Capítulo 8 - A forma mais doce de controle
O primeiro ano do ensino médio não era um simples período, mas um verdadeiro teste de resistência.
Observar era a única disciplina em que eu tirava nota alta. Percebi que os grupos se organizavam segundo suas próprias, e invisíveis, leis: aos atletas, os lugares próximos à janela, para que a luz os destacasse; aos estudiosos, os lugares próximos à sala dos professores, onde podiam refletir o poder adulto.
Minhas mãos sempre encontrava algo para fazer. Virar a página de um mangá, por exemplo. Eu faria de tudo para criar uma barreira física entre meu corpo e o fluxo humano, que para todos os outros era tão natural.
O silêncio era a minha língua materna. Falar exigia escolher palavras, e elas podiam ser mal interpretadas. Podiam se voltar contra mim, portanto, o silêncio era seguro. Era uma sala vazia onde ninguém podia me julgar, apenas ignorar. Eu preferia ser ignorado a ser um alvo.
A invisibilidade era uma forma de arte, e eu me dedicava inteiramente aos meus estudos. A reclusão, longe de ser um castigo, era, na verdade, uma estratégia de sobrevivência. E naquela escola, sobreviver era a coisa mais importante.
O barulho no refeitório formava uma parede sonora sólida. A entrada era cronometrada por mim para os últimos quinze minutos do almoço, quando as filas eram diminuídas.
A comida sempre estava morna e tinha o mesmo sabor de conformidade institucional. Mastigava enquanto olhava para o relógio na parede, prestando atenção no movimento do ponteiro dos segundos, como se ele me puxasse para a frente.
As interações eram tipo um campo minado de códigos não escritos. Um aceno de cabeça poderia significar reconhecimento ou zombaria, dependendo de um microgesto facial que eu nunca conseguia decifrar.
Nos raros momentos em que alguém me dirigia a palavra, meu corpo reagia antes da minha mente. Os meus músculos se tensionavam, a minha respiração se tornava superficial. A conversa fluía ao meu redor como um rio, e eu era apenas uma pedra no âmago dele, que alterava ligeiramente a corrente, mas permanecia fixo, imóvel e eternamente separado da água.
A janela da sala de ciências dava para o estacionamento. Eu contava os carros que chegavam e partiam, idealizando histórias para os motoristas. Para mim, aquelas narrativas imaginárias eram mais reais que o conteúdo das aulas. Elas me mantinham ancorado quando a sensação de estar fora do próprio corpo ameaçava levar tudo embora.
Não estava sonhando acordado. O que eu estava fazendo era construir, de forma desesperada e metódica, um mundo paralelo no qual fosse possível existir sem ter que, de fato, participar.
O ciclo era uma concha. Acordar, vestir as mesmas roupas neutras, seguir a rota predefinida até a escola e ocupar os mesmos espaços invisíveis.
O tempo parecia se repetir a cada dia, e o presente se tornava um ciclo contínuo e estagnado.
A melancolia não era uma tristeza que me fazia agir, era como uma cor que pintava o meu mundo. Um distanciamento que me protegia, mas também me mumificava. Meu lugar era à margem do fluxo, na condição de observador permanente de uma vida que não era minha.
Isso durou semanas. Talvez meses. O tempo perdeu seu significado.
Até que um martelo bateu na minha concha.
O fluxo de corpos se abriu, e uma figura se desprendeu da corrente principal. Ela vinha em linha reta na minha direção. Meu sistema de alerta interno disparou um sinal agudo.
Ela parou a um passo de distância. Meus olhos subiram, contra minha vontade.
À primeira vista, não havia nada de espetacular nela, além de sua beleza, e talvez fosse isso que tornasse tudo mais perigoso. No olhar dela, porém, brilhava uma atenção quieta, que contrastava com a aparente falta de atenção de alguém que acabara de sair do meio do corredor.
— Oi! — disse.
Demorei um pouco para responder. Em parte, porque meu corpo ainda não tinha entendido se aquilo era uma ameaça ou não, e em parte, porque não estava pensando em nada inteligente.
— Oi… — falei baixo.
Esta inclinou a cabeça levemente.
— Você sempre fica aqui nesse canto, né?
Meu primeiro impulso foi negar, mesmo sabendo que era mentira.
— Às vezes.
Um sorriso contido foi exibido por esta, sem que os dentes fossem mostrados. O seu sorriso não era largo, era pequeno, até respeitoso.
