Capítulo 15 - Juízo dos dois lados (II)
“Eu não sei. Isso é sério?”
Esperei que ele dissesse algo depois, qualquer coisa que virasse o rumo da situação, fosse um plano escondido ou uma carta guardada na manga. Mas nada veio. Sua única resposta foi uma honestidade crua, um tanto nobre e inútil.
A vice-líder não precisou elevar a voz. O silêncio que se seguiu já era resposta suficiente. E quando ela assentiu para o técnico ao lado, foi como se estivesse autorizando um procedimento administrativo, não a interrupção de uma vida.
Era isso que acontecia quando alguém admitia não ter solução. O mundo escolhe a alternativa mais rápida.
Mikael continuou parado.
Seu olhar não denotava covardia, mas expressava conflito. O tipo de conflito que, embora não seja capaz de mover montanhas, destrói por dentro.
Enquanto os cabos eram ajustados na minha cabeça, eu tentei organizar os pensamentos. Se ele tivesse mentido, provavelmente teria me sentido mais seguro. Ou se tivesse inventado uma desculpa esfarrapada, talvez ela pensasse duas vezes.
O couro da cadeira grudava na minha pele, quente demais agora.
Eu gostaria de odiar Mikael por não ter tido uma resposta melhor, da mesma forma que sentia vontade de culpar aquelas duas palavras por tudo o que estava prestes a acontecer, mas uma parte de mim entendia. Ele realmente não sabia, e por isso talvez fosse o problema.
O técnico ao meu lado ajustou o capacete metálico contra a minha cabeça. O couro pressionou minhas têmporas. Um fio foi encaixado com um clique seco.
Começou a vibrar um zumbido baixo da corrente em espera pelo encosto da cadeira, semelhante ao som de um inseto preso dentro da madeira, quase imperceptível, mas constante.
O ar ficou mais denso.
Tentei respirar fundo, mas o oxigênio parecia raso. Meu corpo já entendia antes da minha mente. Os meus pelos se arrepiaram, minha língua ficou pesada, o coração disparou em um ritmo que nenhum monitor conseguiria mensurar.
Era estranho a sensação que passava pela minha cabeça antes que apertasse o botão. Não se tratava de memórias pequenas nem de redenção. Eram pedaços separados da vida; a voz da minha mãe, um gato miando em algum lugar distante, o cheiro das flores, as ondas da praia. Coisas pequenas demais para justificar um fim.
O zumbido aumentou, tornando-se audível, e a cadeira começou a vibrar levemente sob minhas costas. Um estalo elétrico percorreu os cabos, e uma faísca mínima cintilou na base do eletrodo. O metal em contato com a minha pele começou a esquentar.
Meu maxilar travou. Os músculos dos braços, que já estavam tensionados pelas faixas, reagiram antes mesmo da descarga. Meu corpo se preparava para a dor, como se pudesse negociar com ela.
— Iniciando em três…
— Parem. — Mikael cortou a contagem.
O técnico congelou.
Quando Mikael deu um passo à frente, romperam-se os protocolos da sala.
Com incredulidade no olhar, a vice-líder virou lentamente o rosto na direção dele.
O zumbido diminuía aos poucos.
— Nós engolimos as pessoas inteiras. Executamos, torturamos, prendemos, descartamos e sempre justificamos isso dizendo que estamos preservando a ordem, protegendo a humanidade de horrores incontroláveis. Mas e se a gente estiver errado? E se esse ciclo só continuar porque nunca tentamos nada diferente?
Ela balançou a cabeça.
— Você está propondo uma alternativa para um problema que não entende.
— E você está condenando um garoto sem nem tentar entender o problema. Sugiro que usasse a mesma lógica dos anos 50. Na Guerra Fria, qualquer um que cheirasse a nazista era caçado. Nos anos 80, satanismo. Hoje, Mephistos. Sempre um bode expiatório para justificar o poder. — Ele apontou para mim, e meu coração acelerou. — Krynt não é um serial killer. É sintoma de algo maior. Algo que a Agência prefere ignorar porque é mais fácil queimar um garoto do que admitir que não controlamos nada.
