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    Proximidades do abismo em Aludra, 26/04/029, às 15:33.

    — Ahh… nada termina bem na minha vida, né? — John, o maníaco do café, segurava uma vara de pesca na mão direita e uma xícara de café na esquerda. Deu um gole e respirou fundo. — Eu só saí pra pegar uns peixes, começar um novo passatempo, caralho!

    À frente de seu pé, estava um balde repleto de peixes e, mais adiante, um abismo negro que se estendia para além do horizonte. Não restavam dúvidas, a região da cidade de Aludra havia sido totalmente dizimada. O vazio total dominou e devorou cada metro daquelas terras.

    — Quilionodora é realmente um deus fracassado… — O homem se abaixou e pegou um peixe do balde, segurando-o na palma da mão e liberando chamas cuidadosas para prepará-lo. — Está dormindo há 13 milênios e deixa qualquer coisa acontecer no país dele… E a rainha Lisbeth não faz tanto assim na defesa do território.

    Sentou-se na beirada do abismo, se perguntando da razão do terreno não estar deslizando para seu interior naquele pedaço. Enquanto rapidamente ponderou a atrocidade de tentar misturar café e peixe em alguma receita, alguns pensamentos vieram à tona.

    “Fui embora da minha cidade natal para viver uma vida tranquila aqui, e parece que até isso perdi…”

    “Bem que eu tinha clientes legais por aqui…”

    “O que eu faço agora? Voltar a ser um desocupado não parece ser tão ruim, mas gostava de fazer café e comida para as pessoas… e analisar mercadorias interessantes.”

    “Ah, melhor eu decidir um novo lugar para onde ir…”

    — Hora de vender esse relógio de pulso que comprei do Verion e arrumar um dinheiro novo. — Olhou brevemente o acessório.

    Floresta a Sudeste de Harlon, 26/04/029, às 15:49.

    O odor de madeira queimada e fumaça pairavam, circulando entre as árvores e dominando as proximidades. Verion e o guia, Jon, ainda não conseguiam visualizar o fogo ou as árvores destruídas, mas acreditavam estar chegando perto. O ar era incômodo de se respirar, quase sufocante.

    “O que o Jeremiah fez por aqui?”

    “Deve estar perto e com problemas, talvez.”

    — Seu amigo definitivamente tem alguma coisa contra a natureza.

    — O Jeremiah nunca foi muito de pensar profundamente nas coisas, acho que ele só foi lutar e esqueceu que o fogo… queima coisas. — Verion coçou levemente a bochecha, franzindo as sobrancelhas ao lembrar de casos duvidosos e malucos do passado.

    Por alguns minutos, seguiram caminho por onde a fumaça e o cheiro de queimado pareciam mais intensos. Aves variadas abandonavam seus ninhos e voavam velozes acima da copa das árvores, dispersando-se da área para evitar o sufocamento e o calor.

    “Aludra…”

    Enquanto a inevitável e desconfortável memória sobre o extermínio causado por Circe reaparecia em sua mente, conseguiu perceber ao longe um rastro de sangue. Seus olhos, que estavam semicerrados pelo estresse, se abriram totalmente com a surpresa.

    — Deve ter acontecido alguma coisa naquela direção, tem sangue! — O garoto avançou em alta velocidade e o guia o seguiu prontamente, temendo deixá-lo para trás após saber que algo mais sério havia ocorrido por lá.

    A trilha de sangue parecia quase infinita, seguia ao longo de centenas e centenas de metros entre as árvores. O sangue aparentava estar fresco, não tinha aparência ressecada ou sinais de que estava lá por mais de 10 a 20 minutos. A fumaça cinzenta e negra recobria tudo naquele ponto, tornando a visibilidade quase nula.

    “Ninguém tem tanto sangue assim no corpo… O Jeremiah deve ter começado a se regenerar enquanto era atacado e deixou esse rastro de sangue… mas quem botaria ele pra correr?”

    “Ele disse que veio caçar algum monstro nessa floresta, mas… essa coisa era tão forte assim?”

