Capítulo 67 - Alguém Que Queira Reencontrar
Região Fronteiriça de Quilionodora com Raptra, 23/12/018, às 22:43.
A chuva caía pesada enlameando o solo na noite escura. O ruído estridente dos ventos que pareciam uivos se misturava aos estrondos distantes de trovões que cortavam os céus. Era quase impossível dormir naquelas condições, apenas alguém bastante exausto conseguiria fazê-lo.
O ar gélido atravessava as frestas da madeira de uma casa humilde localizada em uma área plana cercada de árvores carmesim. Abaixo de alguns cobertores, Jeremiah acordava de seu sono leve. Estava frio demais, nem aqueles tecidos impediam que sentisse arrepios.
Os olhos recém-abertos se encontraram com a luz de velas grandes. Iluminavam parcamente o quarto, todas colocadas em pequenos pratos de porcelana. Suas chamas dançavam com a corrente de ar que adentrava no ambiente, pareciam estar para apagar, mas sempre resistiam.
A escuridão que o circundava era opressiva, como se pudesse se mover para pegá-lo. Não podia de verdade, mas essa era a impressão de uma criança assustada na noite. Ele espirrou, fechando os olhos por reflexo, depois se levantou e caminhou até a porta do quarto; estava entreaberta.
O garoto espiou pela pequena abertura, respirando com calma para não chamar atenção. Teve vista da sala de casa, onde um lampião iluminava o ambiente a partir de uma mesa de madeira. Deu mais um passo à frente, tentando ver algo a mais. E então escutou vozes baixas se juntando aos ventos.
— Raman, eu já te falei que você não deveria estar fazendo essas coisas! Não consegue ouvir sua mãe uma vez que seja? Deixa eu dar um jeito nisso tudo — Martha Rayleigh, uma mulher de cabelos dourados, dizia aquelas palavras em tom impositivo.
— Desculpa, mas… eu não aguento mais ver as coisas que acontecem aqui. — A voz do irmão soava triste, como se prestes a desabar em choro. — Nós temos pouca comida e nenhum de nós consegue dinheiro… Eu não suporto ver você quase todos os dias tendo que bater na porta da casa dos outros pedindo coisas, pedindo comida pra termos algo e não morrermos de fome. E até nos dias em que não nos tratam como lixo e negam qualquer coisa, você não come e deixa tudo pra nós.
Raman continuou: — Não aguento, não aguento mais viver isso… Eu te amo mãe, eu não conseguiria viver tranquilo te vendo definhar assim e se preocupando tanto com nós! E… eu quero ter você comigo e com o Jeremiah… eu não quero ter que ser a pessoa que vai explicar pra ele que você não tá mais aqui de um dia pro outro. Você ficou fraca, pálida e passa um tempão do dia sentada porque não consegue se manter de pé direito!
Jeremiah olhou um pouco melhor pela fresta, vendo as lágrimas do irmão escorrerem pelo rosto e pingarem no chão de madeira. A expressão angustiada de Raman era iluminada em amarelo, algo que ficou preso em sua memória. Aos pés dele, uma bolsa aberta repleta de dinheiro estava largada.
— …Eu entendo o que você sente, mas me promete que essa foi a última vez que você lidou com esse tipo de gente, tá bom? — Martha o abraçou e chorou junto dele, sem nem imaginar que Jeremiah via tudo em silêncio.
— E-eu sei que lidar com aqueles traficantes de armas é horrível, mas agora nós temos dinheiro o suficiente pra sumir desse lugar! Só precisamos ir pra uma cidade grande em Raptra e vamos poder viver em um lugar bom, vamos poder comer bem, vamos poder cuidar do Jeremiah melhor… — Ele fungou, dando uma risada baixa. — Eu adoro esse moleque besta, ele merece viver em um lugar mais calmo…
— Ei, não chama ele de besta… — Ela riu, ainda chorando e o abraçou ainda mais forte. — Podemos sair daqui amanhã, de tarde.
— Sim, não temos mais nada a fazer nesse lugar aqui. Prometo pra você que nunca vou fazer isso de novo, prometo, prometo… Foi só dessa vez, depois de hoje isso acaba pra sempre. Não quero me envolver com criminosos.
