Capítulo 68 | Besta-fera
O caos era absoluto. Casas que antes eram lares agora eram piras funerárias, as chamas alaranjadas lambendo as vigas de madeira e cuspindo fumaça negra e acre para o céu noturno. Gritos de terror e agonia ecoavam de todas as vielas, uma sinfonia de desespero abafada pelo som de pedra se partindo e pelos guinchos antinaturais das quimeras.
As criações do Curandeiro corriam descontroladas. Monstros do tamanho de cães, com corpos de lagarto e cabeças de aves de rapina, perseguiam os aldeões em pânico. Aberrações serpentinas com patas de inseto rastejavam pelas paredes dos edifícios, suas múltiplas garras procurando por presas.
Licaão era a personificação da fúria. Ele se moveu como um furacão de pelo negro e garras, um rosnado gutural rasgando o ar a cada monstro que ele encontrava. Suas garras rasgaram uma quimera-cão ao meio, suas presas esmagaram o crânio de outra.
Teseu, por sua vez, exausto, mas movido por uma adrenalina febril, dançava na periferia da fúria de Licaão. Enquanto o homem-lobo abria uma clareira de carnificina, Teseu protegia seus flancos, sua xiphos cortando o ar para abater uma criatura que tentava atacar a grande besta pelas costas.
Viu uma família encurralada sob a varanda de uma taverna em chamas. Sem hesitar, ele se interpôs entre eles e uma quimera com corpo de javali e pinças de caranguejo, mantendo a criatura ocupada tempo o suficiente para que Plutarco chegasse.
— Para o templo! — Plutarco gritou, sua voz surpreendentemente firme em meio ao caos. Superando seu medo, ele agarrou a mão de Althea e começou a guiar um grupo de civis aterrorizados. — As paredes são de pedra sólida! Rápido!
Enquanto a batalha se desenrolava, o escriba e a menina se tornaram um farol improvável de esperança, reunindo os sobreviventes e levando-os para a única estrutura que poderia lhes oferecer refúgio, deixando o campo de batalha para os dois guerreiros que lutavam como um só.
O ar estava espesso com fumaça e o cheiro de sangue.
Teseu e Licaão limparam a rua principal, os corpos de quimeras menores espalhados ao redor deles. O lobisomem ofegava, o vapor a sair de suas presas, enquanto Teseu se apoiava nos joelhos, tentando recuperar o fôlego, a exaustão a pesar em seus músculos. Foi então que ele a viu.
No final da rua, a quimera-chefe esmagou a fachada de uma loja com um golpe de sua pata de urso e virou-se, suas duas cabeças a olharem diretamente na direção do templo para onde Plutarco havia levado os civis.
— Não… — Teseu murmurou.
Ele preparou-se para correr, para interceptá-la, mas três quimeras mais pequenas e ágeis, com corpos de hiena-listrada, surgiram de uma viela lateral, bloqueando seu caminho, os seus múltiplos olhos fixos nele. Ele estava preso. Não conseguiria passar por elas a tempo.
Ele olhou para a força da natureza ao seu lado. Para Licaão. A confiança era um risco, uma aposta desesperada. Mas era a única que ele tinha.
Abriu caminho como um furacão. O jovem herói acabou com as quimeras menores abrindo caminho com economia nos golpes de espadas. Ele chegou ao homem-lobo e, aparecendo à sua frente, balanço a lâmina para chamar-lhe a atenção.
O lobisomem parou a sua carnificina. Ele virou a sua cabeça maciça, e os seus olhos carmesim encontraram os de Teseu por um instante.
Com a ponta da espada, Teseu apontou e a fera se virou. A enorme quimera já adentrando a praça, marchava em direção ao templo.
Apenas um rosnado baixo, profundo, um entendimento que transcendia as palavras. Então, Licaão explodiu em movimento, um borrão negro de fúria que disparou pela rua em direção à praça central, deixando Teseu a sós com os seus próprios demónios que, por sinal, ainda eram muitos.
O jovem herói suspirou, desejando não se arrepender de sua decisão, e então se virou novamente para sua missão. Sombras incontáveis surgiam das cinzas da cidade, misturando-se à fumaça. Ele ergueu a espada à frente do corpo e franziu o cenho em determinação.
Foi na praça central, a ágora, que a encontraram. A quimera-chefe. A monstruosidade de duas cabeças estava de pé sobre os destroços de uma fonte, um colosso de carne e fúria a rugir para o céu em chamas. As quimeras menores pareciam evitar o seu caminho, reconhecendo instintivamente o predador alfa.