    — Tem marcas de pegadas por cima do sangue naquela parte ali! — Jon apontou e correu mais, ultrapassando Verion e acabando por ver aquilo.

    O sangue pingava e escorria lentamente pela madeira, vazando das feridas abertas. Não importava para qual canto se olhasse, havia sempre um corte profundo. As costas do loiro mascarado repousavam contra um tronco, enquanto sua respiração debilitada era ainda mais obstruída pela fumaça que invadia seus pulmões. Estava inconsciente, mas se estivesse desperto teria a desagradável sensação de ardor com aquele ar.

    A reação assustada de Jon trouxe Verion para ainda mais perto.

    “O que aconteceu aqui?”

    — Jeremiah?! — O garoto se abaixou perto dele e notou o que a fumaça estava lhe causando. Com o Vento, expandiu uma esfera de ar esverdeada e empurrou toda a fumaça ao redor para longe.

    Na maior visibilidade, outros detalhes tornaram-se aparentes aos olhos. A espada carmesim de que tanto o espadachim se orgulhava teve a lâmina destroçada, somente restando metade dela, de forma irregular. A armadura leve que utilizava por cima de suas vestimentas estava rompida, como se algo tivesse a atravessado diretamente, mesmo com a proteção do Roha. Nas pernas, diversos pontos roxos espalhavam-se e cresciam pela pele como uma mancha de tinta em expansão.

    Verion gritou o nome da Deusa da Vitalidade e realizou imediatamente o processo de cura com potência máxima. Todas as feridas foram fechadas em questão de milésimos, restaurando pele, músculos, ossos e recriando mais sangue para correr em suas veias. Entretanto, a mancha roxa persistiu na pele.

    “Essa coisa… A Circe retomou o controle e está por aqui?”

    “A Vitalidade me diz que essa coisa é uma maldição… Eu fiquei mais forte depois de voltar da morte, mas mesmo assim sou incapaz de curá-lo disso.”

    — Ele está bem? — Jon observava ao lado, atento.

    — Espera um pouco… — Verion estendeu sua mão ao rosto de Jeremiah, removendo a máscara branca com detalhes dourados. — Não muito, mas não parece sério demais por agora…

    O belo rosto e os cabelos dourados tornaram-se mais visíveis após tirar a máscara. Pouquíssimos fios brancos apareciam, indicando que de fato havia sido amaldiçoado.

    “Pela quantidade, diria que é uma maldição pouco letal, mas eu vi muito bem o que a cor roxa que a Circe produz é capaz de fazer.”

    Verion agarrou nas alças da bolsa de ombro dada por Mark, e uma possibilidade desagradável surgiu dentre seus pensamentos.

    “Não foi a Circe… Se fosse o caso, ele não teria sobrevido de forma alguma. E pelo que sei daquelas memórias dela, não era desse jeito que essa cor roxa funcionava.”

    “As criaturas que ela invocava deixavam as coisas cada vez mais roxas através dos toques para poderem ser apagadas da existência. Mas isso aqui tá diferente… parece que se espalha sozinha mesmo sem a presença dela ou de uma invocação. Também ninguém que foi tocado anteriormente ficou com os cabelos brancos naquelas memórias, então isso é mesmo uma modificação, algo diferente daquele poder.”

    “…Foi a Lyria que fez isso.”

    Verion tentou manter a calma, não seria bom se deixar levar pela preocupação naquele momento que acreditava ser crítico. Ele se abaixou e utilizou pouquíssimo Roha, apenas o suficiente para aumentar sua força física. Segurou Jeremiah desacordado em seus braços e começou a caminhar pela floresta, se certificando de tomar cuidado para não deixá-lo cair.

    “Ainda deve estar por perto. Se eu conseguir conversar com ela, devo dar um jeito de tirar essa mancha dele antes que se espalhe mais.”

    — O que você vai fazer agora?

    — É melhor irmos para a encosta de algum morro ou montanha próxima, fica mais seguro de tomarmos conta dele. Vai ser menos uma direção de que podemos ser emboscados, não precisaremos nos preocupar com nossas costas. Se encontrarmos uma caverna é melhor ainda.