Jeremiah permaneceu parado no mesmo lugar, com o coração acelerado. Sentia que queria abraçá-los, também estar junto deles, mas achou que não era o momento para isso. Voltou para a cama e se cobriu até o pescoço, fechando os olhos outra vez.
“Desde que o pai foi embora, tudo ficou mais estranho…”
“Mas acho que vai ficar tudo bem agora, vamos sair daqui…”
Um sorriso se formou enquanto algumas lágrimas desciam no rosto e caíam pelo travesseiro. Do fundo do coração, apenas desejava que aquela noite tivesse fim.
Região Fronteiriça de Quilionodora com Raptra, 24/12/018, às 08:04.
Jeremiah despertou na manhã ouvindo algumas risadas. A primeira coisa que viu ao abrir os olhos foi irmão bem ao lado dele, balançando o colchão para tentar chamar sua atenção. O rosto de Raman era simpático e com uma expressão gentil, alguém quase impossível de se ter uma má impressão sobre. Tinha cabelos parecidos com os de Jeremiah, mas em um tom mais escuro.
— Vem pra sala! Rápido! — disse e correu pela porta sem olhar para trás.
Jeremiah bocejou e esfregou os olhos, ainda sonolento. Levantou-se da cama e caminhou até a porta, tendo uma visão inusitada na sala. A mesa tinha comida, bastante dela.
— Vem aqui! — Martha chamou, tinha uma expressão sorridente. — Jeremiah, vamos embora desse lugar hoje e nunca mais olhar pra trás. Então, vamos comer bem pra comemorar isso.
O garoto se sentou silenciosamente em uma cadeira. Sorria de forma tranquila e doce, acreditando que tudo sairia certo.
— Pode pegar o que você quiser, não é de novo um daqueles sonhos em que algo bom acontece e você acorda decepcionado depois. — Raman fez uma expressão engraçada de olhos fechados. — Aconteceu muito comigo…
Ainda era bem cedo, mas o frio se dissipava com o brilho profundo do sol. Aquela luz atravessava o vidro fosco das janelas, iluminando e deixando um pouco difícil de ver o rosto de Martha. Aquele momento caloroso e de alegria seguiu por minutos e minutos, até algo acontecer.
Era o último dia que passariam naquela casa, iriam partir de lá, mas não do jeito que imaginavam.
— É aqui. — Uma voz veio logo da frente de casa, baixa, mas absolutamente compreensível.
Martha levantou da cadeira, o coração acelerado parecendo estar para explodir. A mulher pálida observou pela janela e avistou três figuras de sobretudo branco, cada um utilizava uma máscara branca com um sorriso desenhado por uma simples linha curvada.
— Não… o que eles querem aqui? — A mãe dos garotos travou, amedrontada por reconhecer aquelas vestimentas, iguais as dos boatos que circulavam na região.
Espalhavam-se rumores sobre assassinos nas fronteiras, invasores de lares que sequestravam crianças. Alguns tratavam isso como uma lenda e outros como uma certeza; Martha agora era uma que tratava como certeza. Aquelas máscaras eram inconfundíveis com base nos relatos.
Uma batida. Outra batida. Mais uma batida. Batiam à porta com força, fazendo um barulho alto e assustador. Nenhuma resposta veio dos residentes, então a maçaneta foi girada, ainda com todos na sala de casa.
Uma figura alta e mascarada invadiu aquele espaço, acompanhado de outras duas figuras. Observaram o interior silenciosamente, encarando os três sem nada dizerem. O líder tirou de seu bolso uma única moeda e a segurou entre os dedos.
— Raman… — A voz veio, impessoal e fria como neve.
— O que você quer com meu filho? — Martha caminhou, trêmula, entrando no caminho entre os mascarados e os garotos.
— Descobrimos o envolvimento do seu Ramanzinho em algo bem chato para os meus. — Brincava com a moeda, passando-a entre os dedos. — Existem alguns grupos na fronteira que são um problema para nós, uma chaga infernal da qual não conseguimos nos livrar facilmente; e alguém piorou a situação.
