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    Pamela abriu seus olhos na escuridão abafada e quente da cela arenosa. Um cubículo com não mais de três metros de largura e comprimento com paredes de pedra e um portão de barras de ferro cobertas por terra calcificada.

    Havia sido posta ali, após adentrar uma grande e ao mesmo tempo claustrofóbica caverna do tamanho de um quarteirão repleta de arcos, corredores, alçapões e rampas que levavam mais ao fundo daquele mundo sem luz.

    Não teve tempo para ver quão grande era, sendo posta naquele lugar que mais parecia um canil.

    De frente para ela estava outra cela tão pequena quanto, o qual só conseguia ver quando um guarda passava em ronda, segurando uma tocha na mão. Não que gostasse de ver o homem barrigudo e careca que estava do outro lado. Embora fosse dele a única voz que ela ouvia em muito tempo, mesmo que apenas tossisse todo o tempo.

    Não via Marcelo, embora ele tivesse prosseguido pelo corredor quando ela fora presa, talvez tendo sido colocado em outra cela. Ou talvez não. Pamela já não sabia. Já não pensava. Não parecia ter nada de bom a se pensar. Todos os pensamentos lhe traziam lembranças, e todas as lembranças lhe causavam arrependimentos.

    Uma palavra em que acreditara, uma promessa que rompera. Um homem em que confiara, uma pessoa que perdera. Alguém que desejara encontrar.

    E em tudo isso falhara.

    Tanto no que prometera, quanto no que confiara. Como também com a pessoa que não pudera encontrar.

    Como falhara ali.

    Perdera Daisy, confiara em Tyler e prometera a si mesma retornar ao seu mundo para encontrar Ângela.

    Falhara nisso tudo também. E o que mais desejava encontrar agora era o tiro que pôs fim em sua outra vida, mas teimava em não pôr fim a essa.

    Ouviu um ranger de ferro que puxou parte de sua escassa atenção. Olhou para cima enquanto o som de passos se aproximavam, esperando ver qualquer luz que o guarda que trazia as refeições carregasse.

    Não viu luz ou mesmo um guarda, mas sim uma sinuosa silhueta, pequena demais para ser um homem, encarando sua cela em meio a escuridão.

    — É você a prisioneira do senhor Saadi, certo? — Uma delicada voz perguntou.

    Pamela não respondeu. Demorou algum tempo até entender que falava com ela. Nenhum guarda lhe dirigira a palavra até aquele momento. Às vezes duvidava que pudessem falar.

    — “Quarta cela à direita após adentrar o portão”, foi o que me instruíram, então deve ser você — continuou ela.

    Pamela abriu a boca para responder, mas tossiu quando o esforço pareceu rasgar sua garganta, em algum lugar naquela sequidão que era sua boca, conseguiu vibrar sua voz para responder.

    — Sou… eu — crocitou em meio a tosse.

    — Ah, ainda bem. Aqui — a fina silhueta deslizou algo que fez um som terroso ao raspar o chão. — Alguém virá daqui a não muito tempo para recolher a bandeja — avisou a voz macia.

    Pamela olhou para aquilo. A massa de vegetais secos numa bandeja de pedra, servida para ela de horas em horas, uma vez mais do que os outros prisioneiros. Não encostou nela, ainda que sua barriga se apertasse, desejoso por algo que a preenchesse. Os vegetais tinham um gosto ácido e amargo e causavam-lhe uma sensação tal como espinhos perfurando o seu estômago.

    Após um tempo longo e indeterminado em meio a escuridão e ao som de tosse e fungados, a porta se abriu novamente. Passos pesados ecoaram pelo corredor, aproximando-se com o iluminar de uma tocha queimando.

    Pamela levantou a cabeça para a escassa luz, sem se importar com a dor em seus olhos já acostumados com o breu, ou com a face carrancuda do guarda que observava com olhos e boca espremidos a bandeja ainda cheia de vegetais do outro lado das grades. Ele tirou mais vegetais do grande saco que carregava apoiado no ombro e então o comeu, após um momento de aparente contemplação, deixando a bandeja de vegetais mais antigos tão intocada quanto Pamela a deixou. Então seguiu caminhando pelas celas, distribuindo a refeição do dia, até sair com passos pesados e apressados, retornando todo aquele lugar ao silêncio.

    E assim foi até a porta abrir mais uma vez. O escuro permaneceu, assim como o silêncio, e pouco tempo depois, Pamela escutou uma voz através das barras.

    — Não comeste? Mas por quê? — perguntou a garota com seu delicado timbre.

    Pamela não respondeu. Esperou que a garota fosse embora. Que o silêncio voltasse. Ouviu o raspar da bandeja sendo retirada e reposta.

    — O gosto realmente é um tanto forte. Lembro da primeira vez que provei. Mal consegui mastigá-los. Porém, se comer deles, não terá necessidade de beber água. Vou entregá-lo ao outro prisioneiro do senhor Saadi. Vejo-te amanhã — despediu-se a silhueta, antes de afastar-se das barras.

