Capítulo 14 - Juízo dos dois lados
O ar gélido infiltrou-se furtivamente pela fresta da porta, cutucando a minha pele e despertando os meus sentidos gradualmente. Era um contraste agudo com os sonhos febris que me cativaram durante a noite, um pesadelo confuso e asfixiante que deixava um gosto amargo na boca ao acordar.
O ruído da porta se abrindo soou como um gume sonoro. Metálico e penetrante, ele ecoava pelo vazio da cela. Fiz esforço para clarear a névoa do torpor, enquanto a luz tênue se derramava pela entrada.
Duas figuras apareceram. Vestiam armaduras táticas negras que, sob a luz fluorescente, brilhavam absurdamente, grudadas aos seus corpos. Em suas mãos, os rifle brilhavam de maneira sinistra, parecendo uma extensão de suas essências.
Ainda me sentia desorientado como se estivesse sob um cobertor encharcado. A cada piscar, a visão se tornava mais nítida, mas a náusea persistia. Antes que pudesse reagir, senti um aperto áspero em meus pulsos.
As algemas se abriram com um clique seco, deixando uma sensação de ardor no lugar onde estavam. Mas a liberdade que aquilo trouxe durou menos de um segundo. Um anel metálico gelado foi colocado ao redor do meu pescoço, apertado o suficiente para que eu sentisse sua presença a cada respiração.
Um zumbido baixo emanava da coleira, como um aviso constante.
O barulho da porta se fechando atrás de mim ecoou como uma batida de martelo. Fui escoltado pelos guardas pelo corredor, enquanto uma forte iluminação fluorescente revelava o que me cercava.
O lugar era frio, impessoal, mais semelhante à ideia de uma prisão do que propriamente uma prisão real. Cada maçaneta, cada fechadura, contribuía para a sensação de que tudo ali estava contido, mas sempre prestes a escapar.
Havia um cheiro de desinfetante no ar, quase sufocante. Talvez fosse uma tentativa desesperada de encobrir algo que não podia ser escondido. Ele vinha das paredes, do chão, talvez até de mim.
As sombras projetadas pelas luzes eram intensas, delineando formas angulares que iam e vinham nas bordas da minha visão. Com cada passo, eu me via em uma passagem mais longa e mais apertada, era como se o próprio lugar quisesse me engolir.
Passei por uma porta com arranhões profundos na superfície de metal. Os cortes eram irregulares, sugerindo que algo de dentro estava tentando escapar — ou algo de fora, entrar. A ideia fez meu estômago revirar.
— Anda logo. — A voz de um dos guardas cortou o silêncio, ríspida e sem emoção.
Eu continuava caminhando, mesmo assim, aos poucos, minha mente se desviava para perguntas que não pareciam ter respostas.
À minha direita, recebi a atenção de um deles com um olhar que misturava repulsa e prazer perverso, como se visse diante de si algo intrigante e vil.
— O mundo tá desandando de vez. E se a gente soltasse? Vai que nem foi culpa dele. Às vezes é só um surto. Essas coisas acontecem.
O guarda à minha esquerda riu, uma risada seca e incrédula, ecoando pelos corredores como uma ofensa.
— Tá de sacanagem comigo? Sabe o que parece surto? Um garoto arrancando teu braço quando você chega perto demais. Não tem inocente nesse jogo. Se tem, não dura. Criança, velho, tanto faz. Essa praga não escolhe. E você aí querendo brincar de herói.
O que estava à minha direita suspirou, visivelmente desconfortável, e senti seus olhos em mim, embora ele logo tenha desviado o olhar.
— Ele é só um adolescente igual a qualquer um. Olha pra ele. Você acha mesmo que ele pediu por isso? Ele tá mais assustado que todo mundo aqui. Que tipo de mundo engole alguém assim?
— É exatamente isso que eles fazem. — Apontou na minha direção com o polegar. — Cara de perdido, de coitado. Faz você duvidar. Aí, quando você baixa a guarda… — estalou os dedos — acaba no chão, aberto de cima a baixo, com um Mephisto se alimentando do que sobrou.
O som das botas que ecoava pelo corredor pesava a cada passo, enquanto eu tentava ignorar o frio na espinha.
— Fica com essa compaixão aí. — continuou. — Só não vem pedir ajuda quando ela te custar a vida.
Decidi manter-me em silêncio, temendo que qualquer palavra que saísse da minha boca pudesse ser usada contra mim.
Tanto minha morte quanto outro local de execução pareciam estar chegando.
Então, chegamos à Sala de Execução.
Havia uma multidão considerável reunida de guardas armados posicionados, prontos para assistirem minha punição.