Uma jovem de cabelos azuis deu um passo adiante, olhando profundamente para os irmãos.
— Alguém se meteu com uma das facções que rivalizam com a nossa… e deu um jeito de dar armas perigosas para eles. Esse alguém é seu filho. Não sabemos de onde o garoto tirou elas para realizar essa venda, então é mais uma questão. Viemos fazer uma cobrança.
— O dinheiro… N-nós podemos dar o dinheiro todo pra vocês! Por favor, só vão embora daqui…
— Não será possível resolver de um jeito tão fácil. — O líder segurou e lançou a moeda com Roha contra a parede de madeira da casa, abrindo um buraco enorme.
O estrondo da madeira sendo partida fez Martha dar um passo para trás, ofegante.
— Por favor…
— A arma que foi vendida possuía munição de Quartzo das Profundezas, e isso é capaz de ignorar a proteção do Roha. Alguém conseguiu isso e matou um estimado aliado nosso, dinheiro não pagaria por essa vida. Vamos levar seu filho e fazê-lo falar tudo que sabe, ele é nosso agora.
Raman abaixou a cabeça, tomado por um sentimento amargo e pesado. Ele havia errado em algo, essa era a única explicação para aquilo estar acontecendo. Não lembrava de ter dito o próprio nome a ninguém, não havia mostrado seu rosto. De alguma forma, encontraram ele um dia antes de sua vida mudar para sempre, mudar para melhor.
Sabia que não teriam chances contra as figuras aterrorizantes dos boatos que corriam naquelas terras, então colocou-se à frente da família sem relutar por entender que era sua responsabilidade. Martha sentiu um calafrio ao vê-lo passar ao seu lado e ir próximo aos invasores.
— Tá bom… podem me levar, mas por favor, deixem minha família em paz! — Levou o punho fechado para a altura do peito. — Só me envolvi com essas coisas por causa deles, então eu imploro… deixa eles viverem!
— Se isso for te fazer abrir a boca e contar tudo, parece aceitável… Eu nunca mataria uma mãe tão bonita quanto a sua. — O líder deu uma risada com puro desdém e deu as costas para eles.
— Vem logo garoto — disse a jovem de cabelos azuis, estendendo a mão para ele.
— Ei, antes de irmos, é bom fazer uma coisa, só pela dúvida. — O terceiro integrante botou a mão na cabeça de Raman. — Revelação: Exame.
Um brilho prateado emanou daquele contato, e estava feito.
— Algo interessante?
— Mmm, é um dos selecionados pelo Deus do Desconhecido… com certeza é interessante. Vamos descobrir melhor o que ele pode fazer depois.
Jeremiah observava paralisado a cena diante de seus olhos. Viu o braço de seu irmão ser agarrado com brutalidade por um deles, e ele sendo puxado em direção à porta com truculência.
O som dos passos, pesados e cadenciados, ecoava pela sala da casa de madeira. Naquele relativo silêncio que se instaurou, o momento parecia se arrastar como algo que nunca teria um fim. Nenhum dos invasores se importava com a dor que causavam.
— Raman… — A voz de Martha quebrou vazio silencioso que tomava a casa. Um sussurro fraco e de lamentação, sem qualquer expectativa de que poderia fazer algo a mais.
Raman forçou o corpo a girar no meio do puxão, virando-se para encarar a mãe pela última vez. Seus olhos, cheios de lágrimas, se encontraram com os dela.
— Nem pensa em tentar parar eles, você não vai conseguir fazer isso. Mãe, pega esse dinheiro e desaparece desse lugar… Você e o Jeremiah ainda podem viver uma vida boa juntos, longe daqui… — Tentou manter a voz firme, mas era evidente que se segurava para não chorar. Um sorriso surgiu em seu rosto, um sorriso trêmulo dado para que o irmão não entendesse que ele estava com medo.
A porta foi deixada entreaberta quando todos se foram de lá, abandonando os dois sozinhos com toda aquela comida na mesa, o café da manhã feliz que não puderam ter. Martha abraçou o filho, aquele que lhe restou e chorou sem conseguir parar.
