Capítulo 49 - Preste atenção e talvez entenda.
“A bruma dança e o sol não se conhece.
A noite persiste e o dia não amanhece.
Talvez venha e um dia bom talvez traga.
Ou algo melhor, ou talvez o nada.
Nada pode ser bom se tudo for ruim.
Assim dizia o velho pastor.
De Vaarraiz a Mulím.
Cansado estava de pregar.
Ovelhas levava a algum lugar.
Cansado estava de andar
Ouviam sua voz sem escutar.
O dia não vem! O dia não vem!
Tolos que seguem o que convém.
A noite chegou, a noite foi embora.
Não entendem que chegou a hora?
Onde está ele? Devo cear?
Uma criança ali chora.
Ouvem sua voz? Belo luar!
Está ventando lá fora.
Mas é tarde. Onde iremos?
Deitar-nos pequenos.
Quem lá veremos?
Mulheres frias e homens serenos.
É cedo. Quem está?
Quem veio sem andar.
Veio a que, onde está?
Vim avisar. Pois não virá!
Não virá!
O amanhã não virá!”
— Que coisa mais triste — comentou Leticia após Theo terminar de recitar as estrofes.
— Tudo é triste para um poeta de Luzerna após ver a queda de sua cidade a distância, minha cara Letizia — comentou Thierry, voltando-se para Theo logo após. — Sua leitura foi perfeita como sempre, jovem Theo.
O garoto sorriu satisfeito, então limpou a garganta, que devia estar seca àquela altura. Uma dezena de livros contendo relatos e poemas foram lidos nos últimos dias, um a um. Julia dera a ideia de estudar a história dos antigos reinos, usando como desculpa o desejo de conhecer mais sobre a história do lugar em que estavam.
Uma meia verdade que não precisava contar, ela sabia. Ainda assim, a ideia de admitir que era a vontade da memória em sua mente não lhe agradava.
— Senhorita Julia, por favor leia a próxima — Thierry pediu e Julia obedeceu.
Leu o relato sobre uma batalha nos portões de Belgrámo. Um lugar a leste do mar de Irédio, o qual dividia o sul do continente, que era vasto ao norte, assemelhando-se à raiz de um dente molar, segundo os mapas nas prateleiras de Thierry.
O reino de Andrias, onde estavam, segundo os mapas, localizava-se ao extremo oeste do continente, acima da península onde estavam os principados Eldítas, que respondiam diretamente ao sagrado supremo Píer de Pérgamo.
E a norte de Andrias, estava o império Behemut, que controlava o noroeste do continente.
Informações demais para alguém memorizar rapidamente, era o que Julia pensava até que o fez. Lembrando-se dos nomes de todas as cidades espalhadas no reino de Andrias e pelos estados vizinhos, até os principados Eldítas.
Desde o porto de São Tarso, no extremo sul, até a Palma do Colosso, localizado na passagem entre os corredores rochosos. A maior fortaleza que separava Andrias do império Behemut, a norte.
Sua cabeça estava cheia, mas não exausta. Julia perguntava-se se era assim que Ítalo se sentia durante as maçantes aulas de geografia e história, a qual ele parecia prestar toda a atenção do mundo.
Sentia falta daqueles dias tediosos. Terminou de ler e esperou pelo que Thierry diria.
— Muito bem, apesar de arrastar a leitura, sua pronúncia nunca deixa a desejar — comentou ele. — Belgrámo fora a muito tempo uma importante cidade no império Sanída, extinto a mais de trezentos anos, devido a sucessivos séculos de guerras santas proclamadas pelos supremos píers Ludovo III e Gadáro, que desejavam pôr fim a sua expansão no mar de Irédeo e erradicar as práticas ritualísticas feitas pelos povos pagãos que lá viviam.
— Como assim, “práticas”, senhor Thierry? — Julia coçou a cabeça ao perguntar.
— Sacrifício humano, talvez — Leticia falou erguendo os ombros, como se num palpite. Seu rosto despreocupado empalideceu quando o velho homem confirmou com um aceno de cabeça.
— Tá brincando? — Theo engoliu em seco.
Thierry respirou pesadamente.
— Talvez em vosso mundo não ocorram tais coisas bárbaras, porém essa não é a verdade nesse. Deuses cruéis fizeram homens fiéis cometerem atrocidades, tanto para cumprir suas vontades, como para impedi-las.
Julia notou algo nos olhos do velho homem enquanto ele falava. Algo que parecia sempre estar alí, embora escondido.
