Capítulo 118 | Além do Topo (2)
— “Além do Monte Parnaso…” — sussurrou Teseu, lembrando-se das palavras do velho e do Guia. A compreensão atingiu sua mente junto com uma leve dor de cabeça pela lufada de ar frio contra o rosto.
A Águia gritou e mergulhou nas nuvens.
O mundo ficou branco. A luz do sol sumiu. O ar tornou-se gelado e úmido. Gotas de água condensavam instantaneamente em suas roupas e cabelos. Não era possível ver um palmo à frente do nariz.
Licaão praguejou algo que o vento levou. Plutarco enterrou o rosto nas costas de Teseu.
A subida parecia interminável dentro daquela neblina densa. A sensação de direção se perdeu. Eles podiam estar de cabeça para baixo e não saberiam. Apenas o bater rítmico das asas de Ethon indicava que ainda estavam em movimento.
Então, a claridade mudou. O cinza começou a ficar mais leve, mais brilhante. Com um último impulso, Ethon rompeu a barreira.
A luz do sol atingiu seus rostos com violência. Teseu piscou, os olhos ardiam com o brilho repentino. Quando sua visão se ajustou, ele perdeu o fôlego.
Abaixo deles, as nuvens formavam um tapete infinito, um oceano branco e imóvel que se estendia até onde a vista alcançava. O céu acima era de um azul escuro, límpido, sem nenhuma outra nuvem.
— Pelos deuses… — murmurou Plutarco, erguendo a cabeça com os olhos chocados e admirados.
Mas não foi o mar de nuvens que fez Licaão ficar rígido atrás de Teseu.
— Vocês… — chamou. — Olhem!
Os dois viraram-se para o colega curiosos, então acompanharam o movimento de sua cabeça, para cima. Seus queixos caíram. Acima deles, flutuando no vazio do céu, havia uma ilha.
Era uma formação rochosa gigantesca, como se o pico de uma montanha tivesse sido arrancado da terra e suspenso no ar por fios invisíveis. A base era irregular, rocha bruta e escura.
Ethon planou, diminuindo a velocidade ao se aproximar da borda daquele lugar impossível.
— O velho não estava mentindo — disse Licaão.
A Águia pousou na borda da ilha flutuante. Suas garras rasparam na pedra dura e se cravaram no solo pedregoso com facilidade. Sem cerimônias, eles desceram com as pernas trêmulas e rígidas pelo frio e pela tensão.
Teseu olhou ao redor. A ilha parecia morta. Havia apenas pedras, poeira e o silêncio absoluto. Uma subida íngreme se estendia da borda onde pousaram em direção ao centro da ilha, onde picos de rocha negra se erguiam como agulhas contra o céu.
— Acho que já sabemos para onde ir… — Comentou Plutarco tentando fingir descontração, mas com um sorriso tenso no rosto.
Os outros dois assentiram e se puseram em marcha. O solo era feito de uma rocha cinzenta e porosa que estalava sob o peso das botas. Ao contrário da tempestade que enfrentaram durante a subida, o vento aqui era escasso. A brisa fria que soprava de pouco em pouco trazia consigo um cheiro de pedra seca e poeira acumulada por séculos.
A vegetação era escassa. Apenas arbustos espinhosos cresciam entre as fendas do chão. Árvores mortas pontuavam a paisagem com troncos enegrecidos e retorcidos, sem uma única folha nos galhos secos. Nada se movia. Nem mesmo insetos a rastejar na terra, Teseu os teria percebido. A luz do sol iluminava tudo com clareza, mas o ambiente parecia drenado de cor.
Licaão, obstinado, ia à frente do grupo, caminhando com passos largos e decididos. Teseu vinha logo atrás, olhando para os lados, atento a qualquer movimento entre as rochas. Plutarco, ainda recuperando o fôlego da viagem aérea, fechava a fila, tropeçando ocasionalmente no terreno irregular enquanto tentava observar tudo ao mesmo tempo.
Eles subiram a encosta suave que levava ao ponto mais alto da ilha.
Ao chegarem ao topo, o terreno se nivelava em um platô circular. Seus olhos se arregalaram de imediato com a visão do último degrau. No centro, erguia-se uma estrutura natural colossal. Um pilar de rocha bruta, largo e alto, projetava-se em direção ao céu com capacidade de perfurá-lo.
E preso a ele estava o Acorrentado.
O tamanho dele desafiava a compreensão imediata. Ele era colossal, um gigante de proporções que faziam qualquer homem adulto parecer uma formiga. Seu torso nu era largo e coberto de músculos definidos, mas a pele tinha um tom pálido, quase translúcido, marcado por cicatrizes brancas e outras avermelhadas.
Seus braços estavam abertos, estendidos para os lados. Correntes grossas, feitas de um metal negro e sem brilho, prendiam seus pulsos e antebraços, fundindo-se à rocha do pilar atrás dele. As argolas eram tão espessas quanto o tronco de uma árvore.
Ele usava apenas um tecido rasgado e sujo ao redor da cintura. Suas pernas eram como colunas de mármore sujo, esticadas e imóveis.
Teseu sentiu um arrepio ao olhar para os pés do gigante. Eles não tocavam o chão.
Dois cravos de ferro, longos e enferrujados, atravessavam os tornozelos do Titã, pregando-o à base rochosa do pilar. O osso e a carne ao redor do metal estavam deformados. Uma mancha escura de sangue seco formava um círculo na pedra abaixo dos pés, testemunha de uma ferida que nunca fechava completamente.
Estava de cabeça baixa. Seus cabelos negros e longos caíam para frente como uma cortina pesada, escondendo completamente o rosto e o peito. Ele não se movia. Sua respiração era tão lenta e superficial que, não fosse sua imensidão, se seria imperceptível.
O grupo parou a uma distância respeitosa. A grandiosidade da punição imposta àquele ser pesou sobre os ombros dos três mortais.
Plutarco, com os olhos arregalados por trás das palpebras sujas, tateou a bolsa em busca de seu bloco de notas e do estilete de metal.
— É ele… — sussurrou o escriba, a voz falhando. — Prometeu.
Ele puxou o bloco com pressa, ansioso para registrar aquele momento histórico. Seus dedos tremiam de excitação e nervosismo. Ao tentar ajustar o pergaminho na mão esquerda, ele perdeu a firmeza na mão direita.
O estilete de bronze escorregou de seus dedos suados.
O objeto caiu, girando no ar, e bateu contra a rocha dura do chão.
Clim.
O som foi agudo e metálico. No silêncio absoluto daquele cume isolado, o barulho ecoou num contraste ao assobio das brisas.
Teseu e Licaão se viraram para Plutarco com expressões de repreensão, mas congelaram ao ouvir outro som.
Era o som de metal roçando em metal.
As correntes negras estalaram. Os elos tencionaram.
Lentamente, com um esforço que parecia custar-lhe uma dor imensa, o Acorrentado ergueu a cabeça. Os músculos do pescoço se contraíram.
A cortina de cabelos negros se afastou, revelando o rosto.
Ele tinha uma barba farta e escura, que descia até o peito. Suas feições eram nobres, retas e duras, mas carregavam um cansaço infinito.
Ele abriu os olhos.
Licaão deu um passo para trás. Teseu prendeu a respiração.
Não havia pupilas. Seus olhos eram inteiramente de um branco profundo e opaco, com cantos avermelhados como sangue velho.
O Acorrentado fixou aquele olhar perturbador nos três viajantes parados diante dele e, sério e imóvel, avaliou os intrusos que ousaram perturbar seu silêncio eterno.


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