Capítulo 44 - Uma boa nova.
Um grito se alastrou pelo quarto quente, barulhento e movimentado onde meia dúzia de mulheres caminhavam de um lado para o outro seguindo as ordens de uma outra que parecia tão velha quanto a avó de Julia na última vez que a vira.
— Empurre, garota. Empurre como se sua vida dependesse disso — ordenou ela com as mãos estendidas entre as pernas de Nurya.
A jovem mãe, amordaçada com um pano, gemeu de dor enquanto fazia uma careta tão horrenda que por um momento distorceu sua feição juvenil.
— Você — disse olhando para Julia, que observava paralisada —, traga logo os panos úmidos e limpe o rosto dela — Ela obedeceu, limpando rosto de Núrya e afastando o longo cabelo de seus olhos.
A jovem mãe soltava grunhidos enquanto mordia o lençol amarrado em sua boca.
Faziam horas desde que a bolsa se rompera enquanto passeavam pela estrada que levava ao rio. Julia não desejava ir, mas Núrya dissera que havia um belo lugar onde a água escorria para fora do rio, criando uma piscina natural escondida.
Contava-lhe como ela e seu amado senhor marido haviam descoberto o lugar e dava detalhes muito específicos de como o haviam aproveitado quando sentiu uma dor no ventre.
Tiveram a sorte de um carroceiro passar por elas em direção a vila, aceitando levá-las de forma urgente.
Ao chegarem, foram rapidamente levadas pelos outros moradores até a casa de Núrya. Onde a jovem mãe permaneceu agonizando em sua cama por horas até a chegada da parteira. Que logo instruiu o que todos deviam fazer.
O senhor marido de Núrya chegou a casa pouco tempo após, ofegante e exausto, desejando estar ao lado da esposa. Porém a parteira ordenara que ele esperasse do lado de fora do quarto. Como mandava o costume. Apenas mulheres poderiam estar presentes no momento do nascimento.
Leticia entrava e saia do quarto, trazendo cada vez mais água quente e lençóis limpos. Duas mulheres, com idades para serem mães de Julia, tomavam os lençóis e os travesseiros, e os acomodavam abaixo do corpo de Núrya, substituindo os antigos. As outras garotas seguravam suas mãos, mantendo-a imóvel. Núrya empurrava, grunhindo de dor mais a cada vez.
Julia percebia a seriedade e apreensão nas expressões de todas. Exceto na da parteira, que embora centrada, carecia de preocupação.
A própria Julia, ainda que absorta pela emoção aflorante no quarto, sentiu certo alívio, por um motivo que não era de nenhum modo comum. Ela não via as sombras como as daquele dia na tenda médica.
— Continue. Continue, mãe, ele está saindo. Continue! — dizia a velha parteira.
Núrya gritou apertando as mãos das duas jovens ao seu lado, as quais compartilharam de sua expressão de dor.
— Isso, isso — disse a parteira, animada.
Julia escutou um choro, então viu a cabeça da criança e o resto de seu corpo sendo retirado pela parteira.
Núrya chorava, com rosto suado e olhos vermelhos como pimentas.
— É um menino — anunciou a parteira segurando a criança em seus braços.
As mulheres em volta riram alegremente. As duas que seguraram as mão de Núrya, agora a abraçavam, felicitando-a.
Julia se viu sorrindo ao escutar o choro da criança, enquanto a velha parteira cortava seu cordão umbilical com uma faca e o envolvia com lençóis limpos, trazidos por Leticia. Entregou-o a Núrya, que chorava um fluxo de lágrimas enquanto seus lábios sorriam.
A criança continuou chorando, agarrando e puxando os cabelos negros que desciam pelo corpo da mãe. Julia lhe deu uma boa olhada. Era careca, úmido, de bochechas inchadas e olhos fechados. A boca porém estava bem aberta, e ele a usava bastante naquele momento, fazendo o mais cativante som de choro que ela já escutara.
Era a primeira vez que via um recém nascido após o parto.
O marido de Núrya entrou no quarto momentos após. Ajoelhou-se ao lado da esposa, apertando e beijando sua mão. Agradeceu ao seu deus mais de uma vez enquanto tocava o rosto e as mãozinhas do menino.
Julia permaneceu no quarto, observando, assim como as outras. Não sabia se deveria ir ou ficar, porém desejava ver quanto mais pudesse.
O marido de Núrya levantou o rosto e olhou para a parteira.
— Senhora Diane, por favor nos diga qual o nome? — perguntou ele.
A velha mulher sentou-se em uma cadeira reclinada na parede do quarto e apoiou o rosto em um de seus magros e frágeis braços.
— Esqueço que devo ser eu a pensar em um nome. Há tantos costumes diferentes no mundo que às vezes me confundo do que devo fazer. Há lugares no mundo onde o costume correto remete aos pais escolherem o nome da criança — tagarelou ela, revirando os olhos.