Sentia-se inútil por não ter conseguido fazer nada para impedi-los de levar seu filho. Era impossível fazer qualquer coisa além de olhar. Quanto mais pensava nas palavras de Raman na noite anterior, mais seu coração doía.
— Mãe… ele vai ficar bem? — perguntou Jeremiah, com uma preocupação genuína permeando a voz.
— Não sei… Eu não sei… — Ela soltou o filho depois de algum tempo e foi correndo até o quarto onde havia ficado todo o dinheiro.
— Mãe?
— Precisamos pegar nossas coisas e sair daqui agora, não podemos continuar nesse lugar por nem mais um segundo! — gritou, a voz desesperada e tomada de medo. — Essa casa só nos trouxe desgraça, esse lugar é maldito…
“Meu pai deveria estar aqui agora…”
“Por que ele foi embora?”
Enquanto Martha estava recolhendo o dinheiro e revirando os poucos pertences daquela casa infeliz, Jeremiah não conseguia tirar os olhos da porta. Movido por uma curiosidade de ver o que aconteceu com Raman, ele se andou devagar. Seus pés o levaram diante, numa decisão impensada que o fez alcançar a porta.
Apoiou-se na parede e moveu a cabeça para perto da fresta entreaberta. Forçou os olhos para ver melhor, sentindo o coração acelerado.
Nada. Não tinha nada lá. Ele puxou a porta pela maçaneta, e seu ranger chamou a atenção da mãe.
— Jeremiah?! — A voz preocupada chegou até a sala, fazendo o garoto se virar instintivamente na direção do quarto enquanto ainda fazia o movimento de abrir a porta.
Quando ergueu o olhar adiante, olhando para fora, avistou dois dos mascarados a pouquíssimos passos de distância. Seus olhos se encheram de lágrimas e o peito fervilhou com um sentimento terrível. Uma sensação de que poderia morrer de um segundo para o outro se instalou em cada fibra do seu corpo. A qualquer momento, a qualquer momento… mas esse momento nunca chegava.
O silêncio cruel e a ansiedade crescente o fizeram ficar paralisado naquele ponto. Tudo podia acabar em um piscar de olhos, e essa decisão cabia àquelas duas pessoas que ele não conhecia nem os rostos. Era impossível saber o que sentiam atrás daquelas impessoais máscaras brancas e sorridentes. Tomado pelo medo, não pôde conter suas lágrimas.
— Hahaha, pelo menos ele chora quietinho, nem tá fazendo barulho o coitado. Prefiro assim, cansa meus ouvidos ouvir essas crianças escandalosas — disse o terceiro integrante daquele grupo.
— Vai rápido com isso Aleggro, não temos tempo para deixar meu pai esperando. — A figura de cabelos azuis adentrou o ambiente junto dele, apoiando as costas na parede para observar.
De repente, Martha veio correndo do quarto segurando uma faca e avançou contra Aleggro, tentou acertá-lo no rosto. Uma tentativa inútil. A faca foi arrancada da mão dela, como se uma força invisível tivesse a puxado e lançado contra o teto.
— Vão embora daqui!
— Não, não vou não — disse Aleggro em tom de deboche ao balançar a cabeça, negando aquele pedido. — Nosso chefe disse que nunca mataria você… E olha só! Eu não sou ele… Hhahaha, meu querido chefinho é tão bom em cumprir promeeeessas.
O homem ergueu a mão vagarosamente, permitindo que o Roha fluísse intensamente. Martha, por um reflexo desesperado correu e pegou Jeremiah em seus braços, querendo correr pelo buraco aberto na parede com a moeda, e fiz isso. Martha abandonou a casa com o único filho que restou em seus braços.
Os pés descalços afundavam no solo enlamaçado pela chuva da madrugada, agarrando-a naquele chão a cada passo. Fazia força para se mover o mais rápido possível, a respiração tão desesperada quanto os batimentos de seu coração. A visão se tornava turva conforme se afastava, o corpo sobrecarregado com o mar de sensações intensas que apenas aqueles que já estiveram à beira da morte sentiram.
— Mãe?
