Capítulo 69 - União Parte 2
O barulho dos trilhos continuava na madrugada profunda. Verion e Jeremiah seguravam na mão um do outro enquanto conversavam.
— É, você é doidinho mesmo quando o assunto é ajudar os outros! Só me explica essa parada melhor que agora eu tô confuso e curioso! — exclamou Jeremiah, empolgado com a ideia.
— Eu vou pra Raptra agora porque quero muito duas coisas: pedir para meu irmão entrar no nosso grupo e, depois, tentar descobrir um meio de livrar a Lyria do problema com a Circe. A Lyria se libertar do controle dela seria um dos melhores cenários possíveis nisso tudo. Ela é extremamente forte e, se dominar o poder da Circe, vai ser como se tivéssemos uma divindade do nosso lado.
— Entendi…
— Ela ter essa força toda seria ótimo, tanto pro que ainda não te expliquei, quanto por por ela estar mais segura sendo forte. — Verion soltou a mão dele. — E falando no que ainda não expliquei… Você não sabe de onde eu tirei essa ideia de transformar todos em semideuses, né?
— É, não sei mesmo. — Jeremiah se sentou novamente onde estava antes.
— Em uns documentos do meu pai, eu descobri que existe um ritual chamado Ritual de Transcendência. Foi esse deus dentro do meu corpo que criou isso, Aurelius Daath. Esse ritual consegue transformar qualquer ser vivo em um semideus. Qualquer pessoa que conseguir isso pode ficar tão forte quanto a Lisbeth ou até mais. Meu objetivo é conseguir ir até onde essa coisa está e pegar ela pra mim.
Verion continuou: — Aurelius, Circe e Quilionodora… esses três querem matar eu e minha irmã. Por um tempo eu acreditei que a Yunneh conseguiria ficar muito forte com o treinamento dela a ponto de conseguir fazer alguma coisa, mas… Nós somos irrelevantes, nenhum de nós tem qualquer capacidade de bater de frente com uma deidade. Nem meu pai conseguiria fazer algo a respeito com as habilidades dele.
Ele concluiu: — Quando descobri que esse ritual estava escondido dentro da fortaleza de Layla Zayn na ZNI, entendi que seria esse o único meio da humanidade se proteger de Aurelius Daath, que quer acabar com toda a vida do universo. Vencer de Layla é uma tarefa praticamente impossível, então eu preciso de aliados fortes pra em algum momento no futuro conseguir ultrapassar as defesas da fortaleza e tomar aquele ritual. Sei que espalhar um poder tão perigoso pelo mundo inteiro, para qualquer um, pode causar um caos irreversível, mas isso é melhor que só aceitar a destruição de braços cruzados. A humanidade precisa ter a chance de revidar contra essas forças que brincam com nossas vidas! Acredito nessa mesma ideia da Yunneh, não dá pra só abaixarmos a cabeça e aceitar tudo que fazem conosco por algum pretexto divino!
— Vencer a mulher mais forte do mundo e invadir a casa dela?! — Jeremiah pôs a mão no rosto, sorrindo inconformado. — Você realmente é megalomaníaco como todo mundo dessa sua família! Hahaha… Eu quero ver isso, quero ver se você vai conseguir mesmo concretizar essa maluquice.
— Você vem comigo?
— É claro, idiota! — O loiro deu um soco fraco no ombro dele. — Já repeti um milhão de vezes, eu vou morrer se não me mover para mudar meu futuro, e o mesmo vale pra você. É claro que tudo isso é a maior loucura que alguém poderia planejar, mas tenho muitos motivos pra seguir com você nessa. Primeiro: Qulionodora vai querer me matar por ter me reaproximado de você. Segundo: eu quero me tornar um semideus também pra realizar meu desejo de ser um herói e livrar as crianças do sofrimento que tive! E terceiro: eu não morreria em paz sabendo que não ganhei nenhuma vezinha da Yunneh!
Verion riu e voltou a sorrir, acompanhando aquele entusiasmo do amigo.
— Você ainda não superou aquela luta?
