Índice de Capítulo

    Confederação dos Ferroviários, 02/05/029, às 12:43.

    Era um novo mês e finalmente haviam chegado ao destino necessário para concluir a viagem até Raptra. A Confederação dos Ferroviários era uma nação sem uma deidade ou, de fato, um governante como um rei ou presidente para reger a região. Alguns cultuavam o Deus do Desconhecido, mas a maioria seguia outras religiões externas. Era uma grande mistura sem muitas regras ou delimitações.

    As pessoas escolhiam alguns representantes, através de votos e assembleias, para lidar com algumas pequenas áreas como vilarejos, e caso fossem ineficientes ou traíssem a confiança da população no cuidado e alocação de recursos, os removiam do cargo à força — algumas vezes resultando em morte.

    — Acho que vou morrer sem me acostumar com essa coisa de árvore verde, que antinatural — disse Jean, observando um grupinho delas enquanto seguiam por uma estrada de terra batida.

    — São bonitinhas pelo menos. — Verion bocejou, abrindo a bolsa que recebeu de Mark em Harlon. Pegou uma maçã para comer.

    Reabasteceram seus suprimentos ao chegarem na nova nação. Não compraram muitas coisas, pensando que o trem que pegariam teria comida à venda em seus vagões por um preço acessível.

    No meio tempo até a chegada à confederação, Lyria devolveu para Jeremiah o disco dourado que ele havia conseguido lutando no salão subterrâneo. Ela avisou que sentiu algo de estranho sobre aquele objeto, então disse para que o loiro tomasse cuidado ao manusear aquilo ou tentar vender, tal como pretendia. Mantinha o disco em uma pequena bolsa recém-comprada, juntamente da espada quebrada e sua máscara.

    Jon se mantinha relativamente distante do restante do grupo, à frente deles e seguindo caminho até a principal estação de trem daquela região do país. Não falava muito com os outros e parecia tenso recorrentemente, como se na espera de Lyria fazer algo com os outros. Entretanto, esse momento não chegava. A garota de tinta apenas expressava curiosidade com coisas que não conhecia e conversava com Verion calmamente na maior parte do tempo.

    Jean e Jeremiah passaram a tratá-la de forma mais amigável com o tempo, criando alguma confiança sobre sua bondade por conta da ingenuidade que demonstrava para algumas coisas. Era uma relação definitivamente estranha criar afeição por alguém que, apesar de não querer isso, havia dizimado tudo que conheceram em suas vidas. Lentamente era o que acontecia por mais bizarro e impensável que fosse.

    — Acha que a gente tá chegando, Jon? — perguntou Jeremiah, um tanto entediado pelo ritmo em que andavam.

    — Não muito, em alguns minutos vamos conseguir ver o lugar e a cidade.

    Ao fim da subida de uma colina, avistaram com perfeição a localidade sob o céu azul e de poucas nuvens. O som alto e constante de um apito de locomotiva a vapor veio, puxando atenção para a Estação Central da Confederação, o ponto mais frequentado diariamente naquele país.

    Aproximavam-se mais e mais, vendo uma densa névoa formada pelo vapor dos trens tomar parte dos ares do local. O cheiro forte de carvão queimado e graxa impregnava-se no ar, incomodando um pouco a respiração, mas não ao ponto de se tornar um problema verdadeiro.

    A estação consistia numa única plataforma circular que possuía um teto alto, sustentado por grandes pilares, feito de aço e de um vidro denso misterioso, em formato de cúpula, que mal deixava o calor da luz solar atravessar. Tinham visão plena do céu naquele ponto. Na plataforma cabiam cerca de dez mil pessoas de uma vez, separadas em algumas áreas específicas para seus atendimentos. As partes eram separadas por letras, de A até J, cada uma indicando um destino.

    Os trilhos seguiam em trios, dois trens em paralelo que saiam juntos, ao mesmo tempo, para levar uma quantia maior de passageiros nas viagens de mais longa duração, e um trilho adicional que operava fora das datas em que a dupla atuava, para aumentar movimentação.

    As locomotivas elegantes, de altas chaminés de bronze e rodas de aço fundido maciço, tremulavam sobre os trilhos, esperando o momento da partida. Fumaça negra era expelida conforme alimentavam a caldeira com carvão de boa qualidade. O ar era um pouco mais quente nas proximidades.

