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    Harlon, 26/04/029, às 15:09.

    Na floresta carmesim a sudeste de Harlon, as coisas estavam pouco movimentadas. Apenas uma dupla de pessoas bastante estranhas quebrava o silêncio daquele espaço.

    — CARA, tem um corvo me olhando muito! — berrava Jeremiah.

    — O que tem? Você já enfrentou coisas piores que um corpo — disse Jean Thar, um jovem adulto de cabelos castanhos bagunçados que usava óculos redondos.

    — Tu disse corpo?

    — Disse corvo — respondeu com o dedo indicador levantado ao lado do rosto.

    O animal estava empoleirado entre vários galhos espessos, bem camuflado. Jeremiah prestou atenção e percebeu uma identificação presa em uma das pernas da ave, um nome de registro.

    — O corvo Bitico! — Apontou a espada carmesim para o animal.

    — Ignora ele, precisamos achar aquela coisa que disseram que estava por aqui.

    Jeremiah e Jean vieram para região para encontrar uma criatura mágica. Os relatos falavam de uma aberração quase transparente que possuía grande força física e velocidade. Dezenas de pessoas que tentaram enfrentá-la acabaram desaparecendo e nunca mais retornando.

    O mascarado ficou muito interessado no assunto e convidou um amigo para tentar matar ou capturar a tal criatura. Jeremiah queria tê-la de troféu para demonstrar que era forte. Era isso que tinham como objetivo naquele dia.

    — Comam vegetais — pediu cordialmente antes de levantar voo e sumir acima da copa das árvores.

    — Essa coisa falou…? — Jean, desacreditado, segurou na armação dos óculos.

    — Que sacanagem, a pomba vegana!

    — É um corvo. E foco! Não sabemos nem o que é aquela coisa no céu, é melhor resolvermos o que queremos e irmos buscar informação.

    O mascarado olhou a colossal arma voadora acima do país e soltou um sincero: — Mó lançona, né?

    Jean quase o xingou, mas tentou manter a calma. Seguiram viagem pela área sudeste do país. Enormes e profundos rios dominavam aquele espaço, leitos abertos pelas garras de Quilionodora milênios antes, durante a Guerra das Deidades.

    Demorou para que encontrassem algo de chamativo entre os corpos d’água e vegetação carmesim. Acharam um grande chão de pedra polida no qual erguia-se uma árvore escura muito maior do que todas as outras nas redondezas.

    Jeremiah passou um minuto inteiro cutucando a madeira com sua espada. Levou um soco do amigo e tentou fazer algo mais útil. A dupla logo percebeu pequenos buracos na estrutura, existia algo abaixo. O loiro, tão ponderado como sempre, arrebentou tudo com um chute, fazendo ele e Jean caírem por alguns metros no interior do lugar.

    — Ai… avisa na próxima para que eu fortaleça meu corpo — resmungou com dor nas costas por ter despencado como um saco de batatas.

    — Caí de pé, bem que disseram que eu era um gatinho!

    — Nunca disseram isso, loiro cretino. — Ajeitou os óculos e levantou do chão.

    — Alguém deve ter dito em algum momento!

    Aquela enorme árvore embrenhou-se no subsolo através de diversas fissuras, criando uma intrincada rede de raízes que formava um paredão de madeira nas profundezas empoeiradas daquele corredor abandonado. Rachaduras expostas indicavam a fragilidade do local.

    Jeremiah, por conta da barreira de madeira, pensou: “Pau grosso…”.

    — Como vamos passar desse lugar? Essa estrutura de túnel parece frágil e não sabemos o quanto essa árvore está sustentando esse lugar. Precisamos de um jeito de atravessar isso sem destruir tudo…

    — Eu tenho um plano perfeito, profundo e certificado por pelo menos oitenta instituições de segurança… — O loiro levantou a espada lentamente.

    — Anh?

    Jeremiah incendiou o corredor inteiro, torrando toda a madeira no caminho em questão de segundos. O teto começou a esfarelar pela falta do que o sustentava, as raízes eram de fato responsáveis por isso. A fumaça da madeira queimada rapidamente dominou o lugar.