Núrya e seu esposo continuaram a encará-la com certa expectativa, aguardando ela terminar de falar.
— Por favor, senhora Diane, nos diga o nome — pediu uma das mulheres de maior idade no quarto.
A velha parteira suspirou.
— Diga-me jovem pai, lembra-se do dia em que se conheceram?
O marido de Núrya arregalou os olhos e então respondeu.
— Sim, como poderia esquecer?
— E o que lembra daquele dia?
— Lembro de ter acordado cedo e ter ido direto para o campo para ajudar meu pai. Estava tudo escuro, então assisti o nascer do sol enquanto andava. Daí vi ela — Sorriu enquanto falava. — Lembro que ela já tinha duas trancinhas na cabeça.
Núrya sorriu, apertando em seus braços a criança de ambos, unindo sua bochecha à dela.
— Está bem então — A parteira ergueu uma mão. — Se chamará Aruna — disse, umedecendo os lábios.
As expressões das mulheres ao redor se contorceram, e mesmo Núrya ergueu uma sobrancelha ao nome dito pela velha mulher. Seu esposo porém não esboçou qualquer reação.
— Perdoe-me, mas poderia repetir? — disse após alguns segundos em silêncio.
— O nome do pequeno será Aruna em homenagem ao dia em que seu pai e sua mãe se conheceram — reiterou a velha parteira.
— Tá, mas, que nome é esse? — comentou Leticia, provocando uma onda de murmúrios das demais mulheres.
— Um belo e grande nome, jovem. Digno dos filhos de reis em tempos antigos — argumentou a mulher, erguendo um dedo esquelético para cima.
— Acho melhor deixar isso quieto, Lê — Julia sussurrou no ouvido de Leticia, que revirou os olhos.
— Deixe assim, meu marido. O que importa é que nosso filho tem um nome e um dia seu — disse Núrya, olhando carinhosamente para o bebê em seus braços.
Por um momento aquela visão pareceu durar para sempre, mas lentamente e de uma forma que Julia não percebeu, a casa esvaziou-se, e ela se viu na estrada, caminhando ao lado de Leticia de volta para a casa de Thierry, junto a Roque, que viera buscá-las.
Leticia contava ao rapaz os detalhes sobre a aventura que fora o parto. Desde o desespero que sentira no momento em que a bolsa de Núrya se rompera quando estavam a caminho do rio, até os gritos da jovem mãe enquanto a criança nascia.
— Ela foi ao rio estando grávida? — perguntou Roque, entortando suas sobrancelhas. Um gesto que sempre repetia quando conversava com elas.
Leticia confirmou, expressando no rosto sua típica chateação quando alguém a interrompia ou não prestava atenção no que ela queria. Algo que sempre repetia quando conversava com o neto de Thierry.
— Dizem por aqui que traz um mal agouro uma grávida chegar perto do rio — comentou Roque, olhando para cima, pensativo.
Julia lembrava de ter ouvido algo semelhante entre as mulheres que conversavam sobre a criança, depois desta já ter nascido. Parabenizaram Núrya até ouvir que ela pretendia ir ao rio. Mas não pelo simples azar, e sim por um perigo mais palpável.
— Goblins sentem o cheiro de grávidas a côvados de distância, minha jovem. Ainda mais na água — comentou uma mulher, que possuía idade para ser mãe de Julia, com pernas de galinha abaixo dos olhos.
— Que loucura estava para fazer, Núrya, não sabes que eles arrancam a criança de sua barriga e então a dão para seus próprios filhotes se alimentarem? — contou uma das companheiras mais novas.
— Ellday a proteja, pois graças a ele a criança nasceu antes…
— Basta desse cacarejo! Já ouvi muito, e creio que a mãe também. Estamos ambas cansadas, então, deem-nos um momento de paz — bradou a velha Diane em uma voz enfurecida.
— Sim, sim, — concordou Núrya. — Não quero ouvir de goblins ou de qualquer outra coisa que não seja o quão belo é esse meu filho em meus braços.
— Deixe-me segurá-lo um pouco, querida — pediu o marido, estendendo seus braços para a criança e sendo amavelmente rechaçado.
— Terá sua vez logo, meu senhor. Por hora ele é propriedade minha, e só minha — afirmou furiosamente, se recusando a dividir a criança, que puxava seus cabelos.
Julia lembrava dessa conversa. De cada palavra. Lembrava bem, de uma forma que nunca se dera o trabalho de fazer antes. Porém, tão pouco havia se esforçado para trazer tudo de volta à memória. O que lhe era estranho.
Quando sua memória ficara tão boa? Curiosamente não conseguia lembrar.
Chegaram a casa de Thierry após uma hora de caminhada no escuro. Uma grande lamparina iluminava a entrada, onde duas silhuetas felinas estavam, projetando suas sombras pelo jardim.
