A alegria de ter conseguido despertar meu núcleo está evidente, só não pulo pelos ares por causa da dor que sinto. Quero tomar um belo banho e tirar esse suor do corpo, deitar na minha cama e dormir por três dias seguidos. Sigo caminhando pelo breu da floresta me apoiando entre as árvores. Minha respiração? Estou quase desmaiando porque até isso é complicado.

    Acho que estou muito dentro da floresta… acredito que não foi uma boa ideia. No caminho, encontro alguns cervos dormindo, coelhos entrando em suas tocas, esquilos sobre os pinheiros, e barulhos parecidos com chocalhos. Espero não encontrar nada perigoso. Nessa situação, achar até uma mísera Isnis acabaria comigo, mal consigo andar agarrado aos pinheiros, imagina tentar me defender de qualquer outra criatura.

    Após algum tempo, que, sinceramente, parecem séculos, avisto o brilho de uma tocha. Finalmente estou perto de casa. Meu corpo treme, os olhos parecem os de um peixe morto. Quando chego na periferia, a primeira coisa que vejo são três crianças brincarem de pedra, papel e tesoura. Aparentemente quem perde leva um peteleco em alguma parte do corpo.

    Chego em casa e, ao entrar, noto que tudo está escuro, nem mesmo uma única vela ilumina alguma parte de casa. Olho no quarto de Lúcia, na sala, cozinha e meu próprio quarto, nenhum sinal sequer. Vou até a sala e observo a lua pela janela, não está tão tarde quanto pensei.

    Deito-me no chão da sala olhando para o telhado, aos poucos o sono toma minha mente, me esforço para ficar acordado, mas é em vão.

    — Arial… — Escuto uma voz me chamando em meu sonho. Uma mulher está parada na minha frente, na beira de um penhasco. Com o sol reluzindo pelo rosto dela, tudo que consigo ver é o brilho dos olhos dourados que tem. — Arial… — fala a mulher novamente. — Está na hora de acordar.

    Meus olhos abrem repentinamente, e ainda estou deitado no chão frio da sala, meu rosto virado para a lareira improvisada com madeiras velhas e algumas pedras. Quanto tempo se passou desde que adormeci? A janela ainda está aberta, mas a lua já está muito acima dela.

    Levanto-me de um jeito desajeitado e cambaleio por uns instantes, caminho até a janela. Uma brisa fria bate em meu rosto e olho para o céu. Está tarde. Vou até o quarto de Lúcia novamente, porém ela ainda não chegou. Começo a andar em volta da periferia, a maioria dos moradores já dormiram, até que vejo uma das janelas de uma casa aberta e com a luz acesa.

    É a casa da vizinha chata logo ao lado. Não olhei primeiro para essa casa porque Lúcia não tinha um relacionamento muito bom com essa mulher. Antes que eu chegue perto, ela coloca o rosto para fora.

    — Ora, criança. O que faz na rua tão tarde da noite?

    Está usando um pano no cabelo, com alguma coisa verde no rosto que tampa aquela enorme verruga que ela tem.

    — Estou procurando minha mãe… Você a viu?

    — Haah, aquela mulher? A última vez que a vi foi na direção daquela floresta. — Aponta o dedo e, surpreendentemente, foi de onde saí algum tempo atrás. — O que foi? Ela ainda não voltou? Espero que…

    Espera que o quê?! Mulher do cão. Haah… Eu me encontro cansado o bastante para nem conseguir falar alguma coisa de volta.

    — Obrigado — respondo e viro de costas, indo para onde ela indicou.

    Talvez ela tenha ido me procurar e se perdeu. Na pior das hipóteses, algum animal a atacou e provavelmente pode… não quero nem pensar na possibilidade. Fico olhando para o chão, tentando ver algum rastro de onde pode ter ido, só que nada. Até que um pouco mais à frente, ao lado de um pinheiro podre, encontro uma galha quebrada, mas não leva a lugar algum.