Com suas paredes feitas de concreto e metal, sua intrincada rede de canos, fios transmitindo energia, fluidos por todo o lugar dava ao espaço uma vibração geral assustadora
No meio da sala vi uma cadeira que se assemelhava a uma relíquia de tortura, cercada por uma complexa rede de monitores e sensores destinados a rastrear de perto os sinais vitais e a atividade cerebral de qualquer entidade sobrenatural submetida a ela.
Um eletrodo ansiosamente colocado estava pronto para ser usado.
O ar na sala era espesso com o odor a fumo e a queimado, fazendo o ambiente parecer pesado e deprimente.
Sentei-me na cadeira e um guarda prendeu meus pulsos com faixas de metal.
Ouvia os gemidos agonizantes dos animais nos meus ouvidos, apesar do silêncio que reinava na sala.
A pulsação tumultuosa e errática do meu próprio coração era evidente, ressoando nos meus ouvidos. Parecia que o ar estava a ficar mais fino e a evaporar-se de mim, transformando-se num recurso valioso, onde cada respiração que eu fazia era um esforço.
Tudo neste ambiente fez-me perceber que me estava a aproximar da minha morte, que era o último lugar onde quero estar.
Uma pessoa chegou depois.
— Outra vez precisamos recorrer à cadeira elétrica. — disse o recém-chegado.
— O caso é mais grave do que o normal. — advertiu um soldado.
— Não é como se tivéssemos escolhas.
No início, a voz ressoava de forma neutra, quase enganosa, e por um instante acreditei que pertencia a um homem. Mas, com cada palavra, a profundidade, a clareza, e a autoridade intrínseca deixaram claro o erro na minha suposição.
Era uma mulher.
Ela usava o uniforme formal padrão, mas havia algo mais em sua postura, algo que fazia as roupas parecerem uma armadura.
Seu cabelo escuro estava preso em um rabo de cavalo, com fios grisalhos que não conseguiam esconder completamente o tom escuro e uniforme da pele. Não era só aparência; era presença.
Ao lado dela, duas figuras menores. Um garoto de cabelo ruivo brilhante, de braços cruzados. Ao lado dele, uma jovem de cabelos castanho-escuros, com uma espada embainhada presa na cintura.
Apesar da pose confiante, os rostos de ambos não passavam da altura dos ombros da mulher.
— Foi determinado que a pena de morte de Krynt Hughes, um jovem de 17 anos que caiu sob a influência de Mephisto e se tornou cúmplice no Massacre de Boston, é justificável.
Foi como se uma pedra tivesse caído no meu peito. Senti como se um peso estivesse esmagando meus pulmões, não me deixando respirar.
Fechei os olhos por um momento, tentando acalmar a tempestade que se formava dentro de mim. Meu coração batia forte, como um tambor em guerra, enquanto minha respiração ofegava. Ainda assim, eu precisava manter o controle.
Ela continuou.
— É com pesar que chegamos a esta conclusão, mas é nosso dever buscar a justiça, mesmo quando ela se mostra implacável. Que este momento nos lembre da responsabilidade que recai sobre nós, ao enfrentar as profundezas mais sombrias da humanidade.
Era difícil decidir o que era mais sufocante: o significado do que ela dizia ou o peso moral que carregava em sua entonação, como se acreditasse plenamente no que fazia.
Não era apenas a minha vida que estava sendo sentenciada. Era uma extensão de algo maior, um sistema que via a erradicação de comportamentos indesejáveis como um dever. E, ao mesmo tempo, tratava a sentença de morte como uma espécie de equilíbrio moral — um castigo justo para um crime que eu mal compreendia completamente.
Havia um contraste nítido ali. A prática de longa data de exterminar espécies que não se encaixavam nas “regras naturais” era quase arbitrária, movida por medos irracionais e preconceitos enraizados. Mas, de alguma forma, eles justificavam minha execução como uma punição inevitável. Como se o que eu tivesse feito fosse algo tão monstruoso que nem mesmo meu lado humano pudesse ser salvo.
Não havia como argumentar, como lutar contra aquilo. Só restava o som da voz dela, como uma foice cortando qualquer possibilidade de esperança. Eu precisava manter a calma, mas a cada segundo, o chão sob mim parecia mais incerto, como se eu estivesse tentando andar em areia movediça.
No fundo, sabia que ela acreditava estar certa e era isso que tornava tudo ainda mais cruel.
Um técnico aproximou-se com os sensores. Colou um no meu peito e outro na têmpora.
O eletrodo foi erguido da bandeja. O som do metal tocando metal ecoou por pouco tempo. Em seguida, posicionaram-no acima da minha cabeça, depois de ajustarem o braço mecânico. A ponta desceu alguns centímetros e parou como um teste de alinhamento.
