Capítulo 7
A noite cobria o mundo com um silêncio constante. O céu permanecia limpo, livre de nuvens, permitindo que todas as estrelas fossem vistas com nitidez. Elas brilhavam de forma regular, lançando uma luz pálida sobre a cidade, mais intensa do que o habitual. O ar era frio, impregnado pelo cheiro de pedra antiga e fuligem acumulada ao longo dos anos.
Pelas ruas de Mighur, capital de Dream, um jovem de aparência robusta caminhava sozinho. Era um nobre — membro de uma das famílias mais prestigiadas do reino, um Rolfred — embora nada em sua postura transmitisse elegância ou ostentação. Os cabelos roxos e compridos, presos de maneira descuidada atrás da cabeça, destoavam da imagem esperada de alguém de sua posição. Seu semblante estava tenso, e os olhos arroxeados permaneciam baixos, carregados de preocupação.
Lampião após lampião, presos às paredes de casas e comércios fechados, projetavam sombras alongadas sobre o chão de pedra. Poucas pessoas ainda circulavam pelas ruas, e nenhuma parecia interessada em iniciar qualquer conversa. Ele não se importava. Sua mente estava distante, presa a conflitos familiares que se arrastavam havia tempo demais, sem solução à vista.
À medida que se afastava das áreas mais habitadas, cada passo o levava para longe do barulho urbano e mais perto de seu destino. Quando o aroma das flores começou a se sobressair, amenizando o peso do ar da cidade, ele reduziu o ritmo. À frente, em um jardim silencioso, dois homens o aguardavam sentados em um banco de madeira. Observavam o céu estrelado enquanto cochichavam entre si.
Vestiam mantos marrons com capuzes cobrindo os rostos. No instante em que perceberam sua aproximação, interromperam a conversa e se viraram. Sem hesitar, puxaram os capuzes para trás, revelando os rostos ao encarar o jovem de expressão aflita.
— Pela sua expressão, imagino que já tenha entendido, ao menos em parte, do que se trata — disse um dos homens.
Ele tinha cabelos castanhos, de comprimento médio, com alguns fios que caíam sobre os olhos da mesma cor. Mesmo sob a iluminação fraca do jardim, era possível notar o cansaço marcado em seu rosto, assim como as rugas discretas que denunciavam mais noites mal dormidas do que idade avançada.
— Vossa Majestade. — O homem levou a mão ao peito e inclinou levemente a cabeça em sinal de respeito.
— Poupe as formalidades, Mikhan. — O outro fez um gesto tranquilo com a mão. — Esta noite, me chame apenas de Drake.
Mikhan hesitou por um instante, antes de assentir.
— Então… chamarei apenas de rei Drake.
— Já é um avanço. — Drake soltou uma breve risada. — Mas, se continuar me reverenciando desse jeito, vai acabar chamando atenção. E isso é a última coisa que precisamos se houver alguém rondando por aqui.
— Entendido — respondeu Mikhan, endireitando a postura.
Drake lançou um olhar rápido ao redor do jardim, atento ao silêncio que os cercava.
— Vamos caminhar um pouco. Conversas paradas costumam atrair ouvidos curiosos.
Sem esperar resposta, deu o primeiro passo entre as flores, certo de que os outros o seguiriam.
Eles caminharam lado a lado pelo jardim, sem trocar palavras. O som dos passos sobre o caminho de terra se misturava ao leve farfalhar das folhas, movidas por uma brisa constante. As flores, alinhas com cuidado, exalavam um perfume suave que contrastava com a tensão presente os três.
Drake mantinha o olhar à frente, atento aos arredores, enquanto o outro homem seguia um passo atrás, sem silêncio. Mikhan acompanhava os dois, com os ombros rígidos e a mente pesada.
— Esqueci de fazer as apresentações. — Drake rompeu o silêncio e se virou, estendendo o braço na direção do homem que os acompanhava. — Este é Dominic. Um soldado leal a mim… e meu braço direito.
Dominic limitou-se a um breve aceno de cabeça, sério como uma estátua. Mikhan retribuiu o gesto, mantendo a postura rígida.
— Por que me chamou aqui, em vez de convocar uma reunião formal no castelo? — perguntou Mikhan. Sua expressão denunciava preocupação, como se já temesse a resposta antes mesmo de ouvi-la.
