Capítulo 5 - Sinais de uma víbora
Chegando finalmente à sala, nos dirigimos para o fundo, buscando o conforto familiar da última fileira – perfeito para tirar quarenta cochilos durante a aula que se aproximava.
Uma garota, nossa mais nova colega de classe, que tinha acabado de entrar há um mês, ocupava seu lugar habitual – a última cadeira.
— Oi, Marie! — cumprimentei, levantando a mão em um aceno casual.
Um murmúrio surgiu ao meu lado.
— Parece que alguém teve uma noite difícil.
— Calma aí, Ed. — Dei um risinho, balançando a cabeça. — A coitada deve estar exausta.
Marie se remexeu, levantando lentamente um rosto desgrenhado de sono da mesa. Uma pitada de irritação cintilou nos olhos cansados que tinham um charme único.
Um ano mais nova, seus cabelos eram de um castanho-claro com nuances de mechas prateadas. Mas eram os olhos que realmente a diferenciavam. Um azul, o outro quase verde-esmeralda – uma condição incomum chamada heterocromia.
— Boa tarde. — disse ela, coçando os olhos. — Vocês demoraram bastante.
— Problemas para dormir? — perguntei, jogando minha bolsa na mesa ao lado de Edward, que já havia se sentado.
Marie suspirou, esfregando as têmporas.
— Fiquei afogada em um mar de atividades que o professor de matemática passou na semana passada. — respondeu, com a voz embargada pelo cansaço. — Vocês não acreditariam, a quantidade de questões e equações… são o suficiente para fazer sua cabeça girar.
— Ainda bem que eu não tava aqui. — falei, rindo brevemente. — Isso deve ter sido terrível.
Ela lançou um sorriso irônico em minha direção, a exaustão momentaneamente mascarada por uma centelha de experiência compartilhada.
— Terrível é pouco, especialmente com a responsabilidade extra de cuidar da casa neste fim de semana. Mamãe teve que fazer um plantão duplo no hospital, então a tarefa de preparar as refeições e manter tudo funcionando caiu sobre meus ombros.
Enquanto Marie falava, meus olhos percorriam seu rosto, observando as olheiras profundas que marcavam sua pele clara.
— E como se tudo isso não bastasse — continuou ela —, ainda tive que lidar com as briguinhas constantes entre meus irmãos. Eles simplesmente não se aguentam.
Marie desviou o olhar, fitando por um breve instante o teto.
— Tô esgotada até a alma. — confessou, finalmente encarando-me. — Como se meus ossos doessem e minha cabeça estivesse prestes a explodir.
Suas palavras descreveram vividamente uma vida que equilibra as atividades acadêmicas com as exigências do lar. Uma responsabilidade assumida com dignidade serena, em forte contraste com a existência despreocupada que muitos de nós vivenciamos.
— Isso é que é força. — disse, admirado. — Você é realmente incrível, Marie.
Um leve rubor subiu às suas bochechas.
— Não exagere. — Desviou o olhar. — Qualquer pessoa em meu lugar faria a mesma coisa.
— Mas não com tanta força e determinação. — insisti. — Você é um exemplo.
Marie sorriu, seus olhos brilharam com uma luz renovada.
— Krynt! — chamou-me alguém em tom alto.
Virando-me, era uma garota que eu bem conhecia e que entrou na sala recentemente.
— Cruz credo… — cochichei, aborrecido. — Agora fodeu.
Conforme se aproximava, respondia outros que a cumprimentavam de modo atenciosa e com seu típico sorriso gentil.
“O que ela quer?”
Não era medo que eu estava sentindo, mas sim que sua presença soava como algo bastante desagradável.
— Achei que tivesse apodrecido no seu quarto, mas quem é vivo sempre aparece. — Ela riu. — Oi, pessoal!
Acenou para Edward e Marie, que logo responderam de volta.
— Olha, Sarah, se você não tomar cuidado aí, vai ficar careca nessa brincadeira de tingir o cabelo toda hora. — disse com um sorriso irônico.