    Pamela olhou para baixo, no canto onde a bandeja de vegetais devia estar e tornou a se recostar na parede, fechando os olhos.

    Assim ficou por um tempo na esperança de adormecer, por tanto tempo e de tal modo, que seus olhos começaram a doer devido ao tempo forçando-os a permanecer fechados, e metade de seu corpo começou a ficar dormente, forçando-a a se virar em meio a sujeira da cela.

    Ouviu o guarda com passos pesados entrar enquanto estava deitada, mas não abriu os olhos. Cobriu os olhos com as mãos para protegê-los da luz e permaneceu deitada na escuridão, até que ele fosse embora.

    Tentava dormir. Dormir e talvez sonhar.

    Se sonhasse, poderia se ver longe daquele lugar. Poderia ver as luzes do Central Park no natal. As telas da Times Square no ano novo, contando os segundos para um beijo que marcava um novo começo. A porta de seu apartamento, que cheirava a pinho. O rosto de Ângela perguntando porquê parecia tão feliz pela manhã. O olhar julgador e esperto já adivinhando o que poderia ser.

    Poderia voltar para aquele dia. Para aquele amanhecer em que vira o sol do ano novo nascer de uma ponte de pedra. O momento onde tudo era perfeito. Então a porta abriu mais uma vez.

    Sabia que era a garota.

    Uma parte de Pamela animou-se, desejando ouvir sua voz macia novamente. Mas outra parte apenas desejou que ela fosse embora de uma vez. A ignoraria, tal como ignorara o guarda.

    Continuou com os olhos fechados. Mesmo assim conseguiu sentir uma luz através das pálpebras. As abriu, confusa, e viu junto a luz da tocha um rosto com bochechas cevadas embora não gordas, nariz com uma pequena ondulação em seu dorso, e cemicerrados olhos dourados como o mel. Seu cabelo preso formava uma coroa castanho claro em volta de sua cabeça, como a auréola de um anjo. Usava uma roupa simples, estando coberta dos ombros para baixo com uma manta cinzenta.

    Era jovem, tão jovem.

    Da mesma idade da Ângela.

    — Não comeu hoje também? — observou ela, notando a bandeja com vegetais. — Por Ash’hurr, está em jejum voluntário ou algo assim. — bronqueou em sua voz delicada e macia.

    Seu rosto tremia, como se ela fizesse um esforço que Pâmela não percebia. A garota agachou-se e tirou a bandeja por entre as grades.

    — Talvez só não possa comer nada sólido, então darei-te isso. Não deixe que o outro guarda encontre — Tirou algo de dentro da manta que a cobria, um pequeno vasilhame em forma de amendoim, e o pôs na bandeja, passando-a de volta pelas grades. — Tome e viva, devo ir até seu irmão cativo — declarou a garota, antes de voltar a andar.

    Pâmela encarou o estranho objeto, até que a luz das tochas se afastasse demais para conseguir enxergá-lo.

    Tome e viva.

    Por quê ela desejaria viver mais ali?

    Suas mãos se estenderam, enquanto seu corpo se inclinava debilmente para a frente. Sentiu o vasilhame, notando que ele estava pesado. Quando o trouxe para junto de seu corpo, percebeu que seu conteúdo era líquido.

    Destampou a pequena tampa de argila que parecia presa com a quantidade certa de pressão para que não quebrasse, e sentiu o cheiro.

    Nenhum.

    Seus lábios secos tremeram, assim como suas mãos. Então ela verteu a pequena boca do vasilhame na sua, sentindo no líquido morno o frescor que nenhum copo de água gelada jamais lhe dera.

    Bebeu até seu estômago pesar, com tamanha vontade que um pouco vazava para fora de sua boca, molhando suas mãos e corpo. Parou quando já não mais aguentava engolir, notando que ainda restava quase metade de água no vasilhame.

    Uma lufada de ar escapou por sua boca, e Pamela se recostou na parede às suas costas, com uma leveza que não sentia fazia tempo. 

    Esfregou os dedos uns nos outros, extasiada por senti-los molhados. Então percebeu uma luz ressurgindo no corredor acompanhada de uma sombra feminina se movendo lentamente.

    A garota ressurgira, dando-lhe um olhar satisfeito ao vê-la com o vasilhame. Pâmela olhou para o objeto e fez como se fosse entregá-lo.

    — Pode ficar. Quando vier amanhã, trarei mais disso, se aínda não estiver conseguindo comer.

    Pâmela sentiu os ombros amolecerem.

    — Obrigada — disse, com um sabor estranho na boca enquanto sua língua se mexia para proferir a palavra.

    A garota acenou, parecendo satisfeita.

    — Sou Pâmela, qual… o seu nome? — esforçou-se em perguntar.

    — Aahliya — respondeu e então partiu, levando a tocha com sigo.

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