Naquela noite, o sono não veio fácil. Mesmo deitado, envolto pelos cobertores rústicos e pelo calor tênue da lareira, meu corpo parecia leve demais, como se não estivesse completamente presente. E quando os olhos, finalmente, se fecham, o mundo ao meu redor desmorona em silêncio — e o sonho começa.

    Estou em um campo dourado, coberto por flores que brilham como brasas sob a luz de um céu estrelado. O vento sopra forte, mas não move nada. O tempo parece suspenso. Ao longe, uma melodia ecoa, triste e antiga, como um lamento entoado por um povo esquecido.

    Sinto que estou sendo observado.

    Ao virar-me, vejo-o ali, majestoso e imóvel sobre uma colina coberta por cinzas prateadas: o lobo. Seus olhos ardem em azul intenso, como se guardassem dentro de si um céu inteiro. As listras douradas brilham sob a luz do luar, e as penas dançam ao redor do seu rosto como folhas de fogo.

    Ele não se move. Apenas me encara. E mesmo assim, ouço sua voz.

    “A dor é necessária.”

    Quero responder, mas minha garganta está trancada.

    “O que está por vir será como caminhar sobre vidro. Mas não estará sozinho.”

    O lobo então desce lentamente a colina. Cada passo que dá, o chão sob suas patas muda — da grama dourada para neve, da neve para terra rachada, da terra para rocha negra coberta de sangue.

    O cenário ao redor começa a ruir. As estrelas caem do céu como lágrimas, o campo se transforma em uma planície de ossos. Sinto meu corpo tremer. E então ele para, à minha frente, tão perto que sinto o calor de sua respiração.

    Seus olhos queimam os meus. E ele sussurra em minha mente com voz firme:

    “Lembre-se: quando o fogo tocar as cinzas, você deverá escolher.”

    Uma explosão de luz. Um grito — o meu. E o lobo desaparece como fumaça carregada pelo vento. Acordo ofegante, o corpo coberto de suor, os olhos arregalados encarando o teto da cabana. Ainda está escuro.

    Sempre que acordo no meio da madrugada, caminho até a sala para reunir mana e tentar forçar meu despertar. A luz do luar atravessa os vãos do telhado de feno e ilumina parte do ambiente com uma beleza silenciosa. Gosto de estar aqui — é o único cômodo que parece respirar junto comigo. Repito esse ritual por longos quatro meses, sempre na mesma posição, imóvel, buscando algo que ainda não entendo totalmente… mas nem sinal de progresso.

    Permaneço ali até que o cansaço extremo me vença. Quando finalmente me levanto, estou encharcado de suor, porém, curiosamente, meu corpo já não acumula a mesma fadiga de antes.

     Limpo meu rosto e preparo o café da manhã. Para alcançar a mesa, ainda preciso usar duas cadeiras: uma pequena para subir na outra, que é grande demais para mim. O café… bem, não é café de verdade. Encontrei sementes de uma árvore parecida com as de Zendrut e, mesmo sem saber se eram seguras, não consegui resistir. Perguntei para Lúcia se eram venenosas, mas ela também não sabia, então fiz o que qualquer alma curiosa faria: triturei as sementes até virarem pó, fervo a água, misturo cogumelos doces que uso como açúcar, e voilà — minha invenção.

    Minhas expressões durante a preparação deixam Lúcia visivelmente preocupada. Ela se aproxima e pergunta, franzindo o cenho:

    — Você tem certeza de que isso é… digerível?

    Eu rio.

    — É claro que não! — respondo. — Por isso mesmo não vou beber.

    Ela me encara, desconfiada. É aí que me lembro da vizinha que me tira do sério só por existir.

    — Tem certeza de que é meu filho? — ela pergunta, enquanto tenta me impedir de sair correndo com a jarra de barro.

    — Mamãe…, isso se chama ciência. — Dou um salto para frente, cuidando para não derramar nenhuma gota. — Ops! — Passo por debaixo de suas pernas com agilidade.

    — Ciência uma ova, seu…

    A vizinha abre a porta exatamente nesse instante. Sem perder tempo, chego até ela com a melhor expressão de anjo que consigo fazer.