    Verion, Lyria, Jeremiah, Jean e Jon chegaram à plataforma ao fim de uma caminhada que pareceu quase eterna. Com exceção do loiro e do guia — que já haviam visto aquele tipo de coisa antes —, todos se distraíram com a magnitude do espaço e perderam noção do tempo.

    Nos pilares que sustentavam o teto da estação, puderam perceber, ao se aproximarem, que existiam lá homens e mulheres em pequenos pontos para ficarem de pé. Guardas realizando a vigilância para evitar algum problema que pudesse surgir.

    — Verion… então aquilo ali que é um trem? — perguntou Lyria, boquiaberta com a visão.

    — Sim! Achou legal?

    — É um pouco assustador na verdade, tem certeza de que isso é seguro?

    — Não precisa se preocupar, nada de ruim vai acontecer. — Verion sorriu para acalmá-la.

    “Eu li a respeito de um monte de coisa nesses últimos anos, mas ainda assim é surpreendente ver com meus próprios olhos… Deve ser algo mais louco ainda pra Lyria, ela me disse que nem sabia como era o céu até uns dias atrás. Naquele livro ela teve mesmo uma vida terrível.”

    “Não quero que ela sofra com nada parecido de novo.”

    Um grande relógio na estação, de engrenagens expostas, fez um som ecoar para anunciar o horário das 13:00.

    — Vamos para a área A, é lá que pegaremos um dos dois trens para Raptra. — Jon passou a caminhar até o lugar, sem olhar para trás.

    — É, melhor irmos logo, parece que os trens já vão sair. — Jeremiah o seguiu prontamente.

    Enquanto no início do trajeto para comprarem suas passagens, passaram por um homem de longos cabelos negros, que segurava um jornal na altura do rosto, sentado em um banco de madeira. Ele olhou um pouquinho por cima do papel, piscando sem muito ânimo.

    Bem mais à frente, o imortal sorridente andava quase dançante, as longas vestes brancas balançando com os movimentos. Seu cabelo firmemente enrolado no pescoço, como uma gargantilha, continuava sendo seu traço mais marcante.

    Bel pensou: “Gentinha lenta, que demora pro Verion chegar aqui… quase fiquei entediado nessa cidade!”

    Passaram os últimos dias perseguindo o grupo e o observando para terem certeza do que estava acontecendo. Acabaram por começar a observá-los poucos tempo depois de Lyria entrar no grupo deles, então não souberam em exato da situação sobre Circe ter revivido, era algo que ainda se mantinha fora de seus radares apesar de saberem sobre o acontecimento de uma grande destruição. Bel e a organização para qual trabalhava encontraram Verion facilmente, podiam sentir onde ele estava por conta de sua ligação com Aurelius.

    A figura de branco seguiu até onde ficavam os funcionários responsáveis pela venda de passagens. Comprou três delas, para a classe executiva do primeiro trem, e as guardou em um bolso de sua roupa.

    — Ei, posso pedir um favorzinho para vocês? — Minuciosamente, puxou da roupa um pedaço de Quartzo das Profundezas de pureza completa.

    O Quartzo das Profundezas era um material valioso capaz de ignorar o Roha caso tivesse alguma pureza, quanto mais puro, mais ignorava. Era utilizado por isso em armas e blindagens por pessoas mais fracas para lidar com os usuários mais fortes de Roha.

    O vendedor de bilhetes viu o item valioso e seus olhos brilharam, sabendo que se pegasse aquilo estaria livre de preocupações pelo resto da vida ao vendê-lo. Receoso, olhou ao redor e para o amigo que trabalhava com ele.

    — C-claro… pode pedir o que quiser — disse sem ter tirar os olhos do quartzo.

    — Um garoto chamado Verion vai chegar aqui, ele tem cabelos castanhos e alguma mechas brancas… Quero que faça uma coisa por mim.

    — Verion Velgo, o filho do antigo Anjo?

    — Sim, sim… — Bel empurrou o quartzo contra o peito do homem, até que ele pegasse. — Quero que vocês coloquem ele e qualquer pessoa que estiver o acompanhando nos assentos do penúltimo vagão do primeiro trem, é só isso… Se cumprirem isso, consigo mais um quartzo para vocês ao fim da viagem. Vocês estarão no trem também, não é?