— Vai ficar tudo bem… Acredita em mim! — Ela não parava, não parava por lembrar das palavras de Raman. Ele queria os dois vivos e longe de lá, queria ser capaz de ao menos isso realizar em nome do filho.
Um dia, umas poucas horas os separaram de viver em paz. Dois deixaram de viver o sonho da paz que jazia adiante, tendo a casa invadida e sua tranquilidade abalada. E uma mãe deixou de viver, deixou de viver a própria existência.
Jeremiah sentiu algo pingar e escorrer sobre seu rosto, era quente, muito mais quente que a sensação do sol da manhã sobre sua pele. Antes que pudesse se dar conta daquilo e processar a informação, veio a queda e sua impiedosa sensação inescapável. Sentiu a dor do rosto batendo violentamente contra o chão, e o peso do corpo acima de si.
— Mãe? — chamou, rouco.
O líquido quente, que agora sabia ser sangue, continuava a pingar e escorrer, não mais apenas no rosto, mas fluindo por suas costas, encharcando suas roupas e se espalhando no chão ao redor deles. A lama se tornou vermelho escuro. Uma onde pânico ainda maior tomou Jeremiah ao sentir contra suas costas o ritmo frenético e descontrolado do coração de Martha.
— … — Tudo que saiu de sua boca foi um murmúrio inaudível.
Nenhuma resposta veio, absolutamente nada. As batidas alucinadas que ele sentia sob o peso de Martha contra suas costas começaram a desacelerar. O ritmo tornou-se irregular, mais lento… mais lento… até que a pulsação cessou por completo.
Ela estava morta.
O som indistinguível de passos, cada segundo mais evidente. Uma voz veio, trazendo consigo palavras revoltantes.
— Não gostamos de deixar sobreviventes… isso é algo problemático, sabe? — Aleggro se aproximou mais e pisou no corpo, pressionando ele para baixo, contra Jeremiah. — Que nojeira isso aqui, urghh…
— Antes de matar esse garoto, pelo menos analise as capacidades dele… pode ser que ache algo útil.
— Sei não ein… não me parece grandes coisas, mas já que pediu. — Andou até próximo de onde estava o rosto do garoto e o segurou. — Revelação: Exame.
O brilho prateado sobressaiu, mas nenhuma reação veio do homem.
— E aí, Aleggro?
— Que tragédia uma falha genética dessas nascer. Um controle tão baixo de Roha assim… é repugnante — Ele esfregou a mão contra o sobretudo branco, como se estivesse se limpando de uma sujeira. — Charlotte, dá um jeito nessa porra aí, não quero nem tocar nisso.
Uma expressão de nojo tomou seu rosto, por baixo da máscara, e ele deu as costas para eles, seguindo na direção onde estavam indo o líder e Raman. Charlotte resmungou baixinho e foi até Jeremiah.
— P-por que vocês fizeram isso? — A voz soava acuada, esmagada em tantos receios que ninguém conseguiria explicar.
— Ordens, não é difícil de entender… Sigo as regras do meu pai e ele segue as regras de uma deidade. — Ela formou uma rapieira feita inteiramente de raios. Tirou o corpo de cima do garoto, movendo-o para o lado com o pé, e apontou a fina espada elétrica para ele.
A lâmina brilhante se mantinha a centímetros da face ensanguentada de Jeremiah. Ele nem conseguiu reagir, apenas ficou lá parado, sem piscar ou fazer qualquer outra coisa por tanto tempo que isso chamou a atenção da jovem.
Ela respirou fundo e perguntou: — Você quer mesmo continuar vivendo depois disso tudo? Posso acabar com esse seu sofrimento lastimável tão rápido que nem vai perceber que aconteceu; não prefere isso?
— Não. — Jeremiah fechou os olhos. — Se eu morrer, meu irmão vai ficar sozinho… queria pelo menos ser alguém familiar que ele pode reencontrar no futuro. Ele não pode ficar sozinho…
Charlotte pensou um pouco naquilo.
— Curioso… esses sentimentos são estranhos para mim. — Ela removeu a máscara com a mão livre, revelando seu rosto belo e olhos azuis que lembravam a imensidão do mar. — Não é uma preocupação que eu teria… Parece muito abstrato, não sei colocar em palavras.
