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    — Você tem razão.

    Shota Sato estava ainda mais ansioso para sair dali do que o resto do grupo. Ao contrário de Gancho e seus amigos, que se arriscavam constantemente, Shota evitava perigos sempre que possível. A maioria dos membros de baixo escalão da Igreja Psíquica trabalhava na organização com a intenção de fazer o mínimo possível enquanto aproveitava os benefícios que o cargo oferecia. Por isso, a maioria deles fugia de situações arriscadas, o que tornava especialmente incômoda a situação em que Shota se encontrava agora.

    Ele ainda tinha suas dúvidas quanto à avaliação de Adam, mas, no mínimo, havia uma direção a seguir, e tudo o que podia fazer era cerrar os dentes e ir adiante.

    — A única dúvida que eu tenho é: como vamos encontrar essa filmagem? Há milhões de pessoas aqui, todas potencialmente instáveis, e armas circulam livremente nesta cidade. Procurar por um vídeo aqui é como procurar uma agulha no palheiro — e além de tudo, é uma tarefa extremamente perigosa — disse Shota Sato.

    — É verdade… — Sem dúvida, seria muito difícil encontrar um item específico numa cidade como essa.

    — Se uma pessoa com poder e influência tivesse que lidar com uma situação dessas, o caminho mais lógico seria procurar os figurões locais e tentar trabalhar com eles. Pra uma pessoa, é difícil encontrar algo no esgoto, mas pra um rato, é bem mais fácil. E se você encontrar o rei dos ratos e conseguir a ajuda dele, então já é metade do trabalho feito.

    Graças à criação privilegiada que teve, Shae era capaz de encarar a situação sob a perspectiva de alguém de classe alta, identificando com clareza o cerne do problema.

    — Com base nas observações que fizemos nos últimos dois dias, imagino que todos já tenham uma noção geral. O figurão da cidade é um homem que atende pelo título de diretor. Esse diretor é o organizador das lutas da arena e o governante da cidade. Mas ele prefere ser chamado de diretor em vez de lorde, e o que ele mais gosta mesmo é de ser chamado de filósofo.

    — Não vai ser fácil fazer com que ele coopere — comentou Careca Lin, que falou dessa vez.

    Ele era um verdadeiro nativo da Cidade das Sombras, então naturalmente sabia mais sobre o diretor do que Adam e os outros.

    — O diretor é um lunático, tem algo claramente errado na cabeça. Com certeza vocês não vão conseguir convencê-lo com métodos convencionais.

    — Então como devemos lidar com isso? — perguntou Shota Sato. — De acordo com o protocolo padrão da Igreja Psíquica, primeiro entraríamos em contato com o diretor, depois ofereceríamos certos benefícios em troca de cooperação.

    — Isso normalmente funcionaria, mas o diretor se autodenomina um filósofo — e filósofos não se deixam influenciar tão facilmente por ganhos práticos.

    — E o que podemos fazer então?

    — Vocês podem participar da super batalha de sobrevivência. Todo ano, o campeão da batalha de sobrevivência pode fazer um pedido ao diretor, e ele faz tudo ao seu alcance para realizá-lo. Já teve gente que conseguiu um valor astronômico, um bilhão, com esse pedido. É o jeito mais rápido e promissor que vejo de vocês alcançarem seu objetivo.

    — Do que se trata essa super batalha de sobrevivência?

    — A super batalha de sobrevivência também é conhecido como Batalha de Sobrevivência Psíquica. Vocês já visitaram o maior estádio esportivo da cidade?

    — Eu já fui.

    — Eu também.

    — Eu não…

    Entre todos no grupo, apenas Adam e Nie Yiyi haviam visitado o estádio. Adam, por seu interesse por anomalias, e Nie Yiyi, por sua sede insaciável por combate. Fora isso, a maioria dos recém-chegados à cidade normalmente não ia assistir às lutas do estádio.

    — Nesse caso, fica mais fácil explicar. Pra quem não foi, vai ter que confiar no que eu disser. O ponto principal é que o povo daqui é fanático por todo tipo de competição de combate — e quanto mais sangrentas, melhor. A forma de combate mais popular por aqui são as batalhas psíquicas.

    — Espera aí, com certeza adaptadores não participariam de competições assim. — Apesar de sua personalidade ser muito mais branda que a de Orster, Shota ainda era um membro da Igreja Psíquica e, como todos os outros da instituição, carregava consigo o mesmo orgulho, que o levava a acreditar que adaptadores eram fundamentalmente superiores às pessoas comuns.

