processo curativo ocorria rapidamente, uma sensação atingiu o Velgo. Através da capacidade de saber exatamente o que havia de errado no corpo daqueles que curava, entendeu que algo pior que aqueles ferimentos havia a acometido.

    Mark, silencioso naquele momento, percebeu os olhos do garoto se arregalarem brevemente antes de se tornarem afiados e focados. A raiva contra Circe e Aurelius crescia em seu âmago. No fim, era culpa deles que aquilo tivesse ocorrido.

    “Ela está em coma?!”

    Verion gritou o nome da Deusa da Vitalidade mais três vezes consecutivas, fazendo o brilho dourado se tornar ainda mais profundo. A luminosidade, tão intensa, cobriu o espaço por completo, tornando o escarlate da lança em algo irrelevante naquele andar. Tudo estava manchado em amarelo.

    O Roha fluía tão intensamente que era inevitável sentir uma sensação de queimação rastejar por baixo da pele. Agora tinha um maior potencial curativo, mas não estava acostumado a utilizá-lo. Estava com uma força aproximada à de Yunneh Velgo após a primeira morte.

    “Danos ao cérebro são muito mais difíceis de se curar, mas eu preciso tentar!”

    Todos os esforços de Verion perduraram por três minutos inteiros, mantendo o máximo desempenho que tinha com suas novas capacidades. Acabou indo ao chão, caindo de costas, completamente ofegante e com a visão turva.

    — Garoto… — A expressão de Mark estava entre a surpresa e a decepção. — Você ficou mais forte, é notável, mas isso está fora dos seus limites, não é?

    Verion se levantou, respirou fundo e tocou o braço de Mark, o curando de suas feridas. Permaneceu de pé, mesmo que visivelmente tonto e desnorteado. Levou a mão ao rosto, apertando a própria face enquanto pensava.

    “Yunneh e meu pai com certeza teriam dado um jeito nisso. Ainda continuo sendo o mais fraco dessa família inteira.”

    “Se eu fosse mais forte, não teria deixado várias pessoas morrerem na vila por ter desmaiado. Agora, se eu não fosse tão imprestável, poderia curar ela disso.”

    — Desculpa, mas eu não consigo fazer nada sobre isso agora… — Mantinha a mão diante dos olhos, não querendo vê-lo. — Quando cheguei na vila, acabei dizendo que você não serviria de muita coisa por não ter a Definição da Vitalidade… mas mesmo eu, tendo ela, sou um inútil completo.

    — Acredito que você tenha dito aquilo apenas por estar apressado. Soou muito arrogante naquele momento, mas acho que estava certo. Não servi para nada além do que eu já esperava que conseguiria fazer no meu estado atual. Quando comecei tudo isso, estudar a medicina comum, iniciei querendo meramente ajudar os outros, mas depois de um tempo queria ajudá-los e também ser praticamente um herói como seu pai aos olhos dos outros. Só que… tudo que pude fazer foi costurar ferimentos e impedir hemorragias. Mesmo que tenha se sentido inútil, você fez mais do que vinte de mim poderiam fazer por essa vila.

    Mark continuou: — É vergonhoso que alguém que se propôs a ser um médico nesse mundo conturbado não tenha ido atrás de conquistar a Definição da Vitalidade. Eu deveria ter feito isso em vez de ter estudado a medicina convencional… isso foi um desperdício de tempo no fim das contas. Tudo que conquistei por essa escolha foi ser um pai ausente que se destruía para tentar cuidar de um povo inteiro completamente sozinho.

    Um breve silêncio.

    — Vá para Vegarten… Você vai precisar ir até lá de qualquer jeito. Só naquele país você vai encontrar alguém capaz de curar a Madallen. — Verion removeu a mão da frente do rosto, observando o médico. — Aproveite e faça o ritual para entrar em contato com a deusa.

    Como os óculos que utilizava haviam quebrado na caverna, Mark forçou os olhos para enxergar melhor o rosto de Verion. E um questionamento direto veio.

    — Por que se esforçou tanto por minha filha agora? Você gastou mais energia tentando curá-la do que te vi gastar na noite passada toda, quando chegou à vila. — Franziu as sobrancelhas, confuso.

    — Eu já conhecia ela e minha irmã é toda obcecada e apaixonada pela Madallen! Se ela morrer a Yunneh surta! — respondeu Verion, sem nem pensar.

    — Ah…

    — Droga, acho que falei demais… — Deu as costas, trêmulo.

