Capítulo 105 | Incontrolável
A morte de Pátroclo marcou o fim da esperança e o início do massacre.
Depois daquele momento, o tempo acelerou. Hermes não tentou mais intervir, de braços cruzados sobre as nuvens, ele assistia o desenrolar da tragédia que ele conhecia de cor.
Ele viu Aquiles sair de sua tenda, irascível, com o rosto desfeito em fúria. O Pelida entrou no combate e transformou o campo de batalha em um matadouro. Ele empilhou tantos corpos no rio Escamandro que as águas pararam de correr, bloqueadas pela carne morta. Viu a confusão entre Aquiles e Xanto, o espírito do rio, furioso com a poluição de suas águas pelo sangue dos inimigos de Aquiles.
Viu Heitor enfrentar seu destino, correndo ao redor das muralhas três vezes antes de cair. Hermes viu Aquiles amarrar os tornozelos de Heitor na traseira de sua carruagem. Viu o herói grego arrastar o corpo do príncipe pela terra seca, dando voltas ao redor da cidade, levantando poeira e desonrando o inimigo diante dos olhos de sua família.
Os dias se tornaram borrões de sangue e fogo.
Em meio à matança do herói dos Mirmidões, Paris disparou sua flecha covarde de cima das muralhas, longe do risco da batalha. Apolo, invisível aos mortais, tocou na haste da flecha e corrigiu sua trajetória. O bronze perfurou o calcanhar de Aquiles. O homem que parecia imortal caiu gritando. Num instante, a maior luz da Grécia se apagou.
Então veio o silêncio enganoso. A suposta rendição. Os navios gregos partiram. O cavalo de madeira ficou sozinho na praia, ‘simbolo’ de paz deixado pelos gregos. Os troianos, cegos pelo alívio, trouxeram a máquina para dentro. Beberam e comemoraram o fim do cerco.
A noite caiu e a barriga do cavalo de madeira tombou no meio da cidade, liberando centenas de soldados. Eles abriram os portões e o exército grego retornou.
Hermes viu Tróia queimar. As chamas subiram alto, consumindo os palácios e as casas comuns sem distinção. O som dos gritos das mulheres e o choro das crianças ecoou mais alto que o estalar das chamas que consumiam os palácios. O cheiro de madeira queimada se misturou ao de sangue fresco.
Hermes não desviou o olhar. Ele forçou a si mesmo a ver cada morte, cada ato de crueldade. Era o preço por sua arrogância em tentar mudar o imutável.
Finalmente, restaram apenas cinzas.
A cidade dourada era agora um esqueleto fumegante. O sol nascia sobre um silêncio sepulcral, iluminando as ruínas enegrecidas. Não havia mais gregos, nem troianos. Apenas corpos e fumaça.
E Apolo.
O Deus do Sol caminhava entre os escombros com a leveza de quem passeia em um jardim. Sua túnica brilhava imaculada em meio à fuligem. Ele chutou o capacete de um soldado morto, que rolou com um som metálico oco.
Ele parou diante de Hermes, que estava sentado em um bloco de pedra chamuscado.
— Onde está Ártemis? — seu tom leve indicava que já sabia a resposta.
— Ela precisou resolver umas coisas pra mim. — Apolo respondeu indiscretamente e suspirou.
Hermes deu de ombros. Seus olhos alcançaram uma pequena boneca de pano em chamas jogada sobre um conjunto de escadarias..
— Uma pena — disse Apolo, abrindo os braços para a destruição. — Tantos heróis. Tantas histórias encerradas abruptamente.
Ele olhou para Hermes com um sorriso condescendente.
— Você podia ter evitado isso, irmão.
Hermes levantou os olhos devagar. O brilho divino em sua pele parecia ter diminuído, e o peso em seus ombros aumentado.
— Eu tentei — disse Hermes.
— Você tentou conversar — Apolo riu, balançando a cabeça. — Você tentou usar argumentos lógicos com homens movidos pela emoção. Você tinha o poder de um Deus, Hermes. Você poderia ter estalado os dedos e matado Agamenon em sua tenda. Poderia ter esmagado Heitor antes que ele levantasse sua lança. Poderia ter obrigado todos eles a se ajoelharem e aceitarem a paz.
Apolo se aproximou, pisando sobre um escudo partido.
— A paz exige controle absoluto. Você escolheu ser fraco. Escolheu deixar que eles se matassem quando tinha todo o poder para pará-los.
Hermes se levantou e limpou a fuligem de sua túnica.
— Matar os reis não mataria a cobiça — sua voz soou cansada. — Cortar as cabeças não arrancaria a raiz do orgulho. Eles encontrariam outros líderes. Outros motivos. A guerra voltaria com outros nomes, em outros lugares. A única diferença seria que eu me tornaria o monstro que eles temem.
Apolo manteve o sorriso, mas seus olhos semicerrados mostravam um tédio profundo.
— Nós somos deuses. Eles já nos veem como monstros. Por que não aceitar o papel e facilitar as coisas?
Hermes sorriu com olhos fechados sobre o absurdo que ouvira. Então, seu semblante se tornou sério de repente.
— Diga-me. Quem é você de verdade? — O tom não admitia negociações ou dúvidas.
O sorriso da figura à sua frente se alargou de repente.
— Você é muito observador, Mensageiro — disse a voz. O timbre mudou. A ressonância divina desapareceu, dando lugar a uma voz suave e arrastada.
O deus do sol suspirou, mais uma vez, seus olhos lacrimejaram com o ato.
A pele dourada de Apolo começou a tremer.
Foi como ver cera derretendo sob uma chama invisível. O rosto perfeito do Deus se deformou, escorrendo para baixo. O nariz aquilino desmanchou, as maçãs do rosto afundaram. As roupas e armadura brilhante derreteram como ferro contra brasa e gotejaram no chão levantando fumaça. A luz divina que emanava dele se tornou uma substância viscosa, pingando no chão de cinzas.
Diante de Hermes surgira um homem jovem. O vento firme nas planícies da destruída Tróia esvoaçava seus cabelos longos e escuros que caíam soltos sobre os ombros nus. Na cintura, um tecido simples enrolado e vermelho estava enrolado, firmemente preso abaixo de seu tórax pálido e definido.
Na mão direita, surgira um cajado de pastoreio bifurcado feito de madeira escura. Presa ao centro da divisória entre as pontas curvas do cajado, uma moeda negra balançava devagar. Os olhos divinos de Hermes conseguiam enxergar, gravada nela, a efígie de um olho entreaberto.
O homem levou a mão livre à boca e bocejou, espreguiçando-se como se tivesse acabado de acordar de um sono longo e profundo, refletido pelos seus olhos escuros e marcados por olheiras.

Endimião olhou para Hermes com um sorriso sonolento nos lábios.
— Olá, Hermes — disse o Pastor de Sonhos.

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