— Sou orgulhoso, tá me entendendo? — Jeremiah parecia tão animado com a ideia que estava quase tremendo. — Você deve achar que sou completamente maluco por aceitar tudo isso e topar participar dessa coisa toda!
— É, acho um pouquinho — respondeu, sincero.
— E talvez você esteja certo mesmo! — Fechou a mão direita. — Bora ver no que vai dar essa coisa toda. Procurar pessoas fortes, né…
Alguns segundos breves de silêncio se sucederam.
— A Lyria ainda não sabe de tudo, tipo os detalhes e o meu plano. Eu não contei ainda. Tudo que ela sabe é sobre Aurelius estar no meu corpo, a Circe querer matar eu e minha irmã, e sabe sobre o Vincent Velgo.
— Teve algum motivo pra não contar?
— Não sei se ela ia achar muito sensato querer tentar invadir a ZNI depois de saber quem comanda aquele lugar.
— Olha só, se você confia em mim, tem que confiar nela também. Dá pra perceber que ela tem uma grande consideração por você, então é melhor valorizar essa amizade e acreditar nela. — Jeremiah apontou para o rosto dele.
— Ok, vou falar depois… — Fechou os olhos e pensou em outras coisas a dizer.
Durante alguns minutos, Verion explicou as complicações futuras envolvendo Aurelius e Siralia Okeron. Aurelius queria fazê-lo sofrer para desenvolver seus poderes, então o risco de estar perto dele era grande. No assunto referente à Siralia, disse que ela em breve despertaria de seu sono e seria um grande entrave aos planos. Sua capacidade de ler memórias revelaria aquele plano aos inimigos. Jeremiah respondeu que não era motivo para pensar em desistir.
Trajeto para Raptra, 03/05/029, às 04:46.
O Velgo e Jeremiah retornaram ao vagão onde todos estavam.
— Hmmm, você tá acordada? — disse Verion ao ver Lyria de pé ao lado de Elemenope.
— Sim… — Ela olhou brevemente para ele e voltou seu olhar para a mulher de cabelos cinzentos. — Conversei um pouquinho com a Elem, ela quis me fazer umas perguntas.
— Não me chame de Elem, não quero um apelido. — A expressão mal-humorada era evidente.
“A voz dela continua estranha. Parece estar se esforçando muito para falar.”
“Essa amiga do Jon é meio confusa.”
Jeremiah se deitou onde estava anteriormente e bocejou antes de falar: — Não aguento mais ficar dentro dessa coisa, é luxuoso e tudo mais, mas quero andar um pouquinho.
— Falta pouco pra chegarmos em Raptra, provavelmente no começo da tarde vamos estar lá. Esse trem é muito rápido, então não precisa se preocupar tanto com isso — Verion respondeu num tom um tanto otimista.
— Se você tá dizendo, vou confiar… Voltar a dormir, boa noite aí gente — Jeremiah falou baixinho.
Verion caminhou até Lyria e disse: — Quando chegarmos lá, vamos atrás das respostas que eu prometi que iríamos buscar. A biblioteca mais famosa de Raptra fica na capital, então já temos um indicativo de onde ir.
— Obrigado por se dispor tanto a me ajudar com essas coisas… — murmurou como se fosse um milagre alguém querer fazer isso.
Mesmo que Verion quase todo dia reafirmasse suas intenções, aquilo continuava sempre parecendo um sonho para Lyria. Era difícil assimilar a ideia de que alguém queria vê-la bem e ajudar em suas causas pessoais. Eram conceitos alheios a sua existência pregressa.
— Eu já disse, tá tudo bem! Prometi isso e vou cumprir, não existe como eu desistir de te ajudar.
Lyria esboçou um sorriso fraco e disse: — Vamos dormir, precisamos estar bem para conhecermos esse novo lugar, não é?
— Vocês podem dormir, eu tomo conta do vagão. — Elemenope ergueu a espada. — Não preciso dormir, então não há problema em que eu fique de guarda.
