Índice de Capítulo

    Semanas haviam se passado no reino dentro da cisterna. A umidade e o cheiro de mofo eram familiares, confortáveis. Eram o cheiro de casa.

    O grupo estava reunido em volta de um caixote de madeira que servia de mesa. Lia alisava um pedaço de pergaminho velho e manchado sobre a superfície áspera.

    — É aqui — disse ela, com o dedo para uma massa de terra desenhada de forma grosseira. — A Ásia. Dizem que as cidades lá são maiores que Therma. Dizem que ninguém passa fome.

    Vareta e Tico olhavam com olhos arregalados, hipnotizados pela promessa de tinta.

    — Podemos pegar um barco — continuou Lia numa empolgação que fez sua voz tremer. — Juntamos o que roubamos este mês, pagamos uma passagem barata e sumimos. Começamos do zero. Sem guardas conhecendo nossos rostos.

    Magno, o adulto, observava do canto, encostado na parede fria de pedra. Ele sabia o que viria a seguir. Ele se lembrava daquele dia.

    O pequeno Mag, sentado na cabeceira do caixote, fechou a cara.

    — Não — disse o garoto, seco.

    — Mag, escuta… — começou Vareta.

    — Eu disse não! — Mag bateu a mão na mesa. — Therma é nossa. Conhecemos cada beco, cada telhado. Aqui nós somos reis. Lá fora? Lá fora seremos apenas ratos de novo. Ninguém.

    — Já somos ratos aqui, Mag — retrucou Lia, firme. — Vivemos de restos dos quais os outros não dão falta e da pena de guardas e das sacerdotisas.

    O garoto se levantou, o joelho resvalou no caixote e o derrubou. O mapa caiu na água suja do chão.

    — Então vão! — gritou ele. O rosto estava vermelho de raiva. — Vão e morram no mar! Esquecidos! Vocês não duram um dia sem mim! Vocês são fracos!

    O silêncio tomou conta da cisterna. Tico encolheu os ombros. Vareta baixou a cabeça. Lia apenas olhou para ele com decepção. O pequeno Magno bufou, virou as costas e correu para a saída do túnel, desaparecendo nas sombras. O grupo ficou para trás, imóvel.

    Um soluço começou a quebrar o silêncio que antes era apenas tomado pelo estalo das chamas de uma tocha. Magno desencostou da parede.

    Ele se agachou na frente de Tico. O menino tremia levemente.

    — Ei — chamou Magno. Tico levantou o olhar. — Você não precisa dele para se esconder. Você é quase uma sombra, Tico. É o melhor e mais furtivo ladrão que essa cidade já viu.

    Tico piscou, surpreso. 

    — T-tem certeza?

    O gatuno sorriu como sempre fazia, largamente como uma raposa.

    — Mas é claro. Fui eu quem te ensinou afinal! — deu um tapa no ombro do garoto e gargalhou.

    Magno virou-se para Vareta.

    — E você… você é a cola deste grupo. Você nos faz rir quando devíamos chorar. Isso é coragem, Vareta. Mais coragem do que eu tenho.

    — Deixa eu adivinhar. Você me ensinou isso também? — Perguntou Vareta com os olhos semicerrados, desconfiados.

    Magno sorriu de novo.

    — Não. Eu jamais seria capaz de ensinar isso pra você, porque eu mesmo não sou assim…

    A expressão de Vareta mudou para uma de surpresa. Magno bagunçou seu cabelo espetado, o que acabou não tendo grandes efeitos.

    Por fim, ele olhou para Lia que recolhia o mapa molhado do chão.

    — Você estava certa — disse Magno.

    Lia o encarou.

    — Sobre a Ásia?

    — Sobre tudo — Magno tocou o ombro dela. — O sonho era válido. O plano era bom. Therma é um buraco e vocês mereciam mais. 

    Ela franziu o cenho.

    — Como assim era?

    Magno arregalou os olhos por um instante, então riu de forma desconcertada.

    — Tem razão. Que tolice a minha. — O gatuno coçou o queixo. — O Mag… ele sabe disso. Ele só é orgulhoso demais para admitir que está com medo e, mais tarde ele vai perceber que você tinha razão.

    Lia baixou os olhos para o mapa em suas mãos. Ensopado. Com um sorriso melancólico ela assentiu.

    Magno se lavantou e, após se alongar escandalosamente, suspirou.

    — Vou trazer o moleque de volta. De cabeça fria dessa vez.

    Os três sorriram e assentiram.


    A subida foi longa. Quando saiu no beco atrás do mercado de peixes, o sol de fim de tarde batia nos telhados de terracota.

    Ele sabia o lugar exato, ou melhor, lembrava-se dele. Caminhou até o velho porto desativado, onde as vigas de madeira apodreciam na água salobra.

    Seus olhos percorreram todo o solitário cais, até encontrarem uma pequena figura sentada à borda de uma plataforma de madeira, jogando pedras na água.

    Magno se sentou ao lado dele. O garoto não o olhou.

    — Veio me dar sermão também? — resmungou o menino.

    — Não — respondeu Magno. — Vim dizer que entendo.

    O garoto parou com a pedra na mão.