Drake levou a mão ao rosto, apoiando o queixo na palma, assumindo uma postura aparentemente relaxada. Ainda assim, havia algo atento em seu olhar quando voltou a encarar Mikhan.
— Vejamos… — murmurou, após uma breve pausa. — Quero que você faça parte dos Dez Generais de Dream.
O silêncio se impôs imediatamente.
Uma gota de suor escorreu pela bochecha de Mikhan, apesar do frio daquela noite. A possibilidade não era nova; ele sempre soubera que seu nome circulava entre os candidatos. Ainda assim, não esperava que o convite viesse daquela forma, longe do castelo, sem protocolos ou testemunhas.
— Vossa… — ele hesitou, corrigindo-se em seguida. — Você conhece minha posição, meu rei. — Cerrou os punhos e mordeu o lábio inferior. — Eu não posso aceitar. Meu pai jamais aprovaria.
— Eu sei — respondeu Drake, sem hesitar.
Mikhan ergueu o olhar, surpreso.
— Então por quê?
— Sabe, eu não criei os Dez Generais por impulso. — Drake se virou, encarando o vasto campo de flores que se estendia diante deles. Havia preocupação evidente em seu olhar. — Essa é uma questão que debato comigo mesmo há anos.
Ele fez uma breve pausa antes de continuar.
— Dream sempre teve um sistema diferente dos outros reinos. Aqui, as famílias formam a base da nossa hierarquia. Cada uma mantém seus próprios exércitos, homens dispostos a arriscar a vida se algo ameaçar este lugar. — Drake fechou levemente a expressão. — Durante muito tempo, isso foi suficiente. Hoje, não mais.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Mikhan.
Drake voltou a caminhar, dando alguns passos à frente enquanto falava.
— O número de pessoas despertas vem diminuindo a cada ano. Setenta por cento do exército real é formado por pessoas comuns, e o cenário não é muito diferente entre as tropas das famílias. — Ele lançou um olhar de lado para Mikhan. — Os poucos jovens que despertam hoje preferem se tornar caçadores.
Drake suspirou, sem esconder o peso da situação.
— Não os culpo. Mesmo sendo despertado, não há garantia de sucesso ou sobrevivência no exército. Ainda assim… isso não lhe parece preocupante?
Mikhan demorou um instante para responder.
— Um pouco… — admitiu, em voz baixa.
— Estamos caminhando para uma crise sem precedentes. — O rei de Barker e o rei de Kahlai continuam enviando ameaças veladas de tomar estas terras. Ainda assim, o conselho governamental prefere se manter em silêncio. Às vezes, chega a parecer que aprovam esse tipo de atitude.
Mikhan franziu o cenho.
— Uma ameaça de guerra vinda de outro continente? — Ele cruzou os braços, refletindo por um instante antes de continuar. — Você realmente acredita que isso pode se tornar algo concreto?
Drake não hesitou.
— Não é uma questão de acreditar. Tenho certeza. — Seu olhar se endureceu. — Meus espiões infiltrados confirmaram os movimentos iniciais. O problema é que ainda não sabemos quando eles pretendem agir.
Ele fez uma breve pausa.
— Por enquanto, decidi manter isso em segredo do povo.
Mikhan soltou o ar devagar.
— Acredito que fez a escolha certa.
Drake esboçou um leve sorriso, breve e contido, que desapareceu quase tão rápido quanto surgiu.
— Eu sei que Mulrian é… complicado de lidar — disse Drake, escolhendo as palavras.
Mikhan soltou uma risada curta, sem humor.
— Complicado? — interrompeu. — Essa não é a palavra certa para definir meu pai.
— É… — Drake concordou, após um breve silêncio. — Mulrian jamais permitiria que seu herdeiro direto servisse à coroa.
Ele suspirou fundo antes de continuar.
— Ainda assim, você é um despertado excepcional. Um dos melhores, para ser sincero. Sua evolução tem sido rápida demais para ser ignorada. — Drake fitou Mikhan com seriedade. — Vou precisar de pessoas como você para liderar tropas na guerra que se aproxima.
Mikhan permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então, tomou uma decisão.
— Nem mesmo meu pai sabe disso… — murmurou.
Ele começou a retirar a blusa e se virou de costas. À luz fraca do jardim, a reação foi imediata. Drake arregalou levemente os olhos, e Dominic deu um passo à frente, atento.