No outro extremo da praça, uma figura emergiu das sombras. O Curandeiro. Seu rosto agora estava desfigurado pelo choque e pela raiva. Seu plano de deter o herói, de criar a força absoluta. Ele encarava tudo de uma nova perspectiva.
Ele via sua obra-prima a destruir a cidade que ele pretendia “salvar”.
— Basta! — ele gritou, a voz carregada de uma autoridade que ele acreditava possuir. — A mim! Obedeça ao seu criador!
A cabeça de urso da quimera continuou a rugir, mas a cabeça de lobo virou-se lentamente, os olhos carmesim fixando-se no Curandeiro. Um rosnado baixo e ameaçador vibrou do fundo de sua garganta. A criatura não tinha mestre.
A quimera então sentiu outra presença. Seus olhos passaram pelo Curandeiro e se fixaram em Licaão. Naquele instante, a batalha por Pella se tornou secundária. Aquela era uma disputa de domínio.
Com um urro que fez os vidros das janelas restantes estilhaçarem, a quimera-chefe avançou. Licaão não recuou. Ele se lançou ao encontro dela, e os dois monstros colidiram no centro da praça com um impacto que fez o chão de pedra tremer.
O que se seguiu foi um confronto de força absoluta. A quimera usava seu peso e seus múltiplos membros, a cabeça de urso mordendo e esmagando, a de lobo rasgando, as serpentes em suas costas a sibilarem e a darem botes venenosos. Licaão, embora menor, era mais rápido e infinitamente mais feroz. Ele se esquivava dos golpes pesados, as suas garras a abrirem sulcos profundos na carne disforme da quimera.
Eles se chocaram contra colunas de mármore, que se partiram como gravetos. Licaão foi arremessado contra a parede de uma loja, mas ergueu-se com um rosnado, o sangue a escorrer de uma dúzia de feridas.
Arremessou um punhado de rochas enormes que foram rebatidas com o braço pela quimera-urso. O lobo avançou com a mandíbula aberta e cravou suas presas enormes no pescoço da cabeça de urso. A cabeça de lobo da quimera retribuiu a mordida.
Licaão rugiu, sem vacilar na pressão, e agarrou as galhadas enormes no topo das cabeças da quimera. O urso grunhiu, tentando mordê-lo também, mas seus movimentos estavam limitados.
A força do homem-lobo, naquele instante, poderia fazer um buraco numa montanha, mas se concentrou nas galhadas. Ele puxou, puxou, torceu e arrancou.

O urso rugiu com a dor e sangue negro e espesso esguichou do topo de sua cabeça. Ele agarrou Licaão e o arrancou do próprio pescoço, arremessando-o contra o chão. O lobo, de pronto, se ergueu, e com as galhadas nas mãos, rugiu de volta.
A quimera urrou com suas duas cabeças enquanto o sangue escorria cobrindo a de urso, e então avançou.
Numa abertura, Licaão mergulhou por baixo das cabeças que o atacavam e cravou as galhadas que segurava profundamente na costura que unia o torso do urso às suas patas traseiras. A quimera urrou em agonia, tentando livrar-se dele, mas Licaão não largou. Com um rugido que era um grito de pura força e ódio, ele rasgou.
O som foi nauseante. Um rasgo úmido de carne, músculo e osso a ceder. Licaão abriu o corpo da quimera ao meio, as partes unidas caindo retorcidas para lados opostos em uma poça de sangue escuro e entranhas.
As cabeças, ainda presas à metade superior, rugiram baixo e, ainda presas em um desespero férico e sobrenatural, se arrastaram com as patas dianteiras, tentando alcançar mais uma vez o seu algoz.
Licaão se aproximou sobre suas duas patas traseiras e, num último golpe, perfurou as duas cabeças da quimera com suas próprias galhadas arrancadas.
O monstro estava morto. Licaão, ofegante e sangrando profusamente, ficou de pé sobre a carcaça, o vitorioso.
Do outro lado da ágora, ecoou um grito de Teseu, um rugido. Sua luta contra as quimeras menores também parecia ter acabado. O lobo gigante pareceu suspirar profundamente de forma selvagem. E então, se pôs a andar na direção da outra luta.
Foi então que ouviu, de trás de si, um grito, um rugido velho e patético. Ele se virou e viu, o Curandeiro, ajoelhado ao lado da carcaça morta, com os braços erguidos sobre o rosto e um mar de sangue negro escorrendo entre eles diretamente para sua boca.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.