    — Resolvi Jeanzinho! — comemorou orgulhoso de si mesmo, apesar de não haver motivos reais para se orgulhar do que fez.

    — Idiota, como vamos respirar com tanto gás carbônico no ar de um espaço fechado?!

    — Gás de quem? — Jeremiah sabia perfeitamente o que aquilo significava, só queria ser irritante na verdade.

    Jean socou a parede para não bater nele novamente e simplificou: — Fumaça faz mal.

    — É só não morrer que você não morre — afirmou confiantemente e avançou, risonho, no corredor em chamas no meio da chuva de pedras e detritos.

    — Não me deixa aqui! — O jovem de óculos correu com tudo para alcançá-lo.

    Percorreram centenas de metros juntos, correndo e atravessando diversas áreas obstruídas e avariadas. Alguns corredores tinham curvas e Jeremiah acabava batendo de cara nas paredes por estar rápido demais. No fim, após algumas pedradas na cabeça, eles emergiram em um grande espaço sombrio.

    O salão tinha a mesma coloração de pedra polida clara que viram na superfície, com exceção de uma certa parte. Um caminho de pedras escuras, bem evidente, atraiu o olhar de ambos. Tochas acompanhavam as laterais desse chãos mais escuro e, ao fim, lançavam luz sobre um gigantesco portão enferrujado.

    “Opa, tochinhas, alguém apareceu por aqui tem pouco tempo.”

    O amigo do mascarado prestou maior atenção no portão, identificando um mecanismo complexo que solicitava uma senha. Era um claro enigma a ser solucionado.

    — Jeremiah, precisamos encontrar algum tipo de combinação! — disse, animadíssimo com a ideia de resolver um mistério.

    — É 3, 2, 1 a senha.

    — Como assim? Não poderia ser tão fácil como 3, 2, 1…

    — Obrigado pela contagem regressiva! — Jeremiah correu e explodiu o portão de centenas de toneladas com um golpe da espada, mandando-o pelos ares.

    — Não vou comentar nada… — Jean apenas suspirou, frustrado, sentindo um zumbido no ouvido pelo barulho da explosão.

    — Partiu!

    Adentraram num grandioso salão circular, vendo o portão enfiado profundamente em uma das paredes. Milhares de túnicas brancas, formando uma espiral no chão, rodeavam um grande altar branco. Uma passagem no teto do ambiente iluminava um ponto específico.

    O chão era desconfortavelmente limpo e perfeito, aparentando estar intocado pelo tempo.
    A mente pensante da dupla seguiu adiante por alguns metros até alcançar as roupas. Notou manchas de sangue recente em algumas.

    — Jeremiah, alguém foi ferido aqui recentemente. — Ergueu a túnica na altura dos olhos.

    — Uma tocha fica acesa por umas 6 horas, então é bem recente mesmo.

    — Com esses detalhes você é bom, hein? — Balançou a cabeça em desaprovação.

    — Sou um grande admirador da arte de incendiar coisas…

    — Fique longe da minha casa, que ela é feita de madeira… — Jean apontou para o rosto de Jeremiah enquanto encarava de forma suspeita.

    Caminharam juntos até mais perto do altar, parecia haver alguma coisa interessante lá, onde o sol iluminava pela passagem no teto. Conforme se aproximavam, uma ampulheta ficava mais evidente no espaço central.

    Tinha algo de curioso naquele objeto, causava em Jeremiah, que tinha o Roha mais intenso dentre eles, uma sensação um pouco aflitiva.

    “Essa coisa não é normal.”

    Diante de algo que aparentava um perigo real, Jeremiah deixou o clima brincalhão totalmente de lado antes de começar a seguir sozinho, correndo freneticamente até o local. Manteve a espada em riste, próxima ao corpo, preparado para destruir e matar qualquer coisa que pudesse machucá-los.

