Capítulo 66 - Sussuros da Madrugada
Durante a parte mais avançada da tarde daquele dia — após Verion, Jeremiah, Jean e Jon voltarem ao vagão destruído —, conheceram Elemenope Razzas, a figura de cabelos cinzentos e expressão que por vezes era indiferente, mas que se transformava numa falsa expressão de felicidade.
Elemenope conquistou a confiança de todos rápido por ter salvo Lyria de Pierluigi. Também por Jon crer que a conhecia há muito tempo, o que foi crucial para sua aproximação, tal como Bel havia planejado ao alterar as memórias do guia. Ele contou que a conheceu durante uma vez que foi à fronteira de Raptra com Quilionodora.
Razzas corroborou a ideia prontamente e disse que era um prazer revê-lo. Posteriormente, perguntou se poderia ficar com eles durante a viagem, e a aceitaram no grupo.
Deixaram o vagão destruído para trás e foram para um novo, menos afetado em seu interior. O clima estava mais calmo e parecia que todas as lutas haviam cessado ao começo do anoitecer. Puderam descansar tranquilamente pela primeira vez, apesar de alguns detalhes.
— Ow, Verion, acho que o velhão do raio explodiu a sua bolsa… — Jeremiah, que estava sentado ao lado, cutucou o ombro dele.
— Ah… E-eu esqueci de tirar ela do vagão! — Ele segurou o próprio rosto e ficou cabisbaixo.
— Ainda vai conseguir pagar o Jon?
— Sim… aquele dinheiro da bolsa do Mark não seria o suficiente, já tinha outros planos. Tenho uma ideia de como conseguir o valor pra pagar…
— Hmm… qual?
— Segredo…
— Ah, me fala ae! Quero saber de onde você vai arranjar isso tudo do nada.
Verion apenas balançou a cabeça em negativa, com um sorriso bobo no rosto. Disse que se contasse, Jeremiah acharia estranho o que ele tinha em mente. Isso só deixou o loiro mais curioso ainda.
Trajeto para Raptra, 03/05/029, às 03:56.
O silêncio imperava sob o véu noturno, tempos após o pôr do sol. Jeremiah dormia silenciosamente em um dos assentos reclináveis, sua cabeça repousando em um travesseiro confortável. Estava coberto até o pescoço com um pesado edredom.
A locomotiva a vapor seguia pelos trilhos, gerando o mesmo barulho repetitivo que se ouvia o dia todo. Pela noite, esse ruído se tornou uma constante agradável para o sono; da mesma forma que alguns gostavam de ouvir o som de um ventilador para adormecer, isso passou a desempenhar um papel semelhante por sua previsibilidade.
A respiração de Jeremiah, que estava calma e suave, tornou-se um tanto agitada por um sonho. Acordou na madrugada abrindo os olhos numa sensação de sonolência e confusão, lento. Bocejou e se sentou no assento, olhando os arredores com calma. Demorou a notar, mas tinha uma coisa faltando. Verion não estava no vagão, em nenhum lugar dele.
Os olhos verdes se acostumaram à baixa luminosidade do interior do vagão e o loiro levantou com calma, evitando fazer barulho. Inesperadamente, ele se notou observado por alguém. Elemenope também estava acordada; na verdade nunca havia adormecido. A mulher acenou para ele, chamando-o para mais perto.
Sob o brilho amarelado das luminárias, Jeremiah se aproximou daquela figura misteriosa e calma. Algumas barras de chocolate tomavam parte do assento em que ela permaneceu à noite, outra viciada em cacau e açúcar como Lyria.
— Ei, onde foi para o Verion? — Sua voz soava baixa, quase falhando.
— Foi naquela direção. — Elemenope apontou para vagões mais distantes. — Parecia estar muito preocupado com alguma coisa.
— Ok… vou dar uma olhada. — Ele coçou o rosto, pensando um pouco. — Você não dormiu até agora?
— Pode ser um pouco estranho para você, mas meu corpo não precisa disso. Durmo apenas se eu quiser, não é uma necessidade verdadeira… Só estou aqui colocando meus pensamentos em dia, digamos assim. — Acenou para Jeremiah e virou o rosto, voltando às suas conjecturas pessoais.
Ela remoía um pensamento: “Há algo de estranho com Lyria, mas não sei dizer o que é… Bel e Higan não me disseram nada, então provavelmente não deva me preocupar por enquanto.”
Jeremiah seguiu pelos vagões sem correr, somente dando passos rápidos até encontrar alguma coisa. Tudo parecia quieto demais, e algumas pessoas adormeceram e nem conseguiam percebê-lo perambulando entre eles; seriam alvos fáceis caso fosse essa sua intenção.
A busca de alguns minutos levou até o que queria, Verion estava lá. Adentrou o vagão, vendo o garoto sentado em um canto escuro, de cabeça baixa. Aquela imagem inesperada o atingiu, até mesmo demorou a processar e entender o acontecimento: Verion estava chorando. Uma sensação ruim veio, parecendo apertar seu coração.
— Verion? — Foi devagar até ele, tentando não fazer muito barulho naquele momento. — O que foi?
As mãos que se mantinham contra o rosto abaixaram, e o olhar trêmulo se fez visível. Os olhos avermelhados fixaram-se em Jeremiah, assustados. O garoto se manteve sem proferir uma única palavra por um longo tempo, como se esperasse que o loiro fosse embora e o abandonasse lá daquele jeito.
Não era algo que Jeremiah pretendia. Ele se sentou ao lado para fazer companhia, ainda sem dizer qualquer coisa. Não lembrava de ver Verion naquele estado desde a semana da morte de Elta. Era algo diferente e digno de atenção por sua parte. Mesmo que tivesse se afastado dele por anos por conta de Quilionodora, ainda restava em si uma preocupação genuína.
