Capítulo 64 - Batalha Ferroviária Parte 1
Trinta minutos após o início da viagem, o interminável e pouco sutil som das locomotivas correndo pelos trilhos se misturava ao som de algumas explosões. Clarões aleatórios iluminavam os vagões brevemente mais do que o brilho do sol. Apesar de tudo estremecer, nenhum arranhão surgiu na estrutura.
Para obterem recompensas ao final da viagem precisariam recolher os bilhetes dos passageiros do trem vizinho. Por conta disso, vários corajosos e inconsequentes saltavam para a locomotiva ao lado para tentarem retirar à força a passagem dos outros para adquirirem tais recompensas. Alguns eram derrubados e ficavam pelo caminho após caírem próximos aos trilhos.
Enquanto todo o caos se desenrolava e algumas pessoas corriam risco de morrer aqui e ali, Bel, Higan e Elemenope almoçavam tranquilamente como se nada estivesse acontecendo. Em uma das mesas do último vagão, uma grande bandeja possuía uma variedade de coisas. Linguiça com batata, arroz, feijão vermelho, salada, purê de batata, carne, frango e ainda mais.
— Ahh… muito obrigada por me salvarem daquela situação problemática — disse a cozinheira chefe, a responsável por comandar a equipe que preparava comida no trem. — Achei que iriam respeitar pelo menos o vagão da cozinha, mas começaram a brigar lá também.
Bel ficou preocupado com a demora do almoço — uma das únicas coisas que ele gostava no dia — e foi checar a cozinha. Quando chegou lá, encontrou panelas derrubadas e pessoas arremessando garfos e facas uns contra os outros em meio a técnicas mágicas perigosas. Acabou jogando todos para fora do trem e pediu para ficar com uma parte da comida como pagamento pela ajuda. Deixou uma de suas criaturas, uma igual a que Jeremiah havia enfrentado, para tomar conta dos cozinheiros.
— Foi fácil de resolver, não se preocupa em agradecer por isso. — O homem de cabelos brancos abocanhou um monte de salada.
Higan estava de olho em Elemenope, tentando ter certeza de que ela não iria derrubar a comida ou acabar sujando o rosto ou roupa. Sabia que ela era um pouco desligada e às vezes parecia agir no automático, então queria ter certeza de chamá-la pelo nome caso fizesse algo errado por não estar prestando atenção. Ele agia quase como uma babá com ela, o que era visto como algo engraçado pelos membros das Manchas do Sol Branco. Alguém com o epíteto de Deus da Vingança sendo cuidadoso e carinhoso com alguém parecia contraditório.
No vagão ao lado, quase todos estavam em alerta. Jean, Jon e Jeremiah permaneciam de olho nas entradas do vagão e nas janelas, cientes de uma possível invasão. Verion e Lyria, enquanto isso, estavam sentados dividindo barras de chocolate.
— Parece que ninguém está vindo para essa parte final do trem por enquanto — disse o guia.
— É, a confusão deve estar concentrada lá na parte da frente. — Jean tinha alguns flocos de neve nas mãos. — O pessoal do último vagão parece estar apenas almoçando. Não faço ideia quem são, mas parecem estar tranquilos.
— Devem estar calmos porque são fortes. Aquele cara de cabelo branco que passou por aqui junto da cozinheira até o vagão final deve ser perigoso… — Verion tinha um mau pressentimento sobre ele. Já havia o visto nas memórias de Circe, era Bel, mas não conseguiu o reconhecer na aparência atual.
— Espero que as coisas fiquem calmas por esses lados por mais tempo… eu não quero brigar de novo com alguém — Lyria cochichou para ele.
— Não precisa se preocupar, vou fazer de tudo pra isso não precisar acontecer.
“Espero que nenhum problema grande apareça… Estou muito azarado essa semana.”
“Queria que a Lyria pudesse viver uns tempos calmos… mas não sei o quão possível isso é estando ao meu lado.”
— Veeeeeerioooooon Veelgooooo! — gritou um homem com um sotaque pesado, a voz vinda de longe.
“Eu vou morrer de estresse amanhã.”
Verion levantou após um longo suspiro, inconformado.
— Você é um ímã de problemas, mesmo não é? — reclamou rispidamente Jon, ficando mais atento às janelas.
— Eu preferia você quando tava sendo legal comigo… — Verion respondeu, triste como um cachorro abandonado.
— Ei… se precisar eu posso ajudar a resolver isso… — Era visível na expressão de Lyria que ela não queria fazer aquilo.
— Arghh… só se for muito necessário, pode ficar tranquila, por favor.
— Tá bom.
“Ai… parece que ela vai começar a chorar a qualquer momento.”
