Capítulo 119 | O Titã Acorrentado (1)

O assobio fraco do vento era absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada dos três viajantes diante do colosso acorrentado.
Prometeu mantinha a cabeça erguida e seus olhos, vermelhos e sem pupilas, estavam fixos nos três homens parados à sua frente. Sua respiração lenta expandia o peito largo com um chiado quase imperceptível.
Teseu sentiu a garganta secar. Ele olhou para os braços imensos do Titã, depois para as correntes negras que perfuravam a rocha. Licaão, ao seu lado, permaneceu com os pés afastados, a mão direita fechada com força ao lado do corpo. Plutarco estava atrás de Teseu, segurando seu bloco de notas contra o peito com mãos trêmulas que faziam o papel vibrar.
Ninguém se moveu por um longo momento.
O Titã abriu a boca. Seus lábios estavam ressecados e rachados.
— Então vocês chegaram…
A voz dele era grave. O som vibrou no chão de pedra sob as botas de Teseu numa autoridade anciã que fazia a mente dos que a ouviam querer se dobrar em respeito.
Teseu engoliu em seco. O som de sua própria saliva a descer na garganta pareceu alto. Ele respirou fundo e forçou o ar para dentro dos pulmões. Então, deu um único passo à frente.
— Você estava nos esperando? — Sua voz saiu mais baixa do que ele pretendia.
Prometeu piscou lentamente.
— Poucas coisas não são esperadas por mim, pequenino.
O silêncio retornou.
Prometeu moveu os dedos da mão direita. O metal dos elos da corrente rangeu quando eles rasparam uns nos outros num som áspero.
— Aproximem-se — disse o Titã.
Teseu fez menção de andar, mas parou ao ouvir o movimento de Licaão. O guerreiro de Arcádia recuou meio passo, forçando os punhos fechados ao lado do corpo. Plutarco também não se moveu, seus olhos alternavam entre os cravos nos pés do gigante e seu rosto inexpressivo.
O Titã percebeu a hesitação e suspirou.
— Não temam — disse Prometeu. — Mesmo que eu quisesse, não poderia fazer-lhes mal algum.
Para demonstrar, ele girou o tronco levemente para a frente.

