No dia seguinte, Lúcia me diz algo interessante que esqueceu de  comentar. Quando me viu pela primeira vez tentando lutar contra o vento, comentou que era como se eu estivesse enfrentando um exército inteiro, sozinho. A forma como eu empunhava o galho lembrava meu pai. Evitei perguntar mais sobre ele, já que sabia o que ela responderia. Não era algo que eu queria ouvir.

    Meu plano é caçar monstros maiores do que coelhos e esquilos, mas ainda sou pequeno demais e fraco. Não consigo nem usar mana. O lobo que apareceu na minha frente não sai da minha cabeça. O que é ele? O que queria? E aquele brilho no meu peito… minha cabeça começa a doer só de tentar lembrar.

    O meu objetivo? Conseguir despertar meu núcleo com três anos, mostrar ao rei de Dream que sou mais do que apenas um “gênio” e pedir proteção para Lúcia, em troca dos meus serviços. Um plano simples, mas… é claro que vai dar errado. Não entendo por que a demora para conseguir despertar. Tudo o que me resta agora é paciência. Sem ela, somos apenas um poço sem fundo.

    — Mãe, posso te perguntar algo?

    — Não sendo nada estranho…

    — Por que Hades fez tudo aquilo?

    Quero saber se, diferente de Delgron, ele tinha uma grande razão para eliminar todos os outros deuses e exterminar os humanos além de apenas ter sido expulso. Essa raiva somente por isso não faz sentido, pelo menos na minha cabeça. Tem que ter algo a mais.

    — Essa é uma pergunta que todos faziam na época, mas ninguém conseguiu encontrar respostas para ela.

    Será que todos eles simplesmente decidiam como e quando queriam destruir algo? Se for isso, tiveram o destino que mereciam.

    — Por que a curiosidade? 

    — Não é nada. Mais uma coisa, sabe algo sobre um animal parecido com um lobo mesclado com uma águia?

    Ela para imediatamente. O cesto de roupas que ela estava segurando cai no chão. Seus olhos ficam tão pálidos que parece que viu um fantasma. Fico confuso. Ela volta rapidamente a si e começa a recolher as roupas caídas, mas sei que algo está errado.

    — De onde… tirou essa ideia maluca? — Sua voz sai trêmula. Ela se agacha, pegando o cesto, e ajeita o cabelo desajeitado, mas seus olhos estão agitados, nervosos. — Por que essa pergunta?

    — Não é… nada.

    Deixo a sala e me encaminho para a floresta. Não entendo o medo dela. Claro que ela sabe algo, mas por que não quer que eu saiba? A floresta está tão silenciosa quanto da última vez. Não há coelhos, esquilos, pássaros ou qualquer outro som. Só o vento batendo nos galhos dos enormes pinheiros. Subo até a copa de uma árvore, me sento na posição de lótus e começo a meditar. Todos os dias, por um longo tempo, venho até aqui para tentar acelerar meu despertar, pois a concentração de mana nesse lugar é anormal. Foi aqui, exatamente aqui, que o lobo apareceu.

    Sinto que este é um presente. Um lugar calmo, isolado, sem a ameaça de animais ou pessoas. Aqui, o silêncio é profundo. Às vezes, sinto uma sensação estranha, como se alguém estivesse me observando. Um arrepio percorre minha espinha, mas sigo concentrado, pensando que, no fim de todo o meu processo, sempre aparece um animal para levar o que eu caço.

    Talvez tenha algo a ver com o lobo. Uma ajuda de alguém misterioso e poderoso. Mas logo descarto essa ideia ao lembrar do receio que ele demonstrou quando me viu. Não era amizade o que ele procurava. E, ainda assim, uma parte de mim não consegue ignorar a sensação de que estou sendo guiado por algo além da minha compreensão.

    (…)

    Um ano e meio se passa. Com cinco anos, já tenho um corpo que parece não pertencer à minha idade. Sou mais alto do que a maioria, consigo correr mais rápido que os meninos mais velhos e venço lutas contra garotos de nove anos. Sou literalmente um prodígio. Todos ao redor da favela falam de mim.

    É tarde, mais uma vez estou naquele mesmo local. Acordei cedo pela manhã, avisei a Lúcia que voltaria tarde e segui direto para a floresta. Desde o amanhecer até o fim da tarde, fico ali, imóvel, sem lanche ou água, sem nada, exceto a concentração.

    Meu foco aumentou a níveis extraordinários. Meus sentidos estão mais apurados e consigo sentir um calor intenso, como se estivesse sendo consumido por uma fogueira. A mana se concentra em meu abdômen, mais densa e rápida do que qualquer outra vez que tentei reuni-la.