    — Moça… — Haah… que humilhação. — Fiz puah vuce.

    — Oownt! Muito obrigado, pequenino. — Ela olha para Lúcia com um desprezo discreto. — O filho é muito diferente da mãe.

    Na mesma hora, viro-me para Lúcia com um sorriso maquiavélico, e sua expressão de indignação diante da minha atuação vale ouro. Espero o dia seguinte com expectativa, mas ela não morre. Talvez o efeito seja lento. Uma semana depois, nada. Continua viva, ranzinza… inteira. Não sei se fico feliz ou decepcionado.

    — Meu filho é um demônio…

    — Nada disso, mãe. — Dou uma risada. — A vida é feita de experimentos, mesmo os que dão certo ou errado. — Encaro-a com olhos brilhantes. — E eu nunca testaria em você.

    — Haaah…

    E assim nasce o meu “magnífico café”, que não é bem café. Um saco, mas o gosto é até bom. Depois de confirmar que não mata, passo a preparar todas as manhãs. Para Lúcia, o sabor é estranho no início, mas ela se acostuma rápido. Nunca tinha bebido nada parecido, apenas chás.

    (…)

    — Bom dia, mãe. — Digo com um sorriso largo.

    — Bom dia, meu querido. — Ela me puxa para um abraço apertado.

    Os dias seguem com uma rotina constante: café, carinho e treino. Sempre vou até os fundos da casa, onde uso um galho de marfim que encontrei na floresta para praticar meu manuseio de espada. Lúcia me observa com frequência, em silêncio. Apenas uma vez me perguntou onde aprendi aqueles movimentos, os giros, as defesas, os ataques. O que eu poderia dizer? Só dei de ombros.

    — Apenas faço o que vem à cabeça — respondi.

    Treino por horas até meus braços não aguentarem mais. Claro, não posso exagerar demais, senão Lúcia aparece com aquela cara de “Você vai desmaiar e eu não quero ter que te carregar de volta”. Quando o sol começa a ficar mais quente, volto para dentro e me jogo no chão fresco da sala como se estivesse enfrentado um exército inteiro.

    — Desistiu? — ela pergunta, cruzando os braços e rindo.

    — Eu diria que estou em processo de regeneração — murmuro, esparramado.

    Ela ri e volta para a cozinha, enquanto estico as pernas e fico olhando o teto de feno. Um pedaço pequeno dele se move com o vento e revela um pedaço do céu. Azul, limpo, com uma única nuvem que parece um porco voador. Fico encarando aquilo por tempo demais. Acho que estou ficando maluco.

    Lúcia volta com um pano úmido e o joga em cima do meu rosto.

    — Anda, moleque. Levanta. Vai lavar as mãos e ajuda a cortar os ingredientes.

    — Mãe, estou em estado crítico…

    — Vai ou te arrasto pelas orelhas.

    É incrível como a força de uma mãe supera qualquer ameaça mágica, maldição ou lobo gigante com penas douradas. Ergo-me com um suspiro dramático, digno de um cavaleiro em queda, e vou até a pia improvisada do lado de fora.

    Enquanto corto os ingredientes, minha mente ainda vagueia. Não paro de pensar no dia em que encontrei o lobo. Às vezes me pego olhando para o céu, esperando vê-lo em algum canto, mesmo sabendo que provavelmente não vai acontecer de novo. Pelo menos, não tão cedo.

    — Você tá cortando os cogumelos ou fazendo uma escultura? — Lúcia pergunta, espiando por cima do meu ombro.

    — Arte leva tempo, mãe.

    — Arte, né? Então espero que a gente não morra de fome esperando sua arte virar comida.

    Ela revira os olhos e volta para mexer a panela. O cheiro começa a preencher o ar e, por um momento, tudo parece calmo. Gosto desses momentos. Não duram para sempre, mas enquanto duram… são perfeitos.

    Depois do almoço, ajudo a lavar as panelas (parte mais chata do dia), e fico esperando a brisa da tarde começar. Quando ela chega, fresca e tranquila, deito no banco de madeira na varanda e olho o céu de novo. Fecho os olhos devagar. Acho que… só por hoje, posso cochilar um pouco.

