Capítulo 117 | Além do Topo (1)
O vento no topo do platô soprava constante, agitando as penas da Águia gigante que agora repousava imóvel diante de Teseu. O brilho verde nos olhos do rapaz desapareceu, e o que restou foi uma expressão de cansaço súbito.
Perto da saída da trilha, o Guia descruzou os braços. Ele bateu as mãos na túnica, limpando a poeira da caverna, e deu dois passos para trás, em direção à descida.
— Meu trabalho termina aqui — disse o Guia. Sua voz estava calma, num contraste com a respiração pesada dos outros. — A partir deste ponto, minha presença é desnecessária. Não há mais perigos à espreita nesta montanha.
Teseu e Licaão se viraram com olhos semicerrados, sem a certeza de que haviam realmente escutado aquilo. O guia bocejou, despreocupado.
Plutarco, que ainda estava agachado atrás de uma pedra, levantou-se devagar. Ele ajeitou os ombros tortos e olhou para o homem encapuzado com ceticismo e preocupação.
— Tem certeza disso? — perguntou o escriba, a voz carregada de desconfiança. — Da última vez que garantiu nossa segurança, fomos atacados por uma serpente colossal e depois por essa ave.
O Guia sorriu.
— Tenho certeza — respondeu ele. — O caminho agora é apenas para cima. Não existem mais guardiões entre vocês e seus objetivos.
Ele se virou para partir, mas parou e olhou para o grupo uma última vez. O sorriso em seu rosto diminuiu até se tornar uma linha séria.
— Antes que partam, um conselho final. Tenham cuidado com as palavras lá em cima. Não citem os Deuses. Não falem de credos, orações ou do Olimpo.
Teseu franziu a testa.
— Por que não?
— Apenas não o façam — cortou o Guia. — E deixem que ele fale primeiro. Ele passou muito tempo ouvindo apenas o vento e não lida muito bem com interrupções.
Licaão estalou a língua, sem dar muita importância para as instruções.
— É só ele responder às minhas perguntas que tudo vai ficar bem. — ralhou o bruto enquanto se levantava com esforço da pedra em que se havia apoiado.
Não deu importância à resposta. O homem puxou o capuz mais para frente, deixou a sobra cobrir seu rosto, e começou a descer a trilha. Em poucos segundos, sua figura desapareceu atrás das rochas, deixando o grupo sozinho com a criatura gigante.
O silêncio imperou por algum tempo, rompido apenas pelo assobio do vento. Teseu encarava Ethon com olhos atentos e pensativos. Ele olhou para cima, onde o topo da montanha sumia em meio a mais uma camada de nuvens, e olhou para seu grupo, cansado, exausto. Licaão respirava profusamente, Plutarco parecia tenso ainda, de olho no trecho em que o Guia descera, talvez sem acreditar que estavam realmente sozinhos agora.
Teseu virou-se para a Águia. Ethon o observava com seu único olho dourado. O outro lado da cabeça era uma massa escura de sangue coagulado.
— Leve-nos ao topo — ordenou Teseu.
Os outros dois se viraram para ele com sombrancelhas franzidas.
A Águia soltou um grunhido baixo na garganta e abaixou a asa esquerda, formando uma rampa improvisada para que subissem.
Teseu fez um sinal para os outros. Plutarco hesitou, olhando para as garras da besta, que eram maiores que sua cabeça. Licaão, no entanto, ao ver a reação da águia, avançou. Mas quando o guerreiro colocou a bota sobre a primeira pena da asa, Ethon reagiu.
A Águia levantou o pescoço bruscamente. As penas da nuca se eriçaram, fazendo um som de metal raspando. Ela estalou o bico na direção de Licaão e soltou um silvo agressivo.
Licaão recuou um passo e levou a mão direto para as facas na cintura.
Os dois se olharam em um silêncio agressivamente gritante. Teseu suspirou e tomou a frente da águia, se interpôs entre os dois.
— Vocês estão quites — sua voz serena buscava acalmar a criatura. — Licaão a atacou, e você o jogou contra a parede da montanha. Aquele golpe poderia ter quebrado a coluna dele. Ninguém deve nada a ninguém aqui.
Ethon não recuou. Ela mantinha o olho focado em Licaão e o corpo tenso, pronta para atacar se ele tentasse subir novamente.