— Pensa nas pessoas que você ama e que se importam com você… Não acha que sofreriam se nunca mais pudessem te encontrar e ficassem sozinhas?
— …Não sei se alguém me ama, não faz sentido que ame afinal. — Seu olhar se estreitou. — Para o deus que meu pai segue, matar e massacrar não é um pecado… mas sei que sou uma pecadora por sujar minhas mãos no sangue dos inocentes. Alguém como eu não deveria ser amada, muito menos perdoada. Suas palavras são esperançosas, e não tenho isso na minha vida. Não consigo pensar em ninguém que eu gostaria de reencontrar depois de um longo tempo, nem consigo imaginar alguém que gostaria de encontrar a mim.
— Por favor, eu não quero morrer… — O olhar assustado, não era capaz de escondê-lo.
— Diga-me no futuro o que sentirá no dia em que reencontrar alguém que ama. — A espada de raio desapareceu. — Estou interessada, interessada no que uma criança como você poderia fazer para achar seu irmão outra vez nesse mundo vasto. Conte para mim o que é essa sensação dessa vontade, caso um dia consiga concretizá-la.
— Tá…
— Vou embora. Recomendo que suma dessas terras e nunca mais volte, se souberem que te deixei vivo será um problema para mim e para você. — Mascarou-se outra vez, permanecendo inerte por alguns segundos, olhando o cadáver da mãe de Jeremiah.
Charlotte correu, se afastando em uma velocidade tão grande que sumiu do campo de visão em instantes.
Sozinho, completamente sozinho. Jeremiah se levantou e olhou para a mãe com um aperto pesado no coração. Um grande ferimento no torso que mal conseguia ver por conta das roupas encharcadas em sangue no corpo dela. Nem chorar conseguia mais. Apenas ficou paralisado lá por tanto tempo que quando se deu conta a noite estava chegando.
Seus passos o levaram até o interior da casa. Caminhar lá dentro, depois de tudo, manchava sua mente com uma tormenta de pensamentos perturbadores. Chegou ao quarto da mãe, onde estava a bolsa lotada de dinheiro.
“Todo mundo morreu por causa dessa coisa…”
Jeremiah segurou uma moeda em mãos e a apertou, furioso. Não conseguiu nada além de uma dor na palma com isso. Sentou-se na cama da mãe e ficou lá por um tempo, de cabeça baixa.
Seu irmão havia sido sequestrado e sua mãe morta apenas porque eles queriam ter dinheiro. A falta de dinheiro foi a principal coisa que levou-os àquela desgraça que caiu sobre eles. Perguntou-se da razão de serem tão pobres, serem tão largados ao relento no mundo.
“Por que nós não tínhamos nada? Por que meu irmão precisou fazer coisas que não queria pra tentar ajudar a gente?”
“Muitas outras pessoas devem ter sofrido igual nós por dinheiro… mas por quê?”
“Isso não faz sentido…”
Não queria nem mesmo ver aquele dinheiro outra vez, iria se sentir sujo por usar um dinheiro que lhe causou tantos problemas. Se a falta de dinheiro era uma maldição na vida dos mais humildes, queria entender sua razão algum dia. Enquanto não podia compreender, nutriu uma vontade em seu coração, um desejo genuíno.
“Não quero que mais ninguém passe por algo assim…”
Seus desejos e sonhos, nascidos daquele dia escabroso e sombrio, eram brilhantes como a luz do sol. Queria ser forte o suficiente para proteger os fracos e indefesos, forte o suficiente para impedir que a morte chegasse aos inocentes, forte o suficiente para que pudesse reencontrar o irmão em algum dia longínquo dali a muitos anos.
— Se eu for forte o suficiente, consigo dinheiro para ajudar os outros? Consigo dinheiro sem que ninguém que eu amo se machuque por isso? — Estendia a mão em direção ao teto, falando sozinho. — Posso salvar alguém se eu for diferente?
