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    Tudo era tão familiar. Estava deitada em sua cama, em seu quarto, olhando para o seu teto, pensando o quão bom seria se aquilo fosse real. Quão cruel era estar consciente da realidade.

    Julia levantou, olhando para o mundo que podia ser visto pela janela.

    O céu continuava o mesmo pesadelo dourado, repleto de nuvens não mais brancas como eram antes, mas em diferentes tons de violeta, roxo e carmesim. Uma paisagem atípica, mesmo para um céu inventado.

    Passou algum tempo olhando para os familiares prédios de sua vizinhança, notando as pequenas diferenças entre aquelas imitações e os reais.

    Uma árvore que não deveria estar em frente a casa de seu vizinho marceneiro. Um poste que em sua mente estava pintado de preto e branco em homenagem ao time que outro de seus vizinhos torcia. Um telhado atípico em um prédio de três andares que não reconheceu no final da rua.

    Era-lhe tudo tão parecido ao que conhecia, porém de muitas formas diferentes.

    Talvez sonhos sejam desse jeito mesmo, pensou, afastando-se da janela e indo em direção ao corredor. Sabia quem a esperava e preferiu não prolongar aquilo mais do que o necessário. Nunca sonhara, e sempre que o fazia, se encontrava com ele.

    Desceu as escadas se encontrando na sala de estar, sozinha. Entrou na cozinha para vê-la também vazia. Saiu pela rua, deparando-se com a estrada de calçamento e respirando um ar fresco demais para ser o de sua cidade natal. 

    Outra diferença das minhas memórias, percebeu.

    Memórias.

    Sou uma memória, mas não sua, era o que sempre falava. Uma memória que não era dela. Mas então era de quem?

    Théo sugerira que essa memória seria a dádiva. Porém não fazia sentido a Julia. Ela escolhera um objeto e os objetos não deveriam ter memórias.

    E não tem, eles são memórias, ouviu o repentino ecoar em sua cabeça.

    Julia olhou ao redor, procurando a origem da voz. Sua mãe, seu professor, seu pai, sua avó paterna, seu avô materno. Esperou encontrar qualquer figura familiar que fosse. Mas não viu ninguém.

    — Onde você está? — gritou.

    Não há necessidade de exaltar-se. Posso ouvi-la muito bem.

    — Mesmo assim apareça — exigiu olhando para as esquinas e topos dos prédios.

    Como desejas.

    Julia sentiu uma brisa forte soprar contra seu corpo, forçando-a a fechar os olhos, cobrindo-os com os braços. De um instante para o outro a ventania cessou, e uma voz conhecida a fez estremecer.

    — Pode abrir os olhos agora.

    — Quem você virou?

    — Não lembra dessa voz?

    Claro que lembro.

    Ela abriu confirmando com os olhos o que os ouvidos suspeitavam. À sua frente, Memória tomou a forma daquele responsável por tudo àquilo.

    — Olá Julia — o rosto de Fernando sorriu enquanto Memória a saudava.

    — Quê… por quê? — deu vários pequenos passos para trás, tropeçando na calçada e quase caindo no chão.

    — Desejava me ver, não? — A voz que a muito tempo não ouvia parecia ressoar por ambos os ouvidos e mente.

    Por quê logo assim?

    — Prefere que eu use outra aparência? Talvez a daquele seu querido amigo que sempre e com tanto esforço tenta não pensar — Memória sorriu com seu sorriso jocoso com os dentes amarelos de Fernando.

    Julia dobrou os lábios franzindo o cenho. Há quanto tempo não pensava em Jonas?

    — Acho que prefere não — a memória juntou os braços atrás do corpo, em uma postura formal, e começou a caminhar, descrevendo um círculo em volta de Julia.

    Parou quando chegou na calçada e olhou para cima.

    — Sente? Parece que vai chover. Tem ocorrido bastante por aqui.

    Julia olhou para o céu, notando que o dourado já quase não podia ser visto, sendo coberto por um manto formado por nuvens de tempestade em um tom roxo escuro.

    Um som semelhante ao de milhares de folhas balançando na copa de uma grande árvore se alastrou desde o final da rua escura, enquanto o véu rosado se aproximava de forma rápida, alcançando-os em instantes.

