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    O interior do castelo era quente, bem iluminado e seco. Bem diferente do dia frio e sombrio que se fazia ao lado de fora. Carmen podia apenas agradecer por não estar entre os camponeses trabalhando no campo. Detestava terra em suas mãos, chuva em seus cabelos e lama em seus pés, pois amava cada uma dessas partes.

    E, se estiverem todas bonitas, talvez ele também as amasse.

    Cadê ele?, perguntou-se.

    Percebeu o quão angustiante era procurar alguém em um lugar em que ela não deveria estar. E o interior do castelo de Wallis Freive era um grande lugar.

    Carmen devia estar ajudando junto a senhora Arianne, dando instruções para descarregar a carroça e cuidando em atender seus pedidos, tal qual madame Jackelin havia instruído. Para isso Carmen havia sido enviada e era o que deveria fazer. Porém, como Arianne ainda não havia pedido-lhe nada, ela ainda não tinha obrigação nenhuma.

    Era uma boa linha de pensamento, decidiu.

    Ouviu passos no corredor. Eram pesados, o que significava que era um soldado vindo. Carmen não se amedrontou.

    Trocou de mão a bandeja que pegara emprestada de uma serviçal que se distraiu com um rapaz de barba rala cheio de lama nas calças de pano cinzento, e continuou caminhando pelo corredor iluminado por tochas, se aproximando do soldado que vinha em sua direção.

    O homem passou por ela dando-lhe não mais do que uma bem discreta olhadela. Não no seu rosto, no entanto. Carmen ao mesmo tempo que sentiu um desgosto crescer em sua língua, arqueou os cantos dos lábios para cima.

    Se aquele ali me achou bonita, talvez Edu me ache também.

    Continuou andando, procurando, desistindo, retornando e se perdendo. Se perder onde não se devia estar não lhe era incomum. Caminhou por um corredor repleto de vitrais nas janelas de um lado e tochas e vasos pintados do outro.

    Bonitos, todos eles. Tudo ali era. Bem diferente do amontoado de madeira empilhada que era o forte no centro da vila que vivera nos últimos três meses.

    Aquilo era de fato um castelo dos contos.

    A luz parecia aumentar através dos vitrais. Não sabia quanto tempo tinha se passado, admirando e andando, nem para onde ia. Se perguntava para onde ir quando ouviu uma voz reclamando.

    Parou. Não entendeu o que dizia, mas percebeu seu tom irritado.

    Os passos se aproximaram, como também o som das reclamações e Carmen viu uma cabeleira loira familiar dobrando o corredor sem olhar para a direção contrária a sua.

    Então viu quem o seguia. O mesmo a quem ela procurava.

    Sentiu um palpitar no peito e apertou a bandeja de prata contra o corpo. Eduardo também não a viu, seguindo o loiro de perto. Carmen não conseguia lembrar seu nome, mas também não se importaria se ele a ensinasse. Se Eduardo não estivesse lá.

    Seguiu-os, mantendo os passos leves.

    Tinha adquirido uma preferência por andar sem fazer sons, e não queria que Eduardo desviasse dela, como tinha feito antes.

    O loiro caminhava, com passos apressados e palavras confusas. Eduardo parecia responder de tempos em tempos, quando ambos pararam em frente a uma porta, e lá entraram, fechando-a em seguida.

    Carmen, parada e escondida na virada do corredor pensava em segui-los pela porta, porém algo chamou sua atenção.

    Uma sensação subia por sua pele, arrepiando-lhe os pelos. A mesma que sentia quando estava perto de pessoas como o cavaleiro da vila e o velho Thierry, ou quando viu aquelas gemas coloridas, postas no vestido.

    Olhou ao redor, não notando nada.

    O formigamento aumentou e, de forma inconsciente, Carmen levou uma mão por baixo do vestido, sentindo o cabo da adaga que sempre carregava.

    Um tremor assombrou sua pele, desde os pés até o mais alto fio de seu cabelo. Carmen sentiu como se algo se movesse pelo corredor que ela espiava. Viu como uma ondulação no ar ante os seus olhos, causando-lhe um formigamento à medida que se aproximava e afastava.