Uma dor de cabeça fraca surgiu, parecendo pressionar sua testa por dentro. O último pensamento que cruzou sua cabeça foi: “Não quero deixar que alguém precise ver a própria mãe desse jeito, igual eu… Vou fazer de tudo pra não deixar que isso exista…”
Adormeceu na cama da mãe, vivenciando mais uma noite gélida, dessa vez sem vozes para ouvir. Nada além do silêncio o acompanhou naquelas horas, até que o sol nascesse.
Pela manhã, decidiu cavar uma cova para poder fazer algo pela mãe antes de ir embora. Por ser uma criança, demorou várias horas para conseguir terminar aquilo, era fraco e nem Roha conseguia utilizar para facilitar. Deixou uma flor, uma azálea, acima da terra onde a enterrou.
— Desculpa por ter nascido desse jeito… Queria ter força o suficiente pra ter evitado tudo isso. — Abaixou a cabeça. — De algum jeito, quero virar alguém que você acharia bom.
Mais tarde, ele se lavou na água corrente de um rio e vestiu outras roupas antes de ir embora daquele lugar. Seguiu caminho sem qualquer certeza de para onde estava indo, sentindo-se fraco com a fome. Não trouxe um centavo daquele dinheiro consigo por não querer contato com a coisa que causou a ruína de sua família.
Acabou desmaiando.
Vale das Orquídeas, em Quilionodora, 26/12/018, às 09:47.
Jeremiah abriu os olhos, percebendo que estava no interior de uma casa feita de pedra polida. Deitado em uma cama, fitou os arredores do ambiente. Era um local simples, tinha poucas coisas lá dentro. O objeto mais chamativo era um grande vaso de flores cheio de orquídeas.
— Oi? — Ele levantou, fraco e cansado, seguindo até a mesa. Observou as plantas silenciosamente.
— Nossa, mas cê gosta muito de dormir! — A porta da casa foi aberta segundos depois e uma mulher alta entrou, sorridente. — Você tá bem?
Ela tinha longos cabelos escuros que chegavam na altura da cintura, e por toda sua extensão estavam pequenas pedrinhas brilhantes em presilhas de cabelo. Vestia-se de preto, camisa e saia dessa cor, também tinha um delineado preto bem sútil ao redor dos olhos que eram quase cobertos por uma franja.
— Quem é você? Que lugar é esse aqui?! — Jeremiah deu alguns passos para trás.
— Meu nome é Volu Valasse, ninguém muito importante. — Ela sorriu e fez um gesto com a mão, o chamando. — Te encontrei jogado na floresta igual uma fruta podre, é melhor você vir comer alguma coisa antes que morra.
Naquele dia, Jeremiah conheceu um vilarejo com pessoas um tanto misteriosas, viviam muito afastados de tudo como se fugissem de algo, mas eram boas pessoas. Teve um bom café da manhã com pessoas muito acolhedoras e ficou um bom tempo conversando com Volu.
Com o decorrer dos dias, semanas e meses que ele passou naquela comunidade aprendendo sobre as coisas, Volu descobriu sobre sua vida e suas tragédias. Acabou citando que ele lembrava um pouco Elta Velgo, um amigo dela, quando falava tão entusiasmado em ajudar os outros como se quisesse ser algum tipo de super-herói.
Jeremiah descobriu sobre a família Velgo e ficou admirado com Elta; sonhava em ser alguém tão bom quanto ele, mas não podia. Suas limitações de nascença com Roha eram um impeditivo cruel a qualquer plano que tivesse de mudar as coisas. Mesmo que o respeitassem lá e Volu fosse como uma segunda mãe para ele — uma figura feminina de autoridade que sentia precisar em sua vida —, decidiu que não queria mais estar por lá.
Arrumou suas poucas coisas na metade do ano 19 do Calendário da Calamidade e partiu em direção à Aludra, na expectativa de conhecer Elta Velgo. Queria saber se ele seria capaz de curá-lo daquela condição, dar-lhe a oportunidade de ser um herói na vida dos outros tal como almejava. Cruzou o país inteiro em uma longa e cansativa jornada até chegar na cidade de Aludra.