    Mas antes que o sono me leve por completo, escuto Lúcia falando lá dentro:

    — Só de olhar esse menino dormindo, já sei que está aprontando alguma.

    Não tô não… só estou esperando a próxima aventura chegar devagarinho.

    O sol começa a se pôr, tingindo o céu de laranja e dourado, enquanto  fico ali, deitado na varanda, ouvindo o farfalhar das folhas e o canto distante dos pássaros. Lúcia está dentro de casa, ajeitando as coisas, mas sempre com um olho na janela para ver o que estou fazendo. Ela nunca confia totalmente quando eu fico quieto por muito tempo.

    — Luke! — ela grita da porta. — Vem cá, dá uma olhada nisso aqui.

    Levanto-me lentamente, dando uma espreguiçada que poderia ser mais apropriada para um urso acordando do inverno. Vou até a porta e encontro minha mãe com uma cesta cheia de pequenas frutas vermelhas.

    — Não é hora de você fazer mais experimentos com isso, né? — ela pergunta, um sorriso maroto nos lábios.

    — Pode deixar, mãe. Essas frutinhas são só para o café da manhã de amanhã. Eu prometo que não vou tentar fazer um chá venenoso novamente.

    Ela levanta uma sobrancelha, claramente duvidando das minhas promessas.

    — Melhor não, ou vou ter que fazer um feitiço para me proteger de você — ela brinca, enquanto começa a guardar as frutas.

    Eu sorrio, me sentando no degrau da porta enquanto observo. Como ela consegue ser tão tranquila, mesmo com todas as maluquices que eu faço? Acho que nunca vou entender isso.

    — Você não vai me contar de onde encontrou essas frutas? — pergunto, tentando parecer mais curioso do que sou.

    — Só no campo atrás da casa. Não são raras, mas nunca vi alguém pegar muitas delas. Fiquei pensando se você poderia tentar algo diferente, talvez um suco.

    — Hmm, suco… Parece mais seguro do que meu “café”, né? — rio, e ela me dá uma leve cotovelada.

    — Tá vendo? Você sempre arruma uma desculpa para me fazer de cobaia.

    Eu dou de ombros.

    — Mãe, se não for você, quem vai testar as minhas invenções? E mais importante: quem vai rir de mim quando o caos se instalar?

    Ela suspira, mas é um suspiro de carinho. Claro que se importa, mas também sabe que parte do que sou é exatamente esse lado curioso e meio irreverente.

    — E o treino, como foi hoje? — pergunta ela, virando-se para mim, agora com a expressão mais séria.

    Parece que o assunto ficou um pouco mais sério. Eu puxo uma cadeira e me sento, falo sobre o que treinei hoje, o que aprendi, e como continuo tentando alcançar alguma coisa maior. Lúcia me escuta, sem interromper, mas seus olhos, que estão sempre atentos, mostram que ela percebe o que está por trás das palavras.

    — Está indo bem, Luke. Só não se esqueça de que o mais importante é o equilíbrio. Não adianta treinar tanto que se esquece de viver.

    Eu respiro fundo e concordo, apesar de ser um pouco difícil de entender. Não sei se o que estou buscando é o equilíbrio, mas… talvez seja o que ela quer dizer. Talvez o caminho para o que preciso seja mais tranquilo do que estou tentando.

    Enquanto o sol finalmente se põe e a noite começa a cair, Lúcia faz um sinal para que eu a ajude a colocar as coisas dentro de casa. As estrelas começam a brilhar, e é mais uma noite tranquila, longe de qualquer mistério ou grande aventura. Só eu e minha mãe, fazendo as pequenas coisas que tornam tudo mais suportável.

    — Você já percebeu como as noites aqui são quietas? — pergunto, enquanto estamos guardando os utensílios na prateleira.

    — Sim, sempre me fazem sentir que estamos em paz, em um lugar onde podemos respirar sem pressa — responde ela, sorrindo suavemente.

    Olho para ela por um momento, pensando no que ela disse. Paz. Pode ser isso que estou precisando. A paz para poder, enfim, entender tudo o que aconteceu até agora, antes de continuar. Mas por agora, acho que posso descansar.

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