Capítulo 89: Polo de Cuidados Infantis
A previsão de Caubói se mostrou completamente acertada.
Nos dias seguintes ao encontro, muitos outros casos de assassinato cometidos por mutantes psíquicos aconteceram por toda a Cidade Sandrise. Alguns desses crimes horrendos foram cometidos por mutantes psíquicos agindo sozinhos, enquanto outros casos exibiam sinais claros de atividade organizada em grupo.
O alvoroço causado pelo recente atentado terrorista ainda não havia se dissipado, e esses assassinatos frequentes só aumentavam a visibilidade do surto de mutantes psíquicos. Todos os canais de notícias estavam constantemente divulgando reportagens relacionadas aos incidentes, e a opinião pública exigia que o governo tomasse medidas mais rigorosas para garantir a segurança da população.
Bem no auge dessa comoção popular, um jovem congressista começou a pressionar o congresso para estabelecer um ‘Departamento de Inspeção de Adaptadores’ com o objetivo de proteger melhor os interesses da população em geral.
Quando essa proposta foi feita, contou com o apoio da maioria do público, mas não demorou para que surgissem vozes contrárias.
Os primeiros a se oporem foram os membros da União Dataísta. Eles argumentaram que o Departamento de Inspeção de Adaptadores seria diferente da Guarda Mecânica, composta exclusivamente por oficiais robóticos que aplicavam a justiça com rigor conforme a lei.
Se um departamento como esse fosse criado, teria poder demais à sua disposição, e representaria uma ameaça ainda maior à sociedade do que os próprios mutantes psíquicos que pretendia combater.
Na visão da União Dataísta, era extremamente difícil monitorar adaptadores por meio de departamentos de inspeção, já que todos os confrontos entre adaptadores ocorriam em planos psíquicos. Se certas pessoas recebessem o direito de monitorar adaptadores, então teriam liberdade total para usar o poder concedido pelo sistema jurídico como bem entendessem.
Poder sem regulação com certeza seria abusado. Esse era o argumento apresentado pela União Dataísta.
Diante desse argumento, outro congressista do partido de oposição se manifestou, sugerindo a criação de um departamento de supervisão acima do departamento de inspeção, com o propósito de fiscalizar os inspetores.
Essa proposta recebeu apoio de algumas celebridades e influenciadores da internet.
Era óbvio que essa sugestão tinha sido feita para embaralhar o jogo, e assim que Adam viu Porco Desvairado apoiando a ideia na televisão e na internet, soube imediatamente que o exército da resistência estava por trás disso.
Já que os responsáveis pelo surto de mutantes psíquicos queriam tomar o poder e estabelecer as regras, o exército da resistência iria explorar essa ambição a seu favor, tornando as regras turvas e difíceis de aplicar.
Enquanto esse cabo de guerra acontecia, certas coisas fermentavam por debaixo da superfície, e Adam tinha a sensação de que algo grande estava prestes a acontecer.
Certo dia, ele recebeu duas ligações. A primeira foi da Aranha Vermelha, informando que May havia encontrado um local onde um grande número de mutantes psíquicos estava reunido. Além disso, haviam descoberto o próximo alvo dos mutantes, e estavam se preparando para lançar uma missão de captura naquela mesma noite.
A segunda ligação foi de Caubói, informando Adam de que seus agentes infiltrados tinham recebido notícias de que os mutantes psíquicos receberiam apoio de outros adaptadores.
— O próximo alvo deles é uma escola. O plano é matar um grande número de crianças, e eles vão fazer de tudo para garantir que o ataque aconteça sem problemas. Por isso, sinto que o poder da casa de penhores sozinho não será suficiente para contê-los. Quando chegar a hora, o segundo no comando da nossa organização vai liderar pessoalmente uma equipe de adaptadores para fornecer reforço. — Caubói explicava o plano por telefone. — Ao mesmo tempo, vamos levar algumas pessoas para registrar imagens e alguns seguranças do mundo real. Além disso, entraremos em contato com a Guarda Mecânica. Se eles conseguirem realizar um ataque tão cruel, a criação do departamento de inspeção será praticamente inevitável.
— Então as imagens que a gente captar vão ser muito importantes.