    “Isso!”, penso animado. Meu corpo exausto dá a impressão de que trabalhei em minas durante uma semana sem descanso. A dor é insuportável, mas a recompensa está ao alcance.

    — AAAARGH! QUE DROGA É ESSA?! — praguejo em agonia. Uma dor intensa começa a se espalhar pelo meu peito, como se pequenas agulhas estivessem sendo cravadas uma por uma. — O QUE É ISSO?! — Minha visão começa a falhar, tudo se torna embaçado, borrões, e a sensação de que estou prestes a desmaiar é real. Aperto o peito com todas as minhas forças, tentando suportar. — AGUENTE! AGUENTE! — Os dentes se cerram enquanto a dor me contorce. O corpo treme violentamente, a roupa encharcada de suor, como se tivesse atravessado um rio. — AAAAAARGH!

    As batidas do meu coração se tornam ensurdecedoras, como se estivessem dentro da minha cabeça. Cada pulsação é uma eternidade. Depois de minutos agonizantes, a dor finalmente cessa. Estou deitado sobre a terra, exausto, com o suor descendo pelo meu rosto. Não consigo abrir nem um olho de tanto cansaço. Apoio-me na árvore, tentando recuperar o fôlego.

    — Meu coração parecia… ia explodir — ofego. — Mas… finalmente… consegui despertar meu núcleo. — Um sorriso largo se espalha pelo meu rosto, e tenho a certeza de que meus olhos brilham mais que diamantes.

    Olho ao redor e percebo a vastidão da floresta agora coberta pela escuridão da noite. O pensamento de que Lúcia pode estar desesperada e preocupada me faz querer voltar o mais rápido possível.

    ***

    Naquela noite, ventos frios serpenteavam pelas ruas de Mighur, a capital de Dream. Sob a luz pálida das lamparinas, uma carruagem avançava com firmeza pelas vias de pedra. Era feita de madeira maciça, reforçada por detalhes em ouro discreto, puxada por dois cavalos brancos de porte elegante. À frente, um cocheiro bem-apessoado mantinha a postura ereta, guiando o veículo.

    Dentro da carruagem, repousava um velho de aparência esguia. Apesar da idade avançada, não havia um único fio branco em seus cabelos — negros como a própria noite. Seus olhos vermelhos, intensos e afiados, lembravam lâminas prontas para perfurar qualquer um que ousasse encará-los por tempo demais.

    — A mana… — murmurou à si mesmo, guiando o olhar através da janela.  Ela estava instável. Espalhada demais. Concentrada demais. — Alguém está a reunindo sem se importar com as consequências.

    Um erro comum. Um erro que sempre leva a morte de um mago.

    — Senhor Arkus, estamos nos aproximando — avisou o cocheiro, em tom respeitoso.

    A carruagem reduziu a velocidade quando o portão de ferro surgiu à frente. Além das grades, estendia-se um vasto jardim meticulosamente planejado. Nada ali era aleatório: árvores podadas com rigor, canteiros simétricos, caminhos que guiavam o olhar até a mansão de dois andares ao fundo. Esferas mágicas presas às paredes iluminavam a construção com uma luz suave, constante.

    Jarros de flores alinhavam o caminho de pedras perfeitamente encaixadas, conduzindo até uma rotatória central coberta por grama baixa e pedras claras. A carruagem parou diante da entrada principal. A porta se abriu imediatamente.

    — Bem-vindo de volta, senhor — disse o mordomo, curvando-se ao abrir a carruagem.

    Arkus desceu com calma.

    — Obrigado, Betham — disse Arkus, lançando-lhe um olhar rápido.

    O descontentamento do mordomo era evidente; os olhos cinzentos, vibrantes, denunciavam aquilo que ele preferia não dizer.

    — Senhor, estão o aguardando em sua sala.

    Descontente com a visita que o aguardava no andar superior, Arkus subiu a escadaria em passos contidos. Enquanto avançava, seu olhar percorreu os quadros pendurados nas paredes — retratos de guerras antigas, alianças quebradas e reis que acreditaram ter controle sobre o destino.

    Virou à esquerda e deteve-se diante da porta. Um suspiro baixo escapou de seus lábios. Tudo o que realmente desejava era descansar após o retorno de Oredhel, mas aqueles infelizes pareciam determinados a não lhe conceder sequer esse direito. Por um breve instante, a ideia lhe ocorreu com naturalidade.

    “Matar todos eles.”

    Era simples. Eficiente. Arkus quase sorriu.Tinha plena certeza de que Drake concordaria.

    — Meu senhor… — Betham o observou de esguelha. — Isso soa como uma péssima ideia.

    — Tsc… — Arkus estalou a língua, claramente desapontado. — Sem graça.