— Acho que o nosso mundo não é lá muito diferente, porque, se não, não estaríamos aqui — retrucou Theo, coçando o pescoço.
— Os males são comuns em todos os mundos, então — murmurou Thierry de forma pesarosa.
De repente a única coisa ouvida no escritório de Thierry era o som dos dedos de Leticia batendo contra a madeira da mesa de estudos.
Batiam de forma que lembrava um compasso, embora quase aleatório.
Thierry tornou a falar:
— Após a queda do império, Pérgamo não conseguiu manter o controle do território, após a retirada dos exércitos cedidos pela irmandade de reinos e muitas das cidades que faziam parte do velho império proclamaram sua independência, com cônsules e governadores proclamando-se como reis, e lançando-se em novas guerras — O velho homem pausou sua fala, ouvindo o som que os lápis rudimentares faziam ao riscar os pergaminhos.
Julia e os outros escreviam suas palavras no dialeto andrio, tanto para memorizar, quanto para praticar a escrita. Thierry pigarreou e voltou a falar.
— Muitas dessas cidades preservaram o conhecimento do velho império, seus rituais e magias e misturaram a outros de outros povos anteriormente conquistados, quebrando tabus que os próprios Sanídidas repudiavam, e formaram novas formas de magia e bruxaria, obtendo poderes. Algumas se tornaram especialmente grandes pólos de feitiçaria, tal como Dargho Dracma e Rhastia. Outras cidades se desenvolveram através das trocas e do comércio, além do estudo e do conhecimento adquirido do fluxo de pessoas que nelas trafegavam. A mais conhecida delas é a milenar Aristólia. Embora independentes, as cidades restantes do antigo império formaram alianças entre si para resistir umas às outras, e a inimigos de outros reinos vizinhos.
— É muita coisa pra lembrar — reclamou Leticia, parando momentaneamente de escrever e olhando para Thierry.
— Por isso que vocês devem anotar — disse ele.
Julia riu brevemente ao ver a amiga revirar os olhos e voltar a rabiscar o papel.
— O poder dessas alianças permitiu que sua civilização crescesse e prosperasse pelo século que se seguiu, assim como a tornou capaz de defender-se do grande império ao norte. Behemut.
— Ah, Piercy me contou algo sobre esse império — sobressaltou-se Theo, erguendo o corpo para frente e apontando o indicador na direção de Thierry. — O avô dele lutou em uma guerra contra eles.
— Lutou e morreu — completou Thierry soturnamente. — Behemut é outro império pagão que cresceu no norte durante o mesmo período, mas falaremos deles outro dia. Por hoje basta.
Lenta e preguiçosamente, os três se levantaram das cadeiras, alongando-se após mais de uma hora sentados. Começaram a guardar os livros nas prateleiras, tentando adivinhar onde cada um estava. Thierry corrigia-os com paciência, apontando os locais certos.
Julia olhou pela janela, para o jardim próximo a amurada de pedra. A luz fria do céu nublado de outono não tinha esmorecido por completo.
— Senhorita Leticia, senhorita Julia, posso pedir um momento a mais de vosso tempo? — perguntou a voz gentil de Thierry.
— Pois não? — respondeu Julia. Leticia acenou levemente a cabeça, alongando os braços atrás do pescoço.
Não sendo incluído no assunto, Theo saiu do cômodo após uma rápida olhada para o velho homem.
— Peço para que me acompanhem até o vilarejo, pois tenho algo lá que desejo dar-lhes.
Julia virou a cabeça de lado. Leticia sorriu, cruzando os braços.
— Oh, e o que seria? — perguntou ela.
— Vestidos.
Eles partiram pouco depois, despedindo-se de Roque e Theo, que permaneceu junto a lareira, em seu exercício para controlar a chama que lá ondulava.
Caminharam pela estrada, vendo a ceifa que ocorria nos campos. Alguns homens limpavam áreas cobertas por ervas daninhas, preparando-as para o cultivo. Outros carregavam grandes sacos cheios com trigo para debulho. Julia se perguntava como Theo aguentara trabalhar ali por um mês e meio.
Julia e Leticia falaram de coisas que viam. Sobre o canto de um pássaro distante, sobre as flores que cresciam ao pé da estrada. Sobre como ventava. E sobre as coisas que se lembravam.
Do estressante trânsito que parecia se repetir todos os dias. Das manhãs chuvosas nos dias de aula, e como parecia não chover no sábado. De como sentiam falta de mudar os canais da televisão de forma quase aleatória.
