Índice de Capítulo

    — Não, eu não sinto que estou forte o suficiente pra vencer o pai da Charlotte. — Jeremiah segurou com mais força a empunhadura da espada.

    — Então… — Verion inclinou a cabeça, expressando a mesma curiosidade de sempre.

    — O pai dela é tão forte quanto a Yunneh atualmente, também é do Grau Avançado II. Se eu me atrever a me aproximar, minhas chances de sobrevivência são minúsculas. Sou do Intermediário III, é uma disparidade enorme até lá. Esse cara é no mínimo 27 vezes mais forte do que eu. Nem Lyria teria chances, pelo que dá pra imaginar. Ainda sou fraco e irrelevante demais, essa que é a realidade aqui.

    Ele continuou: — Mas se quer saber, acho que vou ser imprudente e meio malucão mesmo. Aceito ir pra Raptra com você, principalmente porque quero rever a Charlotte e saber como ela tá agora. A última vez que vi ela foi há 7 anos… deve ter mudado bastante. Até pode ser que eu não possa cumprir minha promessa, mas não quero evitar ver ela por tanto tempo esperando esse momento certo chegar. Verion, eu não pretendia mesmo fazer isso agora, mas já que Aludra sumiu e que você vai, vou te acompanhar nessa aí. Mas vê se não me enfia em algum problemão, tampinha! Vou ajudar você e a sua amiga porque consigo perceber que tu se importa com ela, mas se a situação ficar muito estranha por algum motivo eu tô fora!

    — Ah, tudo bem! Já tá bom o suficiente, mesmo que você fique bancando o mal-humorado! Muito obrigado, Jeremiah! — Verion abriu um sorriso, aliviado por ter mais alguém para ajudá-lo com a situação de Lyria.

    — Se o Jeremiah vai, eu vou também… Não tenho nada melhor para fazer — resmungou Jean, resignado. — Raptra é um lugar bastante violento pelo que sei, por conta das facções que tomam parte do país.

    “Acho melhor eu nem falar que estou indo atrás justamente de um provável líder de facção… Depois entro nesses detalhes.”

    “Vincent Velgo, espero que você seja legal… O mais legal que alguém que cometeu uns massacres pode ser…”

    “…Ai, que complicação.”

    — É um lugar problemático, mas acho que não vamos ficar em áreas perigosas. Vamos ficar na capital, perto do grande centro, então parece ser mais seguro.

    — Espero que você esteja certo disso, Verion… — Jean cruzou os braços, fechando os olhos. — Na dúvida, me escondo atrás do Jeremiah e torço pra dar tudo certo.

    — Quer me usar de escudo humano, é? — perguntou o loiro, abrindo um sorrisinho cínico.

    Barulhos de passos, passos rápidos e um fluxo de ar intenso. Verion virou-se para a entrada da caverna e agiu por reflexo, expandindo uma lufada de vento contra o que vinha naquela direção. O vento foi forte o suficiente para fazer aquele homem sangrar, era Jon. Toda sua velocidade foi parada e ele foi ao chão, alguns metros para trás.

    — Jon… — murmurou o Velgo, pedindo logo em seguida para que Lyria ficasse atrás dele.

    — O que essa aberração tá fazendo aqui? Como você aceita ter essa psicopata ao seu lado com tamanha tranquilidade? — O guia se levantou e colocou a mão esquerda sobre um ferimento no peito. — Ela matou as pessoas da vila e talvez milhões de outras com aquele ataque que fez Layla Zayn passar a ameaçar o seu país com aquela lança no céu!

    — Se acalma! Ela tá do nosso lado agora, só me deixa explicar! — A expressão de Verion torceu-se em uma confusão por não saber como lidar apropriadamente com aquilo.

    — Não existe explicação que me faça aceitar ela estar aqui! Qual é o problema de vocês?

    — Me ouve, são como duas personalidades dividindo o mesmo corpo! — Deu um passo adiante. — Se ela estivesse mesmo com qualquer intenção negativa, mataria todos nós em segundos agora! Nenhum de nós é uma ameaça aqui pra ela, se fosse esse o objetivo dela você nem estaria falando agora.

    — Você vai mesmo cair nessa conversa? Ela deve ter inventado essa historinha agora de dupla personalidade porque tem medo de enfrentar a Layla Zayn. — Jon começou a caminhar lentamente na direção deles.

    — Para e pensa um pouco, essa é uma briga que você não tem como ganhar, não importa o motivo que te faz querer fazer isso!

