Índice de Capítulo

    Meu corpo gelou. 

    — Como é que é?! 

    Riu-se, um som alto e falso, o tipo de risada que era feita para humilhar. 

    — Olha pra você, ficou branco como um fantasma. — A mudança no tom foi imediata, e a frieza na voz seguinte me atingiu como uma faca. — Mas é verdade. Aberrações como você não têm espaço na força-tarefa. Quando acabamos de sugar o que precisamos, eliminamos. Rápido e simples.

    Tentei engolir a ideia, mas ela ficou presa como um pedaço de vidro. 

    — Então é isso? Vou morrer e acabou?

    — Sim. E, sinceramente, era pra você já ter sacado isso. Faz cada pergunta óbvia que parece até que tá brincando.

    A raiva começou a subir, um calor que queimava por dentro. Não aguentei. 

    — Ouve aqui, seu oxigenado de merda! Corta essa palhaçada de execução, porque eu não vou…

    Um chute veio tão rápido que nem tive tempo de terminar. A bota dele atingiu o estômago com força suficiente para dobrar meu corpo. O ar escapou dos pulmões em um gemido rouco, e a saliva se misturou com o pouco de sangue que subiu à boca. A dor explodiu em ondas, irradiando do ponto de impacto.

    — Porra… cê tá louco…?

    Ele deu um passo para trás, ajustando o paletó.

    — Era só pra você parar de reclamar. 

    Respirei fundo, lutando para recuperar o controle enquanto a dor no estômago ainda queimava. 

    Ele continuava parado ali, os braços cruzados, o olhar frio de alguém que já viu muito e sentiu pouco. 

    Meu corpo gritava para eu pular em cima dele, mas as algemas pesadas nos pulsos e o cenário de merda em que eu estava me lembravam da realidade.

    — Então, é isso? — cuspi as palavras, ainda curvado. — Eu sou só uma porra de um número no seu relatório? Alguém que vocês vão descartar assim que perder a utilidade?

    — Finalmente entendeu. Mas não pense que é só você. Todos aqui são descartáveis. É assim que o sistema funciona. Quando não serve mais, vira problema. E problemas… nós resolvemos rápido.

    Ri. Não porque achava engraçado, mas porque era a única coisa que meu corpo conseguiu fazer para não explodir.

    — Progresso, né? Um bando de babacas engravatados decidindo quem vive e quem morre, fingindo que estão fazendo alguma merda pelo bem maior.

    O sorriso que ele tinha desapareceu. Por um instante, pensei que fosse me acertar de novo. Mas fez algo pior. Inclinou-se, os dedos segurando o queixo como se estivesse avaliando um brinquedo quebrado.

    — Você fala como se fosse diferente. Mas olha só pra você, Krynt. Uma peça quebrada que nem sabe pra onde vai. Se fosse tão especial, não estaria aqui. Se fosse tão superior, não teria perdido o controle. — Ele estreitou os olhos. — Você é tão imprevisível quanto qualquer coisa que juramos destruir.

    Fiquei quieto. Não havia o que dizer. O silêncio parecia a única opção sensata.

    Havia algo assustador na indiferença dele. Não era raiva, nem desprezo, mas uma certeza fria que não deixava espaço para dúvidas.

    Ele recuou, voltando até o arquivo no canto da sala. Puxou a gaveta e retirou um papel. Olhou rapidamente e se virou de novo, sem qualquer pressa.

    — Você acha que ainda tem escolha. — disse, deixando o papel cair no chão entre nós. — Aqui, ninguém tem segundas chances. Então aproveite o que resta.

    Enquanto eu olhava para o papel, as palavras se fundiram em um borrão, abafadas pela pulsação latejante em meus ouvidos.

    — Eu juro que não tive intenção nenhuma.

    — Não tem como negar, mais de 40 alunos foram mortos por sua causa.

    — Faço nem ideia de como isso rolou! Sério, acredita em mim!

    — Não tem jeito de alterar isso, a sua sentença de morte já foi decretada.

    A notícia me atingiu em cheio, um soco brutal. O medo, cru e primitivo, inundou minhas veias. A ideia da morte, tão jovem, tão não vivida, era um peso monstruoso em meu peito, e pior ainda era a indignidade de morrer virgem.

    O universo, esse bastardo caprichoso, tinha me dado essa mão justamente quando eu estava começando a ver a luz, a me livrar de algumas das minhas tolices juvenis.