    — Tudo bem então. — Jon começou a segui-lo no mesmo ritmo. — Faz sentido que sua cura não tenha feito ele acordar?

    — Eu consigo curar o corpo, coisas como exaustão muscular e afins, mas não o Roha. — Verion suspirou. — Acho que ele desmaiou por falta de Roha, deve ter usado tanto que o corpo dele não consegue se manter de pé nesse momento.

    “Eu consigo regenerar partes do corpo e eliminar doenças simples com a Vitalidade, mas alguns sintomas isolados, sozinhos, não muito bem… Se ele acordar enjoado ou tonto, talvez com dor de cabeça, e isso não tiver relação estrita com uma doença, como no caso de falta de açúcar no sangue, desidratação ou uma baixa em algumas vitaminas, não vou poder mexer nisso diretamente.”

    “Talvez eu consiga encontrar ervas e plantas úteis para isso nessa área. Não sei como é a alimentação dele hoje em dia, então é bom fazer algo bom e rico em vitaminas para o corpo dele. Quanto mais saudável, mais rápido vai recuperar o Roha.”

    Caminharam por parte do percurso indefinido, começando a correr em certo ponto ao avistarem um morro onde poderiam ficar por perto. Conforme seguiam, viam as folhas das árvores carmesim se tornarem mais claras, uma diferença que ocorria ao sul do território. Entre o som do farfalhar das folhas, mais pensamentos vieram-lhe à mente.

    — Aconteceu alguma coisa, Verion? Você começou a se mover de um jeito diferente — disse Jon, com uma voz um pouco preocupada.

    — Ah, não é nada! Eu só pensei sobre uma coisa que Jeremiah citou lá em Harlon. Ele falou que ia encontrar um amigo por aqui, nessa região.

    — Acha que ele está vivo?

    “A Lyria não faria isso…”

    — Sim, acredito que sim! — Verion respondeu confiantemente. — A questão agora é conseguir achar ele nesse meio do nada!

    Em alguns minutos, alcançaram a encosta do morro que, por sorte, tinha uma caverna bem exposta em sua base. Instalaram-se no local, como um acampamento improvisado para poderem prestar atenção no estado de Jeremiah. Verion recolheu muitas folhas carmesim e as juntou para servirem como um tipo de travesseiro. Não podia ser chamado de confortável, mas era melhor que deixá-lo com a cabeça no chão duro e pedregoso.

    — Você trouxe mesmo essa coisa? — Verion questionou ao ver o guia segurando a espada quebrada de Jeremiah.

    — Preferi trazer, normalmente os espadachins tem algum apreço estranho por essas coisas… pelo menos a maioria com a qual lidei era assim. Quis trazer isso junto da máscara por essa dúvida, talvez ele queira guardar essa coisa depois. — O homem guardou ela de volta em sua mochila e se sentou ao lado do desacordado.

    — Quer ficar aqui de guarda? Vou procurar algumas coisas para fazer comida pra ele.

    — Temos pão e frutas na mochila ainda, não serve?

    — Quero pegar ervas e outras coisas pra ajudar na recuperação dele. Não devo demorar muito, então pode ficar tranquilo. — Verion acumulou Roha nas pernas para correr. — Se acontecer alguma coisa, eu volto aqui o mais rápido possível.

    — Ok… — respondeu, decidindo confiar na ideia dele.

    Verion seguiu sozinho entre as árvores, prestando atenção no solo e nos arredores. Por centenas de metros adiante, buscava atentamente por ervas ou plantas interessantes para fazer alguma receita improvisada.

    “Ter aprendido sobre essas coisas pra entender aqueles remédios do meu pai foi útil. Ele era uma enciclopédia viva mesmo.”

    “Seria ótimo encontrar bardana… Lembro que isso existia nessa região do continente.”

    Em mais alguns minutos de procura, encontrou algo que seria muito útil: uma planta de dente-de-leão. De pequenas flores amarelas e brilhantes, possuía folhas verdes e longas que pareciam ter sido cortadas com uma tesoura, um aspecto dentado. Era de fácil reconhecimento para Verion, principalmente pelo detalhe mais memorável, as flores em sua etapa de produção de sementes, uma bolinha branca que podia ser assoprada.