Diferentemente da última vez que nos encontramos, o cabelo dela estava escuro com tons de roxo que se desvaneciam em tons vibrantes de lilás e magenta.
Sarah realmente gostava de variar o visual, mas, às vezes, confesso, parecia exagerar um pouco.
— E você acha que alguém não fica assustado com essa sua cara emburrada? — ela retrucou.
— Bom, nem que a gente use duas toneladas de maquiagem pra disfarçar, essa sua beleza horripilante não some, não.
Ela arqueou uma sobrancelha, pasmada.
— Sério? — Riu-se como quem estivesse debochando da situação. — Isso é broxante demais. Você nunca teve maturidade nenhuma.
As palavras eram lançadas de forma estúpida, presunçosa e hostil. Essa era nossa maneira simples e ousada de manter distância um do outro.
Marie, que claramente não tinha previsto esta reviravolta na conversa, olhou para Edward em choque, pelo qual o mesmo fez um sinal com as mãos indicando que estava tudo bem, ou melhor, que era típico.
— Não entendo porque você sempre falta tanto. Tá querendo virar um vagabundo?
— Deixou a sua sala para me dar um sermão?
— Só queria te ver, afinal, somos amig…
— Colegas. — A interrompi abruptamente com um tom ríspido. — Nada além disso.
Seus olhos se arregalaram em um misto de surpresa e indignação. A máscara de ironia que ela usava havia rachado, revelando a fragilidade que se escondia por baixo.
A palavra colegas pairava no ar como um fantasma, um lembrete cruel do que nunca tínhamos sido e nunca seríamos.
— Você continua um cuzão também, credo.
Sua voz soou fraca e insegura. Sarah desviou o olhar para Marie, buscando em seus olhos um refúgio da tensão que pairava no ar.
— É uma novata?
O contexto demorou alguns segundos para ser processado pela jovem. Quando finalmente o compreendeu, seus olhos se arregalaram em surpresa e ela respondeu com uma voz hesitante:
— A-ah… sim! Entrei há pouco tempo.
— Nossa, que legal! Você vai gostar daqui. Sinto muito por estar na mesma sala que esse retardado.
Sarah lançou-me um olhar fulminante, suas palavras destilando veneno. Marie sentiu um aperto no coração; indecisa, ela estava dividida entre o desejo de ajudar e o receio de se meter em uma discussão que não lhe pertencia.
— Oh, não, não, tudo bem, eu me acostumo.
Sua voz era fraca e hesitante, como se estivesse tentando se convencer de algo que não era verdade. Eu sabia que ela estava com medo, e isso me doía mais do que qualquer coisa.
— Chega. — eu disse, minha voz não deixando espaço para discussão. — Vai embora.
Sarah estremeceu com o súbito aperto em seus ombros. Meu toque foi firme, com a intenção de ser um escudo, não uma arma. A fachada dela desmoronou completamente. A teia de indiferença cuidadosamente construída se desfez, revelando a raiva que fervilhava por baixo.
— Você não pode simplesmente me manter longe! — gritou ela, com um tremor na voz.
A explosão de Sarah era uma performance, uma tentativa desesperada de recuperar o controle. O veneno em suas palavras não conseguia mascarar o fato que ela não suportava ser ignorada, ser deixada de lado. A raiva era apenas uma farsa para a insegurança que a consumia por dentro, a vulnerabilidade que cintilou em seus olhos por um breve momento.
— Não importa.
Reforcei meu tom, deixando claro que não toleraria mais nenhum tipo de abuso.
— Aham, tá bom!
Sarah zombou, um som sem humor escapando de seus lábios. Sua bravata vacilou, substituída por um ressentimento latente que tremeluzia como uma brasa moribunda.
— Você é um covarde, Krynt! — exclamou, com as palavras cheias de desdém. — Um cretino egoísta e arrogante que só se preocupa com você mesmo!