    — Ah… Tá, saquei.

    Era isso, então. Minha última apresentação, uma chamada de cortina sem bis. O arrependimento, um gosto amargo, encheu minha boca. Eu ansiava por retroceder, reescrever esse roteiro miserável, evitar os erros, as mágoas, as oportunidades perdidas. Mas o tempo, esse desgraçado, avançava.

    O desespero me cobriu como uma mortalha. Isso não era um jogo, não havia espaço para bravatas ou negação. Apenas… tristeza.

    Uma tristeza generalizada e sufocante. Minha vida, um caminho sinuoso sem um destino claro, oferecia pouco consolo diante do inevitável. Não havia grandes realizações para marcar minha existência, apenas uma coleção de momentos, alguns alegres, outros de partir o coração, todos passageiros.

    — Eu… posso falar com minha mãe?

    Deveria ter uma última conversa com a pessoa que esteve comigo nos últimos 17 anos, porque era aqui que a linha terminava.

    — Receio que não possa. Mas não se preocupe, conseguimos falar com ela por meio da escola. Ela já está bem informada sobre tudo.

    A aceitação, uma pílula desagradável de engolir, era a única opção na mesa. Havia realmente outra opção? A resposta, um eco oco em meus pensamentos, não me dava muito conforto.

    Eu me virei, em uma tentativa infrutífera de esconder as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Apesar da fachada de força que eu estava tentando projetar, a verdade era uma torrente de gritos que ameaçava romper a barragem.

    O homem me observava de onde estava. Examinou cuidadosamente minha situação. Ele hesitou por um momento antes de falar, absorvendo o quadro diante de si.

    — Tá bom. Decida-se.

    — O quê…?

    Pegou o papel que estava no chão e se sentou na cadeira à minha frente.

    — Qual alternativa você prefere? Devo morrer ou ficar aqui?

    — E-espere um segundo… o que cê quer dizer com isso?

    Encarei-o com uma expressão horrorizada.

    — Percebi que você estava se sentindo mal, tipo um cachorrinho. Quer viver mais tempo? Quer dizer, é o que todo mundo quer, no fim das contas.

    — Sim, mas…

    — Então, qual é a sua escolha? Você quer lutar contra essa coisa que se prendeu a você ou prefere enfrentar a morte aqui?

    Minha mente girava em busca de respostas, enquanto o homem à minha frente mantinha seu olhar sóbrio.

    — Como assim, cacete?! Não é como se eu tivesse escolhido vir pra cá!

    Ele balançou a cabeça, como se já tivera ouvido essa justificativa inúmeras vezes.

    — Todos nós enfrentamos decisões difíceis na vida, mesmo que não as tenhamos tomado. A verdadeira questão é: como você vai reagir? Você pode aceitar o destino e deixar tudo desmoronar aqui, ou pode lutar, resistir ao que está acontecendo e, talvez, encontrar uma saída.

    Um pavor frio percorreu minha espinha quando suas palavras ecoaram em minha mente. Havia uma verdade nelas, uma dura realidade que eu não podia ignorar.

    Mesmo assim, o medo, um companheiro primitivo e indesejável, arranhava minhas entranhas.

    Por que eu seria poupado? Essa força-tarefa, uma foice pronta para colher a destruição, não prometia misericórdia. A lógica arrepiante de sua declaração pairava no ar, um lastro sufocante em meu peito.

    — Não vou cair nessa parada! O que mais vocês tão querendo? Já acabaram com a minha vida e agora vão me matar de vez!

    — Pois é… — Ele soltou um suspiro fundo. — Tava pensando em te dar um salvo, mas mudei de ideia.

    Ele se levantou da cadeira, guardou o papel no lugar e deu um passo em direção à porta de saída.

    Antes de sair, disse:

    — Amanhã começa sua execução. Prepare-se, até logo!

    Esse foi o ponto em que minha opinião mudou de um para outro.

    — Espere!

    Gritei de aflição antes mesmo da sua partida.

    — Pelo amor de Deus… Eu quero viver! Não deixe esses caras me matarem, por favor! Me dá uma força!

    Vi um sorriso em seu rosto até que fechasse a porta e a trancasse com um tilintar metálico.

    Um suspiro cansado escapou de meus lábios, com uma onda de desânimo inundando-me. A dor familiar da impotência corroeu as bordas da minha esperança.

    — Me perdoe por tudo, mãe.

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