    — Ah, normalmente não iríamos estar no trem, afinal outras pessoas são encarregadas de checar se os passageiros estão com seus bilhetes, mas hoje é um dia diferente… — O homem apontou para uma faixa vermelha e branca anunciando um evento.

    “Oh… isso será divertido.”

    Bel cobriu a boca com a ponta dos dedos, ocultando seu sorriso ao ver o absurdo contido naquele aviso. Ele acenou para a dupla de trabalhadores e se afastou, indo em direção de seus aliados. Chegou ao misterioso aliado que ocultava o rosto atrás do jornal.

    — Você deveria ter sido mais discreto, faltou pouco para que um dos guardas percebesse sua movimentação suspeita — Higan, o Deus da Vingança, avisou.

    — Relaaaxa aí mal-humorado, e tá na hora de irmos até a locomotiva, então chega de ficar lendo essa coisa igual um velho. — Bel queimou o jornal com uma passada de mão e a deidade afetada por suas chatices apenas grunhiu, irritado.

    — Igual um velho? Você e eu temos mais de 13 mil anos, cale a boca, múmia caquética. — Ele se levantou do banco, checando com algum cuidado de suas roupas não estavam tortas ou amassadas.

    O Deus da Vingança, naquele momento, vestia-se com com uma camisa preta de gola alta e um casaco preto de manga longa que ocultava suas mãos. Seus longos cabelos pretos caiam por cima dos ombros e também chegavam até sua cintura. Curiosamente, utilizava um par de óculos — era por achar bonito, não tinha qualquer problema de visão.

    Milênios atrás, estava contra Aurelius, mas algo mudou durante as eras.

    Higan apoiou a mão, coberta pela manga, no ombro de Bel e perguntou onde estava a outra pessoa que os acompanhava.

    — A Elemenope disse que precisava comprar uma coisa, mas não me explicou.

    — Espero que essa garota não demore, deixá-la para trás estragaria nossos planos… — Puxou a mão para fora da manga e pegou um celular de botão em seu bolso da calça. — Vou ligar para ela, espero que atenda rápido.

    Higan ouviu o toque de celular dela, piados de pintinhos, vindo de logo atrás dele. Olhou para trás e viu Elemenope comendo rosquinhas com uma expressão neutra na face. Parecia não se importar com o próprio atraso.

    Elemenope tinha cabelos cinzas volumosos que pareciam tão macios quanto a lã de uma ovelha e olhos cinzentos opacos que não expressavam qualquer coisa, vazios. Sua bochecha, tomada de sardas, ficou um pouco suja com o recheio da rosquinha. Não era exatamente cuidadosa ou prestava atenção no que fazia. Sobre a pele bronzeada pelo sol, utilizava uma saia preta presa por um cinto e um suéter amarelo um pouco maior que seu tamanho, que possuía padrões desenhados lembrando estrelas em certos pontos.

    — Oiê, cê tá aqui! — disse, animado, Bel. — Por um segundo achei que íamos ficar sem você para vigiar o Verion de pertinho.

    — Peço perdão por minha demora, não irá se repetir outra vez. O que importa é que estou aqui e com essas rosquinhas gostosas… — Sua voz era estranhamente vazia e sem significado, como se não existisse intenção e emoção por trás daquelas falas, algo mecânico e protocolar.

    Tudo parecia um pouco morto ou sem propósito, desde de seus movimentos corporais, movimento dos olhos, dos lábios, até como respirava. O jeito com qual se movia não parecia natural, como se seus músculos não se contraíssem ou se flexionassem de verdade em momento algum.

    — Vem cá. — Higan pegou um pano do bolso e limpou a bochecha dela, suja de chocolate por conta das rosquinhas. — Pronto.

    — Ah, obrigado…

    — Vamos logo para nosso vagão… Não preciso mais respirar, mas gosto de fazer isso. Só que não nesse ambiente que fede a carvão e graxa — resmungou Higan, pegando os dois pelo pulso para sair andando como se fossem duas crianças.

    Do outro lado da estação, pouco depois de terem pagado por suas passagens, o grupo de Verion adentrava na grande locomotiva que ficava no trilho mais à esquerda que seguia em direção de Raptra.

    Foram todos aos seus lugares selecionados pelos funcionários, no penúltimo vagão. O lugar era impressionante e um tanto luxuoso, até se perguntaram se não acabaram comprando passagens para algum tipo de classe executiva ou algo assim. Os últimos vagões eram os mais caros, e foram parar lá sem ser a intenção.