    Julia teve vontade de correr para dentro de sua falsa casa para fugir daquela estranha chuva, porém a voz da memória trovoou em seus ouvidos.

    — Não! — Ouviu-o gritar. Não com a voz de Fernando, nem a de sua mãe ou de seu professor, mas outra.

    Uma que não se lembrava.

    — Não fuja. Sinta isso. Sinta-o fluir por seu corpo, deixe-se encher até que não haja nada vazio — continuou a dizer, olhando para cima enquanto os pingos avermelhados escorriam por seu rosto.

    Julia cobriu-se com os braços, sentindo o frio do vento repentino que soprava mais chuva contra seu rosto.

    Sentiu, mas nada de agradável percebeu naquilo.

    Os pingos pareciam agulhas em sua cabeça, que faziam coçar o cabelo molhado, que grudava em seu rosto, atrapalhando a vista. As roupas encharcadas pesaram em seu corpo. Lama enchera as sandálias, incomodando seus pés. Então o gosto de frutas vermelhas surgiu nos lábios.

    A leveza do morango, o doce da framboesa, então o azedo da acerola e o amargo da uva ressecada.

    Tão amargo que ela cuspiu, cobrindo a cabeça com os braços e protegendo-se do temporal, que logo cessou, de forma tão rápida e abrupta quanto veio.

    Julia abriu os olhos, sentindo-os arder.

    Não se lembrava de ocorrer-lhe algo semelhante em qualquer outro sonho. Apenas naqueles.

    Aquele que se passava por Fernando estava parado, com os braços erguidos aos céus numa posição de exaltação. Seu sorriso estava rubro e úmido pela chuva. Ele lambeu os próprios lábios, causando náuseas em Julia, e baixou os braços e a cabeça, olhando para ela.

    — Tal bebida nunca foi do meu gosto. Porém não é ruim — declarou ele.

    — O que foi isso. O que fez comigo dessa vez? — perguntou Julia em tom reprovador, tirando excesso daqueles líquidos do das roupas e do corpo.

    — Pare de me culpar por tudo — gritou a memória em tom amuado.

    Julia perturbou-se em como aquilo era extremamente parecido com como Fernando agia quando era atormentado pelos bagunceiros do fundo da sala. Então disse a si mesma que não era ele, mas sim um sonho seu. Um resquício de algo que lembrava.

    Uma memória.

    O rosto de Fernando relaxou.

    — Sim, eu sou. Agora me escute.

    Julia engoliu em seco, imaginando o que aquela coisa precisava lhe dizer.

    — O apóstolo começou a ensinar-lhes sobre este mundo. Isto é bom. É uma oportunidade.

    — Para quê? — interrompeu-o Julia, não conseguindo ter calma para ficar quieta.

    — Aprender, e descobrir.

    Julia franziu o cenho. Não era diferente do que Theo falava.

    — Aprender e descobrir — repetiu a memória, — sobre o que nós viemos procurar.

    Os olhos de Julia se abriram como nunca antes.

    — Mas, você sabe sobre elas, não sabe? Não pode me contar de uma vez onde estão.

    — Não.

    O céu tornou a ficar dourado, com as nuvens roxas se afastando mais e mais. A súbita luz incomodou sua vista, a forçando a cobrir os olhos com a mão.

    A voz de Fernando continuou.

    — O que eu sei depende do quanto sou capaz de lembrar — Explicou erguendo o dedo indicador e movendo de forma circular — E isso em si depende de você.

    Julia estreitou os olhos tentando entender.

    — Por quê você sempre fala tudo de forma tão complicada? — perguntou.

    — Por que é melhor que algumas coisas se entenda sozinho. Principalmente o que você deve entender agora.

    Julia ouviu, franzindo o cenho. Sentiu o suor escorrer pelo rosto enquanto sua pele queimava.

    As poças de água vermelha no chão, consequentes da chuva que caíra a pouco começaram a borbulhar, expelindo um vapor roxo que cobriu-lhe a visão.

    — Estude — A voz ecoou em meio ao véu púrpura. — Estude sobre os tesouros dos impérios que caíram e talvez encontre as chaves — Ouviu a voz de Fernando dizer antes de se ver completamente envolta pelo vapor quente que queimava a sua pele.

    Quente, e enervante.

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