Capítulo 52 - Isso me faz pensar.
Ítalo olhou para o azul depois de tanto tempo, vendo uma única e fina nuvem cinzenta planar, se desfazendo no quase infinito azul. Abaixo, uma planície vermelha se estendia além do alto mirante, sendo cortada por um fio azul de água corrente que despencava a centenas de metros pelo mirante.
Acima, Nefetys, a anciã que lhes ajudara na audiência com o líder daquela vila, permanecia em silêncio olhando Zaya secar as lágrimas e conter o soluço. Ítalo tentara lhe prestar algum auxílio emocional que fosse, que aparentemente ela recusara, não lhe dando qualquer atenção.
Recusa que ele recebeu como sempre fazia, afastando-se dela um passo.
Algumas mulheres apareceram e levaram-na para longe. Zaya não resistiu, deixando-se ser conduzida para mais perto do rio.
Ítalo observou até as mulheres a despirem e começarem a banhá-la, virando o rosto e permanecendo parado ao lado de Daisy e Poo. Sentiu o vento morno bater em seu rosto, e distraiu-se com a paisagem que fez a garota do deserto despencar ante lágrimas.
Emanell, guarda que os buscara, permaneceu de lado, a distância de talvez quatro passos de seu grupo. Vigiando-os, cria Ítalo.
Não sabia o motivo pelo que foram levados ali, por isso não sabia o que fazer. Daisy tão pouco falava qualquer coisa, deixando o som do vento e da água caindo no solo abaixo preencher o silêncio.
Aproximou-se do abismo, sentindo a emoção que acreditou ser comum a quem se vê em um lugar alto. Engolindo em seco a o ver a água virar uma névoa branca enquanto caía tão baixo. Ao olhar para os lados, ele podia ver o brilho resplandecente de outras cachoeiras, caindo em direção ao “mar vermelho”, como chamou a velha anciã.
Já ouvira esse nome de Zaya, assim como alguns outros.
“Mar vermelho” e “mar dourado” eram os dois desertos que cercavam a passagem de pedra. Tão imensamente grandes que, ao menos para Zaya, atravessá-los era inimaginável. E, olhando o segundo por si mesmo, parecia entender essa crença.
Diferentemente do seu vizinho, aquele deserto não tinha dunas de areia se estendendo para além do horizonte. Mas sim um solo que parecia seco e plano. Tanto que Ítalo se perguntava a respeito dos fenômenos naturais que deram origem àquela extensão vermelha.
Mar vermelho e mar dourado. Não sabia porquê, mas o segundo nome lhe dava uma familiaridade estranha.
Estrela, deserto, atravesse.
As palavras lhe vieram à mente, trazendo consigo memórias que não desejava. Rachaduras e asas. Gritos e garras. Vislumbres eram tudo que teve. E eram mais do que desejava ter.
Uma mão lhe tocou no ombro.
Olhou e viu Daisy. A menina deu-lhe um olhar indecifrável. Não percebeu nela preocupação, ou qualquer outra emoção, apenas uma voz monótona avisar-lhe:
— Está suando.
Ítalo deixou uma quantidade de ar que parecia não caber em seus pulmões escapar em um suspiro e limpou a testa com as mangas da túnica que usava. Abriu a boca para falar, mas parecia não ter palavras para dizer.
Uma outra voz, também feminina, porém mais madura, tirou-lhe a necessidade de responder.
— “Os fiéis se derramaram no cálice, e Ash’hurr o tomou em suas mãos, vertendo-o sobre a nascente do sol o sangue de todos os dez. A mancha vermelha se espalhou pela areia, e o que antes era dourado tornou-se carmesim. E o que antes era a morte, se fez esperança. Dada a nós pelo sacrifício dos fiéis”. Foram essas as palavras que minha mãe contou ao ensinar-me sobre os dias de Eresh.
Ítalo não respondeu, nem Daisy ou Poo. Todos pareciam esperar para saber o que Nefetys falaria. Uma espera temerosa.