Um, sentado sobre as patas traseiras, num gesto indiferente, lambia uma de suas dianteiras. Outro caminhava elegantemente pelo piso acima dos pequenos degraus que levavam à porta, passando pelo companheiro, esfregando seu corpo no dele, da cabeça até a cauda.
Quando Roque passou pela amurada que cercava o jardim, os dois ergueram a cabeça e saltaram em direção a Julia e Leticia. Agarrando-se nos vestidos da garota morena.
— Pera, parem com isso, vocês vão rasgar — brigou ela, enquanto Julia ria ao seu lado.
— Não faço ideia do porquê meu avô resolveu acolher animais após tanto tempo — comentou Roque.
— Foi uma boa decisão. Eles dão mais vida ao lugar — afirmou Julia, agachando-se e passando a mão em um, sentindo-o ronronar.
Roque olhou para eles.
— Talvez — disse ele num tom de voz minimamente diferente.
Que também deveria ser minimamente perceptível, percebeu Julia. O que havia de errado com seus ouvidos para compreender isso?
Eles entraram, sentindo o revigorante calor que exalava pela lareira. Sentado em frente a ela encontraram Theo. Mexia nas mãos duas pedrinhas brilhantes do tamanho de bolas de gude. Uma amarela e outra vermelha. Pareciam refletir a luz da fogueira.
— Nossa, já consegue segurar duas? — Leticia perguntou, se aproximando e inclinando o corpo para espiar sobre o ombro de Theo.
— Comecei a tentar hoje, mas é difícil separar as essências — respondeu o garoto.
— Separar? Pensei que era para assimilar elas a nossa — Julia se aproximou, se perguntando o que aquilo significava.
— Ele disse que eu vou precisar separar, pois terei de me unir a mais delas por mais tempo do que vocês.
— Aí não vale, eu ainda tô me esforçando pra absorver aquela pedrinha e o cabeção aí com duas — reclamou Leticia.
— Acho que progredi a um novo nível enquanto vocês passeavam por aí — vangloriou-se Theo com um sorriso debochado.
— Não há nada de errado em belas garotas poderem passear livremente, meu caro Theo. É sinal de que vivemos em bons tempos — comentou Thierry, entrando no cômodo.
— Olá, senhor Thierry — Julia o saudou de forma respeitosa. Thierry deu-lhe um aceno em resposta.
— Por quê ele tem de separar as essências? — perguntou Leticia, sem mais delongas.
Thierry suspirou pesadamente.
— Honestamente não posso fornecer uma resposta bem satisfatória para isso, apenas dizer que magos precisam controlar bem a essência de mana em seus corpos. Por isso mandei que ele as separasse, deixando a corrente de uma essência passar por seu corpo enquanto mantinha acesa a pequena chama da lareira com a outra.
Leticia olhou para a chama, percebendo algo que Julia vira quando entrara no cômodo. Não havia madeira dentro da lareira.
— Desde quando ele consegue fazer — perguntou Leticia.
— Acho que desde que parou de só fazer bolas de fogo explosivas na semana retrasada, não? — explicou Julia, que havia prestado certa atenção ao treino de Theo enquanto fazia o seu.
O suficiente para perceber que não se resumia mais a apenas lançar bolas de fogo pelo campo, mas em manter uma pequena chama acesa entre suas mãos de forma ininterrupta o máximo que pudesse.
Provavelmente a mesma coisa ele fazia naquele momento com a lareira. Porém com esse detalhe adicional a se concentrar.
— Tá, mas me diz aí uma coisa, seu Thierry. Quando eu vou poder fazer coisas desse tipo.
Thierry umedeceu os lábios seco com a ponta da língua antes de responder.
— Creio que não entenderá o que vou dizer, mas devo lhe contar que já fez.
Leticia franziu o cenho. Julia fez o mesmo, tentando buscar em sua memória algum momento em que a amiga tenha feito algo do tipo.
— Não posso lhe contar o que, pois é necessário que os reconheça sozinha, e eles a aceitem.
— Como assim? — questionou Leticia.
— Vai entender quando acontecer
— Tá, isso foi algo bem confuso, até pra mim. Parece até que o senhor só não quer dizer — Comentou Théo, desviando sua atenção da lareira, o que fez com que a chama se apagasse. — Porra! — praguejou.
— Quando eu tinha a idade de vocês, muitas coisas quis saber também, mas sempre havia um motivo para não me contarem — Olhou para Leticia e então para Julia — Um bom motivo.
Julia percebeu a tristeza em seu olhar, uma que não percebia antes, mas sempre estivera lá.
Quando começou a percebê-la?
O velho Thierry fez o que sempre fazia. A escondeu bem.
— Agora falemos de boas novas. Como está a criança de Pierce? — perguntou esboçando um de seus gentis sorrisos.

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