    “As raízes dela são bem longas e firmes no chão, então se eu tentar removê-las só com força bruta pode ser que parte da raiz se parta e fique presa na terra… seria desperdício.”

    Ajoelhou-se na terra e utilizou o Elemento Vento para escavar cuidadosamente ao redor, removendo as camadas do solo adjacentes até deixar a raiz visível. Após isso, atravessou o solo com os dedos, tendo aumentado sua força com o Roha, para conseguir agarrar. No fim, conseguiu removê-la por completo, juntamente da planta.

    “E não é que funcionou mesmo?”

    Verion cortou a raiz do resto da planta e guardou em sua bolsa de ombro, em seguida pegando todas as folhas dentadas de aparência mais saudável para também levá-las. Encontrou mais plantas iguais pela área e realizou o mesmo processo em todas, até quase encher parte de sua bolsa.

    Prosseguiu um pouco mais aliviado por ter encontrado algo importante tão rápido. Conforme seguia procurando mais coisas, acabou encontrando muitas árvores queimadas a partir de certo ponto. Também algumas congeladas pelo caminho. Surpreendeu-se por descobrir que o confronto de Jeremiah e Lyria teria ido tão longe na floresta em relação ao ponto onde o encontrou desacordado.

    “O que será que tem nessa direção?”

    “A fumaça tá muito escura pra lá, tem muita…”

    O coração acelerou, mesmo que não acreditasse estar correndo risco naquele momento. Seus passos velozes o levaram até a área onde ficava o salão subterrâneo onde o loiro e a criação de Bel haviam lutado. O ar era insuportável de se respirar, praticamente impossível, queimava os pulmões tamanha sua toxicidade. Verion separou-se do ambiente em uma esfera de ar que repelia a fumaça de forma contínua.

    Mas algo estava diferente, muito diferente.

    Os olhos, desacreditados, viajaram por aquilo em toda sua extensão visível, uma cratera enorme, um buraco carbonizado e incinerado. A sílica do solo havia se tornado em um vidro obscuro que refletia bizarramente os poucos raios de sol capazes de atravessarem a neblina tóxica. Não existia nenhum resquício de árvores ou vegetação para além de uma fina camada de pó preto.

    “O Jeremiah consegue ser assustador quando quer… Ele ficou muito forte nesses últimos anos.”

    “A Lyria deve ter ganho um bom controle da força da Circe pra ter aguentado isso aqui e ainda sair viva.”

    “É melhor eu sair daqui e continuar procurando mais coisas, não faz sentido continuar nesse lugar.”

    No momento em que se virou de costas, um reflexo de luz que aparentava não fazer sentido atingiu seus olhos brevemente. Por instinto, decidiu correr na direção de onde sentiu aquilo vir, até chegar em um lugar bem próximo, ainda adjacente ao raio de destruição.

    — Tem alguém aí? — perguntou Verion, mantendo a voz calma e amigável.

    Barulhos de passos lentos vieram, alguém se revelando ao sair de trás de uma árvore. Um jovem de cabelos castanhos bagunçados e óculos redondos, era Jean. Seus shorts estavam um pouco queimados e sua camisa estava cheia de terra e cinzas, parecia acabado e cansado.

    — Você que é o Verion?

    — Ahh… É, sou eu sim! — Assentiu.

    — Ok, a descrição do Jeremiah de que você era baixinho e tinha cara de bobo estava certeira. — Ele ajeitou os óculos na face.

    “Loiro maldito…”

    — Eu tenho 1,66 de altura! Eu nem sou tão baixo assim! — gritou, apontando para o rosto dele e, após um longo suspiro, dizendo — Você deve ser o tal amigo dele, então posso falar. Eu encontrei o Jeremiah desacordado bem longe daqui e curei os ferimentos que tinha. Se quiser ajudar, é melhor me seguir.

    “Depois pergunto sobre o que exatamente aconteceu aqui, ele deve saber disso.”

    Ambos seguiram juntos, enquanto Verion explicava sua busca por ervas e plantas nutritivas para Jeremiah.

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