“Respira…”
Se eu demonstrar instabilidade, eles interpretariam como uma ameaça. Se eu me mantiver muito firme, pareceria contenção ativa. Que equilíbrio aceitável alguém prestes a ser executado poderia ter?
— Iniciando leitura basal. — Alguém anunciou atrás de mim.
Olhei para os soldados alinhados contra as paredes e percebi que eles também me observavam. Suas expressões refletiam exatamente como o mundo me enxergava: um erro a ser apagado.
Se eu fosse mesmo um monstro, imaginava, eles não estariam tão cautelosos. Porque monstros não precisariam de justificativa para serem mortos, basta ter plateia. O que me segura aqui não sou eu, tratava-se de uma questão de dúvida.
— Ahem.
Entre eles, estava aquele loirinho.
Ele chegou tarde, mas veio. O que isso significava?
— Eu recorreria a tudo o que pudesse usar neste momento, seja provocação ou conversa fiada.
Ele falava com um certo desdém.
A vice-líder ergueu uma sobrancelha.
— O que exatamente isso significa, Mikael?
O tom dela era irritado nem surpreso. Pessoas como ela não se davam ao luxo da surpresa.
Mikael inspirou fundo. E então, algo aconteceu. Algo que ninguém esperava.
— Sou contra a execução desse garoto.
O mundo congelou.
Não foi apenas o silêncio, nem a rigidez dos ombros ao redor. Foi o jeito como a atmosfera mudou, a ponto de parecer que a estrutura invisível que sustentava a ordem daquela sala tivesse rachado.
A vice-líder não piscou.
— Essa decisão já foi tomada. Você sabe disso.
Mikael não desviou o olhar.
— E foi tomada rápido demais.
Dessa vez, algumas cabeças se viraram para ele.
— Ele é só um adolescente.
Ela riu. Curta e afiada, como vidro quebrando.
— Adolescente? Você quer argumentar em defesa de um assassino? — Seu olhar me atravessou como uma faca. — Quarenta mortos, Mikael. Quarenta.
A voz dela era firme, uma retórica lapidada para cortar qualquer tentativa de apelo emocional.
— Sangue espalhado pelos corredores de uma escola. Mochilas largadas no chão. Cadernos encharcados. — A mandíbula dela se contraiu. — Você já ouviu os pais? Eu ouvi. Eles dizem que os filhos foram sacrificados, que isso foi caça, que não existe mais lugar seguro. E, sinceramente? Eu não consigo dizer que estão errados.
Senti na minha pele o peso dessas palavras, como lâminas. Vi, em um piscar de olhos, o corredor cheio de gritos, os olhos arregalados fixados em mim enquanto meu dedo afundava na carne deles. Minhas mãos tremiam e minha mente estava… fragmentada.
Mas Mikael manteve o olhar impassível.
— Você realmente acredita que ele escolheu isso?
A vice-líder inclinou a cabeça.
— Escolheu ou não, as consequências são reais.
— A Agência existe para garantir que isso não aconteça de novo. — Ela me olhou como se eu fosse algo a ser estudado. — A sua execução não é sobre você, Krynt. Nunca foi. É sobre o que vem depois. O que acontece com o próximo.
Mikael descruzou os braços.
— Mas não está impedindo. Está só punindo.
Por um instante, ninguém se moveu.
O que foi aquilo? Uma rachadura na fundação?
— Esses jovens… — continuou — não são simplesmente corrompidos. Eles são usados. Possuídos. Transformados em armas por algo que ultrapassa nossa compreensão. Ele não puxou o gatilho. A coisa dentro dele puxou.
A vice-líder não piscou.
— A Agência não foi feita para entender. Foi feita para controlar.
E ali estava a verdade. O que importava não era se eu era culpado ou não. O que importava era que a minha morte sustentaria a ordem.
— O mundo lá fora tá à beira do colapso, Mikael. A nossa existência depende da confiança pública. Se a gente começa a hesitar, se demonstrarmos fraqueza…
Ela deixou a frase no ar e voltou os olhos pra mim outra vez, como se eu fosse a prova concreta do problema.
— As pessoas precisam acreditar que alguém está no controle, que o bem comum ainda tem defesa.
Mikael inclinou a cabeça, analisando.
— Então é isso? Um gesto pra plateia?
— Isso é política.
Ele conteve uma risada incrédula.
— Política, claro. — Passou a mão pela nuca. — A gente veste isso de justiça, fala em responsabilidade, em segurança… mas no fim é gestão de crise. É proteger a imagem da Agência antes que os patrocinadores recuem, antes que o Senado abra uma comissão, antes que a imprensa resolva transformar a gente no vilão da semana.
A vice-líder levou um breve instante para responder.
— Você sabe como funciona o nosso mundo. — disse por fim. — Sem apoio público, sem orçamento, sem respaldo institucional, a gente não caça nada. Vira um grupo clandestino com boas intenções e zero alcance.
