Capítulo V - Emboscada
O som das ondas que colidiam com os navios ancorados nas docas, misturava-se às vozes abafadas e apressadas das pessoas. Alguns marinheiros gesticulavam nervosamente, enquanto outros apenas observavam em silêncio. A multidão se apertava, mas abria espaço conforme os homens que arrastavam algo subiam pelas pedras molhadas da encosta.
Era um cadáver de um rapaz jovem, e um enorme buraco atravessava seu torso de lado a lado, com bordas negras e retorcidas como se tivesse sido queimado por dentro. Não havia sangue. O corpo estava ressecado, pálido, quase mumificado. Como se toda a vida tivesse sido drenada até a última gota.
Senti um frio repentino subir pela espinha.
— O cocheiro… — murmurou Lefkó sob meu casaco, a voz quase imperceptível.
Sim. Era ele. Agora, estava ali, jogado como um saco de pano velho, com os olhos vítreos fitando o nada. Fiquei atônito, perdido nos meus pensamentos e teorias sobre o que havia acontecido. Continuei imerso em minha mente até ser interrompido pela chegada de guardas, que começaram a afastar a multidão.
— Ninguém toca no corpo! Recuem! — gritou um deles, de armadura de couro azul-marinho.
— Thomas, vamos sair daqui antes que chamemos a atenção — aconselhou Lefkó, a voz um tanto quanto preocupada.
Me esgueirei para fora, e me afastei para longe. Até chegar em uma área mais vazia do porto. Sentei-me num banco de madeira gasta diante de um depósito trancado, coloquei os cotovelos sobre os joelhos e apoiei o queixo nas mãos.
Lefkó deslizou pelo meu pescoço e apoiou a cabeça ao lado do meu rosto, me fitando com os olhos finos e dourados.
— Qual a teoria? — perguntou ela, em tom direto.
— Tenho duas. — Suspirei. — Alguém sabe sobre nós e tentou extrair informações do cocheiro. Ou tudo isso não passa de uma coincidência.
— Não existem coincidências — afirmou em tom sério.
— É isso que me preocupa. Eles já sabem de nós.
— Mal chegamos e já fomos descobertos? Você acha mesmo isso?
Fiquei em silêncio. A dúvida era cruel, mas necessária.
— Descobertos, talvez não. Mas notados, com certeza. — Deixei uma gargalhada escapar, afinal eu havia chamado muita atenção, tanto no mercado quanto na livraria. — Felizmente, eles não têm nenhuma noção sobre nossa verdadeira missão. Acreditam que somos forasteiros ricos, excêntricos. Talvez mercadores ou nobres em viagem.
— Quais os próximos passos? Sei que você já os tem.
— Organizar nossa rede de espionagem, já íamos fazer isso de qualquer jeito.
Levantei-me do banco, coloquei a mão no bolso e removi uma carta do meu baralho. A ilustração na carta era uma das minhas favoritas, um soldado novato, que carregava sua baioneta, ainda com um sorriso no rosto, enquanto caminhava para a morte iminente nas trincheiras.
— O louco! — proferi em voz alta para ativar o efeito da carta.
Uma névoa negra saiu da minha boca no mesmo instante, e segundos depois, uma densa neblina cobriu toda a doca. Tudo foi consumido pela neblina, se impossibilitou enxergar um palmo na sua frente.
Não demorou muito para que uma silhueta se destacasse na névoa. Era um homem alto, magro e pálido, não possuía rosto, usava o mesmo uniforme que eu, casaco negro e coturnos militares.
— Quais são suas ordens? — questionou, em um tom robótico.
— Vigie o porto. Tem carta-branca para agir como quiser — respondi. Com um simples movimento de mãos, ordenei que a névoa começasse a se dissipar.
— Como desejar… — A silhueta esmaeceu até se tornar apenas uma sombra no chão, e então desapareceu junto da névoa negra.
Guardei a carta de volta no baralho e comecei a seguir meu caminho, afastando-me dali rumo aos subúrbios da cidade. Conforme caminhava, senti Lefkó se agitar sob meu casaco.
— Você deu carta-branca ao “Mestre das Marionetes”? — perguntou ela, desconfiada dos meus métodos.
— Sim. Pouco importa se for notado. Tenho certeza de que será confundido com alguma assombração vulgar. — Ergui os braços em um gesto despreocupado. — E se tentarem fazer um exorcismo, irão falhar.
— Terminamos aqui? — Ela se enroscou novamente, e repousou. — Vamos procurar um lugar para pernoitar?
— Ainda não, existem outros olhos úteis para nós.
Adentrei um beco estreito — um atalho entre a parte baixa do porto e os bairros elevados da cidade. Como eu suspeitava, a presença que me seguia desde a livraria tornou-se mais evidente.
— Quem é você? — perguntei, sem me virar, ao alcançar a metade do beco.
— Caramba, achei que alguém sem Qi seria incapaz de notar minha presença — disse uma voz jovem, masculina, vinda da entrada do beco.
Virei-me devagar e sorri. Era um rapaz no fim da adolescência, vestido com uma túnica branca. Apesar da distância, podia notar seus olhos castanhos gentis, ele não parecia demonstrar perigo ou ameaça.