Verion deu dois tapinhas suaves na cabeça de leve na cabeça de Lyria, de forma carinhosa. Ele se afastou e se aproximou do resto do grupo.
— Verion, por que todo mundo te odeia? — Jeremiah perguntou com uma voz de cansaço.
— Acho que é só azar… eu não tenho paz desde que saí de Aludra.
Um clarão e um som de trovão fez tudo estremecer, e quando perceberam, ele já estava dentro do vagão. Um homem alto de cabelos grisalhos e um semblante extremamente confiante. Seu corpo estava envolto em uma pesada e grande armadura tecnológica que emitia uma luz azul de um núcleo centrado no peito.
A figura invasora deu alguns passos dentro do vagão e apontou para Verion, exibindo um sorriso que aparentava ser pacífico.
— Ah… quem é você mesmo? — perguntou e deu um passo para trás.
— Ora, ora, ora… As crianças não prestam atenção nos grandes inventores do mundo como antes! Fui um dos candidatos a Anjo no último evento! — O vagão inteiro foi iluminando por uma eletricidade crescente que acumulava-se nas mãos metálicas da armadura. — Tenho certeza que se não fosse por Elta Velgo, eu teria vencido essa competição… Esse coitado apenas tirou de mim meu devido lugar para morrer de câncer logo depois, é uma maldade, não concorda?
Jeremiah tomou a dianteira com a espada em riste, colocando-se entre os ambos. Um golpe veloz veio, junto de um estrondo que fez os ouvidos de todos doerem. Quando os olhos voltaram a ver após o clarão, Jeremiah estava de joelhos no chão, começando um rápido processo de regeneração.
— Me recuperei há pouco tempo e já tenho que dar porrada em gente chata! — O loiro ergueu sua espada de lâmina quebrada, com um sorriso cínico por trás da máscara. — Não uso isso de verdade faz um tempo porque é incômodo, mas bora ver o que tu consegue fazer velhão do raio!
Repentinamente, os dedos de Jeremiah se tornaram cinzas, e essa coloração logo se espalhou para o restante do corpo, até para suas vestimentas. Deixou o Roha fluir para superfície da pele e para a lâmina partida.
Jeremiah pensou: “A última vez que usei a técnica de fortalecimento da matéria foi numa árvore pra empalar um daqueles monstros idiotas em Harlon.”
“Consigo sentir que esse cara é mais forte. Preciso dar um jeito de parar ele enquanto ainda não tá levando isso aqui a sério.”
Uma camada de gelo surgiu aos pés do homem misterioso, subindo rapidamente por sua armadura. Jean era quem criava aquilo. Entretanto, foi completamente inútil. Uma pequena explosão elétrica despedaçou o gelo como um vidro frágil.
“Pelo menos preciso tirar esse cara daqui de dentro.”
Jeremiah reuniu força nas pernas e avançou contra o homem. O som da lâmina quebrada cortando o ar se uniu ao de um estrondo que fez as coisas no vagão estremecerem. O senhor na armadura tecnológica parou a espada com um único dedo.
— Hahaha! Garoto, você anda se alimentando bem?
— Sim… porque o Verion é muito chato com isso! — Ele deu uma risada descontraída por de trás da máscara. — Mas fala aí, quem é você exatamente? Chegou do nada aqui querendo arrumar briga!
— Sou Pierluigi Espinossa! O maior inventor do país da semideusa Lumina!
— Ah… é onde minha irmã deve estar agora — disse Verion.
— Tá… maior inventor desse canto aí que eu não sei onde fica… O que que tu tá fazendo aqui num trem aleatório querendo socar um adolescente com cara de bobo? — Jeremiah forçou mais um pouco a espada contra o dedo que a segurava.
— Oh, foi coincidência… Apenas estava viajando porque o rei de Raptra me convidou para mais uma visita. Faço parte de alguns projetos importantes dele, então não é incomum que eu esteja fazendo essa rota. — Ele abriu um sorriso estranhamente simpático. — Elta Velgo roubou de mim esse estimado cargo de Anjo por ter salvo Arthur Vogrinter anos atrás… Só quero dar um sustinho no filho dele para que ele não tente roubar de mim também. Uma nova escolha de Anjo é inevitável no contexto atual!
Pierluigi continuou: — Arthur Vogrinter lutará no Grande Torneio da ZNI, um evento que acontece de 4 em 4 anos… Daren Vogrinter quer que ele mostre todo seu valor e seja o mais forte de todos, saindo vitorioso. É o mínimo que esperam do Escolhido. Mas, por conta disso, vão querer outra pessoa para estar ao lado dele e o ensinar novas coisas! Ninguém melhor que um Anjo para isso. Essa função seria de Elta Velgo, mas o infeliz decidiu bater as botas.