    É aí que me lembro. Em Zendrut, existe uma habilidade de caça, uma magia de procura que pode dar certo aqui. Fecho meus olhos e me concentro, canalizo a pouca mana que tenho e um pequeno círculo aparece embaixo dos meus pés, enviando ondas sonoras pelo terreno. Posso ver e sentir cada animal em um raio de quinze metros, mas não encontro nenhum sinal dela.

    Faço isso repetidas vezes, porém a todo momento tenho que reunir mais mana. Procuro durante horas pelas regiões que já andei na floresta, até mesmo nos que nunca fui. Na imensa escuridão, no último lugar que consigo procurar, uso a busca novamente. Em meus sentidos parece ser algo deitado no chão, aparenta estar dormindo. Corro para lá no mesmo instante e, quando chego, me assusto. Não é apenas um, e sim vários corpos sobre o chão.

    As árvores ao redor parecem ter sido dizimadas, deixando apenas os troncos para trás. O sangue escorre pela terra, corpos separados da cabeça, alguns desmembrados, e outros que parecem ter congelado até a morte. O que aconteceu aqui? Glup…! Vomito pelo mal cheiro que entra de repente no meu olfato. Normalmente eu não teria vomitado, mas acredito que este corpo pequeno  ainda incompleto tenha tido essa reação.

    Arial…, corra! 

    Por um momento, me pego em lembranças de outra vida e começo a correr, fico desesperado e ansioso. O pensamento de que algo está muito errado não sai da cabeça. Estou quase saindo da floresta quando um brilho amarelado se apossa da minha visão cansada. São como luzes fortes sendo jogadas no meu rosto.

    Uma brisa quente passa por meu rosto, junto de uma brasa. Olho para cima e consigo ver uma chama subindo aos céus, como se tivessem colocado fogo em uma grande casa de seda. Escuto gritos agonizantes ecoando por meus ouvidos, clamando por ajuda em completo desespero. Uma voz grita por socorro, implorando para não a matar, e some com o barulho do machado batendo em sua pele. Consigo escutar mesmo de longe o sangue espirrando contra a parede.

    Paro na frente da casa em chamas, pessoas correm de homens segurando machados, clavas e espadas. Alguns rolam na terra, tentando apagar o fogo que cobre seus corpos. Olho para uma casa mais à frente e meu estômago embrulha. Uma das crianças que brincava mais cedo está pregada na parede com os braços abertos e as pernas cruzadas. Olhar para aquilo me faz querer chorar.

    Malak. Minha antiga vila.

    O que vejo agora é idêntico à invasão do exército sombrio da minha vida passada. O ar pesa. A visão escurece. Meu corpo cede — e, quando estou prestes a cair, braços firmes me seguram por trás.

    — Mã-mãe…? — sussurro, tocando seu rosto. Há sangue em sua bochecha esquerda.

    — Não olhe para trás. Venha comigo. Agora.

    Ela puxa minha mão e começamos a correr. Cada passo ecoa como um grito. Mesmo assim, só de vê-la à minha frente, a angústia recua.

    — EEEI! — um homem berra ao longe. — Tem alguém fugindo pela floresta!

    Olho para trás desesperado. Cinco sombras avançam.

    — Capture-os! — ordena o maior deles, já à frente.

    Lúcia corre como se o breu não existisse. Desvia de buracos, raízes e pedras sem hesitar, como se a floresta fosse parte dela.
    — Mãe, o que está acontecendo?!

    — Não pare. Não pense. Confie em mim.

    Meu corpo está pesado. Respirar está difícil, e cada passo que dou parece que minhas pernas irá quebrar. Ela freia de repente, ajoelha-se à minha frente e segura meu rosto com força contida. Seus olhos vasculham a escuridão.

    O quê? Como? Quando? Então… era ela quem me observava?