Quando Verion desviou o olhar de Elemenope, viu Lyria carregando mais um monte de barras de chocolate. Ela o percebeu observando e correu para se deitar, cobrindo-se até a cabeça em seu assento reclinável.
— Os chocolates são meus.
Raptra, quilômetros finais antes da Capital, 03/05/029, às 11:34.
A luz do sol trespassava as pequenas nuvens do tempo nublado.
Tudo que podia ser visto naquele ponto pelas janelas eram vastos campos verdejantes com diversas macieiras. Ao longe, pequenas casas espalhadas e vilarejos de médio porte. Fora da capital as coisas eram muito mais simples, uma terra rural comum. O que destoava dessa sensação eram grandes torres metálicas com tubos dourados grossos. Essas estruturas cortavam dezenas de quilômetros e seguiam rumo à capital.
— Isso é realmente tão rápido quanto eu me lembrava — disse Jon enquanto organizava as coisas em sua mochila.
— Qual foi a última vez em que você esteve numa locomotiva desses? — Verion apenas estava sentado ao lado de Lyria esperando. Não tinha o que organizar porque sua bolsa havia sido destruída no caos contra Pierluigi.
— Não muito tempo, precisei pegar esse trem para ir até Quilionodora.
“É… faz sentido, nem sei pra que perguntei.”
Jean e Jeremiah cochichavam alguma coisa entre si em um canto mais afastado do vagão. Elemenope parecia pensativa, observando a lâmina da espada que carregava. Ela não havia falado muito desde o início da manhã.
E, no último vagão da locomotiva, Bel e Higan se preparavam para a chegada.
— Vai pegar os bilhetes dos outro para conseguir as recompensas? Parece que já acabaram os confrontos entre as duas locomotivas e também os internos. — Bel segurava os longos cabelos brancos, puxando um pouco.
— Essa coisa toda da batalha ferroviária é uma besteira, mas estou interessado nos prêmios.
A deidade uniu as mãos despretensiosamente e gerou uma corrente de ar visível, esverdeada, que avançou pelas duas locomotivas ao mesmo tempo. Os ventos trouxeram todos os bilhetes, menos os do grupo de Verion. Simples e fácil.
— Hehehe! Acho que vão ficar irritados com isso, mas não é problema nosso. — Bel se levantou para olhar pela janela do vagão. — Aliás, deveriam agradecer por você ter sido bonzinho e não ter matado ninguém agora.
Conforme as locomotivas avançavam nos campos, mais casas e vilarejos podiam ser vistos. A densidade populacional aumentava à medida que a capital ficava mais próxima. Enormes plantações de trigo e de milho cobriam áreas gigantescas a perder de vista. As estranhas torres que comportavam uma tubulação dourada continuavam rumo à cidade.
— Quando chegarmos, vamos direto até a Siralia, acredito que já tenha acordado da hibernação nesse ponto — disse Higan, ajeitando seu par de óculos com calma.
Bel pensou: “Falso míope…”.
A capital e centro de poder de Raptra estava à vista, Rigel. Uma cidade constituída de três plataformas colossais que se separavam entre si por centenas de metros. Elas eram sustentadas por gigantescos pilares, interligadas por escadarias e trilhos de trem que serpenteavam em viadutos rumo ao topo. Quanto mais alta a plataforma, menor era. No topo da mais alta era possível avistar um castelo imponente cercado de árvores tão altas quanto arranha-céus.
Quando o trem alcançou a área da primeira plataforma, todo o ambiente pareceu ser tomado por uma neblina. O cheiro deixava evidente que aquilo na realidade era fumaça de carvão. O primeiro nível de Rigel era engolido por uma fumaça tóxica que se espalhava por quase todos os bairros. Enquanto o trem avançava, subindo até a segunda plataforma, tiveram uma visão mais ampla.
A luz do sol mal era capaz de penetrar a nuvem de vapor e fumaça de carvão, dando um aspecto quase que fantasmagórico ao local. Duas caldeiras colossais podiam ser vistas, irradiando uma luminosidade avermelhada que cobria as ruas concretadas. Das duas estruturas fumegantes, dezenas de tubulações douradas saíam e serpenteavam pela cidade, realizando o abastecimento para as tecnologias do lugar. A maioria das tubulações subia aos níveis superiores da Rigel, levando pressão e vapor aos mecanismos que faziam tudo funcionar.