— Posso ficar aqui com você?
Aquilo me pegou de surpresa.
Ninguém costumava perguntar essas coisas. As pessoas simplesmente ocupavam seu espaço ou ignoravam a existência alheia.
— Se quiser… — Dei de ombros, tentando parecer indiferente.
Ela se encostou na parede ao meu lado, mas manteve uma distância mínima. Não estava nem perto demais para ser invasiva, nem longe o suficiente para parecer desinteressada.
Ficamos em silêncio.
O barulho do corredor continuava passando por nós, mas era como se estivéssemos fora do ritmo daquele lugar. Eu esperava que ela dissesse algo — qualquer coisa —, mas, ao mesmo tempo, torcia para que não dissesse nada.
— Você não gosta muito de falar, né? — comentou, sem acusação.
Senti o peito apertar.
— Não é isso, só… não sei o que falar.
Ela assentiu, como se aquilo fizesse sentido.
— Tudo bem, eu falo demais. A gente pode equilibrar.
Soltei um ar que nem percebi que estava segurando.
— Você não parece alguém que gosta de ficar no meio da bagunça. — continuou, olhando o fluxo de alunos. — Deve ser cansativo.
— É… Um pouco.
Ela se virou para mim, dessa vez de frente. Embora não tenha invadido meu espaço, me incluiu em seu campo de visão.
— Eu acho que você parece tranquilo.
A palavra me soou estranha. Tranquilo não era como eu me sentia por dentro.
— Não é bem isso.
— Mas parece. Às vezes, parecer já é alguma coisa.
Fiquei sem resposta.
A garota não tentou preencher o silêncio, simplesmente ficou dividindo o nada comigo. Essa situação era nova. Normalmente, eu carregava sozinho o peso do silêncio.
— Qual é o seu nome? — perguntou, depois de um tempo.
— Krynt.
— Krynt… — repetiu, devagar. — Combina contigo.
— Combina como?
Ela me deu um meio sorriso.
— Diferente, mas não no sentido ruim.
Desviei o olhar quando minhas bochechas vermelharam.
— E o seu? — perguntei, mais por educação do que coragem.
— Sarah.
O nome se encaixou na imagem que comecei a formar dela, mesmo sem perceber.
— Você sempre fica sozinho por aqui?
— Quase sempre.
— Posso te fazer companhia então. — disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Pelo menos hoje.
Assenti, incapaz de negar.
O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo. A corrente de alunos começou a se mover de novo, fazendo com que o mundo voltasse ao seu lugar.
Sarah deu um passo para trás, mas antes de ir embora, olhou para mim mais uma vez.
— A gente se fala algum dia?
A pergunta me atravessou como algo quente.
— Se… Se você quiser.
A garota sorriu de novo, um pouco maior agora.
— Eu quero.
Então, ela foi embora, confundindo-se com a multidão.
Fiquei sozinho outra vez, mas algo estava diferente.
A melancolia ainda tingia o mundo da mesma forma, porém uma fissura se fazia notar em sua superfície.
Nos dias seguintes, passei a me convencer de que aquilo não tinha importância, que se tratava apenas de gentileza mal interpretada.
Mesmo assim, comecei a reparar nela antes de qualquer outra coisa. Não de um jeito óbvio — eu não saberia lidar com isso —, senão um jeito de identificar um ponto fixo no meio do caos.
Sentei-me no mesmo banco, reafirmando um hábito que já não me servia de refúgio como antes, quando ouvi o som dos passos desacelerarem.
Ao levantar os olhos, vi que era Sarah.
Quando me viu, ela não acenou. Deu apenas um leve sorriso, e isso, de algum modo, me puxou mais forte.
— Achei que você ia mudar de lugar hoje — Sarah parou à minha frente.
— Pensei nisso, mas… acabei aqui.
A garota riu brevemente e sentou ao meu lado.
Estávamos perto o suficiente para que nossos joelhos quase se tocassem.
Foi o meu corpo que percebeu primeiro, não a minha mente. Um calor súbito e deslocado subiu pelo meu peito e se espalhou pelos meus braços.
Instintivamente, inclinei-me um centímetro para o lado.
Sarah cruzou as pernas com naturalidade e, com o movimento, seu joelho encostou no meu por um segundo. Talvez menos, mas foi o bastante para me desmontar.
— Você fica todo tenso quando alguém chega perto assim? — Ela perguntou, com um sorriso leve demais para ser provocação direta.