— A maldição da família Rolfred caiu sobre mim.
— A rosa negra… — murmurou Dominic, a voz carregada de cautela.
Drake se recompôs rapidamente.
— Desde quando?
— Desde que alcancei o quarto estágio do núcleo de mana — respondeu Mikhan, sem se virar.
Drake cerrou os dentes por um instante.
— Justo nesta geração… — disse em tom baixo.
Ele pousou a mão sobre o ombro de Mikhan, firme, mas cuidadoso.
— O que pretende fazer?
Mikhan demorou a responder.
— Desde o início, pensei em deixar a família. Isso não pode se espalhar entre meus irmãos. — Ele respirou fundo. — Mas… entrar para os Dez Generais faria meu pai me odiar para sempre.
A maldição dos Rolfred era uma herança de um pacto antigo. A mana de Afrodite não era passiva; era viva, faminta. Como uma erva daninha, enraizava-se em outras almas em busca de sustento. Apenas aqueles que carregavam o sangue Rolfred podiam senti-la, e quanto mais profundo era o vínculo com o hospedeiro, maior se tornava o risco de a marca se propagar.
Edward, o primeiro patriarca da Casa Rolfred, acreditou que firmar um pacto com Afrodite era a única forma de salvar sua linhagem à beira da ruína. Em troca, seus descendentes herdariam traços semelhantes aos da deusa e um poder muito além do comum. Contudo, como toda barganha desse tipo, havia um preço.
Afrodite foi clara em suas palavras: chegaria o dia em que uma maldição cairia sobre a família. Uma rosa negra se enraizaria na pele de um herdeiro, drenando sua mana e sua energia vital sempre que ele recorresse à magia. Se o portador permanecesse próximo dos demais descendentes de sangue, a marca se multiplicaria, espalhando-se entre os herdeiros até provocar a ruína completa da casa Rolfred.
A rosa negra não surgia de forma súbita. Primeiro, aparecia como uma mancha escura sob a pele, quase imperceptível, semelhante a uma sombra enraizada na carne. Com o passar do tempo — e principalmente com o uso de magia — essa sombra ganhava contornos definidos, até que pétalas negras começavam a emergir, como se a flor estivesse sendo cultivada por dentro do corpo.
Suas pétalas não tinham o brilho natural de uma flor viva. Eram opacas, quase absorvendo a luz ao redor, e exalavam uma sensação constante de frio. As bordas pareciam frágeis à primeira vista, mas eram rígidas como metal fino. Do centro da rosa, espinhos escuros se espalhavam sob a pele, ramificando-se como veias corrompidas, cravando-se profundamente no núcleo de mana do portador.
Sempre que a magia era invocada, a rosa reagia. As pétalas se abriam lentamente, como se respirassem, e uma dor profunda atravessava o corpo, acompanhada pela sensação de algo sendo arrancado de dentro. Mana e energia vital eram drenadas juntas, alimentando a flor, que se tornava mais definida, mais viva — enquanto o hospedeiro enfraquecia.
O aspecto mais temido da rosa, porém, não era sua aparência, mas seu comportamento. Quando o vínculo com o portador se fortalecia demais, pequenos fragmentos da marca começavam a surgir em outros membros da família próximos, como sementes invisíveis espalhadas pelo sangue. Era assim que a maldição se propagava: silenciosa, inevitável, condenando toda a linhagem caso não fosse isolada a tempo.
A rosa negra não matava de imediato. Ela esperava. Crescia. E, quando finalmente florescia por completo, já não restava muito do que um dia fora apenas um herdeiro amaldiçoado. Isso foi o que Afrodite deixou.
— Agora, mais do que nunca, eu preciso que você entre para os Dez Generais — disse Drake, com a voz baixa, porém inflexível.
Mikhan abriu a boca para responder, mas as palavras não vieram de imediato.
— Você…
— Mikhan. — Drake o interrompeu com calma. — Eu lhe darei todo o apoio necessário. Usarei tudo o que estiver ao meu alcance para encontrar uma forma de remover essa maldição do seu corpo.
Ele sustentou o olhar do jovem, sério.
— Não preciso de uma resposta agora. — A voz suavizou, embora a determinação permanecesse. — Pense com cuidado. Essa decisão vai mudar o rumo da sua vida… e talvez o destino de Dream.

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