— Verion, você por acaso quer ser um Anjo? — Jon olhou para ele, um tanto curioso.
— Não… prefiro ficar longe da ZNI… — Verion expressou um desânimo terrível só por se imaginar obrigado a ter que conversar com Layla Zayn e ficar por perto dela por meses. A única coisa que queria fazer na ZNI era uma invasão, não arrumar um emprego com uma pessoa conhecida como sociopata sendo sua chefe.
— Viu, o garoto não quer se meter nisso, pode dar o fora do vagão por favor? — disse Jean, apontando para o homem.
— Não fala por favor pra esse doido! Você não precisa ser educado — resmungou Jeremiah.
— Que questão é essa? Deixa eu ser educado…
Verion pensou: “Acho que tem coisas mais importantes acontecendo do que pensar nisso.”
— Eu não acredito no garoto! Ninguém iria querer de verdade perder essa honra que é se tornar um Anjo, mesmo que seja para estar apenas atrelado a Arthur Vogrinter! — O homem rapidamente socou Jeremiah, o jogando para trás no vagão.
— Mas eu falei a verdade, não quero me envolver em nada disso!
No último vagão, Bel riu baixinho com a situação. Limpou os cantos da boca com um lenço e materializou em sua mão direita um revólver dourado e translúcido. Um brilho intenso surgiu na ponta da arma.
— Ah… o que você vai fazer? — A cozinheira chefe ficou um pouco acuada ao perceber a intensidade do Roha na arma.
— Nada de muito importante, só vou dar um fim na briguinha do vagão ao lado, não se preocupe muito. — Elemenope, é hora de você cumprir sua função. Vá ficar ao lado do Velgo.
“Vou sentir saudades de poder alterar a memória dos outros assim… É uma peninha que isso vai acabar daqui um tempo. Quanto mais fortes ficam Verion e Yunneh depois de reviverem, mais dividido fica o controle do poder do meu mestre… Ahh, só fica mais difícil e custoso alterar memórias assim.”
Bel caminhou até a porta do vagão e apontou sua arma para a cabeça de Jon enquanto ninguém prestava atenção. Com um puxar do gatilho, um pequeno feixe de energia atingiu o guia. Estava feito.
— Elemenope, agora aquele homem acredita que te conhece há mais de 10 anos, então se aproxime do grupo através dele. Lembre de tomar conta do Verion e nos informar das coisas que ver.
— Preciso mesmo informar alguma coisa? Siralia Okeron está prestes a despertar, não é? Ela com certeza é uma melhor informante do que eu posso ser — dizia de forma monótona e sem ânimo. — Sou realmente necessária nisso tudo?
— Considere o seguinte: Siralia apenas consegue coletar informações das memórias dos outros de 10 em 10 minutos, então há uma lacuna de informações nesse período. Você vai ser quem cobre esse período de tempo, precisamos saber o que está acontecendo ao redor dele para mantermos nosso plano sob controle.
— Faz sentido…
A garota de cabelos cinzentos e volumosos estava prestes a sair do vagão, mas Higan a chamou. Com sua atenção puxada para o Deus da Vingança, ouviu atentamente o que ele tinha para dizer.
— Fica com isso para você, não preciso por enquanto. — Ele arremessou sua espada de lâmina serrada para Elemenope, que a pegou. — A Higanbana é sua pelos próximos meses, aproveite.
— Ok.
“Dando um Artefato Divino de forma tão casual…”
A espada de lâmina serrada tinha pequenas flores carmesim na extremidade não cortante, eram vivazes e brilhantes. O metal que compunha aquela arma perigosa era escuro como a noite, e a empunhadura passava uma sensação de calor. O calor parecia clamar pela morte, como se pedisse para Elemenope rasgar a primeira pessoa que visse pela frente. Entretanto, ela não cedeu aos desejos contidos naquela coisa.
A aparência mudou, tornando-se uma espada completamente branca e curvada. Passava uma sensação de calmaria, bem diferente do que tinha em sua versão original.
— É melhor desse jeito… mantenha a forma verdadeira oculta enquanto não é extremamente necessária. Verion deve lembrar de uma espada de lâmina serrada sendo citada no diário do pai dele, então é bom que evite para não levantar suspeitas. Ele provavelmente pensará em você como uma inimiga se fizer essa associação.
— Vou tomar cuidado com essa possibilidade. — A expressão sem vida da garota transfigurou-se em um sorriso falso e calmo.
Ela avançou para o vagão seguinte, visando se aproximar de Jon e do restante do grupo.

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