Capitulo 43 - Valores.
Um espasmo de dor o fez saltar quando Keren iniciou a massagem em suas costelas com uma ardente loção que ela mesma preparara naquele momento, moendo um punhado de ervas em sua bolsa.
Estava deitado no chão, sobre uma manta. A carroça era ocupada por Morda, que permanecia desmaiada.
— Não vai mandar ele ficar quieto? — provocou Erik, sentado de frente para Jonas.
— Ninguém fica quando faço isso — respondeu a mulher.
Fora uma surpresa quando ele, apoiando-se em Erik, juntamente com Leovard, que também carregava Morda, desceram até o final da trilha, dirigindo-se até o lugar em que haviam deixado as mulas e a carroça, e acabaram encontrando também Keren. A mulher havia sumido durante toda a luta, e também da mente de Jonas, que sequer lembrara dela.
Leovard tratou tal coisa com a mesma naturalidade que se tinha ao sujar os pés após pisar em uma poça de lama.
Erik não, questionando porquê ela tinha fugido e os deixado lá. Questionamento que Jonas endossou. Ao que Keren respondeu lembrando-os o que ela era.
— Sou uma fármo, garoto, não uma guerreira. Não teria sido de mais servia a vós naquele momento do que você será para mim agora.
Erik se calou após isso e a deixou tratar de Jonas.
Keren espalhou o creme por Jonas, então colou algumas folhas em volta de seu torso. Então lhe deu uma poção, o qual ele bebeu, sentindo a dor diminuir.
— Quando voltarmos para a cidade, poderei tratar isso melhor — disse ela, guardando novamente em sua bolsa os frascos e vasilhames.
— E com certeza cobrará por isso, né? — gracejou Erik em tom de provocação.
— Obviamente — Keren levantou-se e foi até onde Leovard prendia os cavalos à carroça, preparando-os para a partida.
A fármo ofereceu-lhe cuidados médicos, mas Leovard recusara.
O sangramento em sua cabeça diminuíra e ele havia trocado a jaqueta e a malha rasgada por roupas de couro, calças e camisa costuradas.
Foi possível para Jonas ver a quantidade assombrosa de cicatrizes em seu corpo enquanto o cento se trocava a vista de todos. Inclusive de Keren, que não pareceu esboçar qualquer reação ou interesse. Ambos agiam com aparente despreocupação, que Jonas não conseguia sentir.
Sons distantes o impediam disso.
— Acham que elas vão nos atacar de novo? — perguntou a todos.
— Não, quanto antes partirmos — respondeu Leovard, prendendo os animais na cocheira.
— Talvez alguma delas tenha ouvido a nossa briga, não? — conjecturou Erik. Ele sentava com as pernas cruzadas, abraçando o pequeno embrulho, que tirou de algum lugar tão logo o perigo havia passado. O cento pareceu estreitar os olhos ao fitá-lo.
— Se tivessem ouvido, já as teríamos sobre nós agora. Então tratemos de nos distanciar quantos côvados forem possíveis.
Quando os preparativos para a partida finalizaram, Erik ajudou Jonas a subir na carroça, sentando-se, ao lado do corpo adormecido e envolto de camadas de mantas de Morda, que foram colocadas para que a maga não se machucasse com o chacoalhar da carroça.
Keren juntou-se a Leovard na frente, que balançou as rédeas, e assim partiram.
Jonas sentiu-se mais grato quanto mais os ecos que ouviam se tornavam cada vez mais distantes e fracos. Via sombras vez ou outra entre as nuvens, mas aliviava-se quando elas continuavam voando, sem se importar em descer.
Sentiu verdadeira tranquilidade quando alcançaram a esparsa cobertura marrom das folhas que teimavam em não cair, se pondo entre eles e a visão completa do nublado céu acima.
Seguiram em silêncio. Ou quase tão silenciosamente quanto poderia parecer a Jonas, que ouvia o clamor dos animais e o ranger das rodas percorrendo a precária estrada. A única coisa que ele não ouvia era o que passou a sentir falta após algum tempo. O som das vozes humanas discutindo.
Apenas Morda não podia falar, ou cantarolar. Os outros pareciam apenas se recusar a isso. Leovard e Keren não olharam para trás, nem trocaram qualquer palavra nenhuma enquanto a carroça andava. Mesmo Erik, que permanecia abraçado ao seu saco de pano, havia se reservado a contemplação dos arredores.
Jonas se remexia em seu lugar, ainda que sentindo o corpo espasmar onde o curativo estava posto.
Algo naquele silêncio o incomodava.
Adentraram cada vez mais a floresta, distanciando-se dos montes repletos de harpias. A luz já amainava quando eles pararam próximos uma clareira ao lado da estrada, onde um pequeno aclive se fazia.