— Eu tenho meus próprios truques. Quem te enviou? — indaguei, direto.
— Ninguém.
— Então é tolo por conta própria. O que viu? — Cruzei os braços e soltei um suspiro cansado.
— Você tem uma cobra falante. Só isso já diz muita coisa. — Ele deu um passo à frente, cauteloso, e mantinha distância suficiente para reagir a qualquer investida minha.
— Foi o dono da livraria, não foi? — Já tinha minhas próprias suspeitas sobre aquele homem gentil que provavelmente escondia intenções ocultas.
— Jiahao não tem nada a ver com isso — respondeu rápido, sem pensar.
— Então o conhece. Ótimo. Já disse tudo que eu precisava saber. — Dei-me por satisfeito e me virei para ir embora.
— Quais são suas intenções com a Mei? — Ele aproximou-se um pouco mais.
— Eu não sei de quem você está falando.
— Como assim quem? — Ele se ofendeu com a minha ignorância. — Você está zombando de mim?
— Sou ruim com nomes e rostos. — Balancei a cabeça e inventei uma desculpa qualquer.
— Estou falando da Mei! A garota mais bela de toda essa cidade!
— O amor é mesmo cego. Se ela é a mais bonita, nem quero imaginar as feias.
— O que está insinuando?
— Muitas coisas podem ser ditas, mas nem todas podem ser faladas. Entende? — Pisquei o olho para ele.
— Não zombe de mim!
— Não preciso. Você faz isso sozinho. — Decidi parar aquela conversa fiada que não me levaria a lugar nenhum, então me virei para continuar meu caminho.
Três rapazes estavam sentados na ponta do beco. Diferente do jovem na minha frente, eles pareciam ser maus elementos. Estavam com o rosto fechado, e me encaravam com uma seriedade um tanto diferente.
— São seus amigos? — questionei para o jovem.
— Nunca me juntaria com alguém da laia deles.
— Então você os conhece.
— São da gangue do Hai Zi, são criadores de problema por natureza.
Antes que eu pudesse responder, outros dois surgiram na entrada oposta do beco. Estávamos cercados.
Notei a movimentação e, em segundos, todas as peças se encaixaram. Me preparei para o próximo passo.
— Lefkó, vou fazer uma aposta — murmurei.
— Não gosto quando você aposta — respondeu ela, em um sussurro.
— Nem eu. Se tudo der errado, prepare uma poção de renascimento e ative a carta do “Mundo”.
— O que está pretendendo? Você consegue lidar com esses trombadinhas com facilidade.
— Não vou usar o baralho na frente de um civil.
— Então limpe as testemunhas. Você já fez isso uma dezena de vezes. — Ela ainda não havia entendido meu plano.
— Uma aposta é uma aposta. Se não conseguirmos derrotá-los, ative o plano de contenção. Caso contrário, mesmo que eu perca a consciência, não faça nada imprudente.
— Você acha que vai perder?
— Sem o baralho? — Dei uma risada curta. — Depende da força deles, mas acho que dou conta.
— Você acha que vai perder? — repetiu, insistente.
— Não. Mas uma aposta sem plano B não é o meu estilo. — Estalei os dedos, pronto para o combate que se aproximava.
— Como quiser. — Ela deslizou para fora do casaco e rastejou pelo chão do beco.
Suspirei fundo, e me preparei para a luta que se desenhava.
— O que eles querem? — questionei para o garoto logo atrás de mim.
— Você é um nobre rico de uma terra distante, claro que eles querem sua bolsa de moedas.
Coloquei a mão na testa. Percebi minha burrice e total desconhecimento daquele mundo.
— Isso tem alguma coisa a ver com a morte do rapaz nas docas?
— O que você fez?
— Paguei uma gorjeta com uma moeda de ouro — respondi, um tanto envergonhado.
— O quê? — O queixo dele caiu.
Pela reação dele, aquilo deveria valer bastante.
— Quanto que vale uma moeda de ouro em dias de trabalho?
— Um ano de salário. Quantas moedas você tem? Para dar de gorjeta?
— Acho que isso não importa agora — falei, ao notar que os rapazes começavam a se aproximar.
A postura do jovem mudou, e ele também entrou em posição de luta.
— Lingxin, você não deveria estar aqui. — Um dos rapazes disse, ao começar a se aproximar. — Vá embora.
— Ele é só um forasteiro.
— Muito rico por sinal. Pense na quantidade de pessoas que estão sofrendo para ele acumular toda essa riqueza. — Ele apontou para mim.
— Vai cair na velha falácia de Robin Hood? — Estalei os dedos. — Você não sabe de nada.
— Sabemos mais do que você.
Eles se aproximaram, o olhar frio, e pronto para a luta. Virei me para o jovem ao meu lado, parecia ser o meu aliado naquele momento.
— Vai me ajudar, ou vai só olhar? — questionei, um sorriso confiante em meus lábios.
Ele suspirou, um suspiro meio presunçoso. E então me falou:
— Jiahao meio que me obrigou.
— Perfeito.
Encarei os oponentes, girei os braços, e me preparei para a batalha que se desenhava.

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