Capítulo 61 - Na Caverna
Caverna do Acampamento Improvisado, 27/04/029, às 08:43.
— Onde será que o Verion tá? — dizia Jeremiah com voz fraca e cansada, parecia arranhar a garganta para sair.
Seu rosto, completamente tomado pelo roxo do ataque de Lyria, ardia como se estivesse em contato com água quente. Era ruim, mas nada insuportável já que podia utilizar o pouco de Roha que recuperou durante o sono para se proteger. Pela baixa quantidade, apenas podia atrasar um pouco o processo.
— Não faço a menor ideia, mas espero que ele esteja bem… — Jean colocou as costas da mão contra a bochecha de Jeremiah para sentir a temperatura.
Passos vieram da direção da entrada da caverna. Viram primeiro Verion, ficando felizes. Depois viram Lyria olhando por cima do ombro dele e ficaram horrorizados como gatos se assustando com um pepino.
— O que ela tá fazendo aqui?! — O loiro se arrepiou todo com medo de lutar uma segunda vez.
— Podem ficar calmos, ela está do nosso lado agora! E depois explico melhor tudo! — Verion balançou as mãos pedindo por calma.
Lyria caminhou lentamente até Jeremiah e estendeu sua mão até ele, tocando em seu rosto com serenidade. O roxo que recobria o corpo retornou, voltando por seu braço até deixá-lo por completo.
— Eita… sumiu mesmo! — Estreitou o olhar e olhou para ela. — Obrigado, eu acho…
— Desculpa, mas foi você que começou primeiro ontem… — Lyria abaixou a cabeça, receosa. — Não queria ter te machucado tanto, mas fiquei com medo.
— Medo de quê? Você é muito mais forte do que eu.
Lyria permaneceu em silêncio e voltou a se esconder atrás de Verion, observando por cima do ombro outra vez. Jean ficou um pouco sem reação por um tempo, mas logo explicou que o guia saiu para fazer alguma coisa sem avisar e não havia retornado ainda.
Como Jean e Jeremiah ouviram de Jon sobre o que Lyria havia feito na vila — na verdade Circe —, ficaram com medo do que viria a seguir. Acreditavam que ela havia sido também a causadora da destruição de Aludra.
Verion explicou a situação com calma, dizendo que era algo como uma dupla personalidade. Era uma explicação insuficiente e errada, mas ele não pretendia citar o nome da deusa para nenhum deles. O guia também desconhecia o nome de Circe, então seria melhor guardá-lo para si para evitar maiores complicações.
“Se souberem desse nome, existe uma chance maior ainda da Lyria morrer. As investigações de Layla Zayn sobre quem realizou o ataque que apagou coisas da existência ficariam muito óbvias com o nome dela circulando por aí. Iriam associar na hora o poder de dizimar coisas da existência com o nome de Circe, que hoje em dia é uma deusa pouquíssimo falada ou lembrada. É melhor deixá-la no esquecimento para não virem atrás da Lyria tão cedo por conta da aparência ou boatos sobre alguém com uma foice.”
“Os relatos sobre ela vão demorar para se espalhar de Harlon até o resto do país, então se eu conseguir fazer eles ficarem quietos sobre o assunto e não contribuírem para investigação contando isso pra alguém, Lyria ficará segura por mais tempo e talvez até lá ela dê um jeito de conseguir controlar os poderes da Circe e fique segura de verdade.”
Jeremiah e Jean acharam a situação bizarra inevitavelmente. Apesar disso, acreditaram em Verion já que ela havia curado o loiro da cor roxa que se proliferava em seu corpo. Não era como uma aceitação daquela figura, mas um tipo de trégua momentânea por conveniência. Contrariar ela ou o Velgo não traria qualquer vantagem naquele instante, somente restando aceitar a situação posta e evitar problemas maiores com alguém mais forte.
— Isso é tudo muito maluco, eu sei, mas é basicamente isso… Quero ir até Raptra com ela pra fazermos umas coisas e impedir essa outra personalidade de voltar — disse, aliviado por não terem discutido.
— A-acho que quem vai pirar com isso aí é o Jon mesmo. — Jean coçou a nuca, ainda tentando processar a situação. — …Se ela tá do nosso lado por agora, acho que tudo bem na medida do possível.
— Eu juro, juro do fundo do meu coração… nada do que aconteceu foi minha intenção, só estava fora do controle… Desculpa, desculpa… — Lyria abaixou a cabeça, mantendo-se atrás de Verion.
— Erghh… esquece disso por enquanto, foi horrível mesmo o que aconteceu, mas não vale a pena pensar nisso aí agora. — Jeremiah, apesar de infeliz com a situação, tentou manter as coisas calmas.
— Concordo com o loiro bobão. — Jean cruzou os braços e deu um sorriso falso.
Alguns minutos depois, Verion e Lyria estavam sentados lado a lado em uma das paredes da caverna. Ela comia uma maçã em silêncio, cabisbaixa como se um peso a obrigasse a olhar para baixo. Não queria nem imaginar precisar ver os olhos dos outros, temendo encontrar uma expressão de reprovação ou nojo.
— Jeremiah, o que você vai fazer agora? — perguntou Verion, direto e sincero.
— Não sei… Aludra desapareceu, então eu e Jean não temos pra onde voltar. Nossas casas, conhecidos, e familiares no caso dele, não existem mais pelo jeito, né? — O loiro mordeu levemente o lábio e olhou para baixo.
— Bem… eu vou para Raptra agora, vem comigo… Você precisa de uma espada nova e tem que ir pra algum lugar em algum momento, sair dessa floresta. — Verion acenou para ele. — E você tem mais um motivo pra ir até lá, né?
— O que quer dizer com isso? — Jeremiah ergueu a cabeça e olhou nos olhos dele.
— Quando éramos crianças, teve um dia lá em Aludra que uma mulher de cabelos azuis passou pela cidade. Tinha um monte de gente falando sobre ela porque era bem chamativa. E eu acabei ouvindo a conversa que vocês tiveram. Ela pediu para você ir até Raptra e matar o pai dela quando achasse que fosse o momento certo de fazer isso.
— Charlotte… — Ele esticou o braço e pegou a espada de lâmina quebrada, que estava ao lado. — Que surpresa esquisita tu saber disso… Nem lembro quando pode ter sido a hora que você escutou isso, mas é verdade mesmo.
— É muita intromissão minha perguntar isso, mas acha que agora é a hora certa? — Verion queria tê-lo ao seu lado de qualquer jeito, era alguém forte e, acima disso, importante para ele.
O espadachim pensava em uma resposta.

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