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    Ideias. “Ter ideias era a especialidade das mentes humanas em momentos de necessidade”. Jonas não sabia se ele havia inventado aquela frase ou ouvido de alguém. Sabia apenas que nenhuma ideia vinha a sua cabeça naquele momento de necessidade.

    As penas no topo da cabeça da harpia se eriçaram, irregulares devido ao corte feito por Erik. As asas arquearam para cima enquanto a cabeça e o bico apontavam para frente. Para eles.

    Jonas erguia sua lâmina da mesma forma, desafiando o bico da grande ave. Seus olhos encarando os negros olhos dela. Forçando-se a permanecer parado enquanto ela avançava a passos lentos de suas magras pernas de pássaro.

    Ouviu Erik dar um passo para trás. Talvez por cautela, talvez por puro instinto. Não importava.

    Se a harpia atacasse, não havia muito que ele pudesse fazer além de sair da frente. Já tinha disparado uma de suas lâminas de ar.

    Uma.

    — Você pode disparar outra? — perguntou Jonas com um grito.

    — Me dá algum tempo e talvez sim — A voz de Erik saíra-lhe arrastada e cansada.

    — Eu lembro de você ter lançado dois daquela vez — gritou Jonas quando a harpia deu um passo que a deixou a menos de cinco metros dele.

    — O que atirei agora foi o meu segundo no dia — explicou Erik, para confusão e desespero de Jonas.

    A harpia deu mais um passo e estendeu as asas.

    — Então recarrega logo, porra — Não esperou que ela atacasse. Se moveu, saltando para o lado, quando pensou que ela o fosse fazer. Então para o outro, desviando de seu bico, que acertou um pedregulho com um som terrível de pedra raspando em pedra.

    Um palmo foi a distância que separou Jonas do impacto. Ele deslizou sobre seus pés, e fez girar o corpo, e com ele, também a lâmina de sua espada, mirando-a no grande alvo cinzento que era a plumagem sobre o pescoço. A ave rapidamente o recolheu, e inclinou a cabeça, tirando-se do alcance. Então tentou apanhá-lo com suas garras.

    Jonas engoliu em seco. Não fazia ideia do que estava fazendo, apenas tentava manter o corpo em movimento, tal qual a noite chuvosa em que Túlio morreu, quando teve de matar algo pela primeira vez.

    Com outro movimento rápido de suas, Jonas se esquivou, rolando em uma cambalhota para a direita, antes das garras cravarem-se no lugar em ele estava. Deu outra cambalhota em uma direção quase aleatória, ziguezagueando, ganhando espaço, então firmou os pés e avançou contra o peito da harpia. Que disparou outro ataque com sua cabeça. Jonas saltou para sua direita, sentindo as penas da cabeça resvalando-lhe o ombro, então, girando os pés, desferiu um golpe circular com sua espada.

    Não era o melhor movimento para aquele tipo de lâmina, percebeu tarde demais, quando sentiu a espada abrir a carne sem conseguir afundar-se completamente. Viu o vermelho cobrir o cinza e então ouviu.

    A harpia soltou um som aterrador que lhe fez doer os ouvidos. Semelhante ao lamento de um corvo. Ela saltou para longe e bateu as asas, levantando uma nuvem de poeira, que encobriu os olhos de Jonas, o forçando a dar dois passos para trás devido a rajada de vento. Então sentiu algo volumoso e ao mesmo tempo pesado bater contra seu peito como um martelo, erguendo-o do chão e o lançando para trás.

    Por um breve momento, seu mundo ficou silencioso. Um momento em que não sentia a terra sob seus pés.

    Caiu pesadamente, rolando até bater contra uma rocha da encosta.

    Sabia que precisava se manter em movimento, mas ao tentar se levantar, sentiu o pulmão vazio, e as costelas pareciam estalarem cada vez que tentava inflá-lo. E ao tentar respirar acabou por tossir com a dor brusca transbordando por todo o peito.

    Ouviu o grito assobiante da harpia e então os seus passos. Logo depois sentiu algo se atracar em volta de sua cintura, espetando-o nas costas, e o pressionando violentamente contra o chão.

    Ergueu a cabeça, vendo o imenso corpo repleto de penas sobre o seu. Os olhos nada agradáveis da harpia o fitando com certo interesse. 

    Tentou espantá-la com a espada, mas sentiu suas mãos vazias. A havia soltado em algum momento na queda. Não havia mais nada entre ele e o bico apontado em sua direção, tão perto quanto poderia estar.

    O peito de Jonas tremeu quando a harpia pareceu, por um momento, que iria atacá-lo, porém ela abriu as asas e as garras, soltando-o de forma brusca, e virando seu pescoço para trás.

    Soltou um piar agudo e pulou batendo asas, como se fosse uma galinha gigante e não mais uma águia.

    Jonas sentiu um calor momentâneo e então o frio gerado pela ventania do grande pássaro, que o prendia contra o paredão de rochas. Ouviu mais uma vez o som estridente da harpia e então uma familiar voz melódica.

    Olhou e viu Morda erguendo o seu cajado em direção a criatura, que batia furiosamente suas asas, e entre elas, o que parecia ser uma parede de chamas resistindo contra uma redoma de vento gerada pelas asas da harpia em movimento.

    A ave parecia tentar mover-se em direção a Morda, que permanecia no mesmo lugar. Seus cabelos vermelhos chacoalhavam, enquanto as labaredas urgiam ao seu redor. A pedra na ponta do cajado que ela segurava brilhava meia dúzia de cores quentes, emanando um constante fluxo de chamas que parecia não ter fim.