Como haviam chegado naqueles assuntos, Julia não sabia.
Thierry nada falava, se distanciando cinco passos à frente delas. Acenando e cumprimentando. Parecendo gentil aos outros, e tão cansado para Julia quanto seus rosto a mostravam.
Não era assim, ela quis pensar, mas não pôde. Sempre fora assim, ela apenas não havia percebido. Quando percebeu? Por algum motivo olhou para seus pés, vendo neles seus sapatos se movendo enquanto caminhava.
Após algum tempo chegaram aos muros de madeira do vilarejo.
Julia reconheceu um dos guardas como sendo amigo de Eduardo. Um senhorzinho de cabelo grisalho e sorriso fácil. Recordava seu nome, porém não se atreveu a chamá-lo por ele e errar a pronúncia. Ele cumprimentou-os e os deixou entrar.
Thierry então se dirigiu ao último lugar em que Julia esperaria que ele a levasse. O ateliê em que Carmen trabalhara. Bateu algumas vezes na porta e esperou.
Foram recebidos por uma mulher de expressão dura e aparência refinada, embora estragada por uma grande verruga que ornamentava seu rosto.
— Saudações senhora Marjorie. Faz tempo que não a vejo — cumprimentou Thierry com um educado aceno de cabeça.
Os olhos da mulher se arregalaram e a expressão severa vacilou, moldando-se em um desesperado rosto surpreso.
— Meu se… sir… quero dizer… Senhor Thierry, não esperava vê-lo — titubeou ela. As mãos apertando-se.
Thierry levantou uma sobrancelha.
— Pensei que éramos esperados. Ontem mandei meu menino avisar madame Jackelin de minha vinda.
— Perdoe-me, talvez ela tenha sido avisada, porém estou à parte disso. Às vezes as meninas passam por mim e contam diretamente a madame — Sua voz de repente tornou-se menos nervosa e cada vez mais queixosa. Ela virou o pescoço, olhando para dentro do prédio — Francamente, terei de tratar com algumas pessoas por aqui e falar muito sobre tais coisas. Não me avisar de tal visita é um ultraje.
— Senhora?
A mulher virou-se de volta para Thierry.
— Podemos entrar? — perguntou ele.
— Oh, claro, como não.
Marjorie pareceu saltar para trás no mesmo instante, liberando a passagem.
Thierry foi a frente, sendo seguido por Julia e uma risonha Leticia, que pareceu se divertir com toda a situação. Julia percebeu que Marjorie aparentemente não às notou, até que passaram pela porta, parecendo genuinamente surpresa, interrogando Thierry pelo motivo da visita enquanto os seguia pelo ateliê.
Dezenas de garotas com idades próximas às delas ou pouco mais velhas trabalhavam com linhas e agulhas, costurando com movimentos rápidos e constantes.
Carmen era assim também quando trabalhava ali? Julia não pôde deixar de se pensar.
Perguntou-se se ela estaria bem. Pelo menos até lembrar do olhar que ela havia lhe dado quando partira. Um olhar de triunfo, que mesclou-se com outra dezena de olhares dados por ela, não a Julia, mas a Eduardo. A preocupação dissipou-se, dando lugar a algo que fazia a língua de Julia secar.
Chegaram em outra porta de madeira.
A mulher chamada Marjorie adiantou-se a Thierry e a abriu, avisando algo a quem estava do outro lado, e então deixou-os passar. Lá, Julia encontrou-se com uma mulher de cabelos de rosto sereno. Seus cabelos bem penteados em caracoles no topo da cabeça possuía uma tonalidade castanho e grisalho semelhante ao café misturando-se ao leite. Combinando bem com o vestido cor de bronze que usava.
Não os cumprimentou. Na realidade, sequer pareceu perceber suas presenças. Parecia absorta na peça de roupa incompleta à sua frente, encarando-a com uma de suas delicadas mãos apoiando o queixo.
— Madame Jackelin, vim em uma hora indesejada? — Thierry perguntou.
— Tu nunca és indesejado, Thierry, meu caro. Apenas estou em meio a algo — respondeu Jackelin sem tirar os olhos da peça de vestido.
Era uma roupa longa, de modo que talvez a bainha e mangas se arrastassem no chão ao caminhar. Parecia ter duas camadas de tecido. Uma em volta do busto, ombros e cintura da mulher e outra por baixo dessa, cobrindo todo o corpo. Era branco como algodão na primeira, e azul como o mar aberto na segunda.