    — Eu sei que você forçou o despertar do seu núcleo, querido. Não sei como conseguiu, mas vi tudo o que fez.

    Minha mente falha. O mundo some por um instante. Volto a mim quando ela me sacode com força.

    — Escute com atenção. Nós somos descendentes de um clã antigo. Os últimos. Não restou mais ninguém além de nós. — Ela aperta meus ombros. — Por isso você precisa sobreviver. Não importa o que aconteça.

    As palavras vacilam. As lágrimas que ela segurava finalmente inundam seus olhos.

    Clã antigo? Como assim? Nós não éramos apenas um bando de favelados? O que isso tudo quer dizer?

    — Demorou, mas eles nos encontraram…

    — Quem?!

    — Os deuses.

    — O… quê? Deuses?!

    — Não temos tempo. — Ela segura meus ombros com força. — Eu não posso ir com você. Seria perigoso demais. Vá reto por esse lado — aponta com o dedo trêmulo. — Você chegará a Mighur. Procure Arkus. Ele vai entender.

    — Espera! Eu não ligo pra nenhuma dessas porcarias — digo com fúria no olhar. Eu sou patético. Você é patético Arial Blake! — Eu não vou sem você! — Minha voz sai rasgando na garganta, um ódio que acreditei ter esquecido.

    — Está tudo bem, minha criança. — Ela me envolve num abraço apertado. — A mamãe vai te encontrar. Você é forte. Eu sei disso.

    A voz dela falha. As lágrimas finalmente caem.

    — Eles nos acharam… — Ela se afasta antes que eu possa segurá-la de novo. — Vai. Confie na mamãe. Corra!

    Levo a mão ao peito e o sinto queimar. Este maldito… corpo… inútil… Meu corpo não obedece. Minhas pernas travam.

    — Eles nos acharam… — Sua voz embarga. Um grito corta a floresta. — EEI! — O olhar de Lúcia endurece. Ela me empurra com força para a trilha. — VAI! — grita. — VIVE!

    Tropeço. Caio. Me ergo chorando. Corro. Não sei o quanto corri, mas ainda escuto as vozes dos desconhecidos. Até um deles gritar algo.

    — PEGUEM ESSA VADIA! — a voz deles vem carregada de riso. — Vou gostar muito de brincar com ela.

    Paro no mesmo instante ao ouvir aquilo. Quebro um galho sob o pé de propósito, forte o bastante para que o bastardo acredite que alguém fugiu pelo outro lado.

    — LÚCIA! — grito, mas o nome morre na minha garganta.

    Um estalo seco. Um impacto. Silêncio. Meu peito se despedaça. Não quero pensar o que foi esse barulho agora. Tudo o que quero é matar pelo menos um desses desgraçados!

    Corro. Corro sem sentir as pernas. Corro até o mundo perder forma. Só então percebo onde estou. Corpos. Muitos. Espalhados pelo chão.

    — Não tenho tempo para enjoos… corpo maldito! — rosno, levando a mão à boca.

    Me escondo atrás de uma das árvores, sento-me às pressas em posição de lótus e começo a puxar mana para o núcleo instável. Cada segundo conta.

    Passos. Estão próximos. Pela cadência e pelo peso, são pelo menos dois.

    — Que merda aconteceu aqui? — murmura um deles.

    — Quem conseguiria fazer isso? — responde o outro. — Mesmo sendo burros, eram fortes…

    Sinto o impacto das pesadas deles. Cada passo faz a terra tremer sob meu pés. São grandes. Grandes demais. Ergo-me lentamente, o corpo tenso, prendo a respiração e fecho os olhos.

    Busca

    Dois.

    Um parado, mais afastado, vigiando. O outro avança em minha direção com paciência. Abro os olhos e empurro mana para dentro deles. A escuridão se rasga. O mundo surge em tons azulados e distorcidos, sombras ganhando contornos doentios. Cada movimento deixa rastros.