— São belas palavras — comentou finalmente Daisy, com sua calma voz.
— A beleza não está nas palavras por si mesmas, mas no significado que elas têm. Tudo sempre significa algo mais — A anciã retrucou.
— Então qual o significado delas?
— “Esperança trazida da morte” — cantarolou, mexendo os lábios como se saboreasse as palavras em sua boca. — É isso o que esse mar vermelho significa — A anciã virou o rosto em direção a Ítalo. Os olhos verdes refletindo a claridade distante do sol.
Ítalo piscou, engolindo em seco e quase dando um passo para trás ante os olhos que pareciam julgá-lo. Tal como sua madrasta fazia.
Uma mistura estranha pareceu borbulhar em seu estômago, subindo até o peito, e ele sentiu-se na necessidade de falar qualquer coisa. Então abriu a boca.
— Por quê… a senhora, bem… por quê nos trouxe aqui? — perguntou ele, tentando coordenar a língua e os lábios para formar cada palavra. As unhas já grandes demais, e meio tortas, aliviando uma coceira repentina no rosto.
A anciã suspirou e tornou a olhar o distante horizonte.
— Não fui quem os trouxe aqui, certo? — declarou.
Ítalo sentiu a garganta seca contraindo-se para engolir o ar que havia em sua boca. Olhou para Daisy, que permanecia calma demais, como sempre.
— Porém, foi a senhora que nos permitiu vir — disse a garota.
— O que… querem dizer com isso? — perguntou-se Ítalo, movendo a boca e transpondo o pensamento em palavras, sem perceber.
A anciã virou-se para ele mais uma vez. Os olhos verdes o encarando.
— Como podes tão pouco saber da própria existência? — perguntou ela.
— Os bebês não sabem, e a maioria dos homens crescidos pouco pensam nisso, não? — tagarelou Daisy, parecendo se divertir com sua própria frase.
— Já pedi várias vezes para que parasse de falar por enigmas — zangou-se Ítalo com Daisy, arregalando os olhos quando a grande sombra parada ao lado dela virou em sua direção.
Por um momento, ele esquecera que Poo também estava ali.
Daisy voltou a se dirigir a Nefethys, ignorando-o.
— E tu, senhora, como parece saber tanto?
Dessa vez, fora Emanell a se mexer, movendo a cabeça e o corpo com certo descontentamento. Os lábios se dobrando.
A anciã sorriu, acenando para ele. Então o olhou.
— Perdoe-na, ela não sabe que ninguém além de meu Vento forte se refere a mim como “tu”. E só o faz quando está perturbado acerca de algo. — Virou o pescoço mais uma vez para Daisy — Agora, sobre tua pergunta, devo responder que na realidade não sei.
Ítalo franziu as sobrancelhas.
— Não sabe como sabe? — questionou lentamente, tentando encontrar alguma lógica.
— Eu simplesmente não sei, e isso me perturba. — declarou ela, suspirando. — Muito meditei sobre tal assunto, mas as respostas não me vem, muito pouco vem. E muito pouco entendo o motivo.
— “Meditar”, a senhora diz — refletiu Daisy.
A anciã a encarou, como se esperasse para ouvir o que ela iria dizer.
— O que a senhora esperava ver ao meditar? — perguntou Daisy.
Ítalo franziu o cenho, porém entendeu.
— Respostas obviamente. Tal como você parece ver, pequena garota — afirmou Nefetys em um tom taciturno.
Emanell se inquietou mais uma vez.
— Perdão, senhora, mas o queres dizer com isso? — perguntou ele em um tom reverente.
— Também desejo descobrir, meu querido Emanell. Por isso, preste atenção e concentre-se em ouvir até eu o permitir falar — disse Nefethys, não sem um toque de gentileza.
O jovem guarda acenou com a cabeça e voltou a sua postura nobre.