Leovard saltou para a parte de trás da carroça, pisando a centímetros do rosto de Morda, que permanecia desmaiada. Ele agarrou a camisa de Erik, girou os calcanhares e a puxou, erguendo-o e o arremessando para fora da carroça.
Erik caiu com o rosto no chão de terra batida, cuspindo areia que entrara em sua boca.
— Que porra foi essa? — bradou Jonas, tentando se levantar, mas sentindo a dor aguda do ferimento força-lo a permanecer sentado.
— Hei de saber agora — respondeu Leovard, olhando de forma dura para Erik.
Agachou-se e pegou algo onde o amigo de Jonas estava sentado. A bolsa a que ele tanto se agarrava. A abriu, franzindo o cenho e então olhando de volta para Erik.
Retirou dela uma esfera imperfeita marrom com manchas amarelas e verdes. Tão grande que não cabia na mão do cento.
Keren, que até aquele momento o máximo de reação demonstrado havia sido apenas olhar para trás, se levantou, arregalando os olhos.
— Deuses! Então foi por isso.
— Um ovo? — perguntou Jonas, sem entender.
— Um ovo de harpia — corrigiu o cento. — Por conta disso elas nos caçaram por tanto tempo.
Erik levantou-se, limpando a poeira na roupa.
— Me descobriram — Abriu os braços em um gesto que deveria ser cômico.
— Percebe que quase nos matou? — bramiu Leovard, guardando o ovo de volta na bolsa e baixando a mão próxima a cintura, onde a bainha da espada estava.
— Pensei que todos pudéssemos morrer a qualquer momento. Não foi isso que tu disse antes? — retorquiu Erik.
— Sim, você pode muito bem. E pode ser neste exato momento — Os olhos do cento se estreitaram. A mão indo até o punho da espada.
Jonas tentou se mover, mas a dor em suas costelas atravessou seu corpo mais uma vez, o fazendo cair sobre o braço com o movimento.
— Calma, está tudo bem, não? Sobrevivemos. — Erik ergueu a mão, continuando a tentar acalmar Leovard.
O cento olhou para baixo, para Morda, e então saltou da carroça ainda segurando a bolsa. Erik afastou-se alguns passos para trás.
— O custo dessa missão acabou de aumentar — tirou mais uma vez o ovo de dentro da bolsa e então a rebolou para Erik, que a pegou no ar de forma desesperada.
O cento então se moveu com a agilidade de um gato, encurtou a distância enquanto seu alvo se distraía com a bolsa, e direcionou o punho fechado rumo ao nariz de Erik. O som de algo quebrando reverberou claramente nos ouvidos de Jonas enquanto ele via Erik ser jogado para trás, caindo no chão como uma árvore derrubada pelo vento.
Leovard cuspiu no chão, olhou para o ovo em sua mão, que possuía a mesma coloração amarronzada, porém com manchas negras.
— Ao menos foste esperto em roubar mais de um — Virou-se de costas, voltando para a carroça. — Tome-se por satisfeito com isso, pois tens a sorte de por enquanto ser meu cliente.
Erik, sentado no chão, parecia alheio ao que era falado. Cobria o rosto, gemendo de dor enquanto o sangue vazava de seu nariz.
Jonas olhou para Keren que permanecia parada, apenas observando.
— Vai ajudá-lo? — perguntou ele a farmo.
Keren suspirou.
— Não vale o preço.
Leovard aguardou até que Erik subisse novamente na carroça, então seguiram caminho em silêncio, mais uma vez. Não parando sequer quando a luz sumira por completo, avançando na escuridão da estrada.
Morda permanecera dormindo o tempo inteiro.
Jonas ouviu uma estranha palavra a que se lembrava ser sussurrada pelo cento, então uma luz avermelhada surgiu entre os cavalos que levavam a carroça.
Uma pedra ignis. Não as via sendo usadas desde os dias passados junto a sir Orland, quando pouco sabiam daquele mundo.
A noite passava. Ouvia os gemidos de dor de Erik enquanto ele se remexia em seu lugar, e a respiração suave de Keren a cochilar sentada.
Apenas ele e Leovard permaneciam acordados.
— Mantenha seu amigo sob controle e longe de minha vista, ou ele pode desaparecer na floresta — rosnou o cento.
— Não posso prometer nada a você. E espero que ninguém precise desaparecer — respondeu.
Alcançaram as ruínas externas de Beuha antes do nascer do sol. Logo estariam de volta ao quarto que chamavam de casa. A parceria com os centos terminaria, Keren iniciaria o tratamento com as ervas matites e logo Leandro estaria curado.
Nada lhe traria mais alívio.

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