Wen Qishu Mei estava em um turbilhão de emoções.

    Havia um ódio, misturado com tristeza, que por sua vez estava combinado com um grande rancor e arrependimento.

    — Meu tio lhe deu hospitalidade, e você retribuiu nossa família com o expurgo! — Ela rangeu os dentes, 

    Eu a encarei por um instante, enquanto esfregava a ponta do meu dedão direito na falange lateral do dedo indicador.

    — Eu paguei o seu tio pela hospedagem, pela comida e por todos os livros que comprei — respondi, sério, sem alterar o tom. — Foi apenas uma troca comercial justa e honesta.

    — São apenas negócios para você? — Sua voz embargou um pouco.

    — Uma vez, escutei de um homem tolo que se dizia sábio. Tudo nessa vida se resume a três coisas: poder, honra e prazeres. — Ergui a mão e contei nos dedos. — Um homem é capaz de fazer qualquer coisa para alcançar uma delas, desde que isso não interfira nas outras duas. Quando interfere… — Fechei os dedos lentamente. — Ele escolhe qual vale mais no próprio coração.

    — Você acredita nisso? 

    — Claro que não, isso é papinho pra boi dormir.

    — Você conversa com bois para fazê-los dormir? — Mei não entendeu minha expressão.

    — Não em um sentido literal.

    Ela gaguejou, porém, desistiu de me questionar mais. Voltou ao choro incontrolável, só de olhar para mim.

    — O que você ainda está fazendo aqui? Vá embora! — gritou, com as duas mãos sobre o rosto.

    — Você me trouxe para cá… — Suspirei, levantei da cama, dei as costas para ela e me preparei para sair do quarto.

    Antes que eu pudesse ir embora, senti um aperto suave de Lefkó ao redor do meu pescoço. Eu entendi, Lefkó queria que não deveria deixá-la ali sozinha.

    — O que você vai fazer agora? — indaguei, ao olhar para ela com o canto do olho.

    Mei apenas começou a chorar mais.

    Caminhei até ela, abaixei-me, coloquei um joelho no chão e mantive os olhos na mesma altura dos dela.

    — Você quer vingança? Ou simplesmente fugir de tudo? — questionei-a, ao segurar o queixo dela e fazê-la olhar diretamente nos meus olhos.

    — Não toque em mim! — Ela deu um tapa na minha mão e recuou bruscamente.

    — Apenas responda à minha pergunta. — Balancei a cabeça, um tanto frustrado com a reação dela.

    — Eu… eu não sei… — murmurou, antes de voltar a soluçar. — Eles mataram todos… meus primos, meu tio…

    Mei apoiou a testa contra a parede e puxou o braço para trás, pronta para esmurrar a madeira.

    Antes que o seu punho tocasse a parede, um fio de névoa quase imperceptível se enrolou ao redor de seu antebraço, firme o bastante para detê-la.

    — Jiahao está vivo — falei, ao relembrar das palavras de Renyan.

    Ela congelou.

    — Vivo?

    — É, segundo Renyan, capturaram-no para interrogatório.

    — Mas, mas… Isso é impossível! Isso é… — gaguejou ela, o humor um pouco mais alegre. Todavia, logo mudou novamente de expressão, agora séria. — Renyan? Renyan! Como você falou com ele?

    — Eu matei ele.

    — Você o que?

    Fiz um sinal de degola com as mãos ao redor do meu pescoço.

    — O quê? — Ela me olhou confusa, sem entender minha expressão.

    — Isso mesmo que você ouviu. Ou, se você preferir, podemos dizer que ele bateu as botas, esticou as canelas, subiu para o andar de baixo, abotoou o paletó…

    — Vá direto ao ponto, Thomas! — Lefkó se pronunciou e sibilou para mim.

    Mei arregalou os olhos.

    — Isso é… uma… uma besta mágica…

    Ela manteve os olhos fixos em Lefkó, como se estivesse hipnotizada.

    — Besta mágica? Como ousa! Eu sou…

    Antes que Lefkó começasse a listar seus títulos grandiosos, segurei delicadamente sua boca entre os dedos.

    — Nem todo mundo sabe exatamente o que você é — disse eu,  ao acariciar de leve o topo de sua cabeça.

    Lefkó lançou-me um olhar indignado, mas acabou por ceder no final. 

    Mei colocou a mão na cabeça, como se sentisse uma tontura. Apoiou as costas na parede e deslizou com o corpo até sentar no chão.

    — Isso… não faz o menor sentido! 

    — O que você não entendeu? — Cruzei os braços.

    — Tudo, nenhuma palavra, nenhuma das suas ações, faz o menor sentido.

    Suspirei fundo, estiquei os braços para cima. Preparado para ter que fazer uma longa explicação.

    — Muito bem, o que você quer saber? — Apoiei o queixo na minha mão e fixei meu olhar nela.

    — Quem é você?

    — Isso você já sabe, Thomas Nyrzyr. Vamos lá, faça perguntas de verdade.

    — Mas, quem é você?