Um vestido estranho e bonito, pensou Julia.
— É belo — declarou Thierry em voz alta, se pondo ao lado da mulher. Ele voltou os braços para trás, unindo as mãos nas costas.
— Disso sei. Pergunto-me se o bom Paul achará também.
Thierry olhou para a mulher.
— É para ele o vestido? — questionou.
— Para sua esposa. Mas para quê as mulheres usam vestidos e roupas, se não para mostrá-las aos homens? — argumentou Jackelin.
— É uma boa linha de pensamento — admitiu Thierry, voltando a olhar para a roupa incompleta. Julia percebeu que algo em seu tom de voz tinha mudado.
— Muito embora — continuou Jackelin —, o que os homens realmente desejam é ver-nos sem elas.
Thierry pigarreou e virou-se para Julia e Leticia.
— Trouxe as meninas para tirar as medidas — Sua voz oscilou levemente, como se acabasse de ter uma crise de tosse.
Finalmente madame Jackelin deu-lhes alguma atenção.
— Ah, vejo que me fostes mesquinho — declarou ela, com uma performática voz insultada.
— Perdoe-me? — disse Thierry.
— Tendo tão belas moças contigo, mandaste àquela menina mal formada.
— Pensei que a pequena Carmen tivesse se provado útil em seu ateliê — apontou Thierry.
— Ela fora, ocorre que apenas não era uma companhia muito agradável — Madame Jackelin atravessou a sala com passos serenos até um dos armários e então retornou com uma fita branca com marcações em símbolos numéricos que Júlia vira nas aulas com Thierry.
— A Carmen realmente é uma peste chata de vez em quando — comentou Leticia.
Julia sorriu, concordando.
Sem dizer nada ou dar-lhes qualquer instrução, a mulher passou a fita pelo corpo de Leticia, primeiramente. Apertando-a na cintura, medindo as pernas, os ombros e então o busto. Então fez o mesmo com Julia.
Não pareceu durar mais do que alguns minutos. Madame Jackelin murmurou alguns números enquanto o fazia. Julia sentiu certa vergonha ao ouvir as próprias medidas.
— Devo admitir que não esperava fazer outro desses tão cedo. É um milagre que Diane ainda tenha pedras para nos ceder — comentou Jackelin, guardando a fita de volta no armário e indo até a mesa, onde tomou um caderninho, o qual começou a rabiscar.
— Eu me certifiquei que ela tivesse antes de lhe pedir para fazê-los — explicou Thierry.
Julia franziu as sobrancelhas.
— Como assim “pedras”? — perguntou.
Madame Jackelin encarou-a com seus serenos olhos avelã.
— Elas não sabem o que vão receber? — perguntou, olhando para Thierry, que negou.
— Prefiro que seja uma surpresa até chegar a hora — alegou ele.
A madame fez uma expressão confusa, então continuou anotando as medidas no caderno.
— Mas se sabemos que vão ser vestidos, qual é a surpresa? — perguntou Leticia.
Jackelin riu.
— Vocês descobrirão, ah se descobrirão. Apenas garanto a Thierry que o vosso vestido não terá a mesma finalidade do que o bom sir Alóis encomendou para a princesa.
Julia olhou para Leticia, que parecia compartilhar de sua confusão.
Madame Jackelin tocou uma sineta e a porta atrás delas se abriu no mesmo instante.
— Chamou, madame? — Marjorie perguntou.
— Mande Natallie trazer algumas amostras de tecido.
Pouco mais do que alguns minutos depois, uma garota que Julia conhecia apareceu no cômodo. A vira cantando no coral durante a missa a Ellday. Além de tê-la encontrado em uma ocasião pouco apropriada. Carregava pedaços de tecido em ambas as mãos e os depositou enfileirados na mesa do estúdio, afastando-se esperando em pé junto à parede.
Jackelin passou boa parte do tempo olhando para os tecidos e então para as garotas.
Julia percebeu Natallie olhando para ela da mesma forma. De uma forma que não sabia explicar, percebeu que algo na garota estava diferente.
— Creio que isso basta para as medidas, certo? Então vou indo — comentou Thierry, de forma mais rígida do que antes.
— Ah, sim, de fato. Venha me visitar outras vezes, meu caro Thierry — pediu ela, despedindo-os.
Surpresa, hein?, pensou Julia ao sair do ateliê.
Não achou ruim. Surpresas era o que fazia seus antigos dias monótonos serem tão reconfortantes.
Pelo menos as boas.

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