O Deus da Aniquilação, vez ou outra, ordenava que Jeremiah mantivesse toda e qualquer distância dos Velgo. Porém, naquele momento já parecia tarde demais para ponderar sobre essa ameaça. Viajava com um deles para Raptra, algo que talvez não fosse cabível ao perdão da deidade dracônica. Sentiu subir pela espinha um terrível medo de contrariar seu deus, mas não o bastante para pará-lo.
— Verion, o que aconteceu? Fala comigo, por favor…
O Velgo pensava: “Siralia Okeron está prestes a acordar… Vi naquelas memórias da Circe… Ela vai saber de tudo que estou planejando, minha ideia de como vencer Aurelius, meu plano de invadir a ZNI. Essa aliada do Aurelius é a maior pedra no sapato que eu poderia ter! Arrastei um monte de pessoas comigo pra esse caos e agora todos podem morrer por estarem perto de mim. Eu sabia que seria assim, sabia que os planos dessa organização maldita são me fazer sofrer ao extremo, mas fui egoísta e covarde ao ponto de colocar a vida dos outros em risco sem contar absolutamente nada… Ninguém deveria estar aqui além de mim.”
A respiração errática deu espaço para algumas palavras que saíram dificultosamente de seus lábios, como se rasgassem.
— Vai dar tudo errado… tudo isso vai dar errado… — Verion se curvou para frente, deixando escapar um som desesperado de sua voz. — Toda essa viagem não vai servir de nada porque eu sou fraco e… e… Nem mesmo vou poder ver a Yunneh de novo, sei que vou morrer antes disso…
— O que é isso agora? — perguntou com calma, colocando a mão suavemente no ombro dele.
— Não sei se posso te contar tudo… tem muita coisa estranha acontecendo na minha vida e ninguém sabe direito de todas as coisas.
— Por que não pode contar?
— Não sei em quem confiar, nem a Yunneh sabe o que eu quero fazer… — Ele abraçou os próprios joelhos. — A Lyria podia ter morrido hoje se não fosse por aquela amiga do Jon… Nós somos frágeis demais, e eu não consigo fazer nada pra mudar isso de verdade. Depois daquilo tudo, a Lyria passou o resto do dia em silêncio e evitando falar com todos. Não sei o que ela tá pensando agora, só não queria que ela sofresse mais…
“Pra ele ter escondido algo da própria irmã é porque a situação tá bizarra mesmo. Esses dois pareciam do tipo que confiariam a vida um ao outro.”
— Verion, pode confiar em mim. — Pesou a mão no ombro do garoto. — Desculpa por ter me afastado de vocês nesse tempo, agora quero entender o que você andou fazendo. O que eu preciso fazer pra você me contar a verdade inteira?
— Não sei, não sei se consigo te falar isso. Dá medo de você entender tudo errado ou achar que eu fiquei maluco de vez e me denunciar — respondeu de forma rápida, ofegante.
“Denunciar? Ele tá querendo cometer algum crime agora?”
— Ehh, você com certeza tá fazendo algum bagulho muito sinistro pelo jeito que tá falando… ou tá metido num problema enorme. — Jeremiah tirou a mão do ombro dele. Apoiou a cabeça na mão, tentando achar dentre seus pensamentos um jeito de fazê-lo se abrir sobre o assunto.
— Me deixa sozinho por um tempo…
“Deve estar assim por causa de Aludra também, não só essas coisas que ele não fala.”
“…Tudo bem.”
— Verion, quero contar pra você algumas coisas sobre mim… coisas que ninguém sabe além da Charlotte. Vou falar tudo da minha vida e você decide se essas verdades são suficientes pra eu ter sua confiança.
Um longo vazio naquela conversa se estabeleceu, ninguém falou nada por um minuto. Jeremiah apenas manteve a mesma feição preocupada o tempo inteiro, aguardando por uma resposta dele, qualquer que fosse.
— Tá… — Ergueu a cabeça, secando as lágrimas e respirando fundo.
“Falar disso com alguém pela primeira vez em tantos anos vai ser estranho.”
— Meu nome não é Jeremiah Glyonart, eu apenas inventei esse nome falso. Meu nome verdadeiro é Kriss Rayleigh.
— Ah, por que um nome falso? — Uma fagulha de curiosidade tomou-lhe a atenção.
— Você falou disso poucos dias atrás, então sei que lembra da minha conversa com a Charlotte. Toda aquela coisa sobre eu matar o pai dela quando achasse que tinha força o suficiente pra isso. O nome falso é por culpa desse cara, fiquei com medo dele ou outras pessoas ligadas a ele me acharem.
— Você sabe quem é ele? — Verion uniu as mãos, tentando aquecê-las.
— Karl Cettuwals, um bilionário que é amigo do rei de Raptra. É uma figura muito influente do país que usa uma quantia enorme de dinheiro pra encobrir os próprios crimes. Na realidade, apesar de todo mundo achar que esse cara é um filantropo bonzinho que faz doações e se importa com os outros, ele é um assassino em massa.
Jeremiah prosseguiu após uma longa pausa: — E tenho certeza de que não sou mais forte do que ele… Vi com meus próprios olhos o que ele era capaz de fazer. Verion, vou te contar tudo sobre o dia em que minha vida foi destruída, quero que me escute…
— T-tá bom… — Contendo momentaneamente a vontade de chorar que fazia seus olhos arderem, escutou a verdade dita daquele ponto em diante.

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