— Eu… não tô tenso.
Ela inclinou o corpo um pouco para frente, apoiando os cotovelos no joelho.
— Tá sim. Dá pra perceber.
Fiquei sem saber se aquilo era uma crítica ou uma observação carinhosa. Talvez as duas coisas.
— Desculpa. — falei, sem saber exatamente pelo quê.
— Não precisa pedir desculpa. Eu acho até… meio fofo.
Meu rosto esquentou. Desviei o olhar e olhei para o chão, pensando que poderia encontrar algo interessante ali.
— Posso te contar um segredo?
Meu corpo inteiro se preparou para aquilo.
— Hã… Pode.
Sarah se inclinou um pouco mais, o suficiente para que o braço dela encostasse de leve no meu.
— Eu gosto de gente que não tenta chamar atenção o tempo todo.
Meu peito se apertou.
Senti como se ela estivesse descrevendo exatamente a versão de mim que eu queria que as pessoas vissem. Não a minha verdadeira identidade, mas a minha identidade sonhada para os olhos de alguém.
— É…? — Minha voz saiu mais fina do que eu gostaria.
— É mais fácil assim. Pessoas barulhentas cansam rápido.
Assenti vagarosamente, como se aquilo fosse um preceito outrora conhecido, porém jamais articulado em voz alta.
Sarah permitiu que o silêncio se prolongasse por alguns segundos.
— Você fica meio sem jeito quando eu chego perto. — disse de repente. — Já reparou?
Meu estômago deu um salto.
— Fico?
— Fica, e é muito fofo.
A palavra caiu pesada demais para algo tão pequeno.
— Não é por… — comecei, mas parei no meio. Não havia como explicar sem me expor mais do que eu já estava.
— Relaxa, eu gosto disso.
O braço dela continuou encostado no meu. Aquela constância era pior do que um toque explícito, porque conseguia manter meu corpo inteiro em suspensão.
— Você sempre fica todo certinho assim, ou é só comigo?
— Eu só… — Engoli seco. — Eu não quero fazer coisa errada.
— Engraçado, você parece um cachorrinho tentando agradar o dono.
A palavra bateu antes que eu pudesse erguer qualquer defesa.
— Cachorrinho…?
Algo em mim se contraiu. Não de raiva, mas de vergonha. No entanto, junto com a vergonha, vinha outra coisa confusa difícil de definir.
— Foi mal, não quis dizer num sentido ruim.
Eu balancei a cabeça.
— Tudo bem.
E era isso que me assustava, pois não estava tudo bem, mas eu queria que estivesse.
Com um sorriso renovado, ela demonstrou mais confiança.
— É que você fica assim… — Fez um gesto vago com a mão. — Quietinho. Prestando atenção. Parece que espera eu dizer o que fazer.
— Eu não…
— Não precisa explicar, porque não é uma coisa ruim. Às vezes é bom saber que alguém se importa desse jeito.
A forma como ela disse aquilo não transmitiu conforto.
Não soou como alguém que nutria confiança em mim, mas como alguém que já havia determinado quem eu era. E, de alguma forma, sua certeza acabou se impondo. Mesmo que de um jeito errado, ser visto ainda era ser visto.
Sarah se aproximou de novo. O braço dela encostou no meu.
Ela levou sua mão até a minha, envolvendo-a com os dedos.
— Gente como você… — Inclinou o rosto para ficar na minha altura — Se importa demais.
Seus olhos ficavam os meus profundamente.
— Você faria muita coisa por quem gosta, não faria?
Minha primeira reação foi negar e tentar preservar um pouco de orgulho, mas a razão falhou antes mesmo de eu conseguir colocá-la em prática. Negar seria como rejeitar o que ela tinha acabado de me dar, que era a importância.
— Eu… acho que sim.
O sorriso dela tinha um sabor de vitória.
— Eu sabia.
Soltou minha mão e a deixou deslizar até a manga da camisa, apertando o tecido entre os dedos.
Parte de mim queria se afastar. Outra, maior e mais covarde, queria permanecer exatamente onde estava, sem se importar com o que pudesse acontecer.
Algo tinha mudado de lugar dentro de mim, e eu precisava entender o que era.
Isso me fazia sentir mais acolhido, e isso era o mais perigoso de tudo.
Porque, enquanto as rédeas eram seguras com tranquilidade por Sarah, eu era convencido de que obedecer era apenas uma forma diferente de amar.

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