    Apontou a lâmina para a ampulheta, mantendo-a a poucos centímetros do objeto, esperando que algo ocorresse. Nesse momento, percebeu um texto cravado naquela pedra.

    Escondido no interior do altar, há um disco dourado que detém o segredo de uma força inimaginável. Apenas os que trilham o caminho da perfeição podem sequer pensar em usufruir de seu poder. Mas e se a perfeição não for o seu destino? Caso não seja, roube este objeto e o leve para fora daqui, até que alguém digno apareça. Tire isso daqui!

    Estou me divertindo muito hoje! Dê olá ao Avicé!

    Assinado: Belphegor Nerose.

    “Disco dourado? Que conversinha maluca foi essa?”

    — Se essa merda tá dentro do altar, eu vou é arrebentar esse altar aí todinho! — Jeremiah ergueu a espada.

    E, no momento em que desintegraria totalmente o altar, um barulho fino e estridente veio da ampulheta. Jeremiah hesitou e uma gota gélida caiu em sua cabeça, escorrendo por seu rosto.

    “Em cima!”

    Uma das criaturas de Bel, idêntica a que havia lutado contra Yunneh Velgo, desceu do teto em alta velocidade, pronta para tentar cortar o mascarado ao meio. Entretanto, ele bloqueou o golpe no momento perfeito, gerando uma enorme explosão que a arremessou contra o teto do salão.

    — Que coisa é essa?! — Jean recuou, voltando para perto de onde ficava o portão.

    — Não faço ideia, mas hoje parece que eu vou ter uma luta interessante! — Sorridente, viu o monstro voltar ao chão com restos do teto que estavam desabando pelo salão.

    O monstro avançou veloz contra seu alvo, visando o tempo inteiro atingir o pescoço. Jeremiah, de prontidão, tentou atingi-lo quando chegou perto, mas a espada carmesim atravessou como se não existisse nada. O mascarado conseguiu pular para trás, quase tombando no chão, para desviar do ataque.

    “Entendi, não dá pra bater nele até o momento exato em que ele ataca. Que carinha chato.”

    Era algo quase transparente e reflexivo. A luz solar que invadia o ambiente dava os contornos de seu corpo, revelando uma forma humanoide e líquida, fluindo.

    A criatura se virou na direção de Jean e avançou.

    “Opa…”

    O jovem de óculos viu aquela coisa se aproximar, mais e mais em poucos segundos. A poucos centímetros de si, acreditando que seria atingido, viu Jeremiah entrar no caminho entre ele a aberração líquida.

    Jeremiah deixou-se ser atingido sem se proteger com qualquer Roha propositalmente. Parte de seu ombro e seu pescoço foram rasgados e uma enorme quantidade de sangue começou a jorrar, caindo no chão.

    — Foi mal coisinha, no meu amigo você não toca — dizia enquanto a voz ficava mais estranha, afogada em sangue. — Quilionodora.

    Uma forte aura vermelha o rodeou, fazendo o chão ao redor estremecer levemente. O olhar, por de trás da máscara branca com detalhes dourados, estava alegre por ter encontrado uma luta que parecia ser divertida.

    “Não vou me regenerar desses ferimentos, quanto mais ferrado melhor pra mim.”

    Os seguidores de Quilionodora ficavam cada vez mais fortes e mais resistentes à medida que se aproximavam mais da morte. Todas as feridas que pudessem receber de seus inimigos eram na verdade um favor.

    — Jeremiah, você tá bem? — Jean deu um passo para trás.

    — Uhum, tô legal! — Ele riu, fazendo o Roha fluir até a lâmina. — É melhor você sair daqui e me esperar na floresta, vou botar esse lugar inteiro abaixo e não quero te matar por acidente!

    Jean ouviu aquilo e voltou disparado em direção aos corredores destruídos, ficar lá em uma luta séria era uma péssima ideia. Ele sabia da força de Jeremiah naquela época, o Grau Intermediário III.

    Quando acreditou que o amigo já havia se afastado o suficiente, apenas proferiu duas palavras.

    — Revelação: Inferno.

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