Os olhos ao redor dele se estreitaram, desconfiados, mas havia algo na sinceridade do tom que mantinha a atenção de todos, mesmo dos mais céticos. Ele prosseguiu:
— Não estou dizendo também que não devem existir consequências, mas acredito que precisamos de algo além de pura punição. Precisamos de compreensão. Se não buscamos entender as forças e as circunstâncias que impulsionam esses atos, como podemos, em sã consciência, esperar evitar novos casos no futuro? Igual em Frankenmuth, em 2002. Lá, queimamos o corpo, mas não as perguntas.
Eu podia ver que alguns o olhavam como se ele fosse ingênuo, enquanto outros pareciam pensativos, como se suas palavras tivessem despertado algo incômodo, porém verdadeiro.
Fechei os olhos. “Não sou eu”, pensei. Aquilo era o que haviam plantado dentro de mim. Isso também soava falso agora. O peso da questão agravava-se, até que uma risada de escárnio cortou o ar.
— Compreensão? Não estamos aqui para entender as motivações de monstros. Esse é um luxo que não podemos bancar. A prioridade é proteger a sociedade, não romantizar a mente de quem mata sem pensar.
Eu observava as expressões endurecidas, as palavras severas que transformavam o debate em uma batalha.
— A pena de morte ou prisão perpétua têm sua função. Elas previnem futuros crimes, garantem que certas ameaças não voltem. Mas falar em reintegração? Isso é fantasia. Não é possível.
A tensão escalava como uma corda sendo puxada ao limite, as vozes se tornando mais inflexíveis, cada lado mais seguro de que sua visão de justiça era a única que deveria prevalecer. De repente, Mikael tomou a palavra:
— Você está certa em um ponto. A pena de morte é uma medida radical. Mas, senhora vice-líder, o que realmente acontece aqui é que estamos escolhendo executar uma pessoa sem provas concretas de culpa. Um garoto condenado por associação, por um crime que ele nem entende. Então, sim, isso é injusto.
A sala ficou em silêncio. A vice-líder permaneceu em pé, imóvel, com os olhos fixos em algum ponto indefinido do chão. Uma tensão pairava no ar enquanto todos aguardavam uma resposta, a decisão que ela tomaria.
Por fim, levantou os olhos, cuja expressão refletia algo além da dureza do semblante.
— E se começarmos a executar pessoas com base em suposições? — Mikael continuou. — Como ficará nossa empresa, nossa sociedade, se ignorarmos nossos próprios princípios de justiça e imparcialidade? Onde isso vai parar?
Ela manteve o olhar fixo nele por um extenso tempo. O olhar de incerteza, por um momento, cruzou seus olhos, traindo a firmeza de sua postura.
— Se essa for sua decisão final, então, oficializo que Krynt Hughes é considerado inocente e, temporariamente, está isento da pena de morte.
Por um momento, o peso sufocante da sentença pareceu se dissipar, oferecendo uma breve pausa na densa atmosfera de incerteza. Foi uma sensação surreal, como se o destino tivesse adiado a sentença para um dia ainda distante.
— Mas, vice-líder, isso é… — disse um dos guardas, avançando um passo à frente.
— Fique quieto! — O tom dela não deixava espaço para contestações.
Então, sem desviar o olhar, voltou-se para Mikael, e a dureza em seus olhos reforçava a gravidade de cada sílaba que pronunciava.
— No entanto, Mikael — continuou, pausadamente, dando ênfase a cada palavra —, você agora é o responsável direto por Krynt Hughes. A custódia dele será sua. E entenda bem, se ele voltar a cometer os atos pelos quais foi acusado, a sentença de morte será aplicada. A ambos.

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