Índice de Capítulo

    Mikael foi o primeiro a dar iniciativa à brincadeira. 

    — Então — esfregou as mãos —, vou falar de alguém aqui que dispensa apresentações. 

    Descreveu um arco pelo semicírculo, caminhando devagar.

    — Essa pessoa tem um talento especial pra fazer qualquer sala parecer dois graus mais fria. Não fala muito, mas quando fala, parece que sabe algo que você não sabe. 

    Olhei de canto para Raven, a quem eu havia apostado como sendo a pessoa em questão. Ela continuava imóvel, sem demonstrar surpresa alguma.

    — Usa preto como se fosse um conceito, não uma cor, e tem essa vibe constante de não encosta em mim.

    Mikael parou bem em frente a esta. Com um gesto de respeito, inclinou a cabeça, embora pudesse ser visto como uma provocação.

    — Alguém que parece ter saído direto de um romance gótico, mas que, no fundo… — Abriu um sorriso largo. — Provavelmente ri de piadas idiotas quando ninguém tá olhando.

    Raven ergueu uma sobrancelha.

    — Feliz inimigo secreto. — disse, entregando-lhe o presente.

    Ela aceitou e o avaliou na mão. Seu canto da boca se mexeu, aproximando-se de um sorriso.

    Raven rasgou o papel pacientemente. Havia outro embrulho dentro, envolvido por uma camada de plástico mais rígida.  Intrigada,  continuou.

    O segundo invólucro contava com um copo térmico metálico, dos utilizados em trilhas.

    — Hm… — Girou levemente o objeto ao ar. — Já estou desconfiando.

    Raven desenroscou a tampa e um vapor frio escapou. 

    — O que é isso?

    Um encaixe de espuma isolante acomodava, por sua vez, uma pequena caixa de acrílico transparente selada a vácuo. Estava no centro, intacta, uma…

    — Pedra de gelo?

    A pergunta saiu no tom exato entre incredulidade e aceitação. E foi o suficiente.

    Mantive o olhar desviado, como se rir abertamente fosse uma concessão perigosa.  Lewis levou a mão ao joelho ao se inclinar para a frente. Mandy trouxe os dedos à boca, mas não conseguiu conter o riso. 

    — Não é só uma pedra de gelo, ela representa tudo o que você é. Cuide bem dela.

    Ele deu meia-volta para voltar à cadeira, se jogando nela com suspiro satisfeito.

    Raven posicionou o copo térmico ao lado, entrelaçou as pernas e passeou os dedos pelo pacote.

    — Certo… — murmurou, olhando para nós. — Minha vez.

    Nossa riso foi diminuindo aos poucos.

    — A pessoa que eu tirei tem um talento para ocupar qualquer espaço como se fosse dele desde sempre. É carismático, claro. Sempre sorrindo. Sempre no centro. Aquele tipo que faz parecer que tudo é leve, mesmo quando não é.

    Troquei um olhar rápido com Lewis, que também havia entendido a quem Raven se referia.

    — Mikael.

    Este levou a mão ao peito dramaticamente.

    — Nossa, tão rápido assim?

    Raven levantou-se para entregá-lo com uma só mão. 

    — Feliz inimigo secreto.

    — Mal posso esperar. — disse, recolhendo-o para si.

    Raven retomou serenamente seu assento, para quem parecia ter acabado de restituir algo que mantinha acumulado por um período excessivo.

    Pela primeira vez naquela noite, tive certeza de que nem todos os presentes ali eram só brincadeira.

    Mikael girou o pacote nas mãos, mais curioso do que cauteloso. Desembrulhou o pacote aos poucos, revelando uma caixa simples de papelão grosso. 

    Ele franziu a testa ao ver o bilhete colado na tampa.

    Leu em voz alta:

    O que você vale é o que está dentro dessa caixa

    E, quando abriu, não havia nada. Além do fundo cru, estava somente um vazio que não podia ser engano.

    O silêncio se prolongou além do esperado. Mikael pestanejou, conferiu novamente, com a impressão de que o conteúdo poderia surgir por teimosia.

    Foi então que caiu a ficha.