Clang.
O som foi alto e violento. A corrente do braço direito esticou até o limite, travando o movimento do Titã no ar. A rocha do pilar atrás dele estalou com a tensão, mas não cedeu. O corpo colossal parou, retido pelo metal negro.
Prometeu relaxou o corpo contra a pedra novamente.
Licaão soltou o ar que prendia. Teseu olhou para Plutarco e assentiu.
Eles pararam onde a sombra do gigante cobria o chão.
Prometeu baixou o olhar para eles, depois desviou os olhos para o céu azul e infinito à distância.
— Enfim, chegaram. Mais visitantes — murmurou o Titã, olhando para o horizonte vazio. — Quantos séculos esperei?
Teseu observou o perfil do gigante. A pele pálida do rosto de Prometeu estava esticada sobre os ossos da face e as maçãs do rosto, agora vistas mais de perto, pareciam fundas.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntou Teseu.
Prometeu não respondeu imediatamente. Ele manteve os olhos fixos no nada. O silêncio se estendeu por dez, vinte segundos. O vento frio da altitude soprou mais forte, balançando os cabelos negros do Acorrentado e agitando a túnica de Plutarco. O grupo estremeceu com o frio súbito. O silêncio do Titã disse muito. Seus olhos cansados mostravam que já não media o tempo em dias, meses ou anos, mas em eras.
Plutarco limpou a garganta e ergueu sua plaqueta de madeira e cera, a outra mão segurava o estilete entre dedos trêmulos.
— As lendas… — começou Plutarco, mas sua voz falhou. Ele tossiu e tentou de novo. — As lendas dizem que Zeus prendeu você no Cáucaso. O que faz aqui, neste lugar escondido?
Prometeu virou o rosto lentamente para o escriba e franziu o cenho. Por um momento, Plutarco sentiu um arrepio que o fez dar um passo para trás. As palavras do guia sobre não falar de outros deuses vieram de repente à sua mente. Ele havia se esquecido.
Com um grunhido que vinha de sua garganta, Prometeu resmungou.
— As lendas dizem o que Zeus quer que elas digam.
A irritação do Titã fez o grupo se calar. Licaão olhou para Plutarco com olhos irritados.
Prometeu respirou fundo, o peito largo subiu fracamente lutando contra as correntes que cruzavam seu torso.
— Zeus sempre foi protetor com a sua prole — continuou Prometeu. — Ao ponto de cometer injustiças para favorecê-los.
— Eu… eu não entendo. — a voz de Plutarco soou curiosa e temerosa ao mesmo tempo. Mas ele não perderia a chance de saber mais.
Os olhos de Prometeu se fecharam, cansados, e sua boca se abriu mais uma vez.
— Ele tirou dos Titãs o mérito por suas habilidades e funções naturais, e entregou tudo a seus filhos.
Prometeu fez uma pausa. Ele olhou para o sol que brilhava forte acima deles.
— Hélio era o Sol. A luz que aquecia a terra. Agora, fora reduzido a um prisioneiro, esquecido no céu, para que Apolo receba as glórias em seu nome enquanto desfila pelos céus numa carruagem dourada fingindo trazer o dia para os mortais.
Plutarco começou a anotar rápido, o estilete arranhava a cera enquanto ele mordia o lábio inferior.
— O mesmo aconteceu com Oceano — disse Prometeu, baixando o olhar para o mar de nuvens. — O domínio das águas foi tirado dele para que Poseidon pudesse reinar sobre os mares. Os antigos foram apagados para que os novos brilhassem.
Teseu franziu a testa.
— Mas… eu pensei que você tivesse lutado ao lado dele na Titanomaquia — disse Teseu. — As histórias dizem que você foi um aliado do Olimpo.
Prometeu olhou para Teseu.
— O meu pecado foi outro, garoto. Não o de enfrentá-lo em batalha.
O Titã encostou a cabeça na pedra dura do pilar.
— Zeus mente e dissimula em nome de seus interesses. E isto não é um hábito recente.
— O que quer dizer? — perguntou Plutarco ao parar de escrever.
Prometeu fechou os olhos por um momento, depois os abriu, focando nos três mortais.
— Ele mentiu ao mundo dizendo que havia me aprisionado no Cáucaso — explicou Prometeu. — Enquanto isso, ele me mantinha preso aqui, exatamente acima do templo de seu filho favorito.
O Titã fez uma pausa longa. Ele parecia buscar o fôlego necessário para continuar.
— Anos após anos, séculos após séculos, eu atendi a peregrinos, sacerdotes e sacerdotisas que subiam a montanha sagrada. Eu não podia me mover, mas podia ver. Eu podia falar.
Prometeu tencionou os braços. As correntes estalaram.
— Dei a eles profecias — sua voz ganhava volume. — E eles as espalhavam em meu nome? Não. Eles desciam a montanha e davam aos mortais o conforto de saber que o deus da luz os abençoava.
Ele olhou diretamente para Plutarco que em um sobressalto pela atenção repentina, tropeçou em um passo para trás.
— Eu descobri que faziam isso em nome de outro. Que diziam receber as profecias do filho de Zeus. Que davam ao Olimpo os créditos pela minha visão, pela minha benevolência, tudo isso enquanto eu sofria preso nessas correntes.
O rosto de Prometeu se contraiu e suas rugas agora mostravam um traço de amargura real.
— Esta é a verdadeira punição que Zeus me dedicou. Ser a fonte da sabedoria deles, sem nunca ter o nome pronunciado. Tenho certeza de que ele riu muito enquanto mentia para todos sobre onde eu estava.
Licaão estalou a língua. O som foi alto e impaciente. Ele passou por Teseu, empurrando o garoto para o lado com o ombro para ficar frente a frente com o gigante.
— Chega de papo furado — disse Licaão. Sua voz era dura. — Não viemos aqui para ouvir lendas e choros sobre maldições ancestrais.
Os olhos avermelhados de Prometeu se semicerraram.

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