    Carmen recostou-se, escondendo-se junto a quina que separava uma parede da outra, perguntando-se o que era aquilo.

    Parecia que o espaço estivesse se distorcendo levemente em um único lugar. De forma tão sútil que Carmen não teria notado nada de estranho, não fosse a sensação que a acometera.

    Seu corpo parou de formigar.

    Muito cuidadosamente, Carmen olhou por sobre a virada do corredor. Não viu nada além das elegantes mesinhas e jarros, e dos escudos presos à parede.

    Respirou, sentindo o ar liberto em seu pulmão.

    — Que porra! — suspirou baixo, olhando para os próprios pés. Não sentia bem o que os conectava ao restante de seu corpo.

    Não sabia mais o que fazer, ou para onde ir. Por um momento até esqueceu-se de porquê estava ali. Então olhou para a porta e lembrou.

    Porta essa que se abriu.

    A voz do loiro continuava a reclamar de coisas que Carmen não entendia até os olhos do loiro fixarem-se nela.

    Ele parou.

    — Eu te conheço — disse.

    — Carmen? — Eduardo se pôs ao lado dele, com uma expressão incrédula no rosto cansado.

    — O-oi — disse Carmen, ainda sem conseguir conter o tremor em seus membros. Olhou para o lado no corredor onde a ondulação desapareceu. — Sabem-me dizer se há fantasmas por aqui?

    — Como assim? — Eduardo dizia, mas foi interrompido.

    — De fato, creio já ter lhe visto na casa do apóstolo — comentou o loiro com um estalar de dedos. — Tu és a garota enviada no lugar de Nicolly, certo?

    Carmen ergueu uma sobrancelha.

    — Natallie?

    O loiro deu de ombros.

    — Não creio que seja esse o nome, mas devo agradecer a alguém. Uma garota desejosa é uma maravilha debaixo das cobertas, mas apenas lá.

    Uma lufada de ar escapou pelas narinas de Carmen. Não sabia se deveria sentir pena ou graça pela pobre Natallie delirando em sua mesa de costura por aquele nobrinho galanteador.

    Um nobrinho com olhos verdes muito belos, reparou.

    — Tá, deixem isso para lá — resmungou Eduardo. — Como você veio parar aqui?

    — Eu… eu me perdi — respondeu rapidamente Carmen.

    — E essa bandeja?

    — Há algo que impede uma garota de segurar uma bandeja? — retrucou, chacoalhando a bandeja com uma mão, enquanto erguia a outra num gesto questionador.

    O loiro riu.

    — Nada, de fato, exceto pelo detalhe que a maioria das garotas que conheci prontamente a soltavam quando eu pedia para segurarem outra coisa — comentou ele.

    Eduardo soltou um suspiro aborrecido.

    — Dá para parar com esses comentários de duplo sentido? — reclamou.

    — Perdoe-me, mas não creio que a dama tenha se incomodado.

    — Incomodou a mim — insistiu Eduardo.

    O sorriso do loiro abriu mais do que antes.

    — Não creio que ainda és como uma donzela casta, sem conhecer os prazeres de outro corpo, meu caro matador de ursos? — troçou ele.

    As sobrancelhas de Eduardo se franziram com rigidez, e os seus olhos rolaram.

    — Para de besteira, apenas não sou que nem você que fica com uma cada vilarejo que a gente vai.

    — Uma? Dessa forma tu me subestimas. E creio que não te vi com nenhuma.

    O rosto de Eduardo apertou-se mais.

    — Já tenho alguém, e não tenho necessidade de mais — ergueu a voz.

    Sua garganta tentou engolir algo, mas parecia seca demais. Ela pigarrou, atraindo a atenção dos dois que discutiam.

    — Meninos, foi mal o incômodo, mas podem me levar até onde a senhora Arianne está. Talvez tenha algo que ela queira que eu faça — pediu. As mãos juntas sobre a bandeja que ainda segurava.

    Não disse mais nada enquanto os dois a conduziam. Apenas sentia um resquício de tremor. Não sabia se era por conta da conversa, ou por conta do fantasma de antes.

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