— Exatamente. Através das imagens, temos que mostrar ao público que esses ataques de mutantes psíquicos não são simplesmente atos aleatórios cometidos por lunáticos. Tudo foi planejado por certas pessoas. Se conseguirmos fazer isso, poderemos transferir a culpa para os congressistas que estão propondo o departamento de inspeção e atrapalhar os planos deles.
— Entendi.
— Antes de tudo isso, quero que você me apresente à Chefe May. Já que vamos lutar lado a lado, quero conversar com ela pessoalmente.
Adam refletiu por um instante antes de decidir aceitar. Mesmo que isso significasse expor sua identidade, não tinha muita escolha dadas as circunstâncias.
Assim, passou a Caubói os dados de contato de May, deixou uma mensagem para a Aranha Vermelha e, em seguida, arrumou algumas coisas e se preparou para ir à casa de penhores.
Bem quando estava prestes a sair, recebeu uma visita de Shae.
— Eu vou com você. O Feiticeiro me contou tudo.
— Isso vai ser muito perigoso.
— Quando é que não é perigoso pra mim? — retrucou Shae com um sorriso despreocupado. — Hoje em dia, até quando saio pra comprar alguma coisa, fico com medo de ser assassinada. Então qual é a diferença?
— É… faz sentido — respondeu Adam com um aceno. — Não posso discutir com isso, então é você quem decide.
— Eu também chamei Nie Yiyi e o Gancho.
— Você chamou aqueles dois? — Adam achou aquilo um tanto divertido. — Não tem chance de que eles venham, especialmente o Gancho. Aquele cara é um covarde de marca maior!
— Tô ouvindo alguém falando mal de mim pelas costas?
Nesse momento, uma figura de rosto oleoso surgiu de um canto do prédio do dormitório. Não importava a estação do ano, ele parecia sempre ter o rosto coberto de gordura.
— Eu vou com vocês, só não vou lutar, como sempre. Aqueles mutantes psíquicos são como cães raivosos. Com certeza não vão insistir em me perseguir se eu me esconder bem.
— Pode ser, mas isso não tem nada a ver com você — disse Adam, confuso. — Por mais que diga isso, essa ainda é uma missão extremamente perigosa. Qual é o seu motivo pra vir?
— Ultrapassei a marca de um milhão de seguidores.
Gancho puxou a conta dele nas redes sociais e a mostrou a Adam. Havia muitos vídeos postados, incluindo o que Adam o havia ajudado a gravar alguns dias atrás. No vídeo, Adam respondia perguntas sobre sua luta contra mutantes psíquicos, e esse foi o fator principal para o aumento de seguidores.
O atentado terrorista da última vez o havia catapultado para o estrelato na internet, mas se ele deixasse de participar dessa operação, sua influência seria logo ofuscada por novos acontecimentos, e ninguém mais daria atenção a ele.
— Eu quero ser famoso, então tenho que pagar o preço pra manter minha fama. Minha missão nessa operação é servir como correspondente de campo. Até comprei um equipamento completo pra filmar tudo e subir na internet.
— Nunca achei que fosse ver alguém indo tão longe assim por fama — disse Adam, balançando a cabeça. Ao se virar, notou Nie Yiyi se aproximando por outro caminho. — Você também veio! Qual é o seu motivo?
— Quero me desafiar. Refleti muito sobre mim mesma depois de perder pra você.
— E o que você concluiu?
— Percebi que ainda estava sendo branda demais comigo. No local onde treino, tem uma frase muito popular: ‘o verdadeiro horror está entre a vida e a morte’.
— O que isso quer dizer?
— Tem muitos significados. Não sei explicar direito, mas aqueles que já encararam a morte de frente e sobreviveram… seja por suicídio, acidente ou ataque, aqueles que viram o horror de verdade e saíram do outro lado inevitavelmente se tornam mais fortes. Essa experiência gera uma fortaleza mental insubstituível. Comparada com essas pessoas, eu estive segura e protegida demais. Quero entrar na tempestade e ver o que isso me traz.
— Vou deixar claro desde já: essa operação vai ser muito perigosa.
Adam não podia decidir como os outros viviam, mas sentia a obrigação de fornecer as informações necessárias para que tomassem suas decisões com consciência. A última coisa que queria era que alguém se arriscasse com base em informações erradas.
— Eu não iria se não fosse perigoso.