    — A maioria dos participantes não são adaptadores. São adaptadores artificiais. Não quero perder tempo explicando toda a logística, vocês vão ter que ver por si mesmos. A batalha de sobrevivência é diferente das lutas normais porque reúne mais de cem participantes, e é o evento anual mais aguardado da cidade inteira.

    — Os combatentes que acumularem mais pontos ao longo do ano podem formar equipes de quatro integrantes, e serão colocados dentro de um enorme ambiente psíquico, onde serão caçados por anomalias emocionais. A equipe que sobreviver até o fim e acumular mais pontos será coroada como campeã.

    Apesar da explicação de Careca Lin, a maioria ao redor ainda parecia confusa, e ele já começava a perder a paciência.

    — Vocês não vão entender nada só ouvindo eu falar! Vão ao estádio e vejam com os próprios olhos. Tem muitos detalhes que só dá pra captar vendo. Ainda faltam dois meses pro torneio, então dá tempo de sobra.

    Dito isso, Careca Lin voltou ao seu trabalho, deixando todos livres para decidirem o que fazer.

    Nos últimos dias, Adam havia percebido que Careca Lin era absolutamente obcecado por mecânica. Passava quase todas as horas do dia estudando, e não se interessava por mais nada, tampouco era muito acolhedor com seus ‘hóspedes’.

    Basicamente, era contra tudo que atrapalhasse seus estudos.

    O motivo de ele ter se instalado na Cidade das Sombras também era diferente do dos outros: estava ali unicamente porque podia adquirir todo tipo de peça ilegal para aprimorar suas criações.

    — Vamos dar uma olhada no estádio. — Todos sabiam que não iriam conseguir mais nenhuma informação de Careca Lin, então se levantaram e logo seguiram para o estádio esportivo.

    Ao retornarem ao estádio, Adam usou o saldo restante de seu cartão para comprar ingressos para os três que ainda não haviam assistido às lutas, assim poderiam entender melhor o que era aquele lugar. Afinal, era difícil explicar direito do que se tratavam as lutas e o que eram conceitos como anomalias artificiais e adaptadores artificiais.

    Enquanto o trio assistia às lutas, Adam e Nie Yiyi foram direto ao guichê. A intenção de Adam era perguntar diretamente aos funcionários sobre como participar das lutas e as regras dos combates, mas foi impedido por Nie Yiyi.

    — Nós estamos fingindo ser locais agora. Não seria estranho sair perguntando coisas que um morador daqui deveria saber? — questionou Nie Yiyi.

    Eles eram fugitivos procurados, então precisavam manter suas identidades em segredo. E agora que sabiam que a Organização Oni não tinha conseguido o vídeo gravado por Gancho, a situação era ainda mais perigosa — o congresso do sul ou a Organização Oni podiam muito bem enviar gente à Cidade das Sombras para investigar o paradeiro da gravação.

    — Tem razão, eu nem pensei nisso. A gente nem domina o jargão desse lugar, podia se entregar sem querer.

    Após refletir por um momento, Adam puxou seu comunicador.

    Os dados de contato de Hailey ainda estavam salvos, com uma observação: ‘Você têm que me ligar!’

    — Não achei que fosse precisar falar com ela de novo tão cedo.

    — Quem?

    — Uma moradora daqui que conheci da última vez que vim assistir às lutas. Na época, eu não tinha a menor intenção de participar disso, então nem perguntei nada. Mas parece que os planos mudaram.

    Enquanto falava, Adam discou o número de Hailey — e antes mesmo de completar o primeiro toque, a ligação foi atendida.

    — Alô? É você, Sr. Assassino?

    — Uau, isso foi rápido…

    — Eu fico com o comunicador na mão o tempo todo! Até quando tô dormindo! O que você precisa? Quer minha ajuda? Posso ajudar a qualquer momento! Onde você tá agora?

    — No estádio.

    — Beleza! Chego aí em dez minutos. Não sai daí!

    A chamada ainda estava conectada enquanto Hailey se apressava para encontrá-lo e, de repente, uma sequência de barulhos altos soou do outro lado da linha, como se uma pilha de panelas tivesse acabado de cair no chão.

    Um pequeno gesto, um grande impacto!

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