Estabeleceu-se na floresta e, com a ajuda de algumas pessoas, construiu uma cabana para morar. Sempre que perguntavam por seu nome, dizia ser Jeremiah Glyonart. O nome Kriss Rayleigh estava abandonado há tempos para evitar problemas.
Conseguiu falar com Elta Velgo em certa oportunidade, mas descobriu que nem mesmo ele era capaz de curá-lo daquela coisa. Elta disse que talvez alguns equipamentos mágicos pudessem ajudá-lo nisso, mas avisou que encontrar algum que pudesse recuperar suas capacidades seria quase impossível. Era algo que nem mesmo o dinheiro dele poderia comprar.
Nessa época conheceu os filhos dele; apenas conversou com Verion algumas vezes e pouquíssimo com Yunneh.
Apesar de decepcionado por ter cruzado o país e deixado Volu para trás por nada, ele não se deixou abater. Mesmo que ainda não tivesse controle do Roha, queria crer que esse dia chegaria, então treinou sem parar. Queria se tornar um espadachim formidável, mesmo sem acesso à magia, para estar pronto quando o dia chegasse. Sua rotina se manteve inalterada por anos, pelo sonho de ser um salvador na vida das crianças mais pobres daquele mundo.
Cidade de Aludra, no dia do ritual feito pelos irmãos Velgo para entrarem em contato com Quilionodora, o Deus da Aniquilação.
A assustadora figura de majestosos cabelos azuis estava logo ali na sua frente, uma imagem que não esperava ver novamente. Aquele rosto trazia memórias do pior dia de sua vida, como se fosse arrastado para o passado amargo.
— Jeremiah Glyonart é um bom nome, você é criativo.
— O que você veio fazer aqui? Como me achou nesse lugar?!
— Vim tentar mudar o rumo da história, entende? — Ela abriu um sorriso fraco. — Parei de seguir as ordens do meu pai e não mato mais ninguém desde aquele dia. Suas palavras ainda me soam um tanto confusas, mas acho que comecei a entender coisas sobre o amor e alguém que eu queira reencontrar caso nos separemos. Não existe como eu me redimir dos meus pecados como uma assassina, mas quero te entregar algo para que viva como deveria.
— Ah…
— Eu sempre vi muitas crianças morrerem nas mãos dele sem chance de se tornarem fortes, então quis dar essa oportunidade para alguém.
Ela abriu um grande estojo em que havia uma espada vermelha e uma máscara branca com detalhes dourados. Eram itens de luxo muito bem confeccionados.
Jeremiah achou um pouco estranho, mas pegou as duas coisas com rapidez. Colocando a máscara, conseguiu sentir algo de diferente.
— Isso é…
— Senti que seu controle sobre o Roha é praticamente nulo, então pedi para Yan, meu ferreiro pessoal, construir duas coisas que normalizassem isso.
Jeremiah se esforçava para segurar aquela espada que era tão pesada, mal conseguia mantê-la para uma altura maior que a da cintura.
— Não precisa tentar me impressionar… — Ela acenou para ele e sorriu. — Me encontre em Raptra quando sentir que é forte o suficiente. Quero sua ajuda para matar meu pai. Acha que consegue?
Mesmo que fosse aquela pessoa, um sentimento de gratidão o tomou. Por ter ganhado aquelas coisas que o permitiriam viver seu sonho de ser como um herói, aceitou compactuar com aquele pedido insano.
— Sim! — respondeu do fundo do coração, e quase tombou para o lado com a arma.
— Quase esqueço de falar… seu irmão está vivo. — Sem maiores explicações, Charlotte desapareceu.
Uma nova trilha havia se aberto para Jeremiah, um caminho para se tornar alguém que pudesse ser um orgulho para a mãe. Não podia parar ou desistir a partir daquele ponto, precisava ficar forte para retribuir pelas chances dadas por Charlotte e parar encontrar o irmão.
Após falar com Verion, retornou à cabana e acabou por encontrar algo em suas roupas que nem sabia como parou lá. Era um papel escrito por Charlotte, contando diversas coisas sobre o próprio pai e dando enfim um nome a ameaça que invadiu sua casa: Karl Cettuwals.

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