    — Eles não entendem — disse o pequeno, a voz embargada. — Meu pai morreu aqui como um ninguém. Eu cresci aqui. Se eu sair, vou ser só mais um órfão sujo. Aqui, eles precisam de mim.

    — É verdade — concordou Magno. — O orgulho é uma âncora pesada. Faz a gente se sentir seguro, firme no lugar.

    Ele olhou para o horizonte, onde o mar encontrava o céu.

    — Mas me diga uma coisa, Mag. O que vale mais? Ser o rei do lixo sozinho, ou ser um ninguém ao lado deles?

    Um momento de silêncio se assentou entre os dois, antes que o jovem Mag deixasse a pedra que segurava cair na água abaixo de seus pés.

    O menino fungou e limpou o nariz na manga da túnica suja.

    — Eu não queria ter dito aquilo — sussurrou o garoto. — Eu não acho que eles são fracos. Eu é que sou. Eu não duro um dia sem eles.

    Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos como na abertura de uma fonte. Ele, no entanto, permaneceu em silêncio.

    Magno sorriu. Ele passou o braço pelos ombros magros de sua versão mais jovem.

    — Eu sei — disse ele. — Eu sei bem disso…

    O choro aumentou aos poucos, ao ponto de incomodar as almas que se faziam presentes naquele lugar preterido. Mag abraçou Magno e deixou escapar um choro desesperado, acumulado e esquecido.

    Após alguns minutos, o garoto se acalmou.

    — Vamos voltar agora. Eles estão te esperando. — Disse o gatuno.

    O menino assentiu e limpou o rosto.

    Eles se levantaram e caminharam de volta para a cidade. O sol estava se pondo, pintando as ruas de laranja e roxo. Pássaros cantavam e pescadores riam, tumultuando o final da tarde na costa de Therma.

    Mas à medida que se aproximavam da entrada da cisterna, o som mudou. Mag franziu o cenho. Pareciam gritos, não de alegria ou festejo, mas de lamentação. Ao longe, uma nuvem densa de poeira branca subia para o céu.

    O pequeno Magno arregalou os olhos.

    — Não… — ele disse.

    O garoto começou a correr. Magno o seguiu, mas num passo calmo, medido.

    Eles chegaram ao beco.

    Um prédio velho, um armazém de grãos que ficava acima da cisterna, havia desabado. Pilhas de tijolos, madeira e telhas bloqueavam a entrada.

    Uma multidão se aglomerava ao redor, tossindo na poeira.

    O pequeno Magno gritou o nome de Lia. De Vareta. De Tico.

    Ninguém respondeu. A multidão estava repleta de olhos julgadores para o garoto das vielas, alguns pesarosos, mas quase sempre, aliviados por não estarem naquela situação.

    O garoto se jogou contra os escombros. Ele começou a puxar pedras com as mãos nuas. Ele chorava, gritava, rasgava as unhas e a pele tentando abrir um buraco, qualquer buraco, para chegar aos seus amigos.

    — Me ajude! — gritou o menino, olhando para trás. — Por que você está parado aí? Me ajude a tirar eles de lá!

    Magno estava parado a dois metros de distância. Ele olhava para a cena com olhos pesarosos, mas enxutos.

    — Não — disse Magno.

    O menino parou e seu rosto coberto de poeira e lágrimas se contorceu em ódio.

    — O quê? Eles vão morrer! Precisamos salvá-los!

    — Eu não posso salvá-los, Mag — disse Magno, a voz calma. — Nem se eu quisesse muito.

    — Por que não?! — berrou o garoto.

    — Porque eles já estão mortos — respondeu Magno. — Eles morreram anos atrás. Neste desabamento.

    O pequeno Mag soltou a pedra que segurava.

    — Eu sabia — continuou Magno, uma lágrima escorreu pelo seu rosto adulto numa linha irregular, embora sua voz não tremesse. — Desde o momento em que pisei nesta cidade, eu sabia. Era tudo mentira. Uma mentira doce, mas uma mentira.

    O menino olhou para as próprias mãos sujas. Depois olhou para os escombros. Aos poucos, a expressão de pânico e dor desapareceu. O rosto do pequeno Magno suavizou-se. Ele deu um sorriso compreensivo, quase adulto.

    — Entendo — disse a criança. — Você ficou tempo demais aqui.

    — Fiquei — admitiu Magno. — E creio que não posso ficar mais. Não pude salvar eles, mas tenho amigos pelos quais ainda posso lutar lá fora.

    — Então o que está esperando? — perguntou Mag.

    Magno assentiu, e viu no canto de sua visão o mundo esmaecer, perder o brilho e a definição. Ele se virou, com o rosto neutro, e encarou uma massa de nada que engolia as montanhas atrás de Therma avançando, tomando tudo e tornando aquilo, mais claramente que sempre fora, numa memória.

    — Adeus, Mag.

    Magno fechou os olhos.

    Quando os abriu novamente, já sentia o cheiro de sal.

    Ele estava deitado de costas. O chão não era pedra, mas areia grossa. O céu não tinha prédios, apenas as estrelas e a lua sobre as ruínas de uma muralha antiga.

    Ele estava de volta a Tróia. Sozinho na praia, com a mão fechada sobre a adaga em sua cintura. Quando seus dedos tocaram a maçã do rosto, percebeu que chorava.

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