Teseu suspirou. Ele viu a desconfiança mútua. Licaão não subiria em uma criatura que queria matá-lo, e a criatura não carregaria o homem que a cegou.
— Abaixe-se — pediu Teseu à Águia, estendendo a mão.
A contragosto, a ave obedeceu ao comando imposto pela vontade do rapaz. Ela abaixou a cabeça enorme até ficar na altura do peito de Teseu.
O ferimento era feio. A faca de pedra de Licaão havia destruído o globo ocular e rasgado a pálpebra. O sangue ainda escorria lentamente.
— Isso vai doer — avisou Teseu.
Ele colocou as duas mãos sobre a cavidade ocular destruída. Licaão observava com atenção e braços cruzados, enquanto Plutarco se aproximava com seu bloco de notas, fascinado e horrorizado ao mesmo tempo.
Teseu fechou os olhos. Uma luminênscia fraca envolveu suas mãos e ao toque, estendeu-se para a cabeça da Águia.
A carne da ave estremeceu em espasmos. Ethon soltou um guincho abafado, mas não se moveu. O cheiro de ozônio preencheu o ar, carregado pela brisa. Sob os dedos de Teseu, tecidos se expandiam e reconectavam, como cordas de tecelagem.

Quando a luz cessou, Teseu afastou as mãos e limpou o suor da testa.
O olho estava lá. Não dourado e brilhante como o original. Era cinza, opaco e leitoso, como uma pedra de rio.
Ethon piscou. A pálpebra estava intacta. Ela virou a cabeça, testando a nova visão. O olho cinzento focou em Licaão. Não havia mais a agressividade de antes. Era ela uma criatura simples.
— Ela enxerga — disse Teseu, ofegante. — Agora subam. Não vamos perder mais tempo.
Licaão olhou para a ave, depois para Teseu. Ele assentiu, descruzou os braços e subiu nas costas da criatura sem dizer uma palavra. Teseu subiu em seguida, sentando-se à frente, na base do pescoço. Plutarco precisou de ajuda para escalar, tremendo visivelmente, e se acomodou entre os dois, agarrando-se à cintura de Teseu com força desnecessária.
— Segurem-se — disse Teseu.
Mas Plutarco sequer precisou desse aviso.
A ave se ergueu em uma postura semi-ereta, girou o pescoço e se garantiu de que todos estavam devidamente seguros. Com um balanço de cabeça, Ethon correu três passos largos pelo platô e saltou.
O estômago de Teseu revirou quando o chão desapareceu. O vento bateu contra eles com força, e os forçou a fechar os olhos por um momento. A variação de pressão fez Plutarco chegar perto de um desmaio.
Quando o vento contra o rosto relaxou, Teseu abriu os olhos. Eles estavam subindo rápido. O Templo de Apolo já era apenas um ponto branco lá embaixo. Em um minuto, o local da batalha, o ninho com os ovos, tudo ficou para trás.
A Águia batia as asas com um ritmo poderoso. A cada impulso, eles subiam dezenas de metros. O pico do Monte Parnaso aproximou-se. Era uma ponta de rocha coberta de neve eterna.
— Estamos chegando! — gritou Plutarco, apertando os olhos contra o vento.
Mas Ethon não diminuiu a velocidade e ultrapassou o pico. Ela continuou subindo, deixando o ponto mais alto da terra firme para trás.
Teseu olhou para baixo, confuso. Eles estavam voando sobre o cume, subindo em direção ao nada.
— Pare! — gritou Teseu para a Águia. — Nós passamos! O topo ficou para trás!
Ethon ignorou. Ela virou o pescoço levemente e soltou um som que parecia um questionamento, então bateu as asas com mais força.
Teseu olhou para cima.
O céu azul estava desaparecendo. Uma camada densa, cinza e uniforme de nuvens descia sobre eles como um teto.
— “Além do Monte Parnaso…” — sussurrou Teseu, lembrando-se das palavras do velho e do Guia. A compreensão atingiu sua mente junto com uma leve dor de cabeça pela lufada de ar frio contra o rosto.
A Águia gritou e mergulhou nas nuvens.
O mundo ficou branco. A luz do sol sumiu. O ar tornou-se gelado e úmido. Gotas de água condensavam instantaneamente em suas roupas e cabelos. Não era possível ver um palmo à frente do nariz.

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