    Agora… Zendrut me vem a cabeça. O método mais simples. O primeiro ensinado. O último que alguém subestima. Estendo a mão.

    A mana não se molda em lâmina comum. Ela condensa. Vibra. Torce o ar ao redor como se estivesse serrando a própria realidade. Um brilho azul profundo pulsa na palma da minha mão, irregular, instável, com bordas que se desfazem e se recompõem a cada batida do meu coração.

    Os passos estão próximos demais. Posso sentir o peso da respiração dele.

    Agora!

    Saio da sombra da árvore e lanço para frente como um animal encurralado. Salto direto na garganta do inimigo. A lâmina de mana atravessa a carne sem resistência alguma. Não corta — rompe. O impacto espalha sangue quente pelo meu rosto, pelos olhos, pela boca. Nem mesmo ouve um grito de resistência.

    O corpo cai com um baque surdo.

    Um chute brutal acerta minhas costelas. O som seco do impacto ecoa dentro de mim antes mesmo da dor. Sou lançado para longe, o mundo girando, árvores e chão se misturando enquanto rolo sem controle.

    O ar foge dos pulmões. A visão escurece. Algo estala dentro do peito. Cuspo sangue. Muito sangue. Tento respirar e falho. O corpo treme, mesmo reforçado por mana. Não foi o suficiente.

    Uma costela cede. Talvez duas. Pressiono a mão e um grito silencioso parece que vai rasgar minha garganta. Que merda. Merda. Merda. Merda. Corpo de merda! Não posso cair. Não agora!

    Aperto os dentes, sentindo o gosto metálico se espalhar, e forço a mana restante a circular pelo corpo.

    Se eu parar, eu morro!

    — Uma mina de ouro…

    A voz surge atrás de mim, grossa, satisfeita. Sinto o bafo quente antes mesmo da mão me alcançar.

    — Hoje é meu dia de sorte. — ele ri baixo. — Vem cá, moleque.

    Os dedos se fecham nos meus cabelos e minha cabeça é puxada para trás com força. Meu pescoço arde. Ele força meu rosto para perto do dele, avaliando-me como se eu fosse um objeto recém encontrado no chão.

    — Você vai render muito…

    Não espero o resto. Minha mão se move sozinha. A mana responde como um reflexo. Perfuro suas costelas como se atravessasse pano molhado.

    — SEU… DESGRAÇADO!

    O impacto vem logo em seguida. Sou arremessado contra a árvore com força suficiente para arrancar o ar dos meus pulmões. A casca raspa minhas costas. O mundo gira.

    Ele é enorme.

    Sem camisa, o tronco exposto é um mapa de músculos densos e cicatrizes. Uma delas cruza o peito de lado a lado, larga, torta. A barba é malfeita, rala de um lado. O cabelo, raspado. A pele, marcada por tatuagens negras de símbolos estranhos, tortuosos.

    Veste apenas uma calça grossa de couro de urso e botas gastas. Dois cintos cruzam o peito e as costas, prendendo machados pesados, com lâminas manchadas e gastas pelo uso.

    Minha visão embaça de novo. A dor nas costelas quebradas é lancinante, uma fisgada contínua que sobe até a garganta.

    Que corpo inútil…!

    O tempo falha. As imagens voltam aos pedaços. Silhuetas distorcidas. Vozes. Um peso esmagando meus ombros. Estou sendo carregado.

    Vejo estruturas de madeira passando por cima de mim — carroças reforçadas com grades de ferro. Dentro delas, pessoas. Amontoadas. Algumas choram. Outras nem se mexem.

    — Esse é o último? — pergunta alguém.

    — É. — responde o homem que me carrega. — E esse aqui é especial.

    — Chefe… o que houve com a costela?

    Sinto o corpo dele se mover. Um riso curto vibra no peito contra o meu rosto.

    — Um presentinho.

    Risos ao redor. O mundo escurece de vez.

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