Capítulo 42 - Excesso.
Ideias. “Ter ideias era a especialidade das mentes humanas em momentos de necessidade”. Jonas não sabia se ele havia inventado aquela frase ou ouvido de alguém. Sabia apenas que nenhuma ideia vinha a sua cabeça naquele momento de necessidade.
As penas no topo da cabeça da harpia se eriçaram, irregulares devido ao corte feito por Erik. As asas arquearam para cima enquanto a cabeça e o bico apontavam para frente. Para eles.
Jonas erguia sua lâmina da mesma forma, desafiando o bico da grande ave. Seus olhos encarando os negros olhos dela. Forçando-se a permanecer parado enquanto ela avançava a passos lentos de suas magras pernas de pássaro.
Ouviu Erik dar um passo para trás. Talvez por cautela, talvez por puro instinto. Não importava.
Se a harpia atacasse, não havia muito que ele pudesse fazer além de sair da frente. Já tinha disparado uma de suas lâminas de ar.
Uma.
— Você pode disparar outra? — perguntou Jonas com um grito.
— Me dá algum tempo e talvez sim — A voz de Erik saíra-lhe arrastada e cansada.
— Eu lembro de você ter lançado dois daquela vez — gritou Jonas quando a harpia deu um passo que a deixou a menos de cinco metros dele.
— O que atirei agora foi o meu segundo no dia — explicou Erik, para confusão e desespero de Jonas.
A harpia deu mais um passo e estendeu as asas.
— Então recarrega logo, porra — Não esperou que ela atacasse. Se moveu, saltando para o lado, quando pensou que ela o fosse fazer. Então para o outro, desviando de seu bico, que acertou um pedregulho com um som terrível de pedra raspando em pedra.
Um palmo foi a distância que separou Jonas do impacto. Ele deslizou sobre seus pés, e fez girar o corpo, e com ele, também a lâmina de sua espada, mirando-a no grande alvo cinzento que era a plumagem sobre o pescoço. A ave rapidamente o recolheu, e inclinou a cabeça, tirando-se do alcance. Então tentou apanhá-lo com suas garras.
Jonas engoliu em seco. Não fazia ideia do que estava fazendo, apenas tentava manter o corpo em movimento, tal qual a noite chuvosa em que Túlio morreu, quando teve de matar algo pela primeira vez.
Com outro movimento rápido de suas, Jonas se esquivou, rolando em uma cambalhota para a direita, antes das garras cravarem-se no lugar em ele estava. Deu outra cambalhota em uma direção quase aleatória, ziguezagueando, ganhando espaço, então firmou os pés e avançou contra o peito da harpia. Que disparou outro ataque com sua cabeça. Jonas saltou para sua direita, sentindo as penas da cabeça resvalando-lhe o ombro, então, girando os pés, desferiu um golpe circular com sua espada.
Não era o melhor movimento para aquele tipo de lâmina, percebeu tarde demais, quando sentiu a espada abrir a carne sem conseguir afundar-se completamente. Viu o vermelho cobrir o cinza e então ouviu.
A harpia soltou um som aterrador que lhe fez doer os ouvidos. Semelhante ao lamento de um corvo. Ela saltou para longe e bateu as asas, levantando uma nuvem de poeira, que encobriu os olhos de Jonas, o forçando a dar dois passos para trás devido a rajada de vento. Então sentiu algo volumoso e ao mesmo tempo pesado bater contra seu peito como um martelo, erguendo-o do chão e o lançando para trás.
Por um breve momento, seu mundo ficou silencioso. Um momento em que não sentia a terra sob seus pés.
Caiu pesadamente, rolando até bater contra uma rocha da encosta.
Sabia que precisava se manter em movimento, mas ao tentar se levantar, sentiu o pulmão vazio, e as costelas pareciam estalarem cada vez que tentava inflá-lo. E ao tentar respirar acabou por tossir com a dor brusca transbordando por todo o peito.
Ouviu o grito assobiante da harpia e então os seus passos. Logo depois sentiu algo se atracar em volta de sua cintura, espetando-o nas costas, e o pressionando violentamente contra o chão.
Ergueu a cabeça, vendo o imenso corpo repleto de penas sobre o seu. Os olhos nada agradáveis da harpia o fitando com certo interesse.
Tentou espantá-la com a espada, mas sentiu suas mãos vazias. A havia soltado em algum momento na queda. Não havia mais nada entre ele e o bico apontado em sua direção, tão perto quanto poderia estar.
O peito de Jonas tremeu quando a harpia pareceu, por um momento, que iria atacá-lo, porém ela abriu as asas e as garras, soltando-o de forma brusca, e virando seu pescoço para trás.
Soltou um piar agudo e pulou batendo asas, como se fosse uma galinha gigante e não mais uma águia.
Jonas sentiu um calor momentâneo e então o frio gerado pela ventania do grande pássaro, que o prendia contra o paredão de rochas. Ouviu mais uma vez o som estridente da harpia e então uma familiar voz melódica.
Olhou e viu Morda erguendo o seu cajado em direção a criatura, que batia furiosamente suas asas, e entre elas, o que parecia ser uma parede de chamas resistindo contra uma redoma de vento gerada pelas asas da harpia em movimento.