    — Saia da minha frente, Velgo… — Ele fechou o punho. — Quando te vi se preocupando tanto com a vida dos outros na vila ao ponto de desmaiar, nunca imaginei que você ficaria do lado dessa assassina.

    Verion deu outro passo adiante. Seu olhar ficou sério e preocupado, e palavras inesperadas escaparam de seus lábios. Uma convicção total.

    — Ela, a Lyria, não é uma assassina. Não vou deixar que você toque um dedo sequer nela. — Ele levou as mãos para as costas, ficando com a guarda totalmente aberta. — Eu aceito que você me acerte mil vezes se for para você deixar ela em paz!

    — Ah… Verion, não precisa exagerar também… se quiser eu aquieto esse cara — disse Jeremiah, exibindo a espada quebrada.

    — Velgo… não vou bater em você. — O homem parou no meio do caminho e baixou o olhar, tentando compreender o motivo de haver tanta verdade na voz dele.

    Era uma insanidade completa aos seus olhos que aquilo estivesse acontecendo, uma rejeição que era natural para alguém como ele. Não tinha as mesmas informações que Verion e era um tanto cabeça dura por conta do tempo de serviço militar à coroa de Raptra. Jeremiah e Jean aceitaram, mesmo que a contragosto, mas Jon era alguém mais difícil de se convencer.

    Lampejos de sua época de treinador e Terceiro Capitão da Guarda Real de Raptra voltaram em sua mente. Um caso em específico veio, rememorando-o da época que se uniu a uma capitã chamada Calaya para uma missão. Foram designados para o resgate a um membro importante da administração do país, que havia sido levado por membros de uma facção misteriosa.

    No fim das contas, e infelizmente, salvaram-no. Esse homem, enquanto preso pelos inimigos, aliou-se a eles e promoveu uma verdadeira chacina contra os novatos da guarda pouco tempo depois de ser trazido de volta. Lembrava-se de vê-lo como um aliado por conta de Calaya, alguém que jamais os trairia… uma possibilidade que nem pairava dentre seus pensamentos.

    Via, de certo modo naquele momento, uma situação semelhante poucos metros à frente. Verion parecia confiar de corpo e alma em suas palavras, como se não existisse margem para qualquer mínimo resquício de dúvidas, tal como sua amiga Calaya sobre o traidor.

    — Ei, é sério… Quem atacou a vila foi outra coisa. Lembra que durante a luta na caverna você apareceu na vila justamente quando poderia ter morrido? Foi a Lyria interferindo e salvando a sua vida, ela não é aquela coisa que destruiu tudo! Por favor, me escuta…

    Forçou as unhas contras as próprias palmas, deixando se levar ao ponto dos braços tremerem por uma mistura inexplicável de sentimentos. Então, viu o olhar triste de Lyria, miserável com suas palavras que a nomearam como uma aberração. O guia soltou um longo suspiro raivoso, aceitando aqueles argumentos de Verion. Entretanto, não engoliu aquela história por completo.

    — Vou te levar até Raptra como prometi, mas agora as coisas serão diferentes nos nossos termos. — Ele ergueu totalmente a cabeça. — Não me importo em como você vai conseguir isso, quero que me pague 500 vezes a mais pelo meu serviço, e se ela fizer qualquer coisa suspeita, vou denunciá-la para a ZNI na mesma hora. Aceita esses termos, Velgo?

    — …Sim.

    — Certo… vamos continuar com nossa viagem então. — Virou-se, dando as costas para ele, pensando naquela situação como um erro causado por confiar demais na confiança dos outros mais uma vez.

    Para sua percepção, tudo aquilo desaguaria em caos, morte e destruição como antes. Porém, houve alguma fagulha de esperança que o levou a acreditar em Verion, por mais que não lhe fizesse sentido. Acreditar naquela conversa sobre uma forma de dupla personalidade — assim dita para ocultar o nome de Circe —, poderia ser o maior erro de sua vida.


    Verion pediu para que Jean e Jeremiah mantivessem segredo sobre Lyria, tal como Jon faria naqueles tempos. A dupla aceitou o pedido, já que viajariam com ele pelos próximos dias e não tinham a opção de recusar. Também acreditavam que poderiam morrer por contrariar Lyria.

    Assim se seguiu a jornada, uma junção de coisas estranhas que pareciam prestes a explodir como um barril de pólvora.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota