Capítulo 4
Lembro-me vagamente de ter visto Lúcia sair cedo pela manhã. Nunca diz para onde vai, mas sempre volta com algo para o café, o almoço ou o jantar. O vestido que parece ter sido feito de uma cortina velha — de uma família ainda mais miserável que a nossa — costuma voltar coberto de lama. Imagino que vá até a floresta para caçar.
— Está na hora de acordar, meu bebê — diz com aquela voz doce e aconchegante que ela usa quando quer me enganar.
Ainda sonolento, só consigo pensar em dormir mais umas boas horas, de preferência até o entardecer. Viro de lado, abro um olho e dou de cara com o rosto dela, tão bonito e calmo quanto irritantemente desperto. Ela sorri como se fosse o dia mais maravilhoso da vida.
— Não é muito cedo para acordar uma criança que claramente necessita de um descanso prolongado? — resmungo, me enrolando no pano que uso de cobertor.
— Ora, ora, ora… — cantarola com uma doçura sádica. — Dormiu a noite inteira e ainda acha pouco, seu preguiçoso?
Sem aviso, Lúcia me puxa pelas pernas, me vira de cabeça para baixo e me balança como se eu fosse uma bolsa de grãos. Tenho que me esforçar muito para não vomitar o que ainda nem comi.
Como ela consegue ter tanta força? Quando enfim me solta no chão, fico ali, tonto e zonzo, vendo o teto girar como se estivesse bêbado — sem nunca ter tocado numa gota de cachaça. Essa é a sensação.
Há perguntas que não saem da minha cabeça. Quem é nossa família? Se é que temos uma. Quem foi meu pai? Está vivo ou morto? Sempre que tento perguntar, Lúcia muda de assunto ou diz: “Quando chegar a hora, você saberá.” Já me cansei de esperar por essa tal “hora” e deixo de lado, pelo menos por enquanto.
Às vezes, saio escondido de casa para explorar a borda da floresta. Levo comigo um saco improvisado que fiz rasgando um pedaço da cortina da vizinha — ela me irrita, então não sinto culpa. Também carrego uma pequena adaga feita com uma pedra afiada que achei entre o mato alto.
Ao lado de casa, há um caminho escondido por espinhos e arbustos que leva direto à mata. Toda vez que passo por ali, rasgo ainda mais meu trapo de roupa. Já perdi as contas de quantas vezes Lúcia teve que costurar os buracos.
“Vou contornar dessa vez”, penso.
Lá fora, costumo encontrar alguns coelhos distraídos e, se tiver sorte, até um esquilo pulando de galho em galho. Pegar um deles? Nem pensar. Ainda não tenho idade — ou reflexos — para isso.
Minha boca chega a salivar só de imaginar um cozido de coelho feito por Lúcia. A mão dela na cozinha é simplesmente divina. Mas, para minha decepção, hoje não há sinal de coelhos por perto. Nem um único pulo, nem uma orelhinha. Só alguns rastros borrados na lama. Algo está errado, tenho certeza.
Sigo trilhas tortuosas marcadas por patas na terra molhada. Logo, encontro uma árvore caída, oca, com raízes expostas como se tivessem sido arrancadas do chão pela própria natureza. Debruço-me, curioso, e espreito a toca escura sob o tronco. Dois olhos vermelhos brilham no fundo.
— Ótimo! — comemoro com entusiasmo. — Tirei a sorte grande!
Inclino-me mais e estico o braço para dentro da toca. Por um segundo, penso em puxar o animal à força, mas paro no último instante. Um som estranho ecoa lá dentro — um chiado sibilante e crescente.
Meus instintos gritam.
Recupero o braço e dou um salto para trás no exato momento em que uma cobra salta da escuridão, mirando direto no meu pescoço. Desvio por um triz, sentindo o vento da mordida passar raspando. Se tivesse demorado um milésimo de segundo a mais, provavelmente estaria tendo uma conversa com Delgron agora, seja lá para onde ele foi depois de morrer.
Observo o animal deslizando pelo chão: escamas beges com listras roxas, pequenos chifres no focinho. Uma cobra Isnis. Li sobre ela em um dos livros antigos da estante de Lúcia — o de capa amarela sobre feras letais e não letais. Por sorte, essa pertence ao segundo grupo. Ainda assim, é melhor não brincar com ela.
Pego minha adaga, escondida entre a bermuda e a camisa, e fico em posição de defesa. A cobra se enrosca, pronta para outro bote, balançando como se me desafiasse. Respiro fundo e me aproximo com cuidado.
Quando me aproximo o suficiente, finjo um ataque abrindo os braços em direção à cobra. Ela reage de imediato, lançando um bote com toda a velocidade que tem. No exato momento, me atiro para o lado, deixando que ela passe por mim. Com a mão esquerda, seguro sua cabeça com firmeza, e, com a direita, afundo a adaga direto em seu crânio. O golpe é certeiro. A lâmina atravessa, separando a cabeça do corpo com um estalo úmido.
Tenho que agradecer por não ser um animal letal, pois a maldita ainda conseguiu me morder antes de morrer. O ardor da mordida ainda pulsa no braço, mas nada que vá me derrubar. Guardo o corpo no saco de pano e percebo que já é hora de voltar. Sigo minhas próprias pegadas na trilha lamacenta, aproveitando a volta para colher alguns cogumelos que encontro pelo caminho. Serão uma boa mistura para a refeição.
O silêncio da floresta é diferente. Denso. Há algo errado.
Os pássaros voam em bandos, assustados, cortando os galhos com pressa. Um arrepio percorre minha espinha. Não é só a ausência de coelhos… há algo maior aqui, algo que não deveria estar.
Continuo andando, tentando ignorar a inquietação que cresce a cada passo. O som da folhagem sendo pisada, o cheiro da terra molhada… tudo parece igual, mas não está. Finalmente, avisto a luz do sol atravessando a entrada da floresta por onde vim mais cedo. Respiro aliviado.
Crack.
Um galho se parte.
O som é comum por aqui, eu sei. Mas esse… esse me congela. Me escondo instintivamente atrás de uma árvore grossa, ofegante, os olhos varrendo a floresta à procura de qualquer movimento. Nada. Meu coração desacelera aos poucos, e penso em sair do esconderijo.
Então ouço.
Um som rouco, baixo, crescente. Um rosnado carregado de algo mais… não sei… Selvagem. Sinto um filete de suor escorrer pela têmpora. Viro-me devagar, o coração acelerando outra vez, torcendo para ver minha mãe de cara amarrada, pronta para me arrastar de volta pra casa. Que saudade de seus gritos.
Mas não é ela.
Erguendo-se diante de mim, com mais de dois metros de altura, está uma criatura como nunca vi antes. Seus olhos azuis brilham como brasas em um fogo sagrado. Um lobo? Talvez. Mas não. É maior, mais imponente, com uma presença que parece moldar o ar ao redor. Seus pelos negros são riscados por listras douradas que cintilam à luz filtrada pela copa das árvores. Em vez de patas, seus pés lembram os de uma águia — garras curvas e fortes. E sua cauda… longa. No rosto, as penas se espalham e moldam a beleza feroz da criatura. Uma marca dourada em torno dos olhos flamejantes o torna ainda mais extraordinário. Por um instante, o medo abandona meu corpo. Tudo que sinto é fascínio.
É majestoso.
O lobo me observa em silêncio. Cada passo seu parece ecoar dentro de mim. Ele se aproxima, a boca se abrindo, revelando presas longas, afiadas, feitas para dilacerar. E ainda assim… eu não recuo. Sem perceber, estendo a mão. Um gesto tolo, quase suicida. Mas algo dentro de mim diz que não estou em perigo.
Ele se inclina, aproximando o focinho da minha mão, permitindo que o toque. Seus pelos são surpreendentemente macios, me lembram o cabelo de minha mãe… Haah, ela com certeza me mataria se soubesse dessa comparação.
“Finalmente te encontrei… Há muitos anos espero por esse momento.”
A voz ecoa dentro da minha mente, profunda, serena, cheia de peso. Não há dúvidas — ele fala comigo. Pela mente. Pela alma.
— Quem… é você? — pergunto, e minha voz mal sai. Fraca, confusa, amedrontada.
Seus pelos se arrepiam e as garras se curvam, recolhendo-se sob seus pés de águia.
“Muitos irão ansiar por sua cabeça, pequeno.” Ele se senta com calma à minha frente, a voz agora mais suave, quase triste. “O caminho que você trilhará será feito de dor, perdas e lágrimas… mas você terá que ser forte. E suportar.”
A criatura aproxima o rosto do meu peito. Do focinho, uma luz suave começa a emergir, quente e acolhedora como o brilho de uma fogueira em noite fria. A sensação que toma conta de mim é reconfortante, quase familiar.
— Espera… o que você fez? — pergunto, com a voz baixa, o coração acelerado e a mente tomada por perguntas que surgem como relâmpagos.
“Eu o reconheço digno de lhe passar esse presente.”
— O que foi… isso? — insisto, levando a mão ao peito, sentindo algo pulsar sob a pele, como se uma chama tivesse sido acesa ali dentro.
“Você entenderá no futuro. Desejo-lhe sorte…, Arial Blake…”
— Espe… Como você sabe quem eu sou…?
Mas já é tarde. A criatura diante de mim começa a se desfazer como névoa ao vento, como uma miragem que se esvai aos poucos sob a luz do sol. Suas últimas palavras ainda ecoam em minha mente quando ele desaparece por completo, e o silêncio da floresta retorna, denso e absoluto, como se nada tivesse acontecido.
Fico parado por alguns segundos, atônito. Ele sabia meu nome. Meu nome verdadeiro. E parecia me conhecer desde o começo. Com o corpo trêmulo e a mente embaralhada, dou meia-volta e sigo para casa. Lúcia deve estar preocupada. Quando a cabana aparece por entre as árvores, vejo a sombra do alívio se formar em seu rosto assim que me vê. Abro a porta devagar e entro, sentindo o calor da casa me envolver.
— Che-cheguei… — minha voz sai vacilante, quase artificial. Ela percebe de imediato. O olhar que lança em minha direção diz tudo. Seu instinto de mãe grita que algo está errado, mas, como sempre, ela escolhe o silêncio. Apenas observa. Sabe que, cedo ou tarde, eu falarei.
Entrego os ingredientes que consegui, tentando agir normalmente, e saio para o lado de fora. O balde de água me espera. Ajoelho-me diante dele e lavo o rosto, buscando limpar não apenas o suor e a poeira, mas o que quer que esteja me corroendo por dentro.
É quando sinto o aperto no peito. E então vem o choro.
As lágrimas surgem sem aviso, desabando em silêncio. A luz que o lobo deixou em mim despertou algo — memórias, emoções adormecidas, fragmentos de uma vida esquecida. Aquela sensação acolhedora… foi como o abraço da minha irmãzinha, quando ela se enroscava em mim durante as noites frias. Como pude esquecer? Como consegui apagar um amor tão puro?
E então ouço. Um grito. Uma voz feminina ecoando das profundezas do meu subconsciente. A vejo caída na neve, chorando, os olhos suplicantes, a mão estendida em minha direção, implorando por ajuda. Mas eu… eu não conseguia me mover. A dor da impotência me sufoca. Uma gota cai no balde.
O som se espalha na minha mente como um trovão em uma sala vazia. Volto ao presente, mas as lágrimas continuam a escorrer. Não consigo contê-las. Nem quero.

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