Nie Yiyi estava decidida.
— Certo, nesse caso, vamos nessa.
E assim, o grupo de quatro de Adam partiu da academia em direção à casa de penhores de carro.
Mais uma vez, Adam chegou à rua devassa onde ficava a casa de penhores, mas dessa vez, seu estado mental era completamente diferente.
Na primeira vez que viera até ali, seu coração estava cheio de raiva, cinismo e desorientação, sendo esta a emoção mais forte. Ele não sabia o que era, nem o que o futuro reservava.
Agora, de volta a esse lugar, ele já conhecia seu passado, e tudo o que restava era desvendar o grande mistério e erradicar os responsáveis por manipular os fios, eliminando aqueles imortais que jamais deveriam ter tido acesso à imortalidade.
Dentro da casa de penhores, a Aranha Vermelha estava especialmente séria naquele dia. Sem desperdiçar palavras, conduziu Adam e seu grupo até o último andar do prédio, onde 34 pessoas já os aguardavam.
— A vasta maioria aqui são adaptadores. Eles são a espinha dorsal da casa de penhores, e vão ser seus companheiros nessa operação — apresentou Aranha Vermelha.
Adam assentiu em resposta, fazendo o possível para memorizar a aparência de todos. Trinta e quatro pessoas podia não soar como muito, mas na prática era um número gigantesco.
Adaptadores já eram extremamente raros por natureza, e, por conta de suas habilidades especiais, era fácil para eles ganharem a vida. Por isso, havia muito mais adaptadores freelancers do que aqueles vinculados a organizações ou empresas.
Além disso, os convocados para essa missão provavelmente eram todos adaptadores experientes e com certo nível de combate, o que tornava esse número ainda mais impressionante.
A Organização Oni era uma organização de assassinos renomada no mundo todo, e mesmo assim contava apenas com um Dragão, oito Onis e trinta e seis Tigres, o que totalizava 45 adaptadores maduros.
— Sabemos onde os mutantes psíquicos estão?
— Claro que não sabemos a localização exata. Se soubéssemos, era só chamar a Guarda Mecânica e deixar que eles resolvessem. O que sabemos é o alvo do ataque e a área aproximada onde eles vão atuar…
Enquanto Aranha Vermelha falava, May avistou Adam. Naquele dia, ela usava um cheongsam preto, além de vários dispositivos mecânicos presos ao corpo, presumivelmente para uso em combate.
— Que bom te ver.
Adam assentiu em resposta.
— Oh, vejo que trouxe alguns amigos.
O olhar de May percorreu Shae e os demais, e era como se seus olhos enxergassem diretamente a alma.
No fim, ela fixou os olhos em Nie Yiyi e elogiou: — Você tem amigos valiosos.
Depois disso, não perdeu mais tempo com conversas e se virou para falar com todos na sala.
— Quero deixar algo bem claro: ninguém tem permissão pra morrer hoje! Preparem-se para partir. Não vou divulgar o endereço agora, vocês saberão quando chegarmos.
Com isso, Chefe May liderou o grupo de adaptadores para fora da sala.
Todos a seguiram até o estacionamento subterrâneo, onde um ônibus camuflado como escolar já os esperava havia algum tempo.
O ônibus amarelo era extremamente discreto e comum, não chamaria atenção nenhuma mesmo rodando pelas ruas. Depois que todos embarcaram, todos os sinais de comunicadores foram temporariamente bloqueados, e o ônibus partiu lentamente. Após duas horas inteiras de viagem, chegou a outra área densamente povoada.
Aquele lugar era a Área 66, o maior polo de cuidados infantis de toda a Cidade Sandrise, abrigando o maior centro de acolhimento infantil, jardim de infância e escola primária da cidade.
Não apenas havia uma quantidade imensa de crianças na região, como as ruas estavam repletas de trabalhadores, além dos pais e parentes desses alunos.
Mesmo que muitas mulheres optassem por gerar seus filhos através de úteros artificiais para evitar as dores e riscos do parto, isso não significava que se importassem menos ou amassem menos seus filhos.
A densidade populacional naquela área era extremamente alta, e a maioria das pessoas ali era completamente indefesa diante de um ataque terrorista. Se essa área fosse atacada, as consequências seriam catastróficas.

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