    Não para todo mundo, apenas para mim.

    Soltei uma risada sincera antes de conseguir segurar.

    Lewis me olhou, confuso.

    — Do quê você tá rindo?

    — Cê não entendeu?

    Mandy arregalou os olhos.

    — Espera… É sério que…

    Darcy inclinou-se um pouco na cadeira ao analisar mais atentamente o que seria.

    — Ah… — Levei a mão ao rosto, ainda rindo. — Não acredito. 

    Mandy olhou da caixa para Raven, depois de volta à Mikael.

    Parado, o loiro segurava a caixa aberta. Seu sorriso aos poucos se desfez em um gesto confuso. Certamente não era raiva e tampouco constrangimento. Tratava-se de um entendimento tardio.

    — Ok… — Fechou a caixa e o deixou no colo. — Essa doeu.

    O ambiente ficou calado por um tempo um pouco maior do que o confortável.

    Darcy se curvou ligeiramente à frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

    — Tá, e agora? — perguntou, olhando em volta. — Porque, pelo que eu entendi, o ciclo fechou. Mikael deu o presente para Raven. Ela recebeu e deu o seu para ele, então, acabou.

    — É. — Mandy concordou. — Não tem próximo.

    Respirei fundo e levantei a mão.

    — Tem sim. 

    Todos olharam pra mim.

    — É a regra do pulo. — continuei, baixando o punho. — Quando o ciclo fecha desse jeito, quem acabou de receber o presente vira um ponto morto. Não tem quem tirar naturalmente.

    Darcy lançou-me um olhar curioso.

    — Então…?

    — Então qualquer pessoa que ainda não deu presente pode se levantar e começar outro ciclo.

    O entendimento foi passando de rosto em rosto até parar em Mandy. Ela piscou duas vezes. Parecia estar concluindo algo. 

    Levantou-se antes que alguém dissesse qualquer coisa. A sacola de papel amassou levemente em sua mão devido à empolgação.

    — Então eu começo! — disse, dando dois passos à frente. — Este presente é para alguém que… bom, como posso dizer? 

    O olhar dela pousou direto em Arthur.

    — É você, chefe.

    O silêncio durou não mais do que um segundo, antes de se transformar em surpresa geral. Arthur arqueou a sobrancelha, incrédulo, e depois esboçou um pequeno sorriso cansado.

    — Caramba, filha… — disse, apoiando-se melhor na cadeira. — Vai ser assim mesmo? Nem uma descriçãozinha antes?

    Mandy fez que pensava, inclinando a cabeça.

    — Eu sinceramente pensei em falar várias coisas sobre você, mas…

    — Mas…?

    — Bom, tudo o que eu falasse seria humilhação demais, então tome esse presente com muito carinho!

    Ela andou até onde estava para lhe entregar a sacola. 

    Arthur a recebeu. Pôs a mão por dentro, tateou rapidamente e retirou o conteúdo devagar, preparado para o impacto.

    Era uma camisa branca simples demais à primeira vista, até estendê-la por completo.

    A estampa ocupava quase todo o tecido. Era Arthur abraçado ao presidente, onde ambos estavam muito próximos para qualquer foto institucional não parecer acidental.

    O homem ficou apenas encarando a camisa, completamente imóvel. 

    — Mandy… — disse, com a voz perigosamente calma. — Isso é montagem.

    — Claro que é, mas combina, vai. Vocês parecem super amigos.

    Satisfeita, ela cruzou os braços.

    — Quer dizer, parceria com o governo, reuniões fechadas, foto oficial pra imprensa… Achei que faltava só isso no seu guarda-roupa.

    Com um suspiro fundo, Arthur passou a mão pelo rosto.

    — Interessante. — disse Darcy. — A edição melhorou seu sorriso. Devia considerar usar mais vezes.

    Olhou rapidamente de relance para ela.

    — Muito engraçada.

    Mikael e Lewis estavam rindo alto demais. 

    — Isso é difamação… — murmurou.

    Eu também não consegui segurar o riso. Não era só a camisa, incluía também o absurdo de tudo aquilo caber em uma noite só.

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