    O chão e as paredes eram de madeira de carvalho muito bem cuidada. A iluminação feita por luminárias elegantes com detalhes de bronze e prata dava uma visão confortável do ambiente. Os grandes e macios assentos estofados podiam ser reclinados e usados como camas. Entre alguns assentos específicos ficavam mesas de jantar feitas também de carvalho. No canto do vagão, ficava um grande armário com portas de vidro onde podiam ver cobertores de lã e linho.

    — Nossa, tem até quatro banheiros nesse lugar… — disse Jean, impressionado e olhando os arredores.

    Verion se sentou e observou a estação e a cidade através de uma das grandes janelas do vagão. O clima no interior era muito confortável, sentia que poderia dormir a qualquer momento e seria ótimo.

    Lyria foi olhar mais do lugar. Havia um segundo e um terceiro armário que não possuíam portas de vidro, e a curiosidade não a deixou parada.

    — Valeu por bancar isso aí Jon, eu acho… — Jeremiah uma risadinha quando se deitou e sentiu a maciez do estofado.

    — Na verdade paguei pela classe econômica, mas parece que nos entregaram bilhetes da executiva no lugar. — O guia observou sua passagem minunciosamente. — Os últimos dias foram estressantes, então não irei contestar nada disso, apenas quero descansar.

    — Ué, será que foi por causa do Verion? Ô, a gente se deu bem demais então. — O loiro parecia verdadeiramente feliz em estar em um lugar confortável.

    — Acha que fizeram isso por eu ser filho do antigo Anjo?

    — É, parece que foi isso sim… Todo privilegiado eeeele.

    Jean pensou: “O que aconteceu com o Jeremiah que ele ficou mais bobo da cabeça que o normal?”

    Jon foi para um dos assentos. Estranhou o fato de mais ninguém ter aparecido naquele vagão faltando pouco tempo para a partida. Pôde, no entanto, ouvir vozes e risadas barulhentas vindas do último vagão.

    — O que é essa coisa marrom aqui Verion? — Lyria trouxe uma barra de chocolate, o pacote foi parcialmente aberto por ela.

    — Isso é chocolate, pode comer, é gostoso!

    — Ah… — Ela deu uma mordida e na mesma hora sua expressão ficou radiante. — Eu nunca comi algo assim antes, isso é perfeito!

    Ela comeu a barra inteira em alguns segundos e, pelo olhar, Verion sabia que ela iria atrás de mais, seja lá onde conseguiu. Seguiu ela para saber onde achou aquilo. No terceiro armário do ambiente havia muitas opções de alimentos, de alguma forma aquilo era refrigerado e Verion não fazia ideia de como. Pegou uma barra para si e outras para dar ao resto do grupo. Viu Lyria com dez barras nos braços, retornando ao seu assento.

    “E lá vem o vício em chocolate…”

    Pouco tempo depois, o apito dos trens ressoou uma última vez antes do começo da viagem. Ouviram o som das rodas pesadas começando a se movimentar sobre os trilhos e as vibrações suaves no vagão.

    — Uma viagem calma e pacífica até Raptra… — murmurou Verion.

    Inadvertidamente, um anúncio veio nas comunicações do trem, uma voz chiada anunciando o que era o conteúdo visto por Bel na faixa da estação.

    — Senhoras e senhores, sejam bem-vindos a mais nova edição da Batalha Ferroviária!

    — Eu a minha boca grande… Me deixem ter um dia de paz! — gritou Verion, mordendo o chocolate com plástico e tudo.

    O anúncio continuou: — O evento consiste em algo simples: lutem para roubar os bilhetes dos passageiros do trem vizinho e os acumulem para conquistarem recompensas na linha de chegada! Podem lutar à vontade, essas locomotivas são praticamente indestrutíveis! Boa sorte a todos os participantes.

    — Eu não concordei com essa parada não. — Jeremiah pegou a máscara da bolsa e colocou de volta.

    — Jon, o que que tá acontecendo?! Você não sabia disso?

    — Desculpa Verion, acho que me distraí e não vi algum aviso sobre isso. — Permaneceu no mesmo lugar, parecendo indiferente.

    “Eu quero descansar um pouco… só um pouquinho!”

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota