Índice de Capítulo

    A conversa sobre o pássaro na gaiola deixou uma marca. Hermes notou uma mudança em Teseu nos dias que se seguiram. A esperança em seu rosto agora era temperada por uma cautela que antes não existia. Ele ainda estava se recuperando, seu corpo ganhando uma força frágil, mas seus olhos agora observavam o mundo com a mesma intensidade silenciosa de Hermes.

    Agouri, por outro lado, parecia ter se livrado da dúvida. A lealdade a seu mestre, talvez como um mecanismo de defesa contra a terrível verdade que ele não queria ver, tornou-se ainda mais fervorosa. Ele passava cada vez menos tempo com Teseu, sempre ocupado com as tarefas e os “ensinamentos” do Jovem Lorde.

    Essa ausência criou um vácuo, um espaço de silêncio que Hermes e Teseu começaram a preencher. Em uma tarde, Hermes terminou seu trabalho mais cedo e, levado por um impulso que ele não se deu ao trabalho de analisar, foi novamente à ala médica. Encontrou Teseu sentado sozinho, desenhando padrões no pó de uma janela com o dedo.

    — Ele não veio hoje — disse Teseu, sem se virar. Ele não precisava dizer o nome.

    — Ele está ocupado com seu mestre — respondeu Hermes, encostando-se no batente da porta.

    Teseu finalmente se virou. Seus olhos, claros e inteligentes, examinaram Hermes.

    — Você se preocupa com ele também.

    Não foi uma pergunta. Hermes não respondeu.

    — Você não é como os outros escravos, Hermes — continuou Teseu, sua voz suave. — Mesmo na mina. Havia… algo diferente. Você luta, mas não como Agouri, com barulho e desafio. Sua luta é silenciosa. O que você era… antes daqui?

    A pergunta pegou Hermes de surpresa. Nenhum mortal jamais ousara lhe perguntar sobre seu passado com tanta simplicidade. Ele olhou para as próprias mãos, calejadas e sujas de terra. Como poderia explicar o que era? Um deus? Um mensageiro? Um traidor? As palavras não tinham sentido agora.

    — Eu viajava — disse ele, a voz rouca. A verdade, em sua forma mais simples. — Via o mundo. De cima.

    Teseu assentiu lentamente, como se aquela resposta fizesse algum sentido para ele. — Então você entende o que é a liberdade.

    — Eu entendo o que é perdê-la — corrigiu Hermes, com amargura.

    Um momento de silêncio tomou conta do recinto. Não de maneira desconfortável. Era como se ambos tomassem seu tempo para refletir sobre a conversa.

    — Eu nunca pude ir a lugar nenhum — confessou Teseu, com uma tristeza desprovida de autopiedade. — Meu corpo sempre foi minha corrente. Mas Agouri… ele nasceu para correr. Por isso eu me preocupo. Ele acha que o Jovem Lorde lhe deu asas, mas eu temo que ele esteja apenas tecendo uma rede mais fina. Ninguém nesta casa dá algo de graça.

    — Você está certo — Hermes concordou, e pela primeira vez, ele sentiu um lampejo de genuíno respeito por um mortal. Teseu, em sua fragilidade, via o mundo com uma clareza que muitos deuses jamais alcançariam. — O preço aqui é sempre alto. E raramente é pago por quem recebe o presente.

    A porta da enfermaria se abriu, interrompendo-os. Não era um servo, mas o próprio Lorde Kratos, acompanhado por Fílon. Eles não entraram, apenas pararam no limiar. O Lorde não olhou para Teseu ou Hermes, mas para o médico-escravo que se curvava nervosamente em um canto.

    — Então… Este é o item? — A voz do Lorde era desdenhosa, como se falasse de uma peça de mobiliário. — O… experimento de caridade do meu filho?

    O curandeiro gaguejou uma resposta afirmativa.

    — E qual o progresso? — Kratos perguntou, seu olhar finalmente pousando em Teseu, destituído de qualquer calor ou interesse humano. Era o olhar de um homem avaliando um cavalo ou um vaso. — Ele já serve para alguma coisa, ou ainda é apenas um desperdício de recursos?

    Hermes viu Teseu se encolher. A pequena chama de dignidade que a recuperação lhe devolvera pareceu vacilar sob o peso daquelas palavras. Ser chamado de “item”, de “experimento”. A gentileza do filho era apenas o capricho de um nobre, e o desprezo do pai era a verdade daquela casa.

    Hermes franziu o cenho. Ele via a crueldade casual com que tratavam a vida, a forma como esmagavam a esperança de um rapaz doente apenas com palavras, por puro tédio. Era a arrogância que ele reconhecia, a mesma arrogância que governava o Olimpo.

    — Ele demonstra melhora, meu Lorde — disse o médico apressadamente. — Com tempo…

    — Tempo é um recurso que eu decido como gastar — Kratos o cortou. Ele deu uma última olhada de desdém para Teseu e depois para Hermes, como se notasse sua presença pela primeira vez. — Continue com seu trabalho. Mas não espere milagres de um barro rachado.

    Com isso, o Lorde se virou e se foi, deixando um silêncio gelado em seu rastro.

    A partida do Lorde Kratos deixou um frio que o calor da tarde não conseguia dissipar. Teseu, ainda pálido pela humilhação, olhava para a porta por onde o nobre saíra. A palavra “item” ecoava no silêncio da enfermaria. Hermes observou a cena, não com uma onda de compaixão, mas com uma fúria fria e analítica. Era a arrogância que o enojava. A mesma presunção casual dos deuses, agora em uma forma mortal, patética e nojenta.

    Teseu estava pálido, seus olhos fixos no ponto onde o Lorde estivera. A verdade de sua condição nunca fora tão brutalmente exposta.

    Hermes se moveu. Ele se aproximou e, sem pensar, colocou a mão sobre o ombro magro de Teseu. O gesto foi desajeitado, estranho para ele, mas o contato era firme. Um ato silencioso de solidariedade.

    Hermes enxergou a si mesmo naquele menino por um instante.

    Teseu ergueu o olhar para ele, e em seus olhos havia uma nova compreensão. O medo estava lá, mas também uma centelha de desafio. Ele não estava mais sozinho em sua desconfiança.

    — O peso das correntes… — sussurrou Teseu, mais para si mesmo do que para Hermes.

    Hermes apertou seu ombro uma última vez antes de se afastar. Ao sair da enfermaria, o sol da tarde parecia mais fraco, as cores do jardim, menos vibrantes. A beleza da villa era uma mentira, um verniz fino sobre uma podridão profunda. A chama em seu peito estava queimando mais forte. As imagens dos Deuses no Olimpo vinham e se misturavam com os rostos da Família Kratos.

    Sua cicatriz doía, como se estivesse sendo perfurada.

    Andando pela villa, enxergou o reflexo de seu rosto numa bacia de água que estava no chão.

    Viu em si a mesma feição de Teseu, humilhado. Uma revolta contida e sem forças.

    Hermes tinha certeza de que não era tão frágil quanto Teseu, e sabia, com uma certeza terrível e absoluta, que não ficaria parado vendo aquele barro rachado ser estilhaçado.

    Alguns dias se passaram. A rotina de Hermes agora envolvia com maior frequência uma visita à ala médica da propriedade.

    Por vezes, ficavam ele e Teseu quietos, observando a paisagem da parte mais altiva do terreno. Enxergavam a villa como um mundo de formigas. O pensamento soava engraçado para Teseu que era pego por Hermes sorrindo discretamente em silêncio algumas vezes, aparentemente sem motivo.

    A visão trazia lembranças para o caído. O mundo com certeza parecia maior quando visto de baixo por tanto tempo. Ele pensava. Essa vista do topo da propriedade e a brisa que vinha da janela e batia contra seu rosto, o ajudavam a se lembrar da sensação de voar.

    Infelizmente, ao abrir os olhos, a sensação sumia, dando lugar muitas vezes ao incômodo da voz irritante do curandeiro ou de algum outro servo enxerido que vinha provocar o pequeno Teseu.

    A inveja deles pelo tratamento recebido pelo garoto costumava se manter escondida quando Hermes estava presente. Mas sempre notava os olhares maliciosos que queimavam as costas dos três.

    Numa dessas visitas, após um momento de quietude que sucedeu a saída do curandeiro e do Lorde Kratos que outra vez vinha ver como se seguia o tratamento, a porta se abriu novamente, e a energia de Agouri preencheu o silêncio. Ele trazia um pêssego maduro na palma da mão.

    — Olhe, Teseu! O Jovem Lorde me deu este para você! — anunciou ele, orgulhoso. — Ele disse que o suco lhe faria bem.

    Ao encontrar o silêncio pesado e os rostos cansados, seu sorriso vacilou. — O que foi?

    Teseu aceitou a fruta com um agradecimento forçado. Agouri, sentindo a distância crescente, insistiu. — Por que estão sempre assim? Não percebem a sorte que temos em comparação com a mina?

    Hermes, que observava a cena com um distanciamento irritado, deu de ombros. — A ignorância é uma bênção, rapaz. Aproveite-a.

    A condescendência na voz de Hermes foi um golpe mais forte do que qualquer argumento. Agouri o encarou, magoado e confuso. Sentindo-se um estranho entre as duas pessoas que considerava seus únicos amigos, ele se virou e saiu da sala em um silêncio ofendido, deixando o pêssego para trás.

    Teseu suspirou. — Você não precisava ser tão duro com ele.

    — A verdade é dura — retrucou Hermes, seu olhar perdido na janela. Ele não estava pensando nos sentimentos de Agouri, mas no sistema podre que permitia que um nobre mimado manipulasse a esperança de um garoto faminto.

    …………

    Da janela da enfermaria, era possível ver um pequeno pátio de treinamento, raramente usado. Em vez de retornar para os aposentos de seu mestre, Agouri foi para lá. Ele pegou uma espada de madeira de um suporte e começou a praticar os movimentos que, sem dúvida, o Jovem Lorde lhe ensinara. 

    Seus movimentos, no entanto, eram hesitantes, desprovidos da energia habitual. Ele parou, a espada baixa, e olhou de volta na direção da ala médica, o rosto uma tela de conflito e solidão. Por um instante, pareceu que ele iria largar a espada e voltar. Mas então, ele pareceu endurecer a mandíbula. 

    Com uma determinação forçada, recomeçou a treinar, desta vez com uma fúria quase desesperada, como se tentasse esmagar a própria dúvida a cada golpe no ar. 

    …………

    Teseu suspirou. Olhou para os céus do lado de fora da janela e sorriu. Calorosamente.

    — Talvez algum dia a gente consiga sair daqui. — Ele afirmou.

    Hermes abriu a boca lentamente, pronto para acabar com as pobres esperanças do menino enfermo. Mas ele prosseguiu.

    — E aí você pode nos mostrar como é viajar vendo o mundo por cima. Né? — Ele se virou para Hermes com um sorriso ingênuo.

    Hermes ergueu as sobrancelhas em surpresa. O rosto frágil e infantil de Teseu deu lugar na sua mente à figura de seu irmão mais novo. Apolo. Lembrou-se das vezes em que ele o carregou pelos céus contra a sua vontade, mostrando os bosques e oceanos mais lindos do planeta de uma maneira que só ele conseguiria fazer. Isto é, extremamente rápida e desajeitada.

    E então, pela primeira vez desde a sua queda, Hermes sorriu.

    — Creio que sim.

    Para o que Teseu sorriu de volta.

    A conversa foi interrompida pela chegada de um servo. Ele se dirigiu ao médico-escravo.

    — Ordens da Lady Kratos — anunciou o servo. — Os suprimentos de ervas importadas da Jônia para o tratamento deste paciente foram suspensos. Os recursos são necessários em outro lugar. Usem os remédios comuns.

    O servo se retirou, deixando um silêncio pesado e gelado na enfermaria. Teseu olhava para a porta, o rosto pálido de choque, processando a sentença que acabara de ser proferida.

    Foi então que o médico-escravo, que até então permanecera curvado e em silêncio, se aproximou de Hermes. Seus movimentos eram rápidos e furtivos, os olhos assustados verificando o corredor vazio antes de se fixarem no deus caído.

    — A Senhora está descontente — ele sussurrou, a voz um fio trêmulo de pavor. — Quando ela está descontente, todos nós sofremos. Tenha cuidado, rapaz, por todos nós.

    Sem esperar por uma resposta, o médico se afastou apressadamente, voltando para suas ervas como se a conversa nunca tivesse acontecido, deixando Hermes com a confirmação sombria de que sua análise estava correta. Aquilo não era apenas uma ordem. Era o primeiro movimento de uma guerra declarada.

    O resto da tarde se arrastou. Agouri, eventualmente, retornou. A raiva se dissipara, deixando um constrangimento culpado. Ele se sentou em um canto, sem dizer nada, criando um trio silencioso e desconfortável. Hermes se sentia encurralado, não por afeto, mas pela irritante teia de obrigações que aqueles mortais teciam ao seu redor.

    A porta da enfermaria se abriu. Era Fílon, o administrador. Seu rosto estava impassível como sempre.

    — Hermes.

    O chamado foi seco e final.

    — A Lady o aguarda em seus jardins privados. Imediatamente.

    O ar gelou. Teseu olhou para Hermes com pânico genuíno. Até mesmo Agouri pareceu sentir a gravidade da situação. A serpente estava cansada de esperar.

    Hermes se levantou. Ao fazê-lo, ele olhou para os rostos preocupados dos dois rapazes. Viu a lealdade assustada nos olhos de Teseu e a confusão no de Agouri — um irmão tentando proteger o outro de um mundo que era grande demais para eles.

    Ele havia falhado com seu irmão. A culpa era uma dívida que jamais poderia ser paga. Mas ali, diante dele, estava o eco daquela mesma lealdade. Deixá-los à mercê da crueldade daquela mulher não era mais uma opção.

    Ele trocou um último olhar com Teseu — um olhar que carregava o peso de uma promessa silenciosa que o garoto não poderia compreender. 

    Ele se virou e seguiu Fílon, deixando para trás o cheiro de ervas medicinais e o silêncio repentino dos dois rapazes. Cada passo pelos corredores de mármore era um passo em direção à boca do monstro. As fendas no verniz daquela jaula dourada haviam se tornado rachaduras, e ele sentia que tudo estava prestes a se estilhaçar.

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