Capítulo 60 - Interlúdio
Verion e Lyria caminhavam juntos em direção ao acampamento na caverna. A garota girava entre os dedos a rosa, admirando a cor vivaz presente nela. Sentia uma estranheza com o contraste de sua palidez e o vermelho daquela flor. Ainda não se enxergava como parte daquele mundo, mas sim como uma anomalia.
— Lyria, eu vou pra Raptra agora, é um país vizinho. Preciso encontrar uma pessoa lá, mas também é uma oportunidade pra você conhecer coisas novas. O que quer fazer por lá?
Ela coçou a bochecha silenciosamente, tentando lidar com uma certa timidez de conversar com ele sobre assuntos tão casuais, como uma amiga, após falar de coisas sombrias e complicadas. Afastou momentaneamente o sentimento estranho e decidiu responder.
— Quero encontrar uma biblioteca grande ou alguma coisa assim… Gostaria de saber mais coisas sobre a minha mãe. — Voltou o olhar para Verion.
— Aah… sua autora, né? Você não me explicou essas coisas, mas sei por culpa da Circe…
— Tudo bem, isso é estranho, mas é bom que já saiba. Acho que se eu encontrar uma biblioteca grande e famosa em Raptra, posso encontrar autores e perguntar sobre ela por aí… O problema é que infelizmente nem sei o nome dela, isso estava riscado no livro.
Lyria atravessou a mão no próprio corpo e retirou o livro de si, deixando com que algumas gotas de tinta caíssem sobre a grama enquanto andava. Estranhamente, o livro parecia intacto, sem manchas ou molhado apesar de ter ficado imerso na tinta. Ela exibiu a parte onde deveria estar o nome da autora, mas só havia um rabisco por cima. Todas as outras informações também estavam rasuradas.
— N-não é desconfortável deixar um livro dentro de você?
— Não sinto as coisas que guardo aqui, para ser sincera. — Ela tirou uma maçã do corpo na altura do torso. — Decidi guardar isso antes de fugir de Harlon… não sabia se iria encontrar mais.
“Isso é muito estranho! Ai…”
“O que mais ela tá guardando ali?”
— Ei, isso pode ser meio inesperado pra você, mas eu sei qual é autora do livro. Minha irmã leu isso algumas vezes e falava sobre a autora, o nome dela é Lya Seshat.
— Lya… entendi, entendi. — Lyria reescreveu o nome completo daquela que considerava sua mãe no lugar onde deveria estar no livro, usando suas próprias unhas como se fossem algum tipo de caneta improvisada.
— Acho que a Yunneh ia gostar de conversar com você.
— Onde ela está agora? — Lyria inclinou a cabeça com curiosidade.
— Provavelmente deve estar em Lumina, o país de uma semideusa. Yun precisaria parar lá de qualquer forma.
Neve caía suave pelas ruas asfaltadas e no topo das construções, acumulando-se. A cidade era modesta, com prédios de quatro andares e postes de energia rudimentares no canto das calçadas. Alguns carros de modelos muito antigos percorriam as ruas, o som dos motores bem evidentes.
Yunneh, coberta por seu pesado e preto sobretudo, repousava em uma cadeira na frente de um restaurante na capital de Lumina. O clima era frio e isso lhe trazia certeza de que aquela peça de roupa havia sido uma escolha certeira para viajar. Não que fosse fazer diferença para ela… vivia congelando coisas.
Inclinou a cabeça para frente enquanto tentava utilizar um celular de botão. Parecia uma senhora de idade tentando operar os controles de uma usina nuclear. Era a primeira vez que usava um aparelho do tipo, e doía a cabeça tentar entender. Mantinha um manual na mesa e o olhava vez ou outra.
“Que coisinha ingrata!”
Uma barulheira infernal vinha de algumas centenas de metros do restaurante, algo havia acabado de explodir e fazer tudo tremer nas proximidades. Apesar da comoção, continuou a usar o celular.
“Karina me pediu pra tentar ser mais cuidadosa e ponderada, então vou tentar…”
“Acho que é bom causar uma boa impressão ou vai ficar esse climão de velório entre nós pra sempre por causa da morte do Darian.”
Com um dedo, discou cuidadosamente os números que queria para fazer uma ligação. Levou o aparelho à altura do ouvido e aguardou alguém responder. Um pequeno barulho indicou que alguém agora a ouvia.
— Alô, é a polícia antipirataria? — perguntou com uma expressão repleta de dúvidas. — Tem um caso enorme acontecendo aqui, acho que vocês vão se interessar!
— Sim, sim! Ligou para o departamento certo. Poderia nos explicar um pouquinho mais e passar o endereço onde está acontecendo a ocorrência? — A voz do policial era confiante.
— Ah, é que tá acontecendo mesmo um caso de pirataria dos grandes aqui. Acho que tem umas 4000 pessoas metidas nisso agora mesmo em plena luz do dia.
— Nossa… é a primeira vez que ouço falar de uma loucura dessas, já vamos chegar aí!
Yunneh passou a localização exata e encerrou a ligação depois de errar o botão três vezes seguidas. Precisaria de mais tempo para se adaptar a novas tecnologias. O bloqueio imposto por Layla Zayn a seu país lhe tirou a possibilidade de aprender como usar um celular antes.
A jovem correu para o local exato de onde vinha o barulho que ouvia no restaurante. Chegando lá, ouviu um burburinho e som de alguns disparos. Minutos depois, enquanto acontecia uma correria enorme com pessoas confusas, a polícia chegou.
Diversos carros das forças de combate à pirataria pararam na zona portuária e abriram suas portas. Homens armados se dispersaram pela área e olharam ao redor, tentando identificar o problema.
— Aê, vocês tão ferrados! Fui responsável e chamei a polícia antipirataria! — gritou Yunneh para 100 navios piratas diante do porto da cidade. Ela cruzou os braços, orgulhosa e de nariz empinado.
— Que que é isso minha filha?! Não é esse tipo de pirataria que a gente combate não! — O policial que a atendeu abaixou sua pistola. — Achei que tinha alguém vendendo DVD ilegal aqui! Tá doida pô?
— Ih, é? Foi mal, acho que confundi as coisas então… — Yunneh levou a mão ao queixo, pensativa. — E agora?
Um tiro de canhão explodiu um dos carros de polícia e Yunneh olhou para o lado como uma criança que precisaria explicar para a mãe como um vaso de porcelana quebrou. Só que no caso não era mãe alguma, era para a Karina que teria que explicar o que aconteceu depois.
“Tanto faz.”
— Nah, sabia que essa velha tava errada, vou resolver do meu jeitinho mesmo. — Ela criou um verdadeiro iceberg no céu que caiu sobre os navios como um meteoro.
— E você acha que ela tá bem?
— Acho que minha irmã deve estar bem sim — disse Verion, assentindo.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.