Ítalo alternou o olhar entre os dois até perceber que Nefetyso encarava. Ele abriu a boca para falar, mas a fechou sem formar palavras, lambendo os lábios.
— Deixe-o em paz. Ele sabe menos do que a senhora — disse Daisy, atraindo para si a atenção mais uma vez.
— E o que tu sabes, pequena?
— Sei o que disse ao vosso Vento forte. Sei que a garota tem muito a dizer, e também que vocês muito têm a ouvir — Daisy olhou lentamente para onde Zaya era banhada pelas outras mulheres.
— No entanto, meu Vento forte disse que ela nada dirá — retorquiu a anciã.
— E o que a senhora sabe disso? — Daisy piscou lentamente os olhos, sorrindo de forma convencida.
Ítalo se impressionava com a quantidade de sorrisos e expressões feitos por aquela menina.
Aguardaram por um tempo a voz de alguém responder a pergunta, até que uma lufada de vento soprou, balançando cabelo e capas.
— Nada — Daisy respondeu por si mesma.
O silêncio da anciã perdurou. Os olhos verdes estreitando.
— A senhora teme o que não entende, pois isso significa algo mais. “Tudo sempre significa algo mais”.
A anciã piscou.
— E o que significa? — perguntou ela.
— E por quê devo dizer?
Emanell moveu-se mais uma vez, assim como Poo, os dois se encararam. Ítalo sentiu o nó de sua garganta estreitando mais e mais.
Não sou obrigada a dizer, Daisy havia dito na noite após o ataque à caravana. Ítalo preferia que ela não levasse essa afirmação tão a sério como estava fazendo, principalmente naquela situação. Aquela mulher parecia saber sobre ela, sobre eles. Sobre Ele.
De repente uma pergunta lhe veio à mente.
— Como a senhora sabe que não somos daqui? — perguntou ele dessa vez, sem pensar muito. Percebendo que sua voz havia saído da boca apenas depois de fechá-la.
Os olhos verdes o encararam.
— É simples saber disso, como já afirmei — olhou rapidamente para o rio, onde Zaya era conduzida para outro lugar pelas mulheres após ser banhada.
Italo engoliu um pouco de saliva antes de retomar o questionamento.
— Não me refiro a isso — afirmou, tentando por em palavras o restante da frase.
Nefetys abriu um pouco mais os olhos, e então retirou a necessidade dele continuar.
— Então estou certa quanto ao que penso? — encarou-o com expectativa.
Ítalo olhou rapidamente para o lado, para o nada, e depois para Dayse, antes de voltar a olhar Nefetys, sem saber o que dizer.
— O que a senhora pensa não vem ao caso. Nem de onde viemos, mas para onde todos vamos é 9 que importa, não? — disse Daisy chamando novamente a atenção para si. — Para a vila de Baaz.
A anciã riu.
— Ir até Baaz? Por acaso sabes algo sobre as vilas, seus hóspedes e residentes? Por acaso sabe algo sobre as tempestades de Eresh, ou sobre o fato de que pouco tempo temos até elas? O que a faz pensar que isso é plausível?
— Porquê estamos aqui e não numa tumba. Porquê a senhora via e agora não pode mais ver. Não sabe, mas deseja saber. E o pouco que viu e soube a fez nos trazer aqui, não estou certa?
O olhar verde da anciã tremeu por um momento.
— Vistes também? — perguntou ela, temerosa.
— Oh, a senhora não sabe o quanto vi — Daisy não mostrou nenhum sorriso, apenas estreitou os olhos balançando a cabeça lentamente. — Por isso digo, se queres tanto saber: pode se entrincheirar aqui e esperar pelo dia da ira que tanto teme, ou podes ir conosco e impedir o que viu.
Nefetys apertou os lábios e fechou os olhos por um momento, abrindo-os novamente logo depois.
— E a garota nos levará até lá? — perguntou.
Daisy sorriu.
— Eu vi.

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