    Jonas tentou mover-se, porém a dor em seu peito atacou-o ao menor movimento. E a ventania tornava difícil o simples ato de enxergar.

    Tudo parecia abafado pelo vento uivante.

    Por um momento parecera que aquilo nunca teria um fim, até que a harpia bateu as asas uma única vez, alçando-se para cima, antes que as chamas a alcançassem, passando por debaixo de suas garras.

    Jonas temeu que as labaredas o tocassem, no entanto ouviu a voz de Morda mudando de tom, extinguindo-as antes que o atingissem.

    Inspirou, sufocando com a dor de respirar, sentindo-se aliviado por meio segundo, antes de perceber que a águia havia apenas já baixava seu corpo em direção a Morda, que mantinha seu olhar em Jonas, com uma expressão de alívio.

    Gritou, e Morda olhou para cima no momento em que a sombra já a cobria.

    Então uma das asas da harpia desprendeu-se de seu corpo, e a grande ave se contorceu de dor no ar em uma confusão de penas, passando por cima da cabeça de Morda, que agachou-se de bruços para não ser atingida.

    Apoiando-se sobre um braço, Jonas ergueu debilmente seu tronco, tentando entender o que havia ocorrido.

    Ouviu uma risada e um brado. E ao olhar na direção de sua fonte, viu Erik erguendo os braços, comemorando, antes de cair de joelhos no chão.

    A harpia debateu-se contra as rochas em agonia. O vivo vermelho fluindo da metade arrancada da asa.

    Morda ergueu-se e se aproximou da criatura, erguendo seu cajado. Cantou mais uma melodia e a incinerou. As chamas douradas subiram pelo paredão de rochas enquanto a criatura soltava o mais angustiante som que Jonas já ouvira, até silenciar-se de vez.

    Então ele ouviu mais um clamor estridente. Mais próximo à descida do monte, onde Leovard havia se ocupado de enfrentar a outra harpia com a ajuda de Morda, ou pelo menos fora o combinado, antes da maga surgir para ajudá-los.

    Jonas virou-se, e ergueu seu corpo, resistindo a dor de cada movimento, ou ao menos tentando.

    Levantou a cabeça, olhando pela trilha entre rochedos em direção a descida, onde o Cento lutava naquele momento, sozinho, contra a outra harpia.

    Não sabia o que pensar do que via.

    Uma das asas arrastava-se no chão. O bico cor de cobre tinha uma fenda enegrecida o dividindo até a metade, revelando a língua também fendida da ave. Diversos ferimentos cauterizados eram visíveis sobre a plumagem naturalmente azul cinzenta.

    E ainda assim, a luta parecia prosseguir.

    O rosto do cento sangrava, e um visível rasgo fora aberto no jaquetão que usava, desde a cintura até o ombro. Revelando a cota de malha.

    E ainda sim, ele lutava.

    Cada passo parecia medido. Cada corte, cada estocada, era como uma finta para o próximo ataque. Cada movimento, mais fluido que o anterior. Como se ele soubesse o que fazer a seguir, manuseando sua espada flamejante como se fosse uma fita de ginástica rítmica.

    Pareceu-lhe ridículo.

    Morda surgiu a sua direita.

    — Precisa de ajuda para andar? — perguntou ela com a respiração entrecortada. Os olhos brilhando em vermelho e amarelo, como dois sóis.

    Jonas abriu a boca para negar, mas a dor o impediu de falar.

    Morda suspirou, olhando para onde Leovard lutava e então para de novo para Jonas.

    — Deite-se. Tentarei apressar logo aquilo, e então poderemos partir — afirmou ela em um tom menos urgente do que parecia apropriado a Jonas.

    Morda afastou-se com passos vacilantes, descendo a trilha em direção a batalha que ainda decorria.

    Ele sentou-se no chão, deixando o corpo relaxar e tendo de suportar os espasmos de dor advindos disso. Olhou para onde a harpia que enfrentaram havia caído. Uma fumaça escura cobria as cinzas enegrecidas do restante do cadáver.

    Erik estava deitado com a barriga para cima. Parecia com dificuldade para respirar.

    Jonas voltou a olhar para a luta que ocorria à distância, ouvindo Morda cantar outra melodia, e uma espiral de fogo surgir por baixo da harpia que ainda resistia. Leovard se afastou momentos antes, por um aviso da maga, e um momento depois, um tornado de fogo engoliu a ave.

    Jonas engoliu em seco enquanto assistia o que parecia ser uma cena saída de sonhos febris.

    Ouviu o grito furioso de Leovard para que ela parasse com aquilo, antes de um sim semelhante ao de vidro sendo estilhaçado viajar pelo ar. Jonas percebeu o brilho do cajado sumir e ouviu Morda tossir violentamente e então desabar no chão como uma das folhas rubras do outono que cobriam as estradas.

    O tornado de chamas se extinguiu no mesmo instante, e a harpia avançou, chamuscada e necrosada, contra a maga caída. Leovard moveu-se de forma rápida, em uma estocada certeira, ele lançou-se contra o corpo da ave queimada, caindo sobre ela.

    Jonas não entendeu o que de fato ocorrera, mas após alguns momentos do que pareceu ser um breve luta corporal contra a criatura, Leovard levantou-se, retirando dela a espada esfumaçada.

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