Soltei seu ombro quando a deixei na soleira da porta. Ela lançou-me um último olhar. Seus olhos ardiam com uma mistura de raiva e algo mais, talvez um lampejo de mágoa mascarado por desafio.
Então, inclinando-se para frente para olhar Marie, um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.
— Não dê ouvidos a ele. — disse ela, com sua voz doce e açucarada, contrastando com o veneno que acabara de vomitar. — Ele só está com ciúmes. Me encontre no pátio no intervalo, tá?
Marie hesitou. Ela não sabia o que fazer. Por um lado, ela estava curiosa para conhecer melhor Sarah. Por outro lado, tinha medo de mim e da minha reação.
— S-sim! — gaguejou ela, com o coração batendo no peito.
Com um último floreio triunfante de seus cabelos, Sarah se foi, deixando o peso de sua presença ainda pairando no ar.
Nos meus olhos, não havia culpa, apenas preocupação. A convicção dela me perturbava profundamente, e era isso que me deixava mais incomodado. Ela era capaz de ser discretamente condescendente com aqueles menos espertos, deixando-os confusos e fazendo-os parecer idiotas.
Ed, sempre o instigador, se aproximou nesse momento. Um sorriso sardônico se desenhava em seus lábios.
— Ainda tratando ela assim, hein? — ele disse, sua voz carregada de um deboche divertido. — Parecem até crianças.
Meu maxilar se cerrou. Ed adorava atiçar as brasas, suas palavras cuidadosamente escolhidas para alimentar o fogo.
— Não se faça de inocente, cara. — retruquei. — Você sabe que tipo de víbora ela é. Todo charme e sorrisos por fora, mas por dentro, puro veneno.
Meus passos se aceleraram quando me aproximei de Marie, ignorando a farpa de Edward.
— Me escute. Se envolver com Sarah… é complicado. Confie em mim, você não vai querer ser pega na mira dela.
Sua sobrancelha se franziu em confusão.
— Por quê? Como ela é?
Marie inclinou a cabeça, curiosa de verdade. Isso me fez respirar fundo antes de responder.
— Ela… — Procurei as palavras, odiando o cuidado que isso exigia. — Ela não morde de primeira. É isso que engana. Chega rindo, falando baixo, te elogiando do jeito certo. Aí, quando você acha que tá segura, percebe que tá andando em círculos.
— Círculos?
— Tudo vira teste. Quem você fala, como você fala, o que você posta, o que você não posta. Ela guarda coisa pra usar depois.
— Isso parece… específico.
— É porque é. — respondi rápido demais. — E outra, quando ela perde o controle da situação, muda de uma forma…
Antes que eu pudesse completar, Edward envolveu seu braço pelo meu pescoço.
— Isso tudo vindo de um cara que com certeza absoluta não está emocionalmente envolvido.
Revirei os olhos.
— Não começa.
— Não tô começando nada. — respondeu, com um sorriso sardônico. — Só observando como é engraçado como a Sarah vira uma vilã shakespeariana sempre que o assunto aparece.
Marie olhou de mim para ele.
— Vocês namoraram?
— Não.
— Sim. — Edward disse no mesmo instante.
— Não foi namoro.
— Foi sim.
— Não foi, caramba!
Edward olhou pra Marie.
— Foi aquele tipo de coisa que não recebe nome oficial, mas deixa sequelas emocionais, principalmente no ego dele.
— Meu ego tá ótimo. — rebati.
— Claro que tá. — assentiu ironicamente. — Tanto que você tá aqui, fazendo um TED Talk sobre víboras humanas pra proteger a colega.
Marie segurou um sorriso, meio sem graça.
— Eu agradeço a preocupação, de verdade.
Neste momento, olhei seriamente para ela.
— Eu não tô falando isso pra ganhar nada. Só… fica atenta. Se algo parecer estranho, confia no instinto. É só isso.
Edward soltou um suspiro exagerado.
— Tá vendo? — disse, cutucando um dedo no centro do meu peito. — Coração ferido.
— Se você soubesse de toda história, ficaria com raiva também.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.