    — Certo, certo… sua irmã é aquela mulher que está sendo treinada pela Lisbeth Pfaltzgraff, não é? — Levou a mão ao queixo, pensativo.

    — S-sim! — Verion podia ter um ótimo controle emocional para ser mentiroso e inventar uma história sobre o ocorrido na caverna, mas nessa situação bem diferente estava cedendo ao nervosismo.

    — Estranho… nunca pensei sobre minha filha acabar tendo um relacionamento com uma mulher… — Mark coçou a cabeça, uma expressão inexplicável no rosto. — Ahmm… Velgo, pode me dizer uma coisa?

    Verion se virou lentamente, tentando manter uma expressão despreocupada. Não conseguiu… nem de perto, parecia estar encarando um fantasma. Apenas assentiu, dando a deixa para o médico fazer seu questionamento.

    — O quanto Yunneh gosta da Madallen?

    A pergunta foi tão direta e genuína que ele demorou alguns segundos para processar. Verion suspirou e sentou no chão diante do sofá, olhando para Mark.

    — Nossa… achei que você ia tratar isso como um problemão e uma coisa bizarra. — Verion apoiou a mão no rosto, acalmando-se.

    — Eu achei pensar nisso um pouco estranho, admito, mas… só responde minha pergunta de uma vez.

    — Ah, tá bom! A Yunneh gosta muito da Madallen, mas nunca se declarou pra ela. Yun até já visitou Harlon pra tentar encontrar ela uma vez, mas, como não achou, foi embora. Elas se conheceram 7 anos atrás, quando fomos fazer o Teste de Categorização lá em Sirius, na capital de Quilionodora.

    — Faz bastante tempo…

    — A Yun ficava falando dela várias vezes por semana, falando de como achava ela linda, de como gostava do cabelo dela. Uma vez até achei uma coleção de desenhos que ela fez da Madallen, tinham uns trinta desses em uma gaveta. — Fechou os olhos, tentando lembrar de outras coisas, mas sem sucesso.

    — Velgo, você não estava brincando mesmo em chamar sua irmã de obcecada então… — Mark deu uma risada baixinha e olhou para a filha ao lado, deitada no sofá. — Madallen nunca foi de se interessar em relacionamento com ninguém, apenas passou o fim da adolescência e o começo da vida adulta focada em treinar e realizar missões em nome da vila. Não sei se ela vai querer isso, mas vou te pedir uma coisa: quando ela acordar, faça a Yunneh Velgo se declarar então.

    — A-ah… M-mas. — Verion não estava entendendo nada naquele momento, completamente perdido. — Por que você aceitou isso tão de repente? Não disse que achou estranho?

    — Vou ser honesto… só não quero que minha filha fique sozinha. E se tem alguém que ama tanto ela, que com certeza não vai deixá-la sozinha, já é uma escolha correta, o resto não me importa mais. O bem-estar dela sempre será a prioridade, não importa o quê.

    — Ufa… — Verion levou a mão à testa, mais tranquilo. — Que bom que não ganhei motivo pra me arrepender de ter acabado falando daquilo sem querer… Eu não ia querer você tratando minha irmã como uma esquisita ou algo assim por gostar de mulheres…

    Ele encarou o médico com um olhar muito sério sem nem mesmo piscar por muito tempo, até começar a ser um pouco bizarro.

    — Ei, não precisa me olhar assim também! — Mark apontou para o rosto do garoto do nada.

    — Foi mal, mas você me entendeu! — Verion cruzou os braços e desviou o olhar.

    Mark e Verion acabaram dando uma risada juntos por conta da situação, mesmo naquele dia tão pesado. O clima naquele andar estava um pouco mais leve em comparação com o momento da chegada dele. O fraco sorriso alegre no rosto de Mark tornou-se resignado.

    — Maria, minha esposa, morreu. Não tenho certeza de como Madallen lidou com isso ou vai lidar quando acordar. Eu prefiro que ela não fique sozinha, é por isso que estou aceitando isso tão fácil. Quero que alguém que realmente se importa com ela esteja ao seu lado para apoiá-la naquilo que eu não puder apoiar… Maria reclamava, com razão, de eu ser um pai ausente por conta do meu trabalho para cuidar dos habitantes da vila. Agora quero conseguir a Definição da Vitalidade para curar os outros mais rápido e poder ter mais tempo de ficar com a Madallen. Porém, mesmo que eu esteja próximo por mais tempo, tem coisas que os filhos nunca contam aos pais, mas acho que ela contaria para Yunneh caso estivessem juntas. Parece um motivo bom o suficiente para você?