Os prédios cinzentos e retangulares do primeiro nível tinham no máximo dois andares e continham caldeiras próprias. Tudo parecia estar ruindo e mal preservado, rachado. Em certos pontos as estruturas pareciam abandonadas, como se ninguém vivesse nelas há décadas. Milhares de pessoas podiam ser avistadas pelas ruas, carregando peças mecânicas e sofrendo com um calor infernal. As roupas sujas de graxa e as marcas de queimadura eram uma constante.
Algumas figuras vestidas de azul andavam com máscaras de gás; esses em específico eram acompanhados por autômatos humanoides portando espadas feitas de um metal brilhante. Membros da força policial encarregada de controlar os problemas e as revoltas no primeiro nível. Existiam para reprimir manifestações contrários aos habitantes de cima.
Verion encarava o cenário desolado enquanto se perguntava de onde poderia estar Vincent Velgo. O calor afetava até mesmo eles no interior da locomotiva, era obviamente um péssimo lugar para se viver.
A sensação de que estavam subindo tornou-se cada vez mais evidente. Rumavam para a segunda plataforma em alta velocidade. Conforme subiam, a visão ficava cada vez mais opaca e tomada por neblina espessa.
Até que isso mudou abruptamente.
Ao atingirem uma certa altura, o céu azul se revelou junto do segundo nível da grande cidade de Rigel. Prédios e casas luxuosas feitas de pedra polida, estufas majestosas repletas de natureza e enormes jardins centralizados em parques. Era o oposto extremo ao que haviam acabado de ver no piso anterior. Carruagens e veículos rudimentares movidos a vapor corriam pelas ruas arborizadas.
O lugar era mais limpo e claramente muito mais organizado. Apesar de haverem algumas partes do segundo nível que eram visivelmente pobres, em relação ao restante do lugar, era um verdadeiro abismo de diferença da vida abaixo.
“Existe alguma razão para as pessoas lá de baixo ainda viverem aqui?”
— Chegamos onde eu moro — disse Jon, observando despreocupado pela janela as coisas abaixo.
— Caraca, que lugar estranho! — Jeremiah estava impressionado com o espaço.
— Já vim aqui antes umas vezes… — Elemenope continuava tão desanimada quanto sempre.
Verion, Lyria e Jean foram os únicos que não falaram uma única palavra. Todos eles estavam pensando sobre a situação do piso inferior, foi no que mais prestaram atenção.
As duas locomotivas desaceleraram, se aproximando da estação principal de Rigel. As vozes da população ficaram mais evidentes conforme paravam. Quando as portas se abriram e eles puderam ver melhor o lado de fora da estação, foram impactados por uma visão.
Mais locomotivas estavam dispostas naquele lugar, em outras plataformas da estação, mais de dez delas vindas de lugares que não sabiam. Inúmeras pessoas haviam chegado e outras estavam prontas para partir de Rigel. O movimento era constante e sufocante, um mar de passageiros.
Enormes arcos de pedra branca que seguiam rumo à saída. Em cada um deles um grande jardim suspenso, quase como um teto de roseiras e crisântemos para a estação. Elas balançavam suavemente com os ventos e deixavam um cheiro agradável impregnado no ar.
— Meu pai ia gostar de ver isso, ele adorava flores… — balbuciou Verion, dando alguns passos adiante na estação, cativado pela beleza.
— Esse lugar é mesmo bonito… — Lyria estava cabisbaixa, pensativa.
Uma das pessoas que andava pela estação esbarrou no ombro dela e se afastou sem pedir desculpas. Ela se aproximou mais de Verion e olhou para os lados com um desconforto óbvio.
— É melhor sairmos da estação logo, se ficarmos por aqui vamos acabar atrapalhando alguém. — Jon colocou a mochila nas costas e começou a caminhar. — Me sigam.

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