    — Thomas… — Virei a cabeça, intrigado. Eu tinha escutado certo? — O que você quer dizer com “quem”?

    — Eu quero saber quem é você — repetiu pela terceira vez, a voz mais firme, apesar dos olhos inchados.

    Fiquei em silêncio por alguns segundos. Então falei:

    — Meu nome é Thomas Nyrzyr Segundo, filho adotivo póstumo do príncipe Thomas Nyrzyr, o Explorador.

    Ela piscou.

    — Você é um príncipe?

    — Meus irmãos são príncipes, posso ter sangue real, mas não sou um deles. Meu título nobre é de Marechal

    Mei enxugou o resto das lágrimas.

    — Que título é esse?

    — Yuánshuài — Lefkó respondeu antes de eu pensar em alguma resposta adequada.

    — Não faço a mínima ideia do que isso significa — falei, apontando para a cobra com o polegar. — Mas ela costuma estar certa.

    Mei engoliu em seco.

    — Então você é do exército do Imperador Dragão? — Sua voz vacilou. — Então os rumores eram verdade… você é um imortal do Palácio dos Deuses…

    Sorri, enquanto acenava a cabeça para cima e para baixo.

    — É claro que não. — Balancei a cabeça em negação, e retomei a expressão séria. — Eu não menti nenhuma palavra sobre mim.

    — Então, de onde você vem?

    — De muito longe. Muito longe mesmo.

    — E o que você quer aqui, na nossa cidade?

    Descruzei os braços.

    — Sou apenas um viajante. Tenha suas próprias conclusões sobre minhas intenções.

    Mei hesitou por um instante.

    — Você vai me ajudar?

    Inclinei levemente a cabeça.

    — Ajudar é uma palavra muito forte. Porém, talvez eu possa lhe obrigar a dever um favor para mim. Então, o que me diz? O que você vai fazer agora? Fugir para longe, vingar sua família, resgatar seu tio?

    — Eu não sei… Não consigo pensar em nada… — balbuciou, ao colocar os braços ao redor do peito e encolher-se na parede.

    — Eu tenho que pegar um navio ainda, então vamos pensar em algo, e rápido.

    — Navio? Os Hua Yuling proibiram qualquer navio de partir da cidade. Eu até tentei embarcar, porém, eles me encontraram antes…

    Fechei os olhos por um instante e coloquei dois dedos sobre o nariz. Eu tentei manter a serenidade diante daquela informação.

    Como o Mestre das Marionetes não havia me avisado antes?

    Fiz uma longa e contida respiração.

    — Lefkó, consegue pensar em outra maneira de nós chegarmos ao Mar do Dragão? — questionei, a mão no queixo, enquanto andava em círculos.

    A cobra pensou por um instante, todavia, logo respondeu:

    — Não, Thomas. Shuǐ Tiān Mén é a única passagem entre os Cinco Reinos Mortais e o Mar do Dragão.

    Deixei-me cair de costas na cama, o corpo mole, e encarei o teto.

    — Mei… já tomou sua decisão?

    — Não, eu… — Ela continuava a gaguejar, a voz ainda trêmula. Ela ainda tinha muitas dúvidas.

    Virei o rosto em sua direção.

    — Pois eu tomei por você. Vamos matar Hua Yuling Kai.

    Ela arregalou os olhos.

    — O quê? Não temos como fazer isso! Ele tem um exército inteiro ao lado dele! Teríamos que invadir a ilha, e ninguém nunca conseguiu! As muralhas são feitas de argamassa misturada com ossos de bestas espirituais… é impossível!

    “Impossível?” Ela ainda não havia visto nada.

    Não respondi. Limitei-me a erguer um canto da boca em um sorriso torto.

    — Eu não quero vingança, eu quero… — Ficou em silêncio, mergulhada em seus próprios pensamentos.

    Sentei-me na beirada da cama.

    Ela havia se encolhido junto à parede, quase em posição fetal.

    — Mei… — falei em um tom fraternal. — Se não é vingança que você quer, então pense em Jiahao. Ele ainda está vivo. Acha mesmo que, se fosse você a capturada, ele ficaria parado?

    Ela não respondeu.

    O olhar permaneceu baixo.

    Aproximei-me apenas o suficiente para que ela me ouvisse com clareza.

    — Entenda uma coisa, eu não preciso de você. Se você ficar aí, se lamentando, sem fazer nada para mudar isso, eu estou fora. Sou grato pelo que sua família fez por mim nesta última semana, não vou negar. Mas minha dívida já foi paga. Não estou fazendo isso por Jiahao. Nem por você.

    Levantei-me.

    — Então, acho que isso é um adeus.

    Fiz um gesto breve de continência e virei-lhe as costas.

    Lefkó não tentou me impedir dessa vez.

    Dei dois passos para a porta.

    — Qual é o seu plano? — perguntou Mei, a voz um tanto embargada pelo choro recente.

    Parei.

    Sem me virar, sorri satisfeito.

    Eu já sabia o que vinha a seguir.

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