    Arkus pousou a mão na maçaneta, girou-a com cuidado e entrou após um suspiro contido. O escritório exalava autoridade. Prateleiras repletas de livros antigos, um grande quadro retratando um rei solitário enfrentando um exército inteiro e, ao centro, uma mesa sólida, organizada demais para ser apenas decorativa. Arkus sentou-se atrás dela e voltou o olhar para a enorme janela, observando o jardim.

    — Então — disse, sem se virar —, falem.

    Dois homens aguardavam. Um usava o uniforme da guarda real. O outro vestia um terno marrom de corte impecável, apoiava-se em uma pequena muleta e ajustava o monóculo com um sorriso ensaiado demais para ser sincero.

    — Senhor Arkus — começou ele —, sei que possui a confiança do rei de Dream, mas receio que esse tratamento não seja adequado a um representante do Conselho Governamental.

     O tom carregava ironia. Um teste. Arkus girou lentamente a cadeira. Seus olhos vermelhos brilharam na penumbra, não como ameaça imediata, mas como aviso. O sorriso do homem vacilou.

     — Curioso — respondeu Arkus, com voz baixa e controlada. — Você fala em modos… estando aqui sem convite.

    O silêncio pesou. O homem engoliu em seco.

    — Foi… uma imprudência da minha parte — admitiu. — Vim informar que há indícios de que o rei de Oredhel planeja visitar Dream. Oficialmente, para propor uma aliança.

    — Oficialmente — repetiu Arkus, apoiando o cotovelo na mesa.

    — Com o avanço militar de Dream e a recente criação da divisão liderada pelos Dez Generais, isso seria… conveniente para eles.

    — Continue.

    — Acreditamos que a verdadeira intenção seja eliminar o rei de Dream. Uma aliança serviria apenas como cobertura. As relações entre os reinos nunca foram estáveis.

    — Interessante! — Arkus sorriu de leve. 

    Arkus sabia dessa aliança. Como também sabia que Dunkin, o homem sentado à frente, não passava de um peixe pequeno do conselho governamental. Alguém corrupto e causador de intrigas entre os reinos vizinhos.

    — Assassinato é uma palavra pesada para um aviso tão mal ensaiado — comentou, levantando-se. Caminhou até o centro do escritório, relaxando os braços. — Antes de continuarmos… seus aliados já podem sair.

    O homem empalideceu. Das sombras, figuras mascaradas emergiram em silêncio. Doze ao todo.

    — Diga-me, Dunkin… — Arkus falou em tom calmo, quase casual. — Por que os assassinos da Lua de Prata o acompanham nesta noite tão… esplêndida?

    Ele lançou um olhar de lado. O vermelho carmesim de seus olhos pareceu pulsar na escuridão do escritório, intensificado pelo breu que engolia as sombras ao redor.

    — Planejar uma execução dentro da minha casa — continuou, sem elevar a voz — não é apenas um erro. — Fez uma breve pausa, permitindo que o silêncio pesasse. — É desespero. Ou arrogância.

    A pressão caiu sobre a sala como um peso colossal. Os doze foram arremessados de joelhos, sufocados por uma força invisível que esmagava seus corpos contra o chão. O ar tornou-se denso, quase sólido, arrancando o fôlego de quem ainda tentava resistir. A própria mansão pareceu estremecer sob aquela presença. 

    Por corredores e salões, empregados sentiram o impacto súbito. Um estrondo seco rompeu o silêncio quando uma bandeja escorregou das mãos trêmulas de uma criada e se despedaçou no chão.

    Não levou mais que alguns instantes. Um a um, os invasores sucumbiram, suas consciências apagadas diante de um poder impossível de enfrentar. 

    Arkus deixou o escritório com passos calmos, como se nada além do esperado tivesse ocorrido. Guardas surgiram quase de imediato, imobilizando os corpos espalhados pelo piso. Entre eles, um homem vestindo trajes imperiais conseguiu se mover, erguendo-se com esforço, o rosto pálido e a respiração irregular.

    — Minha cabeça… — murmurou o homem, pressionando a têmpora com dificuldade.

    — Você resistiu mais do que eu previa — comentou Arkus, lançando-lhe um olhar de soslaio. 

    — E… agradeço.

    — Em todo caso, obrigado por sua colaboração. Graças a você podemos pegar um peixe podre do Conselho Governamental, agradeço.

    Arkus já se afastava quando passos apressados ecoaram pelo corredor. Uma empregada surgiu, ofegante, segurando algo nas mãos.

    — Senhor! Isto acabou de chegar.

    Ela lhe entregou um envelope amarelado, selado com cera vermelha ainda intacta. Arkus rompeu o lacre sem pressa. À medida que lia, sua expressão finalmente se alterou — não por medo, mas por um foco absoluto.

    Ele dobrou o papel.

    — Chame o cocheiro imediatamente — ordenou.

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