    — Ahm… acho que faz sentido sua linha de pensamento.

    “Que bom que ele achou isso uma boa ideia…”

    “Bem, mesmo que ele fosse contra isso, a Yunneh ia ignorar ele completamente. Ela com certeza se casaria com a Madallen se tivesse chance, eu consigo dizer só pelo olhar que tinha enquanto falava sobre ela.”

    — Madallen merece ter alguém que com certeza pensaria no bem dela. Minha filha é meio inconsequente, então prefiro que seja assim, quero alguém de olho nela para que não faça nenhuma besteira muito grande.

    “Meu senhor… minha irmã no mínimo é cem vezes mais inconsequente!!!”

    “Ahhh… que saudades de ver minha irmã fazendo umas coisas malucas.”

    Inesperadamente, o escarlate que tomava tudo desapareceu e o ambiente retornou às cores e luminosidades normais. Mark, Jon, Verion e Charles saíram do casarão para ver o que havia acontecido logo depois da repentina mudança.

    O céu azul, sem nuvens, brilhava esplendorosamente como sempre brilhava nas manhãs ensolaradas. Centenas de moradores saíam de suas casas para observar, enchendo as ruas da vila em vários pontos.

    “A Lança da Calamidade ficou translúcida?”

    A colossal arma não parecia ser mais um objeto físico, transformou-se numa imagem fantasmagórica e um tanto transparente, uma mancha vermelha no céu. O calor que emitia anteriormente cessou, permitindo que todos pudessem retornar às ruas com alguma tranquilidade.

    — O que foi isso agora? — questionou Jon, olhando para cima.

    — O período de investigação deve ter começado, Layla Zayn deve ter deixado a lança inativa enquanto isso para não causar muito mais tumulto… — respondeu Charles.

    “Em 90 dias o destino da nação vai ser decidido…”

    “Espero que a gente se livre dessa situação, mas vai ser problemático e difícil.”

    Harlon, 26/04/029, às 10:23.

    No segundo andar, pouco tempo após a lança ficar parcialmente inativa, Verion e Mark estavam juntos conversando novamente. Haviam conversado sobre a destruição de Aludra e um pouco mais de suas vidas. Verion logicamente não disse nada sobre a situação em que estava colocado por conta de Aurelius.

    — O que você pretende fazer agora, Velgo? — Mark fazia cafuné em Madallen, um pouco tranquilo em saber que ficaria tudo bem se a levasse até a nação de Vegarten. O coma era passageiro e fácil de resolver para alguém realmente poderoso.

    — Quero ir até Raptra conhecer uma pessoa, era isso que eu estava indo fazer antes de pararmos aqui na vila. Nós só queríamos comprar algumas coisas pra nossa viagem e acabamos chegando depois do ataque na vila. Acabei perdendo todo meu dinheiro e minhas poções na caverna, então é… acho que vamos sair daqui de mãos vazias.

    — Te empresto algum dinheiro, não precisa se preocupar — Mark respondeu prontamente.

    — Tem certeza que vai ficar tudo bem se me emprestar esse dinheiro?

    — É um pagamento justo pelo que você fez aqui, então não pensa muito sobre isso. — Ele uniu as mãos, pensando um pouco. — Acha que ainda vai estar em Raptra daqui duas semanas?

    — Provavelmente sim. Não acho que vou sair de lá tão cedo, é bem possível então.

    — Se ainda estiver lá mesmo, vou me juntar a você, eu e Madallen, vamos tentar te ajudar naquilo que pudermos por um tempo. Raptra e Vegarten são lugares próximos — Mark falou, demonstrando algum entusiasmo com a ideia.

    — Vou estar na capital de Raptra, Rigel. Vai ser fácil me achar, vão ficar fofocando sobre eu ser um Velgo por aí, então é só perguntar pela cidade até me encontrar. — Verion sorriu para o médico.

    “Talvez estejam em risco por ficarem próximos de mim, mas eu preciso de ajuda de toda forma.”

    “Não sei que tipo de pessoa é Vincent Velgo, então ter mais pessoas ao meu redor é o mais seguro. Mas… espero que ele seja alguém legal.”

    Minutos depois, Verion saiu do casarão e foi checar todos os habitantes sobreviventes da vila. Queria ter certeza de que não existia nenhuma pessoa com qualquer ferimento que fosse em toda a extensão daquele território. Sentia que precisava terminar o que não conseguiu no dia anterior por ter desmaiado. O guia, Jon, o acompanhou nesse tempo.

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