A ave parecia tentar mover-se em direção a Morda, que permanecia no mesmo lugar. Seus cabelos vermelhos chacoalhavam, enquanto as labaredas urgiam ao seu redor. A pedra na ponta do cajado que ela segurava brilhava meia dúzia de cores quentes, emanando um constante fluxo de chamas que parecia não ter fim.
Jonas tentou mover-se, porém a dor em seu peito atacou-o ao menor movimento. E a ventania tornava difícil o simples ato de enxergar.
Tudo parecia abafado pelo vento uivante.
Por um momento parecera que aquilo nunca teria um fim, até que a harpia bateu as asas uma única vez, alçando-se para cima, antes que as chamas a alcançassem, passando por debaixo de suas garras.
Jonas temeu que as labaredas o tocassem, no entanto ouviu a voz de Morda mudando de tom, extinguindo-as antes que o atingissem.
Inspirou, sufocando com a dor de respirar, sentindo-se aliviado por meio segundo, antes de perceber que a águia havia apenas já baixava seu corpo em direção a Morda, que mantinha seu olhar em Jonas, com uma expressão de alívio.
Gritou, e Morda olhou para cima no momento em que a sombra já a cobria.
Então uma das asas da harpia desprendeu-se de seu corpo, e a grande ave se contorceu de dor no ar em uma confusão de penas, passando por cima da cabeça de Morda, que agachou-se de bruços para não ser atingida.
Apoiando-se sobre um braço, Jonas ergueu debilmente seu tronco, tentando entender o que havia ocorrido.
Ouviu uma risada e um brado. E ao olhar na direção de sua fonte, viu Erik erguendo os braços, comemorando, antes de cair de joelhos no chão.
A harpia debateu-se contra as rochas em agonia. O vivo vermelho fluindo da metade arrancada da asa.
Morda ergueu-se e se aproximou da criatura, erguendo seu cajado. Cantou mais uma melodia e a incinerou. As chamas douradas subiram pelo paredão de rochas enquanto a criatura soltava o mais angustiante som que Jonas já ouvira, até silenciar-se de vez.
Então ele ouviu mais um clamor estridente. Mais próximo à descida do monte, onde Leovard havia se ocupado de enfrentar a outra harpia com a ajuda de Morda, ou pelo menos fora o combinado, antes da maga surgir para ajudá-los.
Jonas virou-se, e ergueu seu corpo, resistindo a dor de cada movimento, ou ao menos tentando.
Levantou a cabeça, olhando pela trilha entre rochedos em direção a descida, onde o Cento lutava naquele momento, sozinho, contra a outra harpia.
Não sabia o que pensar do que via.
Uma das asas arrastava-se no chão. O bico cor de cobre tinha uma fenda enegrecida o dividindo até a metade, revelando a língua também fendida da ave. Diversos ferimentos cauterizados eram visíveis sobre a plumagem naturalmente azul cinzenta.
E ainda assim, a luta parecia prosseguir.
O rosto do cento sangrava, e um visível rasgo fora aberto no jaquetão que usava, desde a cintura até o ombro. Revelando a cota de malha.
E ainda sim, ele lutava.
Cada passo parecia medido. Cada corte, cada estocada, era como uma finta para o próximo ataque. Cada movimento, mais fluido que o anterior. Como se ele soubesse o que fazer a seguir, manuseando sua espada flamejante como se fosse uma fita de ginástica rítmica.
Pareceu-lhe ridículo.
Morda surgiu a sua direita.
— Precisa de ajuda para andar? — perguntou ela com a respiração entrecortada. Os olhos brilhando em vermelho e amarelo, como dois sóis.
Jonas abriu a boca para negar, mas a dor o impediu de falar.
Morda suspirou, olhando para onde Leovard lutava e então para de novo para Jonas.
— Deite-se. Tentarei apressar logo aquilo, e então poderemos partir — afirmou ela em um tom menos urgente do que parecia apropriado a Jonas.
Morda afastou-se com passos vacilantes, descendo a trilha em direção a batalha que ainda decorria.
Ele sentou-se no chão, deixando o corpo relaxar e tendo de suportar os espasmos de dor advindos disso. Olhou para onde a harpia que enfrentaram havia caído. Uma fumaça escura cobria as cinzas enegrecidas do restante do cadáver.
Erik estava deitado com a barriga para cima. Parecia com dificuldade para respirar.
Jonas voltou a olhar para a luta que ocorria à distância, ouvindo Morda cantar outra melodia, e uma espiral de fogo surgir por baixo da harpia que ainda resistia. Leovard se afastou momentos antes, por um aviso da maga, e um momento depois, um tornado de fogo engoliu a ave.
Jonas engoliu em seco enquanto assistia o que parecia ser uma cena saída de sonhos febris.
Ouviu o grito furioso de Leovard para que ela parasse com aquilo, antes de um sim semelhante ao de vidro sendo estilhaçado viajar pelo ar. Jonas percebeu o brilho do cajado sumir e ouviu Morda tossir violentamente e então desabar no chão como uma das folhas rubras do outono que cobriam as estradas.
O tornado de chamas se extinguiu no mesmo instante, e a harpia avançou, chamuscada e necrosada, contra a maga caída. Leovard moveu-se de forma rápida, em uma estocada certeira, ele lançou-se contra o corpo da ave queimada, caindo sobre ela.
Jonas não entendeu o que de fato ocorrera, mas após alguns momentos do que pareceu ser um breve luta corporal contra a criatura, Leovard levantou-se, retirando dela a espada esfumaçada.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.