— E desde quando alcance justifica execução sumária? — Mikael devolveu. — Se esse garoto não tivesse virado manchete nacional, a gente estaria aqui agora ou ele estaria numa ala isolada sendo estudado em silêncio?
O olhar dela endureceu.
— E qual é a alternativa? Ficar debatendo enquanto as famílias enterram filhos? Enquanto a imprensa nos chama de incompetentes? Enquanto políticos usam isso pra cortar nosso orçamento e nos substituir por algo pior?
Ele deu um passo à frente, voz baixa, mas firme.
— A alternativa é não confundir justiça com conveniência. Se a nossa força depende de sacrificar quem foi usado como arma, talvez o problema não seja a opinião pública. Talvez seja a estrutura inteira que a gente construiu.
Ela cruzou os braços, amparando a tensão.
— A gente responde mostrando que há consequência.
— Mesmo quando ninguém foi usado? Porque se a gente não diferencia ferramenta de mandante, a gente só alimenta o ciclo. Executa o sintoma e deixa a doença crescer.
— Você está simplificando demais.
— Estou? — Mikael se inclinou ligeiramente. — Diga-me, vice-líder, se a gente estivesse nos anos 90, a resposta seria superpredador? Se estivéssemos nos anos 2000, seria terrorista? Se fosse 2019, ele seria só mais um caso para alimentar a cultura da punição e do medo? É sempre a mesma narrativa, só mudam os rótulos.
Ela não reagiu.
— Eu já ouvi isso antes. O governo dos Estados Unidos também achou que a guerra às drogas seria a solução. Resultado? Uma crise carcerária que transformou jovens infratores em condenados perpétuos antes de completarem dezoito anos. Você acha que isso aqui é diferente? Nós prendemos, julgamos e matamos sem nem tentar entender a raiz do problema.
O metal sob meus pulsos esquentou. Não pela eletricidade ainda adormecida, mas por causa da certeza do que estava por vir. Mikael se virou para mim.
— Krynt foi uma vítima antes de se tornar uma arma.
Ele a olhou de volta.
— E cada execução só enterra mais fundo a verdadeira questão.
Apesar da expressão segura, havia algo no olhar dela. Algo incômodo.
— Você realmente acredita que existe alguma solução? Alguma maneira de salvar alguém como ele, Mikael?
E eis que surge a pergunta real. Pela primeira vez desde que me sentei nessa cadeira, quis saber a resposta.
Mikael levou algum tempo para responder. Não ficou em cima do muro. Ele a encarou de um jeito que seus olhos pareciam procurar algo além da superfície. Talvez ele estivesse se fazendo a mesma pergunta que eu me fiz, ou seja, se ele também estava pensando se seria capaz de fazer algo que o fizesse se sentir melhor. Ou talvez essa questão nunca fosse considerada de fato por ele.
A cadeira grudava na minha pele através da minha camisa suada. Os dedos da vice-líder batucavam no coldre, e cada clique da unha no metal era sincronizado com o meu coração.
— Se existe uma solução? — Ele repetiu, baixinho.
Passou uma mão pelo rosto, inspirou, soltou o ar devagar.
— A resposta honesta? Eu não sei. Mas eu sei que a solução não é essa.
A vice-líder estreitou os olhos.
— Não sei. — disse, balançando a cabeça. — É nisso que você baseia a segurança de milhões?
— Eu baseio na ideia de que matar sintoma nunca curou doença. A gente sabe que tem algo usando esses jovens. Sabe que existe influência, possessão, manipulação. Executar ele é o equivalente a prender o soldado raso enquanto o general janta tranquilo.
— E enquanto você procura o general, o que faz com o soldado armado? Dá terapia?
O tom dela ganhou uma camada amarga.
— Você quer reabilitar? Colocar num programa de reintegração igual fazem com veteranos que voltam quebrados da guerra? — Deixou escapar um breve riso sem humor. — O país manda pra lutar, promete suporte, depois larga embaixo de viaduto com um panfleto de procuro ajuda.
Ela apontou discretamente na minha direção.
— Você acha que a população vai aceitar que estamos tentando entender o garoto que matou quarenta inocentes?
Mikael respirou fundo.
— A população aceita qualquer coisa quando alguém grita alto o suficiente na televisão. Hoje querem sangue e amanhã vão querer explicação. Sempre é assim. A gente responde ao pânico imediato e chama isso de liderança.
Ela o encarou por longos segundos. O desapontamento agora era claro.
— Eu esperava mais de você.
A vice desviou o olhar por um instante. Quando voltou a encará-lo, a decisão já estava retomando o lugar.
— Se você não sabe qual é a solução, então não pode impedir a única que temos.

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